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O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais

Quase 50.000 jovens iniciam por estes dias o seu percurso no Ensino Superior. Tempo para perguntar se “estaremos a investir adequadamente no desenvolvimento de competências facilitadoras das relações interpessoais [neste] momento-chave da formação das e dos profissionais do presente e para o futuro? Estaremos a valorizar estas competências e a utilizar a ciência e a evidência no seu desenvolvimento?

“O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais”, 90º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) traz estas questões quando a crise climática, a par de outros desafios sociais complexos, “exigem mais relação interpessoal, capaz de estimular mais trabalho em equipa, colaboração interdisciplinar e comportamentos pró-sociais de cooperação entre cidadãos”.

O artigo discute porque a resposta às primeiras perguntas é “não, não o estamos a fazer suficientemente”. Fá-lo em 6 pontos que sustentam possíveis explicações e pistas para uma mudança no sentido do reforço deste caminho:

a) “A progressiva fragmentação e atomização da comunidade educativa” e o seu contributo “para a quebra da ligação, identidade, sentido de coesão e comunidade” e como devemos “reforçar o envolvimento e possibilidade de participação, os valores comuns e o trabalho colaborativo e em equipa nas instituições”;

b) “O desafio da transição e integração na Universidade/Politécnico” e a importância de se desenharem “estratégias que apoiem a integração de novas/os estudantes, com destaque para programas de mentoria e tutoria”;

c) “O agravamento nos últimos anos (e a situação tenderá a piorar nos próximos) dos problemas e das condições relacionadas com a saúde mental das e dos jovens estudantes” e o quão urgente é “investir estruturalmente na saúde mental, numa perspectiva, também, de prevenção e da sua promoção”;

d) “A necessidade de balancear o desenvolvimento de competências técnicas com competências facilitadoras, nomeadamente de âmbito pessoal e social como a capacidade de reconhecimento e gestão das emoções, de comunicação ou de resolução de problemas”;

e) “A não-valorização e não-intencionalização da colaboração” e o caminho a percorrer para a inclusão de acções de colaboração “enquanto indicadores principais da actividade e sustentabilidade das organizações e de avaliação de desempenho”;

f) “A necessidade de repensar o acesso e/ou escolha das lideranças” abandonando o modelo da liderança da equipa corresponder ao “topo de carreira” ou à “maior competência técnica instalada” e considerando as competências de liderança e a possibilidade do seu desenvolvimento.

Termino apelando a que na formação “das e dos profissionais e líderes do presente e do futuro invistamos, significativamente, no reforço das suas competências sócio-emocionais, considerando o quão prementes serão as relações interpessoais na resposta aos desafios. Desafios que que necessitarão de um novo e renovado impulso de colaboração e cooperação entre seres humanos.”

Que nele participemos, juntos e por todos.

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A beleza das pequenas coisas | Gabriela Moita

Cada tempo histórico tem as suas características. Tem as suas dificuldades e os seus desafios específicos. Tem as suas belezas. Este nosso tempo não foge à regra.

Pergunto-vos, quando estão num lugar mais inóspito ou quando se confrontam com uma situação de vida mais exigente, não dão por vós a pensar como pessoas há dezenas, centenas, milhares de anos lidavam com essas situações e o quanto, invariavelmente, mais duro, exigente, por vezes desumano, seria? Eu faço-o. Muito. Recuando milhares de anos, séculos, décadas ou, muitas vezes, apenas alguns anos, para situações mais específicas. Faço-o e isso situa-me. Dá-me “chão”, dá-me aqui e agora, dá-me perspectiva em dois sentidos: para o passado e para quem nos antecedeu; para o futuro e para quem nos sucederá.

Vem esta minha reflexão e partilha a propósito de ter ouvido uma maravilhosa conversa entre duas pessoas que, cada qual à sua maneira, muito admiro. O Bernardo Mendonça, um comunicador nato e dinamizador de (boas, “ricas” e impactantes) conversas. A Gabriela Moita, também uma extraordinária comunicadora, com uma experiência de vida incrível e com uma enorme capacidade de tornar perceptível, tangível e claro, dimensões científicas e fenómenos que são, invariavelmente, profundamente complexos. A Gabriela tem sempre palavras para o que parece não (poder) ter palavras.

É assim hoje. Será assim amanhã, estou certo. Mas, mais relevante, é assim há muito. Quanto era, ainda, mais difícil. A Gabriela é uma pessoa e uma profissional com uma importância fundamental na, hoje, maior literacia da população relativamente aos temas da psicologia e da sexualidade e para uma maior percepção e compreensão dos potenciais contributos da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos nos desafios fundamentais das pessoas e da sociedade.

Além de acompanhar, formar e supervisionar muitas gerações de psicólogas e psicólogos, ajuda desde há muito e ajudará a que seja mais possível a outras e outros darem este contributo, fazerem este trabalho e continuarem este seu caminho. Ajudou-me e ajuda-me, muito. Sempre. Sempre com uma bondade sem limites e com uma generosidade inexcedível.

Ouçam. Sintam. Confrontem-se. Partilhem.

Para mim, e em mim, foram minutos preciosos da minha vida. Para a minha vida. Obrigado.

Podcast: A beleza das pequenas coisas [Gabriela Moita; parte I]

Podcast: A beleza das pequenas coisas [Gabriela Moita; parte II]

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Educação Futuro da Psicologia Política Psicologia

Podermos ser o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos

“Tivesse escutado aquilo que a Islândia queria mim, teria passado os anos 80 de camisola de lã a vender peixe. E não foi isso que fiz.” Não foi isso que Björk fez. “Fez da ambição, do talento e do activismo motor para ser hoje uma referência a fazer música e uma embaixadora do país”. Fê-lo e junto com outras pessoas, em circunstâncias próximas, ajudou a transformar a Islândia num “caso de sucesso e admiração. Um país que ousou, pela cooperação e co-criação, encontrar soluções criativas para se transformar e fazer o melhor possível com os recursos que existem, cuidando, em simultâneo, desses mesmos recursos e promovendo bem-estar.”

“Podermos ser o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos“, 85º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado; link abaixo) usa este exemplo para discutir como “felizmente muitas e muitos de nós, nos quatro cantos do Mundo e em diferentes momentos históricos, resistiu à pressão para se moldar às expectativas que, a partir de diversas fontes (familiares, culturais, sociais, profissionais…) cedo nos procuram “encaixar” e encaminhar, num ou noutro sentido. Cedo acabam por constranger a nossa capacidade de expressão e afirmação individual, depois colectiva.

Continua assinalando que existem diversas histórias de não-conformidade, “pessoas que o conseguem, a partir do contexto e oportunidades certas, de figuras de referências e suporte. Pessoas com suficiente segurança psicológica (…) desafiando o que delas se esperaria pela ousadia de procurarem o que desejam. São conjuntos de histórias como estas, que, com sentido de comunidade, cooperação e a partir da inovação mudam ruas, bairros, cidades e países.”

“Mas, neste caminho, importa ter sempre presente uma condição profundamente humana e pelas pessoas partilhada, o viés do sobrevivente. Ou seja, a nossa tendência para, instintivamente, distorcermos a realidade e darmos mais atenção e considerarmos mais as excepções (…) face à generalidade das pessoas que “desaparecem” (não sobrevivem) no caminho.“

Este fenómeno tem duas consequências: a) “gera processos de auto e heteroculpabilização em situações de insucesso, mesmo quando são estas as mais comuns”; b) contribui para se “negligenciarem os factores que tornam mais equitativo o caminho e a possibilidade deste sucesso. Efectivamente não partimos todas e todos da mesma linha de partida e os obstáculos (desafios), empurrões (apoios) e oportunidades para errar e falhar (suporte e aceitação) não são idênticos para todas as pessoas”.

Importa, assim, “aproximar mais os pontos de partida, com mais educação e mais eficaz intervenção social pré-gravidez e no período de gravidez, e gerar mais equidade, apoio, suporte e aceitação é fundamental para construir um caminho de transformação e, no sentido do que atrás escrevo, não conformidade e autenticidade.

Importa pensarmos “como podemos, e o que determina que possamos, ser mais o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos. Como pessoas. Como comunidade. Como país.”

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Relaciono-me, logo existo

Ontem comemorei o aniversário de um “primeiro dia do resto da tua vida” e, conforme a letra da música do Sérgio Godinho com este título, veio-me “à memória uma frase batida”: as relações são, mesmo, o mais importante da nossa vida. Deixo, a este propósito, duas sugestões de início de semana:

a) Um artigo, curiosa e simbolicamente (para mim) ontem publicado no The New York Times, da colega Darby Saxbe em torno da forma como a paternidade transforma o cérebro e o corpo dos homens, dotando-os de ferramentas neurobiológicas para a parentalidade (ferramentas, geralmente, “atribuídas” às mães) que impactam a relação pais-filhas/os e comportam desafios, nomeadamente nas dimensões da saúde, sobretudo mental, e bem-estar: “Dad Brain Is Real, and It’s a Good Thing” | https://www.nytimes.com/2024/06/16/opinion/dad-brain-fatherhood-parenting.html

b) Uma conversa que tive com o Rui Marques, referência maior na área da relação entre pessoas e povos, para um podcast de um projecto que coordena – Relational Lab. O podcast chama-se “Relaciono-me, logo existo” e no episódio falamos, naturalmente, sobre relações em diversos contextos, sobre e relação em diversos momentos da minha actividade profissional e em processos de tomada de decisão.

Falamos sobre como as redes sociais impactam as relações, mas imaginando como o controlo do “fogo”, há muitos milhares de anos, também impactou. De velocidade da mudança, hoje, da incerteza, do paradoxo da escolha, da individualidade e da perda de alguns referenciais comunitários e valores partilhados, nas últimas décadas. Falamos de aceitação, de partilha, mas, também, de desinformação, da propagação de mensagens de ódio e de polarização e tribalização.

Falamos de tempo. De como caminhar “de uma cultura da felicidade para uma cultura de bem-estar”, título do episódio, e de como isso pode contribuir para a qualidade relacional. Falamos da pandemia por COVID-19, das manifestações incríveis de cooperação e colaboração, particularmente na sua primeira fase e “pré-fadigas diversas”, e do ajustamento, necessidade de recuperação das perdas e reparação. Falamos de educação e do quão cada vez mais central será a relação nela e do caminho que Portugal tem percorrido. Falamos de capital relacional, da resiliência individual e comunitária, da necessidade de combater a pobreza e a crise climática e promover equidade e agência, tendo em vista mais e melhor participação. Falamos de psicologia, da sua história em Portugal e do seu potencial contributo, particularmente se em conjunto com outras áreas do saber e profissionais. Do meu “optimismo” e de como o situo na história e no que nos rodeia.

No fundo pensamos “o que temos, ao mesmo tempo, de mais bonito, mas também de mais complexo nas nossas vidas: as relações”, conforme comecei.

“E é então que amigos nos oferecem leito; entra-se cansado e sai-se refeito”, diz também a letra da canção. Assim foi. Obrigado Rui. Pelo convite e confiança. Pelo projecto.

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Um Mundu Nôbu

“A tua terra é o Mundo, o teu coração bate no mesmo compasso dos outros, mas algo te diz que o caminho não é igual para todos (…) Estamos aqui para fazer esse caminho contigo. Para construir um lugar onde a diversidade é celebrada, e onde os sonhos e as conquistas não dependem da origem de cada um (…) Um Mundu Nôbu.”

Parto de parte do manifesto da Mundu Nôbu, uma nova ONG há dias apresentada, para um conjunto de reflexões, um convite e um apelo a partir mesma.

Pensar a Mundu Nôbu é para mim impossível sem o fazer a partir das duas incríveis pessoas que a idealizaram e construíram: o enorme e talentoso Dino D’Santiago e o seu forte impulso e compromisso em retribuir; a inspiradora e sagaz fazedora Liliana Valpaços e a sua capacidade de atrair e reunir pessoas em volta de uma missão.

Mas é-o também sem pensar o que foi, lá mais atrás, a minha experiência (e para a frente, o meu desejo) de participar no desenho e implementação de projectos de intervenção comunitária e transformação social. Do quão significativo foi, é e pode ser… Dos enormes desafios que normalmente se enfrentam, alguns dos quais, que me lê, sabe que tenho procurado discutir (um exemplo apenas: https://www.linkedin.com/pulse/estamos-falhar-às-pessoas-em-situação-de-maior-tiago-pereira-yab5f/).

Felizmente, parte deles, esta ONG, estas pessoas, este projecto ultrapassam… Um Mundu Nobu no social, portanto, a contribuir com oportunidades e possibilidades para um Mundu Nobu.

E, por isso, vos convido… Colegas que me lêem, outras e outros profissionais das áreas da educação, saúde e, particularmente, da área social, convido-vos a conhecerem o projecto, a envolverem-se, a promoverem-no e a serem mediadoras/es e influenciadoras/es junto da população mais jovem, com quem trabalham (14 a 18 anos), residente em bairros sociais de Lisboa, para que aqui se inscrevam (https://mundunobu.my.site.com/oteulugar/) no programa da Mundu Nôbu (uma adaptação da metodologia da The Brotherhood Sister Sol) até ao próximo dia 15 de Julho. O programa será totalmente gratuito e visará um acompanhamento próximo, entre 4 a 6 anos, de 160 jovens, promovendo “o autoconhecimento, pensamento crítico e um projeto de vida sólido e consciente, num contexto de combate à falta de representatividade.” Diferenciador, visionário, empoderador.

Finalmente, o apelo. Construir oportunidades e possibilidades. Promover a equidade, celebrar a diversidade, entender os desafios e os problemas sociais como de todas as pessoas e não apenas das e dos que mais sofrem com eles. Tudo, neste exemplo e neste tempo de enorme desafio ao ideal dos Direitos Humanos Universais, deve fazer-nos reflectir e questionar o nosso papel para co-constuirmos “…um mundo em que derrubamos barreiras e estamos juntos, no mesmo ponto de partida: um Mundu Nôbu.”

Vamos a isso?

Obrigado, Dino. Obrigado, amiga Liliana.

Mais informações: https://mundunobu.org

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A vergonha e a “expressão saudável das emoções”

“Propor ao Mundo uma forma saudável de lidar com as emoções”. É assim que Fred Rogers, criador e apresentador do “Mister Rogers Neighborhood” (programa infantil da década de 1960 que inspira a série “Daniel Tigre”), descreve o intuito do seu trabalho e contributo.

A vergonha e a “expressão saudável das emoções”, 82º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) procura sublinhar como “grupos e ideais” usam de vazios e “não raras vezes tendo como móbil o ressentimento e o ódio, tendem para a legitimação de atitudes e comportamentos, particularmente junto de grupos minoritários ou em situação de maior vulnerabilidade, não-enquadrados em dimensões de valores socialmente maioritários. Para a legitimação e para a anulação, entre outras, de uma emoção cuja complexidade e valor para a vivência em sociedade e para a coesão social nem sempre são reconhecidos – a vergonha.”

Os “inenarráveis acontecimentos numa freguesia da cidade do Porto na madrugada da passada sexta-feira, resultam de uma “passagem ao acto”, normalmente em grupo, que tende, também, a decorrer:

a) da incapacidade de uma expressão das emoções de forma saudável e da mobilização das mesmas no sentido de formas assertivas de procura de resolução, construtiva, dos conflitos e dificuldades;

b) da “perda” de vergonha ou de formas de projecção não elaboradas da vergonha em comportamentos conflituantes e/ou violentos;

c) de uma consideração quase exclusiva do presente e do curto prazo, estimulando comportamentos cujas consequências mais a médio, longo prazo e no legado face às novas gerações podem ser profundamente negativas.

“É também por isso que o sentido de comunidade e propósito (…) têm um papel importantíssimo para uma vivência plena dos Direitos Humanos. Enquanto seres sociais, vemo-nos, também, a partir do olhar de quem nos rodeia e construímo-nos em relação, connosco, com os outros e com o que nos rodeia. Em momentos de maior incerteza, de mudança mais significativa, mais rápida e mais imprevisível existem tensões para a polarização e para o tribalismo que tornam ainda mais urgente o reforço desse sentido de comunidade e propósito. Até porque, como um dos mais reconhecidos psicólogos e humanistas também de apelido Rogers (Carl) afirmava, curiosa e paradoxalmente, “é quando nos aceitamos como somos que podemos mudar.” Aceitação. Mudança.”

“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental investirmos e educarmos para a expressão saudável das emoções enquanto base da convivência, do respeito e promoção da diversidade e da coesão social. Enquanto base, também, da aceitação e da possibilidade de mudança. Como Fred Rogers defendia esta é uma responsabilidade individual e colectiva. Minha, certamente. E de cada um/a de nós.”

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O valor económico das competências sócio-emocionais na infância (Sábado, 13.03.2024)

Não é muito frequente serem disponibilizados estudos que, porque seguem um número significativo de pessoas durante diferentes décadas, permitem relacionar indicadores de comportamento (por exemplo) na infância e indicadores de “sucesso” na vida profissional (por exemplo) na idade adulta. Também por isso, quando tal acontece, à tendência natural que temos em conferir-lhes uma especial atenção devemos juntar alguma prudência na análise dos dados e resultados. Assim deve ser com o interessante estudo recentemente publicado por três investigadoras/es da Universidade de Essex | “The economic value of childhood socio-emotional skills” [O valor económico das competências sócio-emocionais na infância] https://www.iser.essex.ac.uk/wp-content/uploads/files/working-papers/iser/2024-01.pdf

O estudo parte de uma Coorte no Reino Unido com dados sobre quase 17.000 pessoas nascidas na segunda semana de Abril de 1970 e discute a relação entre capacidades sociais e emocionais dessas pessoas avaliadas aos 10 anos e dados relativos aos seus vencimentos (salários) em 2016. Permite concluir que as pessoas que aos 10 anos manifestavam mais problemas de atenção, menor capacidade de relação com os pares e cooperação e maior instabilidade e dificuldade de regulação emocional, 36 anos depois recebiam, em média, salários mais baixos face a pessoas que em criança apresentavam melhores resultados nestes três indicadores, algo que tende a suportar a importância de se investir no desenvolvimento precoce das competências sócio-emocionais, de relação e cooperação e de atenção. “Se isto era verdade há 50 anos é muito mais verdade hoje”, destaco no trabalho da Leonor Riso da Revista SÁBADO a este propósito, referindo ser fundamental “apostar no desenvolvimento do foco, da empatia, da adaptação e do trabalho em equipa numa sociedade [hoje] muito mais rápida”, mais incerta e mais complexa.

Noutro prisma, o estudo apresenta também dados que indicam que crianças que manifestavam problemas de comportamento e maior agressividade recebiam, em média, salários mais elevados face a crianças que manifestavam menos problemas de comportamento e menor agressividade. Na peço, quer eu, quer a Maria José Chambel, procuramos esclarecer sobre o conjunto de factores mediadores que podem apoiar a compreensão desta associação, distinguindo-a de efeitos de causalidade (causa-efeito). Reflectimos sobre a forma como estes comportamentos na infância podem ter tendido para comportamentos mais assertivos na idade adulta (até pelo cruzamento com os dados acima relativos à regulação emocional e relação com os pares), como podiam resultar de ambientes mais competitivo e que favorecia este tipo de comportamentos em ambiente educativo em 1980 (importa pensar como hoje, particularmente em alguns níveis de ensino, isto ainda acontece) ou como estas dinâmicas influenciam círculos de relação, interesse e as escolhas vocacionais e de carreia que necessariamente impactam as condições salariais futuras.

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Blitz…

Depois da ocupação da França pela Alemanha dirigida e governada pelo Partido Nazi, a partir 7 de Setembro de 1940 e durante cerca de 8 meses, centenas de aviões da Luftwaffe, brigada das Forças Aéreas Alemães, utilizaram cerca de 80.000 bombas para destruir centenas de milhares de edifícios na região de Londres e noutras cidades do Reino Unido.

Esta operação, apelidada de Blitz (provém de “Blitzkrieg“- Guerra Relâmpago), é, ainda hoje, alvo de particular interesse histórico, também pela forma como a sociedade britânica se procurou “adaptar” às circunstâncias e resistir ao medo, à destruição e à perda, sendo célebres a forma como, por exemplo, o comércio e os estabelecimentos de rua em Londres se mantiveram a funcionar e os famosos cartazes “More open than usual” [(Ainda) mais aberto que habitualmente], numa referência aos estabelecimentos continuarem a trabalhar e a “servir”, muitas vezes sem fachadas, telhados, vidros…

Um exemplo de resiliência colectiva, claro está, mas resultante de uma “união muito forte” e de mobilização conjunta, sem polarizações, num momento em que todas e todos, independentemente da classe social, do partido, do clube, (…) se uniram para, antes de mais, vencerem o medo, o desânimo, a incerteza e, depois, o inimigo.

Mais de 80 anos volvidos, dizia há pouco, permanece como um caso de estudo, caso de estudo que penso devermos evocar. Com as naturais e expressivas diferenças, a população mais jovem, hoje profundamente desafiada na sua saúde mental e bem-estar, olha o futuro e a sua complexidade com significativos receios… E, também aqui, duas notas:

a) A união, a relação, a construção de propósito são os principais antídotos para vencer o medo, o desânimo, a incerteza e, depois, os inimigos, aqui corporizados nas dificuldades que a população mais jovem enfrenta hoje e enfrentará no futuro mais próximo e mais de médio e longo prazo;

b) A necessidade de promovermos pensamento, reflexão e perspectiva (incluindo histórica) também como fundamentos centrais para a população mais jovem pensar e garantir alguma segurança, controlo e a previsibilidade possível (fundamental ao bem-estar) face aos desafios hoje e no futuro mais próximo e mais de médio e longo prazo.

Ainda há semanas, após um simpático convite de uma colega e amiga, estive numa Escola de Évora, com um conjunto de turmas de 9º ano, para assinalar o início simbólico do Programa de Desenvolvimento Vocacional de um Agrupamento de Escolas a pensar estes temas. Estive, portanto, com jovens a olhar o passado, o presente e a procurar pensar o futuro, em torno da forma como tomamos decisões (e o que também o influencia), como nos comportamos e como tendemos a olhar-nos, a olhar as outras e os outros e o Mundo.

No fundo, a procurar reforçar (e a contribuir nesse sentido, espero) como precisamos, hoje, de estar “more open than usual” e unidas/os.

Todas e todos.

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(Prefácio) Carreira em Psicologia num Mundo Imprevisível – Pistas para Navegar com Confiança e Adaptabilidade

Tudo a lembrar-nos que o passado conta, que o passado “não está morto”, que “nem sequer é passado”, como escreveu Faulkner. Isto escrevi no prefácio do primeiro volume desta colecção, intitulado “Ser Psicólogo – O Início da carreira em Psicologia Pistas para que está a dar os primeiros passos numa carreira em Psicologia”. Palavras que aqui recupero, convidando, também, à sua leitura e evocando-o na relação com este segundo volume desta colecção de “Artigos PsiCarreiras da Ordem dos Psicólogos Portugueses”.

Numa relação que diria estreita, pois escrevi-o, lembrando os enormes e complexos desafios que vivemos e sublinhando “a necessidade da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos, sistematicamente, se desenvolverem e adaptarem a novos desafios e realidades, para melhor lhes responderem”. Reforçando, portanto, o quão fundamental resulta a forma como, cada psicóloga e psicólogo, individual, mas também colectivamente, pensa e projecta a sua carreira e o desenvolvimento pessoal e profissional e como a confiança e a adaptabilidade são factores chave neste processo.

Numa relação estreita, também porque a confiança e a adaptabilidade são chave no início como em toda a carreira e, arrisco, sê-lo-ão ainda mais no futuro, particularmente num contexto em que a incerteza, a imprevisibilidade e a rápida mudança contemporâneas se agudizem, Mundo fora. Num contexto em que a ciência psicológica, qual hub de ciência, e a prática de psicólogas e psicólogos, cresçam em relevância e impacto na medida da complexidade dos desafios que se colocam e colocarão à saúde, ao bem-estar e à possibilidade de autodeterminação das pessoas. Que se colocarão ao respeito pela diversidade de diferentes pessoas e comunidades. Que se colocarão à equidade, à justiça e coesão social de sociedades.

Estamos perante, portanto, um volume que, valendo por si, é parte de um todo mais amplo, em construção permanente a partir de múltiplos e relevantes contributos de tantas e tantos psicólogos que dia-a-dia apoiam pessoas, comunidades e a sociedade e a quem, enquanto psicólogo, mas também enquanto cidadão, muito agradeço. O seu contributo é fundamental na construção e desenvolvimento da identidade da profissão e de cada um e uma das profissionais que a compõem.

Nas páginas seguintes encontrarão espaço de encontro, de reflexão e estímulos vários à partilha e à criação de comunidade. Comunidade que, a par da confiança e da adaptabilidade, nos pode proteger e preparar para o que enfrentamos e enfrentaremos e suporte para o contributo importante, quiçá decisivo, que lhe e nos é reservado.

 

Tiago Pereira

(Prefácio) Carreira em Psicologia num Mundo Imprevisível – Pistas para Navegar com Confiança e Adaptabilidade

https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/opp_ebook_carreiraempsicologianummundoimprevisivel.pdf

DEZ; 2023

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Urgentemente.

Como sempre: Voltamos a encontrarmo-nos no passado dia 07 de Dezembro no X Seminário de Psicologia da Educação, uma organização conjunta entre a Direcção-Geral da Educação e a Ordem dos Psicólogos Portugueses.

Como sempre: Uma sala cheia de psicólogas e psicólogos junto de directoras/es de Agrupamentos de Escolas e outras/os técnicas/os especializados, vindos um pouco de todo o país. Reunidos para pensar o contributo da psicologia e da intervenção psicológica em contexto escolar hoje, e, não menos importante, para reencontrar colegas e amigas/os, confraternizar, partilhar, discutir, desabafar, criar comunidade e construir soluções para os desafios actuais e prementes.

Como sempre: Para mim, momento especial onde me sinto parte de diferentes formas… dos grupos de colegas que reencontro e com quem partilhei contextos escolares na condição de psicólogo; dos grupos com quem partilhei as salas de aulas da Universidade na condição, primeiro, de colega estudante e, depois, de docente de psicólogas e psicólogos hoje em contextos educativos; do grupo, conjuntamente com o Francisco Miranda Rodrigues, com a Sofia Ramalho e com um conjunto de outras pessoas que, desde a assinatura de um protocolo há já quase 10 anos, tem procurado uma profícua colaboração com a Direcção-Geral da Educação no sentido de uma maior, mais capacitada, mais suportada, mais impactante e mais permanente presença da ciência e da prática psicológica em contexto educativo.

Como sempre: Um dia em que o importante prevalece e em que a condição específica em que nos encontramos previne um “mantra” do dia-a-dia das Escolas: “o urgente não deixa tempo para o importante”. Foi exactamente uma tira da Mafalda do Quino com esta expressão que utilizei como mote para a moderação da sessão “Políticas de saúde psicológica e bem-estar de crianças e jovens – Um compromisso social”.

Como sempre: o Francisco Goiana da Silva, a Isabel Loureiro, a Margarida Gaspar de Matos e o Miguel Arriaga ofereceram conhecimento, perspectiva, reflexão e, essencialmente, compromisso ao painel e à forma como se pensaram as dificuldades, é certo, mas também as oportunidades, o caminho percorrido e, essencialmente, como podemos melhorar e operacionalizar colaborações e articulações. Como podemos melhor pensar a promoção da saúde (e da saúde mental) e do bem-estar em contexto educativo e em todas as políticas públicas, potenciando e priorizando também possibilidades de prevenção, promoção e articulações entre áreas, nomeadamente da educação, saúde e área social.

Como sempre: É urgente voltarmos ao “Urgentemente” do Eugénio de Andrade com que terminei a sessão… Para relembrar que é “Urgente o amor”. Para nos relembrarmos do nosso papel num contributo social e cívico para com a promoção da saúde psicológica e do bem-estar.