Não é muito frequente serem disponibilizados estudos que, porque seguem um número significativo de pessoas durante diferentes décadas, permitem relacionar indicadores de comportamento (por exemplo) na infância e indicadores de “sucesso” na vida profissional (por exemplo) na idade adulta. Também por isso, quando tal acontece, à tendência natural que temos em conferir-lhes uma especial atenção devemos juntar alguma prudência na análise dos dados e resultados. Assim deve ser com o interessante estudo recentemente publicado por três investigadoras/es da Universidade de Essex | “The economic value of childhood socio-emotional skills” [O valor económico das competências sócio-emocionais na infância] https://www.iser.essex.ac.uk/wp-content/uploads/files/working-papers/iser/2024-01.pdf
O estudo parte de uma Coorte no Reino Unido com dados sobre quase 17.000 pessoas nascidas na segunda semana de Abril de 1970 e discute a relação entre capacidades sociais e emocionais dessas pessoas avaliadas aos 10 anos e dados relativos aos seus vencimentos (salários) em 2016. Permite concluir que as pessoas que aos 10 anos manifestavam mais problemas de atenção, menor capacidade de relação com os pares e cooperação e maior instabilidade e dificuldade de regulação emocional, 36 anos depois recebiam, em média, salários mais baixos face a pessoas que em criança apresentavam melhores resultados nestes três indicadores, algo que tende a suportar a importância de se investir no desenvolvimento precoce das competências sócio-emocionais, de relação e cooperação e de atenção. “Se isto era verdade há 50 anos é muito mais verdade hoje”, destaco no trabalho da Leonor Riso da Revista SÁBADO a este propósito, referindo ser fundamental “apostar no desenvolvimento do foco, da empatia, da adaptação e do trabalho em equipa numa sociedade [hoje] muito mais rápida”, mais incerta e mais complexa.
Noutro prisma, o estudo apresenta também dados que indicam que crianças que manifestavam problemas de comportamento e maior agressividade recebiam, em média, salários mais elevados face a crianças que manifestavam menos problemas de comportamento e menor agressividade. Na peço, quer eu, quer a Maria José Chambel, procuramos esclarecer sobre o conjunto de factores mediadores que podem apoiar a compreensão desta associação, distinguindo-a de efeitos de causalidade (causa-efeito). Reflectimos sobre a forma como estes comportamentos na infância podem ter tendido para comportamentos mais assertivos na idade adulta (até pelo cruzamento com os dados acima relativos à regulação emocional e relação com os pares), como podiam resultar de ambientes mais competitivo e que favorecia este tipo de comportamentos em ambiente educativo em 1980 (importa pensar como hoje, particularmente em alguns níveis de ensino, isto ainda acontece) ou como estas dinâmicas influenciam círculos de relação, interesse e as escolhas vocacionais e de carreia que necessariamente impactam as condições salariais futuras.