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A dúvida e o regresso aos outros

“O Mundo em que vivemos é desafiador e complexo. Sabemo-lo, muitas vezes de forma desconcertante [que o digam estas últimas 48 horas em Portugal], por vezes de forma irónica, outras vezes, infelizmente, com muito sofrimento.” Sendo-o, é preocupante que nos confrontemos com um tempo onde parece não existir espaço para a dúvida.

“A dúvida e o regresso aos outros”, 69º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) detalha e reflecte sobre as causas deste tempo de ausência de dúvida, “da polarização à sobrecarga e facilidade e rapidez de acesso a informação”, das “redes sociais e seus algoritmos” ao efeito descrito como Dunning-Kruger. Das heurísticas e vieses à nossa necessidade de pertença e enquadramento num grupo social.

No fundo, como “os nossos abundantes “nunca” e “sempre” navegam os ventos deste Mundo desafiador e complexo em que vivemos onde a dúvida parece não ter lugar. Rigidificam e limitam opções, diálogos e processos de adaptação no dia-a-dia e ao longo da vida. Afastam-nos de pessoas e de opiniões, polarizando-nos. Promovem a desconfiança que, essa sim e ao contrário da dúvida, floresce com consequências severas na diminuição da coesão social e da qualidade das instituições e da democracia.”

Aborda, depois, a forma como “cultivar a dúvida, a possibilidade de não estarmos (sempre) certos, é um contributo fundamental para respondermos aos desafios contextuais que se nos colocam”, detalhando e reflectindo, mais uma vez, sobre a forma como a podemos promover. Desenvolvendo “capacidades de escuta, relação e competências socio-emocionais”, promovendo “o interesse, a curiosidade e literacia científica e capacidade de pesquisa, organização e interpretação da informação” e contextos de “segurança psicológica” e comunicação aberta.

“Fazermo-lo pode, mesmo, ser um antídoto para interpretações, decisões e comportamentos automáticos e precipitados associados a processos como os de desinformação, de oposição e destruição e do extremar de posições. Pode, ainda e nesse sentido, ser fundamental a um questionamento essencial ao progresso social e científico, ser gerador de espaço de construção e co-criação, de um espaço de entendimento entre polos e posições diversas, permitindo mais crítica construtiva, colaboração e potenciado melhores e mais participadas respostas aos problemas e desafios mais significativos.” Pode ser estímulo para um outro RTO que não o “Return to Office”, o “Return to Others” [Regresso às Outras e Outros].

“A dúvida, ao invés de uma demonstração de fraqueza ou de vulnerabilidade, é virtuosa (…) Particularmente se assente em princípios de confiança e não de desconfiança, é elemento central de construção de soluções em áreas muito diversas, incluindo o respeito e a paz, de aproximação de comunidades e de progresso da sociedade, dependendo isso de que, dia-a-dia, nos nossos diferentes papéis, pratiquemos e utilizemos pensamento crítico e a dúvida construtiva.”

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Chão pegajoso.

“Chão pegajoso.” Eventualmente poderão não estar familiarizadas/os com este conceito, quando não literal e aplicado às dimensões económicas e sociais. A Susana Peralta abordou-o num artigo ontem no @PUBLICO (“Chão pegajoso: nascer pobre é uma fatalidade”), onde, com a evidência disponível (e muito devemos ao seu trabalho e das suas equipas) sublinha o quão a mobilidade social ascendente (de geração para geração, na mesma família), curiosamente conforme a descendente em Portugal é “fraca”.

Problema que, não sendo exclusivo de Portugal é particularmente relvante, muito condicionado as possibilidades de bem-estar das pessoas e o país, considerando a sustentabilidade dos serviços (públicos) e a coesão social. A Susana Peralta, também no artigo, refere que o “chão cola” particularmente em 3 dimensões: nível de educação (veja-se o trabalho/reflexão do @Miguel Herdade que aqui trouxe há semanas); nível de rendimento; e nível de privação mais básico (ausência de possibilidade de uma refeição proteica).

Quem me costuma ler/ouvir sabe que este é um tema de permanente reflexão minha. Regresso a ele porque, sendo os ciclos intergeracionais de pobreza um fenómeno naturalmente complexo, multidimensional e “não solúvel” com uma única acção ou política, sinto que reflectimos (e actuamos) pouco numa das suas principais dimensões: a vivência da infância precoce em situação de pobreza e os impactos desproporcionais dessa adversidade em toda a vida desses bebés e crianças.

A esse propósito, no final da semana em que se comemorou o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, conversei com a @Carla Rocha (a quem agradeço) em mais um “Quarto do Fundo” (que partilho), parceria da @Rádio Renascença com a @Ordem dos Psicólogos Portugueses.

“Como travar a pobreza na primeira infância?” foi o mote de uma conversa que, passando por outros assuntos (a tal multidimensionalidade), se focou no impacto da adversidade relacionada com a pobreza e exclusão nos primeiros anos de vida. Estímulo para pesarmos como intervenções de políticas públicas que a reduzam no período da gravidez e primeira infância são fundamentais a par de investirmos na melhoria da actual geralmente má qualidade dos contextos educativos dos 0-3 anos e em fortalecer a intervenção precoce e as respostas em saúde, educação e área social.

Uma nota final, permitam-me, para reforçar que: a) a pobreza é um problema todos os minutos, horas, dias e não apenas de períodos em que, por via de datas comemorativas ou de um acontecimento tem projecção pública; b) que a pobreza é um problema de todas as pessoas, ainda que impactando mais quem vive em situação de pobreza; c) que é possível progredir na sua erradicação, se esse for um desígnio de todos nós e se todos, a partir dos nossos papéis de cidadania e profissionais, para isso contribuirmos.

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“Competências; Cooperação; Activação Social”. Tema, simultaneamente, arrojado e que nos confronta e convoca. Tema do III Congresso dos Psicólogos dos Açores que, nos dias 19 e 20 deste mês, decorreu em Ponta Delgada.

Lembro-me muito bem das 1ª e 2ª edições. Do impulso, visão e ousadia da equipa que, coordenada pela Luz Melo, então presidente da Delegação Regional dos Açores da Ordem dos Psicólogos Portugueses, as pensou, projectou e concretizou. Saúdo a equipa actual (Carla Rocha, Joana Amen, Filipe Fernandes e Paula Domingues), liderada pelo Marco Santos, por continuarem e aprofundarem estas realizações, pelo tema e pela relevância e impacto de um evento que, reunindo, juntando e aproximando colegas, demonstrou o impacto do trabalho de colaboração desenvolvido com o Governo Regional e Secretarias Regionais, conforme bem expresso pelo presidente José Manuel Bolieiro, bem como com os municípios e diferentes projectos e organizações sociais, conforme expresso, por exemplo, pela vereadora do Município de Ponta Delgada (e colega psicóloga) Cristina Canto Tavares.

Saúdo e agradeço a confiança pelo convite que me foi feito para, neste III Congresso e com moderação da Cristina Dutra, realizar uma intervenção com o mote: “Psicologia: Reforçar o envolvimento e a activação comunitária para promover resultados em saúde, bem-estar e equidade”.

Nela falei do papel da psicologia nos processos de transformação social e como foram, são e serão possíveis. Falei de determinantes macro do individual e como, em qualquer área de actividade, os temos que considerar, afirmando o nosso papel potencial neles. Falei de bem-estar, da sua relação com a saúde (e saúde mental) e de factores protectores e de risco. Falei do Mundo hoje e de como podemos melhorar e potenciar a utilização da ciência psicológica. De como a profissão se deve repensar e como pode e deve influenciar a sociedade para responder aos seus desafios e promover maior possibilidade de autodeterminação a cada pessoa. Falei, ainda, de envolvimento e participação. De propósito, pertença e activação comunitária. De agência e co-criação do futuro colectivo. De que podemos começar por fazer algo para, logo, fazer algo mais e, em seguida, melhor.

Pensei-o e partilhei-o, no final com a “Difference” (https://www.youtube.com/watch?v=eSElIhIcHAE) do Benjamim Clementine a acompanhar, qual singelo contributo para o envolvimento na mudança e activação pela saúde, bem-estar e equidade.

Reflecti-o, no final, a partir de uma pergunta da Carla Fernandes, ligando-o à forma como é fundamental reforçarmos a estrutura de projectos e organizações, procurando o por vezes exigente equilíbrio de tempo e foco nas actividades concretas junto do público-alvo e no desenvolvimento da estrutura e envolvimento das equipas no caminho para uma dinâmica que consolide, aprofunde, envolva e torne mais possível e mais fácil para quem se nos segue, continuar, fazendo mais e melhor para o bem comum.

Pois esse é, também, nosso desígnio.

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Estamos a falhar às pessoas em situação de maior vulnerabilidade quando as instituições, organizações e projectos da área social vivem, na generalidade, em situação de vulnerabilidade? (Ao redor…; 17.10.2023)

Sim, estamos. Absolutamente. E, creio, todos somos um pouco responsáveis por esta situação e temos um papel na sua potencial alteração.

Hoje é Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Chegamos a este dia com os últimos dados consolidados a demonstrarem-nos que 1 milhão e 700 mil pessoas no nosso país vivem, mensalmente, com um valor de rendimento agregado inferior a 551€, valor praticamente idêntico ao preço, hoje, da mais actual consola Playstation, apenas ligeiramente superior a um sofá simples de médias dimensões, mas claramente inferior a alguns Smartphones. Estas famílias, estas pessoas, vivem em situação de pobreza e, necessariamente, com os seus direitos humanos e a sua possibilidade de bem-estar condicionados. Como diz a placa inaugurada na Praça dos Direitos Humanos e Liberdades, em Paris, aquando da primeira comemoração deste dia, em 1987, “onde homens e mulheres são condenados a viver na pobreza, os direitos humanos são violados…” Acrescento, e a justiça e coesão social e a confiança nas instituições, na democracia e nas outras e nos outros ameaçadas.

Este é, portanto, um dia que deve ser mobilizador de decisoras e decisores e um pouco de toda a sociedade civil para este desígnio, possível e, até, provável se, enquanto sociedade, nisso investirmos. Dia que devemos usar para advogar por uma melhor compreensão do fenómeno, estímulo para a mudança progressiva de determinados preconceitos e crenças a ele associados e, particularmente, para uma melhor informação das políticas públicas neste âmbito a partir da melhor evidência científica.

É que, mais que números e abstrações, é de pessoas, famílias, das suas vidas, histórias e experiências que falamos. Pessoas que vivem em todo o país, ainda que mais em determinados “nichos urbanos”, mas, sobretudo, em meios rurais e nas regiões autónomas. Famílias, muitas vezes, monoparentais ou com mais filhas e filhos. Pessoas em situação de isolamento e mais velhas. Pessoas com baixas qualificações e baixos níveis de escolaridade. São, ainda, pessoas em situação de desemprego. Mas, são, também, pessoas que trabalham e recebem salário. Quase uma em cada três pessoas que trabalham em Portugal não consegue, com o seu salário, sair da situação de pobreza ou contribuir para a retirada do seu agregado familiar de uma situação de pobreza.

Não apenas em Portugal, ter um emprego remunerado não é pois, por si só, suficiente para se não viver em situação de pobreza. O tema, em 2023, das comemorações do Dia Internacional da Erradicação da Pobreza sublinha-o. “Trabalho digno e proteção social: Pôr a dignidade em prática para todos” vem reforçar a necessidade de políticas e de uma governação integrada para responder de forma estruturada e estrutural a um problema complexo, prevenindo tentações discursivas ou opções políticas simplistas, de medidas pontuais e/ou oportunistas, não integradas. São fundamentais políticas que incluam as dimensões do emprego, é certo, mas também as da educação, saúde, habitação, organização dos territórios e mobilidade ou acesso a desporto, cultura e outras oportunidades. Políticas integradas, participadas, sustentadas e mobilizadoras.

Esta governação integrada é fundamental para quebrar os ciclos intergeracionais de pobreza e exclusão e os factores que os determinam. Aqui são essenciais políticas nas áreas da educação e saúde, para redução de iniquidades e desigualdades, mas também na área social, quer nos apoios financeiros, quer na capacidade, qualidade e eficácia da intervenção social realizada pelas instituições, organizações e projectos sociais.

Infelizmente, em Portugal, parte significativa da intervenção social e das próprias entidades que a promovem vive em situação de “precariedade”, fazendo com que a actuação e intervenção junto das pessoas em situação de maior vulnerabilidade seja, ela própria, contraditoriamente, muitas vezes vulnerável. Senão vejamos. Num contexto de trabalho exposto a desafios particularmente significativos e de elevada complexidade e dificuldade, ao invés de termos profissionais mais reconhecidos e valorizados, com maior possibilidade de acesso a autocuidado, mais bem preparados e com formação ao longo da sua vida profissional que acompanhe a evolução da ciência temos, infelizmente e invariavelmente, uma realidade de muito baixos salários, de precariedade, de não investimento, de descontinuidade de trabalho, muitas vezes dependente de projectos, financiamentos e timings. Temos, por isso, a não continuidade das intervenções em contextos onde o conhecimento da realidade e as relações são fundamentais, além, naturalmente, de muita rotatividade pela saída de profissionais quando têm outras oportunidades, condicionando a qualidade, o sucesso e a sustentabilidade da intervenção.

Mas mais. Num contexto de trabalho exposto a desafios particularmente significativos e de elevada complexidade e dificuldade, reitero, temos instituições, organizações, quando não apenas projectos, também eles com dificuldades estruturais. Por vezes com instalações muito precárias, sem capacidade (ou vontade) de ter lideranças técnicas e profissionais empoderadas que não afectas apenas a determinada actividade ou projecto e, por isso, com menos potencial de participação e relação com outras entidades e de promoção de oportunidades de transformação efectiva das práticas e de maior integração do conhecimento e da evidência científica nas mesmas.

Instituições e equipas, depois, que navegam num contexto que estimula a reprodução e cristalização de práticas e princípios, onde a inovação, a experimentação e a transformação – que precisam de bases sólidas – têm muita dificuldade em penetrar. Contexto onde vigora o princípio da desconfiança, conduzindo equipas técnicas a usar parte significativa do seu tempo (se não a maioria) a justificar e registar o que vão fazer, para o poderem fazer, e o que fizeram, para receberem, em reembolso, por vezes, as verbas por o terem feito. Tempo fundamental, com outro ecossistema, à co-construção com as pessoas suas destinatárias das práticas, à efectivação de mudanças e sua avaliação, melhorando-as pela aproximação às necessidades e desejo das comunidades.

Hoje mesmo é apresentado o “Plano de Acção da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2022-2025” que, quando escrevo este artigo, não conheço ainda. A estratégia nacional de combate à pobreza “ganhou” coordenação neste dia em 2022 e ganha agora um plano de acção que comtemplará medidas já em curso. Uma excelente oportunidade para reforçar esta prioridade, a integração das políticas e, espero, garantir recursos e impulso para apoiar mudanças consistentes na realidade da intervenção social, das e dos profissionais e instituições, organizações e projectos. Reduzir a escassez a que estão expostas que tanto condiciona capacidades e impede a exploração das potencialidades.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, falharemos se não investirmos na erradicação da pobreza e na quebra dos seus ciclos intergeracionais. Falharemos se não dermos melhores condições às e aos profissionais e às instituições e organizações sociais para promoverem melhores práticas, mais avaliadas e mais baseadas na melhor evidência científica disponível. A tal placa, inaugurada há 36 anos em Paris, também diz “…Unirmo-nos para garantir que esses direitos sejam respeitados é nosso dever solene.” É esse o tempo. Que o plano hoje apresentado seja motor disso e nos mobilize.

 

Tiago Pereira

Estamos a falhar às pessoas em situação de maior vulnerabilidade quando as instituições, organizações e projectos da área social vivem, na generalidade, em situação de vulnerabilidade?

in Sábado (Ao redor…); 17.10.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/estamos-a-falhar-as-pessoas-em-situacao-de-maior-vulnerabilidade

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3 Semanas, 3 Dias

Ontem comemorou-se o Dia das Nações Unidas, dia que assinala o aniversário da entrada em vigor da Carta das Nações Unidas em 1945. “Nós, os povos das Nações Unidas decididos”, assim começa, para logo referir: “A promover o progresso social e melhores condições de vida dentro de um conceito mais amplo de liberdade”.

Sempre me interpelou este “conceito mais amplo de liberdade” no quadro de um Mundo profundamente diverso. De um Mundo profundamente desigual. Isso e a curiosidade deste Dia das Nações Unidas (24.10) se comemorar, exactamente, duas semanas após o Dia Mundial da Saúde Mental (10.10) e uma semana após o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza (17.10), quando os problemas de saúde mental e a pobreza (e exclusão a ela associada) condicionam de forma tão significativa a liberdade, o bem-estar e a coesão social.

Hoje, no evento “Diálogos sobre Pobreza – Saúde, pobreza e desigualdades”, organizado pela EAPN – European Anti Poverty Network (Bragança) darei um contributo sobre as interfaces entre a saúde mental e pobreza, pensando o contributo da ciência, da prática, da cidadania e das políticas públicas.

Faço-o após ter, no âmbito do I Fórum Intermunicipal para a promoção da Saúde Mental da Região do Vale do Homem (obrigado Sofia Pinto), discutido contributos potenciais da psicologia (enquanto ciência e prática) e da Ordem dos Psicólogos Portugueses, através da estratégia “.Final à Pobreza” (https://finalapobreza.pt), para a erradicação da pobreza e para melhorar a possibilidade de saúde e bem-estar de todas e todos.

Faço, também, após três outros contributos nestes temas que provêm no Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza:

a) O artigo “Estamos a falhar às pessoas em situação de maior vulnerabilidade quando as instituições, organizações e projectos da área social vivem, na generalidade, em situação de vulnerabilidade?” (https://www.linkedin.com/posts/tiagoandpereira_estamos-a-falhar-%C3%A0s-pessoas-em-situa%C3%A7%C3%A3o-de-activity-7120308409584791552-1n4h?utm_source=share&utm_medium=member_desktop)

b) A participação no fórum da TSF (https://www.youtube.com/watch?v=cdnaUyJoH84)e), onde abordei o papel do plano de acção da estratégia nacional de combate à pobreza, a medida das/os “gestoras/es de caso” e a necessidade de reforço, capacitação e empoderamento das organizações/instituições sociais;

c) E na Antena Aberta da Antena 1 (https://www.youtube.com/watch?v=ibUgO6pcISc), onde discuti o quão determinante será fazer do combate à pobreza desígnio nacional para a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde e equidade no Sistema Educativo e como a ciência deve informar mais as políticas e práticas nesta área, particularmente no que toca à pobreza infantil.

A psicologia pode, efectivamente, contribuir para a mudança, para a transformação e para promover “o progresso social e melhores condições de vida dentro de um conceito mais amplo de liberdade”, para todas e todos.

Nisso, contam sempre comigo. Contam sempre connosco.

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A Igualdade de Género nas Organizações: Onde Estamos? Para Onde Vamos?

“Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade que condiciona e dificulta a dignidade, o cumprimento integral dos Direitos Humanos e a possibilidade de bem-estar e autodeterminação das Mulheres (…) Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade com menor competitividade e desenvolvimento económico sustentável, com maiores desafios demográficos e com menor qualidade das suas instituições”.

 

Escrevi-o há 11 meses. Parte de um artigo intitulado “Menina-Rapariga-Mulher” que partilho, naturalmente, mas infelizmente, actual ontem, hoje e, certamente, num futuro próximo mas espero não, num futuro necessariamente menos próximo.

 

Para tal, e para que tal aconteça rapidamente, iniciativas como as promovidas pelo cluster “Igualdade de Género” da @Grace – Empresas Responsáveis, liderado pela @Margarida Couto e pela @Susana Almeida Lopes, são fundamentais. Agradeço-lhes, juntamente com a @Mariana Silva, o convite, o cuidado e o facto de me confiarem espaço de contributo neste assunto tão fundamental, desta vez no evento do passado dia 28 de Setembro, organizado pelo cluster com o título “A Igualdade de Género nas Organizações: Onde Estamos? Para Onde Vamos?”.

Conforme me foi solicitado, reflecti a partir do tema (“Os enviesamentos inconscientes, dados atuais e tendências”), discutindo contributos da ciência e da prática psicológica para, nesta matéria, melhor se compreender o impacto de heurísticas e vieses e as condições de mudança individual, organizacional e societal, nomeadamente os obstáculos e estímulos que se lhes colocam. Mais, discuti a importância de introduzir mais ciência nas práticas, prevenindo os efeitos do placebo e nocebo nesta área, e o papel da comunicação efectiva, da eficiência de processos, da co-construção da decisão e avaliação e no papel das tecnologias e ferramentas de apoio na promoção da igualdade de género nas organizações. Terminei sublinhando o papel fundamental da promoção do bem-estar e da segurança psicológica de todas e todos neste caminho.

Um contributo que se seguiu a um outro, exactamente focado no bem-estar. Falo do artigo “O bem-estar psicológico como promotor da igualdade de género nas organizações” que escrevi para o livro “Igualdade de Género nas Organizações em Portugal”, coordenado pela Margarida Couto e Susana Almeida Lopes, e cuja leitura recomendo, também pelas práticas que reúne e que podem estimular e inspirar pessoas e organizações face a este desígnio e justa (legitima e possível) aspiração.

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Companheirismos e Persistência (Ao redor…; 04.10.2023)

Kameradschaft. Palavra alemã que descreve um sentimento de camaradagem. De companheirismo. Sentir profundamente humano, abundantemente partilhado entre as pessoas e com forte impacto no nosso comportamento e tomada de decisão.

Se partilhamos múltiplas características e comportamentos com diferentes espécies animais (estima-se que 98,7% do nosso DNA seja idêntico ao dos macacos bonobo), partilhamos ainda mais com as diversas pessoas que experienciam connosco o Mundo. Não com algumas dessas pessoas, antes com todas essas pessoas. Do nosso grupo de amigas/os, ao nosso grupo de colegas de trabalho, hobbie ou desporto. Mas, também, com as pessoas que não votam e pensam a sociedade como nós, que vivem em lugares longínquos e que têm práticas culturais que nos parecem distantes. Com as pessoas que sentimos e percepcionamos como “boas” e incapazes de conscientemente provocarem sofrimento a outras pessoas, mas, também, com as que sentimos e percepcionamos como “más”, como pouco empáticas e pensamos poderem desejar ou, pelo menos, serem capazes de, conscientemente, provocar sofrimento a outras pessoas.

Roy Baumeister dedicou parte da sua vida e do seu trabalho a estudar o “mal” e a procurar desconstruir o “mito do mal puro”, a visão que tendemos a ter de associar o mal a outras pessoas que não nós ou nossos próximos, pessoas “intrinsecamente más”, sádicas por vezes, e que o dirigem contra pessoas “como nós”, boas, inocentes. Baumeister procura introduzir matizes a esta visão, estimulando-nos a pensar a complexidade do fenómeno e a considerar as circunstâncias e motivações que podem conduzir a determinados comportamentos. No fundo, como pessoas “como nós” a elas expostas podiam, eventualmente, adoptar outro tipo de comportamentos. Ou como em grupo podemos ter comportamentos tão distintos de outros, fora do grupo. Ou como não foi a ideologia ou objectivos militares/políticos os motivos identificados pelas tropas nazis para a não dissidência e persistência na II Guerra Mundial, mesmo quando já perto da derrota, antes a “kameradschaft” partilhada com as e os seus companheiros.

Pensá-lo é fundamental a olhar o que sucedeu no Mundo nos últimos muitos milhões de anos. As relações, a confiança, o companheirismo e o paradoxo da inexistência tão clara como gostaríamos de um “nós” e um “outras/os” foram fundamentais ao progresso, à persistência e à resposta a desafios que se colocaram à vida nele, sempre. São fundamentais, hoje, à mitigação da crescente polarização ou à prevenção da desinformação e do seu impacto na sociedade, apoiando a legitimação de diferenças e dúvidas e estimulando que, em comunidade e sociedade, se iniciem conversas construtivas, capazes de criar pontes de encontro baseadas no não julgamento, na relação, segurança e confiança. Baseadas num conjunto de valores que, enquanto seres humanos, procurarmos consensualizar e atingir e num companheirismo que partilhamos. Companheirismo que nos permite persistir.

A persistência é hoje, aliás, uma competência ao mesmo tempo fundamental e, de certa forma, desafiada. Fundamental, num Mundo em (cada vez mais) rápida mudança e de enorme complexidade e ambiguidade. Desafiada, por esse Mundo, também pautado por hiper e diversa estimulação e pela procura de gratificações e sensações imediatas. Em todo o caso, permite-nos resistir ao insucesso e continuar, permite-nos falhar para melhorar, aprender, desenvolvermo-nos, investirmos em, também com outras pessoas, contribuirmos para a resolução de problemas complexos. Sendo individual e relacionando-se com características de cada pessoa (a autoestima, o autoconceito ou a autoeficácia, por exemplo) e com as suas circunstâncias e história, depende, em muito, das relações próximas, dos grupos, do companheirismo. Debrucemo-nos sobre um exemplo concreto e actual.

Soubemos por estes dias de um feito importante do país. Voltamos a ver subir o número de estudantes no Ensino Superior, que já tinha sido o maior número de sempre no ano lectivo anterior (446 mil). Sabemos, no entanto, que existem níveis de insucesso e abandono muito altos, realidade que impacta a vida (futura) de estudantes e que não faz jus ao investimento das famílias e do país. A título de exemplo, em 2022/23, quase 11% das e dos novos estudantes de licenciaturas e 25% dos cursos técnicos superiores profissionais, abandonaram os estudos antes do final do ano lectivo. Isto, além de uma percentagem não despiciente ter mudado de curso e da percentagem historicamente significativa que tenderá a abandonar os estudos sem concluir os respectivos graus.

Existem múltiplas razões para tal, desde logo, naturalmente, as socioeconómicas. Mas a entrada no Ensino Superior traz um conjunto de exigências e dificuldades, incluindo cognitivas, que implicam adaptação, estudo, treino e método, que também justificam parte do insucesso e sucessivo abandono. Quando se aprofunda o estudo do fenómeno percebe-se que nem sempre a capacidade ou competência são o que melhor explicam a persistência e continuidade. Estudos realizados nos EUA demonstram que, em áreas tendencialmente muito complexas como as matemáticas aplicadas, apesar do tercil mais baixo em capacidades dos estudantes das “melhores” Universidades ser muito próximo do primeiro tercil dos estudantes dos mesmos cursos de outras Universidades, a taxa de abandono é praticamente idêntica no mais baixo tercil entre as “melhores” Universidades e as outras. Parecem ser o sentimento de pertença e a posição relativa face ao grupo próximo que estimulam ou obstaculizam a persistência, mais do que as competências ou capacidades. Reflictamos, portanto, sobre o impacto da competição no insucesso e abandono e o papel que a pertença e companheirismo devem assumir.

Um exemplo que, sublinho, é muito influenciado pelas condições socioeconómicas decisivas até à entrada e na continuidade/término do Ensino Superior. Mas extensível aos estilos de vida e comportamentos que adoptamos, pensando na prática de exercício físico ou no consumo de álcool ou tabaco. Ou aos comportamentos associados à crise climática e à necessidade de alteração de determinados comportamentos e padrões de consumo, onde a pertença e o companheirismo são determinantes na tal persistência.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, são pessoas como nós que tomam decisões e agem. Pessoas expostas às mesmas heurísticas, suscetíveis aos mesmos vieses. Pessoas que precisamos de, empaticamente, compreender e aceitar na sua diversidade, criando relação. Pessoas que necessitam do companheirismo para persistir e para, persistindo, aprender, mudar, não abandonar, resolver, florescer. Pessoas que fizeram, fazem e farão a nossa relação com o Mundo. Persistamos, com elas, pelo Mundo.

 

Tiago Pereira

Companheirismo e Persistência

in Sábado (Ao redor…); 04.10.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/companheirismo-e-persistencia

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Estamos a falhar às pessoas em situação de maior vulnerabilidade quando as instituições, organizações e projectos da área social vivem, na generalidade, em situação de vulnerabilidade?

“Estamos a falhar às pessoas em situação de maior vulnerabilidade quando as instituições, organizações e projectos da área social vivem, na generalidade, em situação de vulnerabilidade? Sim, estamos. Absolutamente.”

Assim começa o 68º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) publicado ontem, Dia Internacional da Erradicação da Pobreza. Nele reflicto sobre a necessidade de “políticas integradas, participadas, sustentadas e mobilizadoras” de combate à pobreza e de uma governação integrada capaz de “quebrar ciclos intergeracionais de pobreza e exclusão e os factores que os determinam”. Políticas, portanto, “nas áreas da educação e saúde, para redução de iniquidades e desigualdades, mas também na área social, quer nos apoios financeiros, quer na capacidade, qualidade e eficácia da intervenção social realizada pelas instituições, organizações e projectos sociais.”

Porém, em Portugal, “parte significativa da intervenção social e das próprias entidades que a promovem vive em situação de “precariedade”, fazendo com que a actuação e intervenção junto das pessoas em situação de maior vulnerabilidade seja, ela própria, contraditoriamente, muitas vezes vulnerável.”

“Num contexto de trabalho exposto a desafios particularmente significativos e de elevada complexidade e dificuldade, ao invés de termos profissionais mais reconhecidos e valorizados, com maior possibilidade de acesso a autocuidado, mais bem preparados e com formação ao longo da sua vida profissional que acompanhe a evolução da ciência temos, infelizmente e invariavelmente, uma realidade de muito baixos salários, de precariedade, de não investimento, de descontinuidade de trabalho, muitas vezes dependente de projectos, financiamentos e timings (…) Temos instituições e organizações, por vezes com instalações muito precárias, sem capacidade (ou vontade) de ter lideranças técnicas e profissionais empoderadas que não afectas apenas a determinada actividade/projecto e, por isso, com menos potencial de participação e relação com outras entidades e de promoção de oportunidades de transformação efectiva das práticas e maior integração do conhecimento e da evidência científica.”

“Instituições e equipas, depois, que navegam num contexto que estimula a reprodução e cristalização de práticas e princípios, onde a inovação, a experimentação e a transformação têm muita dificuldade em penetrar. Contexto onde vigora o princípio da desconfiança, conduzindo equipas técnicas a usar parte significativa do seu tempo (se não a maioria) a justificar e registar o que vão fazer, para o poderem fazer, e o que fizeram, para receberem, em reembolso, por vezes, as verbas por o terem feito.”

“Falharemos se não investirmos na erradicação da pobreza e na quebra dos seus ciclos intergeracionais. Falharemos se não dermos melhores condições às e aos profissionais e às instituições e organizações sociais para promoverem melhores práticas, mais avaliadas e mais baseadas na melhor evidência científica disponível.”

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Companheirismo e Persistência

Hoje passam 56 anos do desaparecimento do psicólogo Gordon Allport. Em 70 anos de vida deixou uma importante obra que iniciou debates em áreas dispares como a personalidade, a maturidade, a motivação, a religião, os rumores ou a formação de preconceitos. Obra que incluiu um trabalho de campo na África do Sul, na década de 50 e em pleno apartheid, relativo à teoria/hipótese do contacto. Allport defendia que o contacto entre diferentes pessoas/grupos diminuiria preconceitos, ódio e o racismo entre pessoas e grupos. Faleceu em 1967 afirmando que essas suas ideias não tinham sido confirmadas, mas, além de pioneiras, a história da África do Sul e estudos mais actuais (de dados longitudinais) demonstram que, efectivamente, o contacto com pessoas diversas pode impactar neste sentido

“Companheirismo e Persistência”, 67º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado; link abaixo) parte da “palavra alemã kameradschaft que descreve um sentimento de camaradagem. De companheirismo. Sentir profundamente humano, abundantemente partilhado entre as pessoas e com forte impacto no nosso comportamento e tomada de decisão” (…) que explica, melhor que a ideologia ou objectivos militares/políticos, a não dissidência e persistência na II Guerra Mundial das tropas Nazis, mesmo quando já perto da derrota.

Discute o conceito e a sua importância histórica (“as relações, a confiança, o companheirismo e o paradoxo da inexistência tão clara como gostaríamos de um “nós” e um “outras/os” foram fundamentais ao progresso”) e contemporânea, na mitigação da crescente polarização ou na prevenção da desinformação e do seu impacto na sociedade. Pensa-o, ainda, na relação com a persistência, “competência ao mesmo tempo fundamental (num Mundo em rápida mudança e de enorme complexidade e ambiguidade) e desafiada (por este Mundo, também pautado por hiper e diversa estimulação e pela procura de gratificações e sensações imediatas).”

Discuste como mais que a capacidade ou competência parece ser “o sentimento de pertença e a posição relativa face ao grupo próximo que estimulam ou obstaculizam a persistência”, por exemplo no que se refere ao insucesso e abandono no Ensino Superior, significativos em Portugal.

Propõe que “reflictamos sobre o impacto da competição no insucesso e abandono e o papel que a pertença e companheirismo devem assumir”, bem como serem “pessoas como nós que tomam decisões e agem (…) pessoas que necessitam do companheirismo para persistir e para, persistindo, aprender, mudar, não abandonar, resolver, florescer. Pessoas que fizeram, fazem e farão a nossa relação com o Mundo. Persistamos, com elas, pelo Mundo.”

 

Ps. Amanhã comemoremos o Dia Mundial da Saúde Mental. Dia também para ponderarmos, espero, como a diferença e a diversidade desenvolvem a sociedade e devem ser respeitadas e como a equidade e a redução das desigualdades estimulam o bem-estar e a coesão social. Como, no fundo, são essenciais à saúde e saúde mental de pessoas e comunidades.

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As vozes ausentes: abstenção eleitoral, remédios e efeitos secundários (Ao redor…; 20.09.2023)

Domingo, 24 de Setembro de 2023, decorrem as Eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira. Abrem um ciclo que, mantendo-se o calendário previsto, nos levará à eleição da nova Assembleia da República daqui a 3 anos, com eleições ao Parlamento Europeu e Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (2024), Autárquicas (2025) e Presidenciais (2026) até lá. Num contexto de crise(s) permanente(s), de imprevisibilidade, incerteza e transições diversas, do clima ao digital; num Mundo pautado pela “quebra” de mediadores e da confiança, pela crescente polarização, tensão geopolítica e enfraquecimento das democracias, julgo fundamental, neste início de ciclo de eleições, pensarmos a representatividade e a abstenção eleitoral.

Partamos da evolução da participação eleitoral nas Eleições Legislativas em Portugal. Nas 17 eleições após 1975, apenas em três (1979, 2005 e 2022) a participação eleitoral subiu mais de um 1 ponto percentual face à eleição imediatamente anterior, tendo a abstenção subido de 8,5% em 1975 até 48,6% em 2022. Apesar de tudo, valor inferior ao máximo em Eleições Legislativas (51,4% em 2019) e no conjunto das Eleições, atingido nas Eleições Europeias também de 2019 (68,6%). Esta mudança, não exclusiva de Portugal, confronta-nos com um fenómeno com impacto profundo na sociedade, mas, também, com a necessidade de compreendermos o que o justifica se, com eficácia, quisermos co-construir e co-dinamizar acções necessárias à inversão deste caminho.

Compreendermos que abstermo-nos ou não resulta, não apenas da favorabilidade da data das eleições ou da facilidade de acesso às mesas de voto, embora estas a influenciem, mas também da conjugação de um conjunto de crenças, sentimentos e de atitudes com factores socioeconómicos. Ou seja, à descrença, ao não reconhecimento ou identificação com os processos, instituições e/ou candidatas/os, devemos somar dimensões como a pertença comunitária, o nível socioeconómico ou educativo (nos Estados Unidos) ou a idade (em Portugal). São, no seu conjunto, factores que influenciam os níveis de participação eleitoral e que, por um lado, reforçam o status quo e os grupos e características maioritárias das eleitas e eleitos, bem como a parte da população que, tendencialmente, mais beneficia das opções e políticas resultantes das eleições. Por outro, perpetuam a carência de representatividade que resulta desta desproporção, do desincentivo que dela decorre e do facto das pessoas que se sentem menos empoderadas, tenderem a sentir-se, simultaneamente, menos confiantes, menosprezarem as suas capacidades e, também por isso, participarem e envolverem-se menos.

Tendo presente estes dados, parece-me essencial concluir pela necessidade de três acções: investigar, em permanência, as causas e consequências da abstenção, considerando a sua importância e a necessidade da sua compreensão; usar do conhecimento científico para promover acções e incitativas de prevenção da abstenção e de promoção da participação eleitoral; promover o envolvimento e participação nos processos eleitorais de pessoas/comunidades sub-representadas.

Gostava de me centrar nos dois últimos pontos. Apensar dos desafios crescentes que atrás mencionei, há hoje um conjunto de evidência científica que pode ser mobilizada para, particularmente nas democracias e sociedades que promovem direitos, incluindo de participação, desenvolvermos acções concretas e avaliáveis conducentes a estes objectivos. Da utilização de nudges, “lembretes” personalizados ou a norma/”pressão” social. Do envolvimento de “influenciadoras” e “influenciadores” sociais e prevenção e combate à desinformação/fake news. Do aumento da acessibilidade e da facilidade e modalidades do processo de voto, incluindo soluções que usam ferramentas electrónicas, diferentes locais/datas ou diferentes línguas. Da procura de envolvimento em acções de cidadania e políticas de crianças e jovens, procurando interromper ciclos geracionais de afastamento da participação pública, à qualidade percebida das políticas públicas e, particularmente, das medidas e apoios sociais. Tudo caminhos importantes, com exemplos concretos, avaliados e facilmente evocáveis. Tudo caminhos, também porque possíveis, urgentes. Tudo caminhos, porém, que comportam o risco de se aumentar as iniquidades de participação eleitoral, reforçando-a em grupos populacionais que já hoje mais votam e não noutros, acentuando fossos de participação e representação entre grupos e cidadãos.

Importa, portanto, mobilizar o conhecimento científico e as experiências do nosso país, escalando-as, e de outros países, adaptando-as, para promover aumentos de participação mas, simultaneamente, diminuir gaps de envolvimento de diferentes grupos populacionais. Se formos capazes de o fazer, enquanto sociedade, promoveremos a confiança, reduziremos iniquidades e contribuiremos para, com e pela democracia, um país e Mundo mais justo para todas e todos, mote do dia da Democracia comemorado a 15 de Setembro último. Dia este ano dedicado ao “empoderamento da próxima geração” e comemorado num momento próximo da apresentação de um grande estudo internacional da “Open Society Foundations” que indica que 42% da população jovem inquirida entende uma “liderança militar” como “algo positivo” e 35% apoia uma liderança que ignore os parlamentos nacionais. Empoderamento, pois, também dependente da sua participação cívica e da representação de todas as franjas populacionais desta “próxima geração” no processo e na construção da “obra sempre inacabada” que é a Democracia e desta apresentar resultados que previnam a procura de soluções aparentemente mais simples mas que podem condicionar direitos sociais e humanos, conforme a história nos tem demonstrado.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o sentimento de pertença continua a ter um papel relevante na saúde e bem-estar das pessoas. Uma menor percepção de pertença tende a resultar numa menor confiança nas outras pessoas e nas instituições e, consequentemente, em processos de descrença e desesperança na Democracia. Protegê-la e reforçá-la depende de, mobilizando o conhecimento e investindo com esse objectivo, invertermos o crescimento da abstenção e aumentarmos a representação e os sentimentos de pertença de todos os cidadãos, independentemente das suas condições. Depende de promovermos o empoderamento das pessoas, o seu envolvimento cívico e a sua literacia política. Depende de melhorarmos as instituições e as suas respostas para todas e todos. Depende de tudo isto, todos os dias, todos os anos.

 

Tiago Pereira

As vozes ausentes: abstenção eleitoral, remédios e efeitos secundários

in Sábado (Ao redor…); 20.09.2023

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