“Tudo o que fiz foi colaborativo”, disse Daniel Kahneman numa entrevista-almoço ao Finantial Times em Maio de 2021 a propósito da apresentação do seu último livro – “Ruído | Como tomamos más decisões e como podemos evitá-lo”, título da tradução portuguesa.
O trabalho de Kahnemam, a forma como o comunicou e, mais importante, o colocou colaborativamente ao serviço da sociedade foi fundamental na afirmação do contributo mais amplo e com impacto da psicologia e na compreensão do comportamento humano e dos processos de tomada de decisão.
Foi, entre outros reconhecimentos, galardoado com o Prémio Nobel da Economia em 2002. Na conferência associada a este prémio – “Maps of Bounded Rationality” – desde logo pelas palavras que dedica a Amos Tversky, companheiro de estudos e de vida falecido 6 anos antes, deixa claro um conjunto de características que quem de perto o conhecia lhe reconhecia: a junção feliz de uma inteligência e capacidade de análise ímpar com uma imensa abertura a novos saberes, conhecimento e às outras pessoas.
“Uma mente aberta”, algo sempre consigo até final da sua vida e reflectido, por exemplo, na participação que teve nos últimos anos no debate sobre os impactos nas pessoas, na tomada de decisão e na sociedade da inteligência artificial e, mais especificamente, dos novos modelos de linguagem e de aprendizagem profunda. “Uma mente aberta” e uma inquietude que antes o levou, em diferentes momentos e países, a ser decisivo para o aprofundamento dos contributos da psicologia, e de forma mais ampla das ciências comportamentais, para as políticas públicas e para a promoção do bem-estar, tendo mesmo recebido o mais elevado reconhecimento civil nos EUA em 2013 de Barack Obama. De um Obama que considera um dos seus livros – “Pensar Depressa e Devagar,” título da tradução portuguesa – um dos 10 mais importantes livros que leu.
O fim de vida que falava chegou ontem. Tinha 90 anos.
É, como podem perceber e como quem me lê habitualmente saberá, uma pessoa muito relevante no meu processo de reflexão e desenvolvimento. Desafiou-me, muito. É um dos psicólogos e psicólogas cujos livros ofereço (também) a não psicólogas e psicólogos, incluindo a pessoas que muito gosto, como fiz não há muito com o seu último livro. É uma perda tremenda, mas deixa um legado que, espero, o orgulhe e orgulhe todas e todos quantos participaram em “tudo o que [fez colaborativamente]”.
Continuemo-lo. Cumprindo-o.
Obrigado, Kahneman.
Entrevista Finantial Times (Maio, 2021): https://www.ft.com/content/7cf78f4f-d40a-44f1-9946-e78eccb3da57