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20.10.22, Dia Mundial de Combate ao Bullying

“Porque o amor pela vida, gera amor pela vida.” Assim fecha um dos mais interessantes livros que li nos últimos anos. Uma frase muito marcante no contexto do livro e que, parecendo simples, encerra uma enorme complexidade associada ao facto de podermos substituir “amor pela vida” por diferentes e diversas expressões. Dois exemplos: complacência/aceitação do bullying | não-complacência/não-aceitação do bullying.

A forma como conseguimos (ou não) construir uma cultura de Escola e de sociedade que considere, sem qualquer ambiguidade, inaceitável a violência e o bullying em crianças e jovens (tal qual consideramos chover numa sala de aula) é factor preponderante para a prevenção deste grave fenómeno social que impacta significativamente as vítimas (muitas vezes, também no seu futuro), as e os agressores (idem) e os e as observadoras.

Esta foi uma das mensagens que procurei transmitir em entrevista à TSF que partilho a propósito do Dia Mundial de Combate ao Bullying, onde procurei sublinhar a importância das respostas concertadas ao nível de toda a Escola, naturalmente com ênfase e especificidades nas vítimas, mas também nas e nos agressores e observadores, bem como as características distintivas do bullying face a outras práticas agressivas (repetição; desequilíbrio de forças e/ou de poder; e intencionalidade clara de provocar sofrimento na(s) outra(s) ou outro(s)).

Também na entrevista foco o aumento de denúncias caracterizadas pelas forças de segurança como “ameaças e injúrias” (que ocorreu mesmo em anos onde a denúncia de agressões físicas diminuiu), para reforçar que a crescente sensibilização também leva a que hoje se considerem (bem) determinadas práticas como agressão ou violência quando antes assim não se considerariam (ou quem poderia denunciar não percepcionava que pudesse vir a produzir efeitos). Foco ainda o papel que a pandemia por COVID-19 terá tido no aumento de situações reportadas, quer no que se refere a alterações de comportamento resultantes da mesma e de uma intensificação dos problemas de saúde mental na população mais jovem, quer no aumento de situações de cyberbullying pela intensificação da utilização dos meios digitais (já pré-pandemia, mas principalmente com a pandemia). Algo que, conforme referi, comporta um “acréscimo de desafio” ao problema.

Outro desafio, que no mesmo dia mas em 2021 havia procurado sublinhar trata o papel de quem observa, no que aos impactos em si tem mas, particularmente, na baixíssima percentagem de observadoras/es que decide e concretiza a denuncia das situações. Enquanto comunidade, devemos dar segurança para esta denuncia e, essencialmente, dar significado à mesma…

Porque a não-complacência/não-aceitação do bullying, gera não-complacência/não-aceitação do bullying. Porque o seu contrário gera o seu contrário.

Mais informação: https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/opp_vamosfalarsobrebullying_documento.pdf

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Congresso Educação Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

5º Congresso da OPP – Promoção da Saúde Mental no Ensino Superior

Passa amanhã uma semana do fim do 5º Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses com mote “Tempo da Psicologia” e cuja cidade de Aveiro tão bem acolheu. Passa também uma semana de um dos momentos que nele dinamizei/participei (a par dos em torno do desafio societal da pobreza – https://lnkd.in/dPbCYhtC – e de outros sobre os quais ainda escreverei): a empowertalk “Promoção da Saúde Mental no Ensino Superior”.

Cerca de 6 meses após a apresentação da  1ª edição do Programa FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento / OPP “Saúde Mental no Ensino Superior”) a 11 de Abril (https://lnkd.in/deZNXHwS), ali estava para enquadrar a conversa, num momento subsequente à discussão com seguradoras sobre o acesso a serviços de psicologia e de se terem abordado estudos que indicam a saúde mental (incluindo dimensões de prevenção e promoção), como a área que a população mais jovem mais valoriza hoje num seguro de saúde. Ali estava, também, para enquadrar o trabalho e contributo da OPP e meu neste relevante programa, creio, atendendo aos desafios que se colocam à saúde mental das e dos jovens (incluindo estudantes de Ensino Superior) e que sublinhei a partir dos pontos cardeais: (N)otas (e a pressão colocada) – (O)utras/os (e a “obrigatoriedade de estar bem”) – (E)stabilidade (precariedade, incerteza e as dificuldades associadas a questões sócio-económicas) – (S)uporte (dificuldade e iniquidade de acesso contingente a apoio na área da saúde mental).

Mais de um ano após as (primeiras) conversas e o trabalho conjunto, particularmente com a Liliana Valpaços a quem agradeço o empenho, dedicação e a visão, ali estávamos, também, para apresentar os 3 projectos vencedores (de 32 candidaturas): Universidade da Madeira (Projecto Wellbeing) – Dora Pereira; Instituto Politécnico de Viana do Castelo(RES4ALL+) – Carla Faria; e Instituto Politécnico da Guarda (Desejar-Comunicar-Agir) – Odilia D. Cavaco.

Um momento de celebração e mais um marco do importante investimento da FLAD e da OPP na área da saúde mental e do Ensino Superior que pretendemos continuar e aprofundar, conforme também discutimos. Um momento que, conforme acabei por referir no final da sessão, gostaria que se repetisse no 6º Congresso da OPP em 2024, para apresentação dos projectos vencedores da 3ª Edição do Prémio. Para tal ou para todas e todos discutirmos outro tema, isto caso essa potencial edição do prémio não venha a existir por ter perdido o seu sentido, considerando que as instituições de ensino superior portuguesas assumem a área a promoção da literacia em e da saúde mental como verdadeiramente prioritárias no quadro da sua acção.

Parabéns à FLAD. Parabéns às IESP vencedoras. Obrigado Liliana.

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(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem

Recentemente ouvi Vivek Murthy. Enquanto “Surgeon General”, coordena uma equipa de 6000 profissionais dedicada à saúde pública nos EUA. Falou das prioridades do seu mandato: COVID-19; Desinformação; Burnout nos Profissionais de Saúde e, principalmente, Saúde Mental na Juventude. Sublinhou o enorme e crescente número de jovens que sofrem com problemas de saúde mental, que têm dificuldade em aceder ao apoio que necessitam e do quão urgentes são mudanças políticas, institucionais e individuais que permitam priorizar a saúde mental nos jovens. Assim é nos EUA. Assim é em Portugal.

Lá, como cá, se estabelecidas as prioridades hoje, talvez acrescesse o desafio que a inflação e a crise sócio-económica comportam e como impactam, também, as e os mais jovens. Há dias, quando partilhei uma peça da “Notícias Magazine” para a qual contribui sobre esta temática, dizia “sobre (problemas de) saúde mental na população jovem volto a escrever em breve” – https://lnkd.in/dyhuiUdX. Assim fiz.

“(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem”, 40º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) parte de uma questão que recentemente me foi colocada: “Se hoje temos mais informação, literacia e se temos melhores condições (socioeconómicas), porque temos mais problemas?”. Penso-a, no artigo, a partir dos 4 pontos cardeais.

N(otas) – sublinhando que “a centralização nos resultados, medidos pelas classificações internas e pelas provas de ingresso, impacta significativamente o período de ensino secundário no que ao bem-estar respeita.”

(O)utras e Outros – afirmando a necessidade de “mais e melhor informação e investigação sobre redes sociais; mais e melhor literacia para crianças, jovens e seus responsáveis sobre a sua utilização consciente e sobre formas de prevenir os seus impactos, incluindo para a saúde mental e uma nova atitude em torno do sucesso e da sua obstinada associação à felicidade e mérito.”

S(uporte), referindo “o importantíssimo capital social associado à aspiração da população jovem a uma outra resposta” e a necessidade de um “verdadeiro reforço de recursos que perpasse diversas áreas e inclua um real acesso a serviços de psicologia e saúde mental no SNS, Escolas, Comunidades e no Ensino Superior.”

E(stabilidade), advogando “fulcral que o país possa ter uma estratégia concertada de apoio, procurando garantir mais estabilidade e previsibilidade à população jovem”.

Recordo, a fechar, que conforme na rosa dos ventos, “um mínimo desvio inicial torna-se cada vez maior, à medida que vai aumentando a distância”.

Aqui, desvios “com forte impacto na saúde e bem-estar da população” e em desafios do país como o “envelhecimento da população, a (in)sustentabilidade dos sistemas de saúde e segurança social ou a produtividade.”

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Violências (Ao redor…; Sábado; 21.07.2022)

Noite de Sábado, 24 de Julho de 1999. Numa base aérea desactivada nas imediações de Nova Iorque, Fred Durst sobe ao palco e, perante centenas de milhares de pessoas (e milhões a assistirem na TV), com os seus Limp Bizkit, canta a canção “Break stuff [Partam coisas]”. Diz, depois e repetidamente, “não existirem regras” e encoraja a que as pessoas “se zanguem”. Em pleno Woodstock 1999 – depois de dias de calor intenso, com péssimas condições de espaço e de higiene, após um acumular de tensão e de violências várias – Durst convida à “zanga”. Com ou sem consciência, com ou sem intenção, contribuiu para uma legitimação do que se sucedeu nas horas seguintes e que conduziu ao fim abrupto do festival, com uma forte intervenção policial, resultante do perigo provocado pelo total descontrolo de parte significativa do público e já depois da MTV e outros órgãos de comunicação social terem retirado as e os jornalistas do recinto por falta de segurança.

Pensar as violências implica pensar não apenas o que as caracteriza e determina, no presente (no tempo e momento em que decorrem), mas todo o percurso e contexto que a elas conduziu. No Woodstock 1999, nos fenómenos diversos que no Mundo e em Portugal tanto condicionam a sociedade e a saúde e bem-estar das pessoas ou até no percurso etimológico da própria palavra – violência – que a traz ao presente a partir do latim “violentia” (vis), associada a algo bravio, de vigor e de potência, bem como a uma ideia de abundância, essência e força (física) em acção. Associada, portanto, a quatro elementos que me parecem essenciais à reflexão sobre este fenómeno, à forma como impacta a sociedade e as pessoas e à forma como é por elas impactada.

Desde logo, a impossibilidade de definição de “uma violência”, antes de violências (individuais, colectivas, institucionais ou estruturais), e as transformações permanentes do que é ou não percepcionado como violência, da sua (in)visibilidade social, política e/ou jurídica e dos normativos sociais e de direitos humanos que as enquadram. Esta realidade acresce complexidade ao fenómeno, pela dificuldade da sua definição estanque, permanente e abstracta, fazendo depender a sua consideração, logo a sua prevenção e mitigação, de quadros éticos e valorativos também partilhados entre (tod)as pessoas e (tod)as instituições da sociedade, desprotegendo dessa forma grupos ou pessoas com menor visibilidade e capacidade e/ou possibilidade de participação.

Existe ainda, de certa forma, uma naturalização das violências na sociedade, como algo inevitável, quando não considerado mesmo relevante à organização da sociedade. Isto é, ainda hoje e em Portugal, evidente em determinados comportamentos individuais (por exemplo, na violência no namoro e doméstica, particularmente a exercida sobre as Mulheres), colectivos (por exemplo, no Desporto e, particularmente, nos grupos organizados de adeptas e adeptos), institucionais (por exemplo, nas instituições e equipamentos sociais, sobre população mais velha e normalmente mais dependente) ou mesmo em questões mais estruturais de organização da sociedade (por exemplo, os fenómenos de discriminação e exclusão, mais ou menos explícitos, de grupos populacionais). Desnaturalizar e invalidar as diversas formas de violência é essencial à sua não legitimação e, nesse sentido, a uma sociedade de maior equidade, coesão social e possibilidade de bem-estar para todas e todos.

Há também a utilização política das violências, quer com vista à afirmação identitária de grupos mais expostos às mesmas, quer, sobretudo, à utilização da insegurança, do medo e do sofrimento dela resultante com fins políticos. Daqui podem resultar mecanismos pseudo-securitários que, ao invés de garantirem maior segurança da e na diversidade e liberdade, contra ela atentam. Resultam, ainda, desconfianças e incompreensões diversas, muito relacionadas com os fenómenos de tribalização e polarização das sociedades e de fragilização das instituições da sociedade. Resulta, também, a emergência de autoritarismos e a legitimação de determinadas violências, algo a que crescentemente vimos assistido no discurso na proposta política em Portugal.

Finalmente, a forma como o comportamento e a linguagem, e os fenómenos de grupo, contágio e reprodução a eles associados, perpetuam e tornam estruturais as violências. Se o comportamento é a expressão visível das cognições e emoções que para ele contribuem, e por visível, socialmente aprendido, perpetuado e reproduzido, a linguagem e o vocabulário são um reflexo e uma imagem destes pensamentos, destas emoções e destes potenciais comportamentos, reflectindo as estruturas sociais e históricas que os mantêm e perpetuam. Efectivamente, não há neutralidade na comunicação, na expressão e na linguagem e estas podem ser fundamentais na manutenção ou na criação de possibilidades de mudança no sentido de um futuro com menos naturalização, legitimação e utilização das violências. De um futuro com menos violências.

Futuro que, dependendo de todas e todos, independentemente do nosso papel ou responsabilidades na sociedade, será tão mais possível quanto nos envolvermos (pessoas, comunidades e instituições) numa resposta conjunta que assente na ideia da não inevitabilidade das violências e que nos mobilize numa acção concertada visando a sua prevenção e mitigação, assente em quatro objectivos fundamentais.

À cabeça, melhor compreender o fenómeno, para melhor informar as respostas e as políticas públicas. Caracterizar, estudar e aprofundar dados e conhecimento, prevenindo a cristalização de preconceitos e vieses não factual ou cientificamente comprovados. Como disse o Ministro da Administração Interna, na apresentação da Comissão de Análise Integrada da Delinquência Juvenil e da Criminalidade Violenta, temos a responsabilidade de não associarmos automaticamente o aumento em 2021 da “delinquência juvenil e grupal” (num ano em que a criminalidade violenta no global voltou a decrescer) a questões relacionadas com as zonas ou comunidades de proveniência, algo que apenas confirma e perpetua estereótipos, preconceitos e factores de exclusão. Disse, José Luís Carneiro, que devemos analisar “em que medida os efeitos da pandemia, no domínio da saúde mental, podem contribuir para explicar este fenómeno” e “qual o grau de reemergência [também na sequência da pandemia] de fenómenos de exclusão [e isolamento com consequente maior e menos controlada exposição a conteúdos, alguns violentos, nas redes sociais e internet] e de pobreza que possam contribuir para explicar a delinquência juvenil e a criminalidade”. Mais que associar a um grupo de pessoas ou em comunidades, perceber o quão as dimensões macro ajudam a explicar o fenómeno, e logo, informam a possibilidade de intervenção no mesmo.

Um segundo objectivo está, necessariamente, relacionado com a necessidade de promover um ambiente de segurança, também psicológica, e saúde mental nas pessoas e nas comunidades. A vulnerabilidade, qualquer que seja, tem que ser validada, não penalizada. Tem que ser visível, não escondida. Tem que ser apoiada, para que possa ser superada. Outras pessoas e a comunidade no geral devem assumir-se como apoiantes e garantes de suporte da diferença, da diversidade e da ou das pessoas em situação de vulnerabilidade. Devem adoptar posturas e atitudes que criem um ambiente de segurança psicológica fundamental a uma mais adaptativa resposta da pessoa e das comunidades quando confrontada com adversidades. Para tal é fundamental promover a saúde mental, ao longo de todo o ciclo de vida e, particularmente, construir e capacitar respostas nesta área, contingentes e sensíveis às necessidades e aos momentos das pessoas e comunidades. Ambientes psicologicamente seguros e intervenções psicológicas que apoiem a mudança de comportamentos, de cognições e uma melhor gestão e regulação emocional, desempenham um papel muito importante na prevenção das violências.

A intervenção psicológica e psicossocial, constituem elementos essenciais à reparação e ao apoio às vítimas de diversos fenómenos de violência, por isso destaco-as como terceiro objectivo. Porque, não apenas este apoio é devido às pessoas, enquanto direito da mais elementar justiça social, como este apoio é fundamental à prevenção da reprodução e perpetuação de ciclos de violência, onde pessoas vítimas podem vir a ser pessoas agressoras, particularmente quando falamos de vítimas (ou observadoras/es) directas ou indirectas, ainda crianças ou jovens.

Finalmente, o quarto objectivo, a integração, articulação e inovação de respostas. Quando enfrentamos desafios sociais sistémicos e complexos, conforme os que justificam as violências, precisamos de respostas não simplitas (normalmente populares), mas sistémicas, com envolvimento de todas as instituições políticas, jurídicas e sociais. Precisamos de caminhar de uma responsabilização quase exclusivamente interpessoal para a identificação dos mecanismos sociais justificativos e de como os podemos, a par da intervenção individual, modificar, particularmente com políticas sociais que promovam mais possibilidades de inclusão, maior equidade e que verdadeiramente não “deixem ninguém para trás”. Esta modificação promoverá o empoderamento da participação das pessoas e comunidades menos visíveis e, dependerá, fortemente, do combate a discursos e narrativas (de cada um e uma de nós, das decisoras e decisores, das jornalistas e dos jornalistas, para dar apenas alguns exemplos) e a atitudes, comportamentos e decisões (de entidades e autoridades policiais, judiciais e políticas) se não promotoras, legitimadoras, das violências.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, prevenir e mitigar as violências passa por as contextualizarmos no quadro da sua complexidade, por nos mobilizarmos contra a ideia da sua inevitabilidade e contra a sua naturalização e por nos activarmos, qualquer que seja o nosso papel, para a mudança necessária à sua prevenção e mitigação. Para um contributo para uma sociedade de maior inclusão, equidade, coesão e bem-estar para todas e para todos. Para uma sociedade que possibilite a auto-determinação no presente, garantia de futuro.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 21.07.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/violencias

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Educação Psicologia

Importante Vs. Urgente – O sofrimento psicológico nas crianças e jovens em Portugal (Ao redor…; Sábado; 08.06.2022)

Uma menina de cara redonda vira a esquina, aproxima-se de dois homens que olham para um buraco que abrem no passeio e pergunta: “Andam à procura das raízes nacionais?”. “Não menina, de uma fuga de gás”, responde um dos homens. “Como sempre, o urgente não deixa tempo para o importante”, vemos na imagem seguinte a Mafalda pensar. Décadas passaram sobre a publicação desta sempre actual tira que suscita em cada um e uma de nós, ou em nós em diferentes momentos, um ímpeto para substituir “raízes nacionais” por um qualquer problema, desafio ou prática e “fuga de gás” por outro qualquer problema, desafio ou prática. Hoje, “raízes nacionais”, evoca em mim a promoção de competências socioemocionais; de uma cultura de apoio e suporte, de não-violência e não-discriminação e de um clima de Escola promotor de saúde, bem-estar e aprendizagem de todas e todos. Já “fuga de gás” situações de crise, conflitos violentos e problemas de saúde psicológica sem resposta ou intervenção no sistema de saúde. Em bom rigor, hoje a tira de há algumas décadas que questiona a Argentina da Mafalda faz-me pensar a prática da psicologia em contexto escolar em Portugal, hoje.

É verdadeiramente significativa a mudança que ocorreu desde que iniciei (ainda enquanto estagiário, em 2005) ou mesmo desde que interrompi (em 2013) funções como psicólogo com intervenção escolar. É verdadeiramente significativa, particularmente, no potencial impacto destes profissionais junto da comunidade educativa. Esta mudança decorreu, essencialmente, a partir de três grandes e relativamente rápidas transformações: o capital que a psicologia tem hoje na sociedade, o que representa e o seu (re)conhecimento e valorização; o crescimento significativo do número de psicólogas e psicólogos com intervenção em contexto escolar; a transformação conceptual dos referenciais e do seu papel, de intervenções tipicamente remediativas, apenas directas e junto de crianças e jovens com algum problema para intervenções de índole preventiva e promotora, também de consultadoria e junto de todas as crianças e jovens, professoras e professores, direcções, outros profissionais e assistentes e toda a comunidade educativa.

Impacto potencial que advém deste caminho de transição de uma intervenção quase exclusiva com as dificuldades de aprendizagem, a que se somava a orientação e desenvolvimento vocacional, para a intervenção em todo o contexto, apoiando e estimulando a criação de ambientes promotores de aprendizagem e desenvolvimento. Do caminho de intervenções quase exclusivas nos problemas de saúde mental para uma acção promotora da saúde (e da saúde mental) e do bem-estar. Impacto, apenas potencial por não totalmente cumprido. Porque, se antes não existia este referencial de actuação. Porque, se antes também, já existindo referencial, não existiam profissionais em número mínimo. Porque hoje, mesmo existindo referencial e profissionais num número mais significativo, a ausência de resposta aos problemas das crianças e jovens nos serviços de saúde explica o fosso entre o potencial instalado e a forma como, concretamente, as práticas ocorrem.

É que se já pré-pandemia – também em resultado da crise social e económica do início da década anterior e da não mobilização de respostas contingentes na área da saúde mental – existia uma prevalência de dificuldades e problemas de saúde psicológica nas Escolas portuguesas, a pandemia veio agravar este cenário e acrescentou sofrimento psicológico significativo a muitas crianças e jovens, particularmente as com maiores vulnerabilidades. Esta realidade foi recentemente reforçada com um importante estudo coordenado por Margarida Gaspar de Matos que, além do sofrimento nas crianças e dos jovens (1 em cada 3), evidencia-o também nas professoras e professores (1 em cada 2). A propósito destes indicadores, e validando as propostas de acções sugeridas no estudo, o Ministro da Educação voltou a assumir o facto das psicólogas e psicólogos serem “necessidades permanentes” das Escolas, a comprometer-se com a continuidade dos profissionais contratados nos últimos anos e a reforçar o “compromisso para com a saúde mental”, assumindo que ainda “não se investiu tanto quanto se devia”. Fê-lo tal qual António Costa havia feito, há semanas e numa conferências sobre o futuro da Europa, quando assumiu a necessidade de ser concretizado um “grande investimento” e a “capacitação dos diferentes estabelecimentos de saúde para poderem responder” aos problemas de saúde mental e disse ser necessário cumprir um programa “que está a ser desenvolvido, com muito lentidão neste caso, de introdução de psicólogos na Escola de forma a poder haver um melhor acompanhamento, uma melhor protecção e melhor resposta aos problemas de saúde mental entre os jovens”.

Ora, não poderia estar mais de acordo. Ao cumprimento do programa de reforço da psicologia em contexto escolar e transformação progressiva das suas práticas, alinhando-as com a melhor evidência científica disponível, deve corresponder a capacitação dos diferentes estabelecimentos de saúde para responder às situações hoje já problema. Isso é essencial para assegurar que existem recursos dirigidos às “fugas de gás”, podendo estas ser intervencionadas onde devem sê-lo (em contexto e com setting clínico, particularmente nos cuidados de saúde primários) pós-sinalização, entre outros, do próprio sistema educativo. Isso é essencial para se libertar recursos para que as “raízes nacionais” sejam “procuradas” e neste caso existam recursos disponíveis para intervir preventivamente onde isso mais deve e pode acontecer – nas Escolas e acompanhando todo o percurso educativo das crianças e jovens. Esta complementaridade porque permitiria também a articulação interinstitucional entre serviços, melhoraria a resposta e torná-la-ia mais eficiente. Permitiria que a “urgência” de responder na Escola a problemas não intervencionados fora dela, por escassez ou ausência de recursos, não invalidasse a oportunidade de se intervir no que é importante em contexto escolar, preparando crianças, jovens e comunidades para melhor lidarem com a adversidade futura e apoiando o desenvolvimento de competências, de ferramentas e a mobilização de recursos para não virem a engrossar o número de “urgentes” mais tarde.

Mais isto é fundamental num país ainda de forte exposição da sua população mais jovem aos principais determinantes socioeconómicos dos problemas de saúde mental (pobreza, exclusão e instabilidade nos contextos familiares). Mais isto é fundamental quando sucessivos estudos confirmam a importância do envolvimento das e dos alunos com a Escola e do seu gosto pela Escolar. Vejamos, por exemplo, resultados recentes de um novo estudo com o grupo de pais, mães e crianças que é longitudinalmente seguido desde 1991 (Avon Longitudinal Study) que demonstra que o “gosto pela Escola” de um ou uma estudante aos 6 anos é sensivelmente tão preditor do sucesso escolar aos 16 anos (10 anos depois) quanto o seu nível socioeconómico. Esta conclusão é uma importante pista para a intervenção visto ser, teoricamente, muito mais simples promover o gosto pela Escola quando comparado com a promoção de mudanças estruturais nos níveis socioeconómicos das famílias (ainda que pudessem ser desejáveis). Pista esta que se associa a outra conclusão do estudo (esta menos surpreendente), a forte relação entre o gosto pela Escola das e dos estudantes e a opinião que têm dos seus e das suas professoras, algo que sublinha a amplitude de benefícios de se avaliarem e prevenirem os riscos psicossociais dos profissionais na área de Educação e de se desenharem planos de desenvolvimento das pessoas nesta área.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, comemora-se, por estes dias e desde 1950, o Dia Mundial da Criança. Dia que pretende assinalar a importância da defesa dos direitos das crianças num Mundo onde tantos milhões de crianças e jovens são ainda deles privadas. Dia que hoje evoca a Declaração Universal dos Direitos das Crianças que no preâmbulo afirma, bem, que a “humanidade deve à criança o melhor dos seus esforços” para que “tenha uma infância feliz e possa gozar, em seu próprio benefício e no da sociedade, os direitos e liberdades aqui enunciados”. A humanidade deve-o às crianças e, devendo-o, não pode apenas responder ao urgente, mas, no seu melhor interesse, também ao importante. Devemos-lhes, hoje ainda mais que ontem, usando da melhor ciência e evidência disponível e da colaboração interinstitucional, fazer o importante urgente, com a inquietação sábia e a inspiração da Mafalda de Quino.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 08.06.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/importante-vs-urgente—-o-sofrimento-psicologico-nas-criancas-e-jovens-em-portugal

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Democracia Desafios da Psicologia Educação Pobreza e Desigualdade

Felicidade e Bem-estar…

Para que serve o relatório anual da felicidade no Mundo? Um ranking de países, promovido desde 2011 pelas United Nations a propósito da resolução – Felicidade: Rumo a uma abordagem holística para o seu desenvolvimento. Ranking que, mencionando a felicidade (emoção associada ao cumprimento de um objectivo ou a um acontecimento percepcionado como positivo, logo temporalmente definida), procura classificar o bem-estar subjectivo de cada país, enquanto medida mais estável, mas nem por isso menos complexa de mensurar.

Serve, a meu ver, 3 propósitos. Reflectir sobre que dimensões, considerando a melhor evidência científica disponível, surgem mais correlacionadas com o bem-estar subjectivo – aqui são usados o PIB, suporte social, esperança média de vida, possibilidade de escolhas livres, generosidade e a confiança nas instituições/percepção de corrupção. Para, mais do que nos (país) compararmos com outros, perceber onde estamos ou não a evoluir e como o podemos fazer. Serve o propósito de falarmos sobre o tema e… Falar é importante.

Foi o que a Judite de Sousa e eu fizemos no Jornal da CNN Portugal, conversa que partilho. Sobre o relatório de 2022. Sobre a Finlândia ser, pelo 5º ano consecutivo, o país 1º classificado apesar de estar fora do top10 no PIB e na esperança média de vida (onde está abaixo de Portugal), mas se destacar no suporte social, possibilidade de escolhas livres e confiança nas instituições/não percepção de corrupção. Sobre a 56ª posição de Portugal, penalizado pela baixa confiança nas instituições/elevada percepção de corrupção e por uma, a meu ver, frágil avaliação do indicador generosidade (valor doado a uma instituição no mês anterior), onde estamos em 124º. Isto, apesar de resultados relevantes nas restantes 4 dimensões e do país ter crescido no indicador total todos os anos desde 2011 e recuperado significativamente posições no ranking nos últimos anos.

Falamos, ainda, das expectativas das pessoas quando procuram (e conseguem, considerano os obstáculos e iniquidades persistentes no acesso) psicólogas/os e do que considero serem 5 pontos essenciais à nossa evolução: combate feroz à pobreza e exclusão, prevenindo impactos da escassez na (im)possibilidade de bem-estar; aprofundar a aposta na educação e promoção de competências sócio-emocionais; maior apoio quando uma pessoa falha, erra ou tem um acontecimento negativo imprevisto, permitindo rede e que ninguém fique para trás; promover a confiança nas pessoas e instituições; caminharmos de maior competitividade para maior cooperação e suporte social, considerando menos os rankings (Finlândia estaria nos últimos lugares num potencial ranking de rankings).

Uma conversa que tocou a importância e centralidade do bem-estar e o papel que pode desempenhar no presente e futuro do país, como aqui defendi.

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Ao redor... (Revista Sábado) Educação Psicologia

Importante Vs. Urgente – O sofrimento psicológico nas crianças e jovens em Portugal

Quase 70 anos depois, é ainda célebre o discurso onde Eisenhower, ex-presidente dos EUA, disse: “Eu tenho dois tipos de problemas: os urgentes e os importantes; os urgentes, não são importantes; os importantes nunca são urgentes.” Anos mais tarde, Quino revisitou esta dicotomia através de uma tira onde a sua Mafalda se aproxima de dois homens que abrem um buraco e pergunta: “Andam à procura das raízes nacionais? | Não menina, de uma fuga de gás | Como sempre, o urgente não deixa tempo para o importante”, acaba por dizer.

“Importante Vs. Urgente – O sofrimento psicológico nas crianças e jovens em Portugal”, 34º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre esta dicotomia transportada para prática da psicologia nas Escolas em Portugal, hoje. Sobre como a importante “promoção de competências socioemocionais; de uma cultura de apoio e suporte, de não-violência e não-discriminação e de um clima de Escola promotor de saúde, bem-estar e aprendizagem de todas e todos” é condicionada pela urgência das “situações de crise, conflitos violentos e problemas de saúde psicológica sem resposta ou intervenção no sistema de saúde”.

O artigo pensa as rápidas e profundas transformações dos últimos anos na prática da psicologia em contexto escolar, particularmente pelo maior capital social e reconhecimento da psicologia; pelo crescimento significativo do número de psicólogas e psicólogos nestes contextos; e pelas alterações conceptuais na sua intervenção, de intervenções quase exclusivamente remediativas para uma prioridade a intervenções de índole preventiva e promotora. Transformações infelizmente não totalmente cumpridas porque a “ausência de resposta aos problemas de saúde mental das crianças e jovens nos serviços de saúde” não permite, muitas vezes, o foco da intervenção no importante e nos novos referenciais dos contextos escolares. Mais quando 1 em cada 3 alunas e alunos manifestam sofrimento psicológico, segundo dados de um estudo coordenado por Margarida Gaspar de Matos (com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses).

António Costa disse recentemente ser necessário um “grande investimento” com vista à “capacitação dos diferentes estabelecimentos de saúde na resposta aos problemas de saúde mental”. No fundo, às situações hoje já problema, permitindo intervir-se no que é importante em contexto escolar, preparando crianças, jovens e comunidades para melhor lidarem com a adversidade futura e apoiando o desenvolvimento de competências, de ferramentas e a mobilização de recursos para não virem a engrossar o número de “urgentes” mais tarde”.

O Dia Mundial da Criança evoca a Declaração Universal dos Direitos das Crianças que no preâmbulo afirma, bem, que a “humanidade deve à criança o melhor dos seus esforços”. “Devemos-lhes, hoje ainda mais que ontem, usando da melhor ciência e evidência disponível e da colaboração interinstitucional, fazer o importante urgente, com a inquietação sábia e a inspiração da Mafalda de Quino.”

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Desafios da Psicologia Educação Política Psicologia

Enough is enough.

“March for our lives”. Na sequência do massacre numa Escola de Parkland (Flórida), a 24 de Março de 2018, participei numa das maiores marchas de sempre advogando por alterações legislativas no acesso a armas de fogo nos EUA. Com cerca de 1 milhão de pessoas – e integrando uma iniciativa da American Psychological Association | “Gun Violence is a Public Health Crisis” – percorri a Pennsylvania Avenue (Washington) com um propósito e uma esperança forte de que nada poderia ficar igual depois de Parkland. “Never again”, gritava-se, sentia-se, mas…

Podia. Ontem, 24 de Maio de 2022 (4 anos e 2 meses depois), morreram pelo menos 19 crianças e 2 professoras num novo massacre numa Escola do Texas, que se sucede a outros, em diferentes contextos e com diferentes motivações. Massacre que nos confronta com as palavras de Rick Santorum, outrora Senador e concorrente à nomeação a candidato presidencial Republicano, quando, no dia da “March for our lives”, disse que as/os estudantes deveriam “aprender como lidar com um atirador em vez de pedir aos legisladores para resolver os seus problemas”. Nos confronta com as/os representantes da NRA que, também nesse dia, nos apelidaram de “manipuladoras/es” e que nos e me chamaram “radical” por participar na marcha. Radical…

A violência resultante do uso de armas (de fogo) é uma crise de saúde pública. Provoca perda, dor, sofrimento, luto. Impacta o sistema de relações da comunidade, é potencialmente traumática, a curto, mas também a médio e longo prazo, tem determinantes e existem acções que, também potencialmente, a podem prevenir ou mitigar. É hoje impossível, até pela coincidência de datas (exactamente 3 meses após o início da nova e brutal invasão pela Rússia da Ucrânia), não associarmos à perda, dor, sofrimento e luto resultantes da Guerra e aos eventos potencialmente traumáticos que dela resultam para diferentes pessoas que de diferentes formas a vivenciam.

Sobre isso e sobre “quem largou tudo para ajudar refugiados” (https://onovo.pt/internacional/o-impacto-em-quem-largou-tudo-para-ajudar-os-refugiados-IB10557834), conversei com a jornalista Sílvia Abreu do NOVO Semanário discutindo os impactos sociais e emocionais, potenciais consequências destes processos e qual o contributo possível da psicologia. Como fiz em entrevista ao Porto Canal (https://youtu.be/Onwh3MPmrDY) a propósito do acolhimento de pessoas em condição de refugiadas, da importância de atendermos às nossas próprias condições e à necessidade de nos adaptarmos aos ritmos/vivências e guardarmos espaço e tempo de cuidado, atenção e validação das pessoas numa situação de especial vulnerabilidade.

“Já chega!”, disse Kamala Harris, acrescentando: “Como nação temos de ter a coragem para agirmos e percebermos o nexo daquilo que é uma política pública razoável e sensata, para garantirmos que algo assim nunca mais volta a acontecer.” Que estas perdas, que este sofrimento, resultado da Guerra ou de um Massacre, não se repita.

Ideia “radical” dizem…

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O bem-estar…

Os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022 foram marcados pela possível invasão da Ucrânia pela Rússia, concretizada com a brutalidade que hoje conhecemos apenas 4 dias após o seu final. Neles, a Noruega, país com cerca de metade da população de Portugal, repetiu a vitória de 2018, tornando-se em 2022 o país com mais medalhas de ouro nuns só JO de Inverno. Noruega, país onde o Desporto é promovido para todas e todos, ao longo de toda a vida. País cuja carta dos Direitos das Crianças no Desporto estimula que as crianças tenham experiências positivas sempre que o praticam, sugerindo a prática/experimentação de diferentes modalidades e não permitindo, até aos 13 anos, classificações, pontuações ou rankings. País que promove e investe na alegria, relação e no bem-estar, por oposição à rápida especialização, profissionalização e competitividade no Desporto.

“O bem-estar em todas as políticas”, 33º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) reflecte estes factores chave do sucesso desportivo da Noruega. Factores também chave do sucesso educativo, da produtividade laboral e do desenvolvimento das nossas sociedades e da confiança das pessoas e das comunidades nas pessoas e nas instituições.

Partindo daqui o artigo saúda o facto dos candidatos a líder do maior partido hoje na oposição afirmarem central nas políticas públicas e na avaliação do seu impacto o bem-estar, e o que daí resulta para o debate público e para a acção do governo e dos parceiros sociais. Nele afirmo-me concordante com Luís Montenegro na sua afirmação de que as políticas (públicas) devem, essencialmente, atender ao bem-comum e à possibilidade de bem-estar para todas e todos e que o PIB de um país é uma medida insuficiente para avaliar o nível e o progresso (ou não) no bem-estar das populações. Nele associo-me a Jorge Moreira da Silva quando aponta como meta (ambiciosa, é certo, mas que nos guia) que Portugal possa vir a ocupar uma das 3 primeiras posições no Índice de Bem-Estar da OCDE, medida que resulta de 11 dimensões que tornam clara a multidimensionalidade do conceito de bem-estar e que este vai além do PIB sendo, naturalmente, por ele condicionado, mas também condicionando-o.

Abordo, ainda, o capital social presente e futuro relativo à maior aspiração das populações à possibilidade de bem-estar para todas e todos; a mudança de paradigma de medidas e políticas sociais que visam e apontam limites mínimos (de quotas, rendimentos, acesso), ainda absolutamente fundamentais, para uma narrativa, medidas e políticas de promoção do bem-estar; e o evoluir para um modelo e uma abordagem às políticas públicas onde a cada nova proposta, em qualquer área, seja considerado e estudado o impacto na dimensão do bem-estar, numa perspectiva da possibilidade de bem-estar em todas as políticas.

Termino sugerindo que além do Bacalhau (da Noruega), feito produto nacional de qualidade e cartão de visita, importemos (da Noruega) a centralidade do bem-estar nas políticas, fazendo-o, também, produto nacional e cartão de visita.

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IDAHOT 2022

Ontem, dia especial para a minha família, comemorou-se o IDAHOT – Dia Internacional contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia. Data que alerta para a necessidade de combate feroz a todas as formas de exclusão e violência sobre pessoas LGBTI+.

Dia que, simbolicamente, correspondeu à aprovação em Espanha de um anteprojecto de Lei do Aborto que, além de reformar a actual Lei, procura reforçar e regular direitos e obrigações na área da saúde sexual e reprodutiva, reforçando o papel das Escolas na Educação sexual. Por cá, o Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros e a Secretária de Estado da Igualdade e Migrações assinalaram o caminho percorrido pelo país, hasteando a bandeira arco-íris lado a lado com a de Portugal na Presidência do Conselho de Ministros.

A mim fez-me recuar cerca de 30 anos, 15 anos, 8 anos e duas semanas, a quatro momentos que vivi e que, também simbolicamente, representam uma viragem muito significativa, embora ainda insuficiente, na forma como a Educação e a Escola em Portugal se relacionam com a equidade e inclusão, como integram no seu seio e na sua prática a questão dos direitos humanos e a resposta aos principais desafios societais e como a ciência psicológica e as psicólogas e psicólogos nisso contribuem.

Fez-me recuar a 1989, quando ingressei numa Escola tão distinta da de hoje, dois meses antes da Queda do Muro de Berlim. Faz-me recuar a 2005, ano dos atentados de Londres, quando, primeiro em estágio académico e depois como psicólogo e coordenador de projecto, iniciei um percurso profissional numa Escola também de 1º ciclo e acompanhei um conjunto de transformações. Fez-me recuar a 2014, ano da anexação da Crimeia pela Rússia, e recordar a assinatura do protocolo de colaboração entre a Direcção-Geral da Educação e a Ordem dos Psicólogos Portugueses, que desde esse momento tem enquadrado colaborações importantes que incluem a organização conjunta de um Seminário anual de Psicologia e Educação.

Fez-me, finalmente, recuar à sua 9ª edição (Figueira da Foz, 05.05.2022) onde, num momento em que vivemos um Guerra na Europa, resultante da recente escalada da invasão ilegítima da Ucrânia pela Rússia, participei numa conversa em torno da “Promoção de Resiliência, Prevenção da Violência e Construção da Paz” com a Anabela Caetano Santos (que apresentou o interessante projecto RESCUR, de promoção da resiliência) e a Sofia Neves, colega que, não apenas mas muito a partir da Associação Plano i, tem contribuído para a prevenção de múltiplas formas de violência, incluindo as referentes às dimensões do género e da orientação sexual.

Da conversa sobra a reflexão desta mudança profunda e importante (embora, reforço, ainda insuficiente) em curso na Educação e na Escola. Da conversa sobra o “combate” ao que, também ontem e em declarações ao Público, o colega Jorge Gato referia como “a experiência de invisibilidade”, com tudo o que isso implica para a/o própria/o, para quem a/o rodeia e para a sociedade.