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Um desejo para 2024? Um país mobilizado contra a violência doméstica

Depois de aqui ter desejado “Construirmos mais Paz” em 2022 (https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2022-construirmos-mais-paz) e “Promovermos mais bem-estar para todas e todos” em 2023 (https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2023-promovermos-mais-bem-estar-para-todas-e-todos)…

“Um desejo para 2024? Um país mobilizado contra a violência doméstica”, 73º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) parte da memória de um concerto que assisti no dia do meu aniversário de 2023 onde a cantora leu cada nome de cada Mulher assassinada em Portugal em 2022. Por cada nome, centenas de outras ocorrências comunicadas e outras tantas não comunicadas. “A violência doméstica, em particular no contexto das relações de intimidade, é um sério problema de saúde pública e condiciona decisivamente a vida e o bem-estar das pessoas que a vivem, directa e indirectamente, afectando a sua possibilidade de desenvolvimento e o desenvolvimento social e económico do país.”

“Por isso necessitamos de um país mobilizado contra a violência doméstica. Capaz de produzir mudanças definitivas nas normas culturais, sociais e religiosas que, por vezes, ainda concorrem para uma cultura de tolerância ou de não aplicação de Leis na violência, particularmente na violência doméstica. Um país mobilizado para mudar a cultura de medo e estigma ainda persistente e dar passos firmes no sentido da verdadeira igualdade de género. Mobilizado para mudar também na e pela Educação, prevenindo precocemente ciclos de reprodução geracional destes comportamentos.”

“Tudo isto é fundamental num país em que, apesar de tudo, parte das forças políticas parece desperta para esta realidade e tem procurado actuar, quer via legislação, quer via mecanismos de apoio social, casas de abrigo ou de respostas de apoio psicológica para crianças e jovens vítimas de violência doméstica (…) Onde associações profissionais e profissionais têm dado um contributo na consciencialização, literacia, prevenção e na intervenção junto deste problema (veja-se o “Memorial Mapa” do António Castanho).”

“Mas muito mais há a fazer, incluindo não retroceder em progressos nesta área (…) Tal implica o combate a ideias e forças políticas (como o “Partido Chega”) que, cinicamente, criam condições para a perpetuação de desigualdades que estruturalmente determinam estes problemas. Além de votarem declaradamente contra medidas de apoio a pessoas vítimas de violência (…) “utilizam” a percepção de perda de poder de determinados grupos na sociedade com fins políticos, visando ganhos eleitorais momentâneos e desconsiderando as implicações sociais e políticas do uso do medo, ódio e do nós vs. outras/os.”

“Mobilizarmo-nos contra a violência doméstica é uma forma de promovermos a liberdade, aumentando as condições para cada ser humano se procurar cumprir, também nas suas relações (…) Que 2024 veja essa acção. Que 2024 seja o ano que precisamos.”

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2023 – Odisseia na Pseudociência (Ao redor…; 19.12.2023)

Não posso dizer que cresci rodeado de livros. Mas posso dizer que cresci curioso, com vontade de aprender, de saber, e com acesso a uma enciclopédia “velhinha”, antes, e mais tarde a uma edição, essa já minha, da Nova Enciclopédia Larousse de 22 volumes vermelhos do Círculo de Leitores. Foi, primeiro, muito através dessas enciclopédias, depois também nos diferentes motores de busca e hoje até junto dos novos modelos de linguagem que mais procurei e procuro, quando só, saber o que não sabia ou sei, sabendo que não o sabia ou sei. Pode parecer evidente, assim escrito. Mas é importante sublinhar: temos de saber que não sabemos para procurarmos uma informação ou uma resposta para uma dúvida ou pergunta.

E… Nem sempre o sabemos. Por exemplo, muitas e muitos de nós sabem que não sabem de conceitos ou matérias que não lhes despertam interesse, eventualmente da matemática à química, passando pela física ou engenharia. Porém, a grande maioria de nós não sabe que não sabe de conceitos e matérias que lhes despertam interesse, do futebol à saúde, passando pelo comportamento e pela tomada de decisão das pessoas.

Acresce que a esta característica humana soma-se a ilusão da profundidade explicativa, ou seja, o fenómeno psicológico que explica porque tendemos a crer que entendemos com profundidade conceitos e fenómenos complexos quando, na realidade, não os entendemos ou apenas os entendemos superficialmente. Assim é, do mecanismo de funcionamento do autoclismo aos processos de construção e aprovação de legislação.

A conjugação destes fenómenos ajuda a explicar, em parte, porque é que, muitas vezes, em matérias que remetem para o comportamento humano, tomada de decisão, saúde e bem-estar, não apenas não reconhecemos que não sabemos o que não sabemos como somos suscetíveis à procura de respostas simplistas, imediatas e absolutas para desafios e problemas complexos e por vezes interconectados. Porque somos suscetíveis, mesmo num período de forte desenvolvimento da ciência, a fazer atribuições “místicas”, particularmente face a fenómenos naturais como catástrofes, e à pseudociência.

A pseudociência, presente em diversos contextos, é, por isto, especialmente significativa e impactante no contexto das relações, da saúde, da saúde psicológica e do bem-estar em geral. Corresponde a todo o conjunto de intervenções que se procuram confundir com ciência, procurando apresentar-se como tendo uma base científica e produzindo resultados credíveis e reproduzíveis, quando tal não corresponde à realidade. Enquadram-se, neste conceito, as terapias alternativas e complementares como a homeopatia e pseudo-terapias, incluindo algumas apresentadas como “holísticas” ou mesmo psicológicas, como a aromaterapia. A pseudociência é, na Europa, uma actividade económica com valor já significativo e em expansão, procurada anualmente, segundo estudos recentes, por até 1 em cada 4 cidadãs e cidadãos Europeus (15% no caso da população portuguesa). É um desafio, em algumas situações, para a saúde e segurança das populações, quer pelos seus potenciais impactos directos (desde logo via más práticas e práticas não seguras/regulamentadas), quer pelos impactos indirectos relativos à não procura e à não adesão a respostas com suporte científico, à descredibilização das disciplinas científicas pela confusão que, por vezes intencionalmente, promovem, bem como, e não menos importante, pelo risco que significam para a confiança e para a sustentabilidade dos sistemas de saúde.

O Mundo pós-pandemia por COVID-19; de enorme polarização, complexidade e incerteza; e de informação, desinformação e marketing torrenciais; mas também de maior reconhecimento por parte das pessoas das suas necessidades de saúde, incluindo psicológica, e bem-estar resulta em mais espaço e oportunidade para a pseudociência. Para quem, navegando estes contextos e as inseguranças e vulnerabilidades das pessoas, vende (caro) soluções simplistas, não baseadas na ciência, mas invariavelmente assentes na crença de que “se acreditarmos e quisermos tudo conseguimos”, crença perfeita para a desresponsabilização quando as práticas “não resultam” e, mais grave, para a dupla penalização de quem utiliza estes serviços que, se não resultam, é por “culpa”, inacção ou imperfeição das próprias pessoas.

Quem o faz fá-lo normalmente apelando a falácias associadas à natureza e aos produtos naturais, à ancestralidade e à autoridade, logo não dispensando títulos, incluindo também “pseudoacadémicos”, cores, objectos, histórias e outros simbolismos significativos no contexto da ciência, da história e da natureza. Normalmente usando, também, da heurística da disponibilidade da informação (quem nunca se deparou com uma fantástica história de sucesso de uma terapia alternativa?), de uma confusão comum entre correlação (fiz algo e melhorei) e causalidade (melhorei porque fiz algo) que esconde o “efeito placebo”. Esconde, portanto, o papel que tem a nossa crença em que determinado procedimento/tratamento funcionará connosco, independentemente da sua eficácia comprovada ou, no limite, até de existir. Esconde como esta crença, influenciando a relação entre o nosso corpo e o nosso cérebro, impacta a forma como pensamos e comunicamos o “problema”, como nos sentimos e como pode directamente influenciar sintomas vários como a percepção de dor, a fadiga ou o stresse. O que, claro está, é importantíssimo e cada vez mais usado também nos desenvolvimentos da ciência e ao serviço da saúde e bem-estar das pessoas.

Porém, a “odisseia” da pseudociência que deste efeito usa e abusa comporta riscos significativos que só reconhecidos e só consequentemente considerados se podem prevenir. Isso implica um papel activo e até activista das disciplinas científicas, esclarecendo e prevenindo associações e confusões entre práticas científicas e pseudocientíficas pelos seus profissionais. Também o reforço de investimento na literacia da população. Literacia de informação (onde, o quê e como pesquisar informação fidedigna), científica (como identificar o que é ciência e científico) e em saúde, incluindo saúde psicológica. Ainda, reforçar a protecção de clientes, incluindo a relativa à comunicação e marketing “abusivo” e à necessidade de utilização de consentimentos informados, bem como reforçar a informação à população via sistemas de “what works” (o que – realmente – funciona) junto dos sistemas públicos e a dimensão ética e de cidadania de pessoas e, também, deontológica de profissionais.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a “evolução é o processo de tentativa e erro, e o erro é tão importante quanto o sucesso pois é através dele que aprendemos como evoluir”. Conforme Arthur C. Clarke expôs em 1948 no “A Sentinela”, conto base do argumento do “2001 – Odisseia no Espaço” que Stanley Kubrick dirigiria 20 anos depois, a evolução depende deste processo de tentativa e erro, característico da ciência e apenas possível se confiado, co-construído e partilhado entre seres humanos. Típico do que nos pode trazer maior possibilidade de bem-estar e coesão num Mundo que talvez até a fantástica mente de Kubrick teria dificuldade de imaginar e perspectivar.

 

Tiago Pereira

2023 – Odisseia na Pseudociência

in Sábado (Ao redor…); 19.12.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/odisseia-na-pseudociencia

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2023 – Odisseia na Pseudociência

Recentemente recebi um convite para realizar uma “Masterclass” no âmbito dos Mestrados em Psicologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (agradeço a confiança do Ricardo Barroso que primeiro me contactou). Pediram-me que tratasse o tema da “Pseudociência e Psicologia”, algo que fiz na 4ªF passada. Aí comprometi-me com quem participou que, ao invés de deixar uma lista de artigos, livros ou um power point, me comprometia a procurar traduzir o conteúdo partilhado num artigo de opinião e, logo, num contributo para o tema reflectido, para que pudessem “confrontar” a apresentação e discussão com esse modelo de conteúdo.

“2023 – Odisseia na Pseudociência”, 72º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) é o resultado desse exercício. Nele começo por tratar como duas características profundamente humanas (a dificuldade de reconhecermos que não sabemos de algo de que não sabemos em temas que nos despertem interesse e a ilusão da profundidade explicativa) “ajudam a explicar, em parte, porque é que, muitas vezes, em matérias que remetem para o comportamento humano, tomada de decisão, saúde e bem-estar (…) somos suscetíveis à procura de respostas simplistas, imediatas e absolutas para desafios e problemas complexos e por vezes interconectados. Porque somos suscetíveis, mesmo num período de forte desenvolvimento da ciência, a fazer atribuições “místicas”, particularmente face a fenómenos naturais como catástrofes, e à pseudociência.”

Procuro, depois, enquadrar o conceito e nele “as terapias alternativas e complementares como a homeopatia e pseudo-terapias, incluindo algumas apresentadas como “holísticas” ou mesmo psicológicas, como a aromaterapia”, destacando que a pseudociência é uma “actividade económica com valor já significativo e em expansão” e um desafio, em algumas situações, para a saúde e segurança das populações.

Abordo o contexto que determina “mais espaço e oportunidade para a pseudociência” e para quem o navegando, usa das inseguranças e vulnerabilidades das pessoas, vendendo (caro) soluções simplistas, não baseadas na ciência, mas invariavelmente assentes na crença de que “se acreditarmos e quisermos tudo conseguimos”, apelando a um conjunto de falácias (associadas à natureza, à ancestralidade ou à autoridade), heurísticas, confusões entre correlação e causalidade e escondendo o “efeito placebo”.

Antes de terminar com Kubrick e a sua eventual “dificuldade de imaginar e perspectivar” o Mundo hoje, penso a forma de prevenir os impactos negativos destas práticas. A necessidade de um “papel activo e até activista das disciplinas científicas”, da promoção da literacia da população e do reforço da “protecção de clientes, incluindo relativamente à comunicação/marketing “abusivo” e à necessidade de utilização de consentimentos informados”. Penso, finalmente, a importância do reforço da “informação à população via sistemas “what works” e da dimensão ética e de cidadania de pessoas e, também, deontológica de profissionais”.

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All in the Mind

meiro apenas na rádio @BBC 4, hoje ainda nesta rádio e em podcast, o “All in the Mind” será um dos programas que semanalmente tratam temas da psicologia com maior longevidade no Mundo, indo a caminho dos 20 anos de edições.

Aprendi e pensei muito, portanto, a partir de vários dos seus episódios, particularmente desde que, via podcast, é mais simples seguir e acompanhar o programa. Foi por isso com uma certa emoção que conheci a sua actual apresentadora (@Claudia Hammond) em Julho, quando apresentou o meu keynote no European Congress of Psychology 2023 (Brighton, UK), conforme aqui havia referido: https://www.linkedin.com/posts/tiagoandpereira_quando-estou-fora-de-portugal-num-pa%C3%ADs-onde-activity-7084070839926628353-UPqL?utm_source=share&utm_medium=member_desktop

Foi também com emoção que, fará amanhã 15 dias, ouvi um dos seus episódios, apresentado pela @Claudia Hammond e produzido pela @Lorna Stewart. Episódio cujo link partilho e que conta com um contributo meu a propósito do papel da psicologia enquanto ciência e prática para um “ponto final à pobreza”, a partir da estratégia da @Ordem dos Psicólogos Portugueses que venho coordenando, conjuntamente com um grupo de colegas. Episódio cuja sua descrição refere a forma como procuro sublinhar como “as psicólogas e psicólogos estão numa posição fulcral para comunicar acerca das causas e consequências da vivência em situação de pobreza e para usar essa informação para exigir mudanças e contribuir para melhores políticas públicas”.

Na conversa com a @Claudia Hammond procuro também reflectir o porquê deste contributo ser diferenciador e como podem as psicólogas e psicólogos, dia-a-dia, nos seus diversos contextos de intervenção, também contribuir para este gigante mas tão importante desafio societal, salientando o seu papel na promoção da transformação social e a forma como, nas suas intervenções, nos seus últiplos contextos, devem considerar a especificidade das dimensões sócio-económicas e adaptar as intervenções, procurando ser mais sensíveis a estas dimensões e, logo, potencialmente mais eficazes e efectivas/os nos seus objectivos. Procurei, ainda, tratar as questões dos impactos da pobreza na infância e dos ciclos intergeracionais de pobreza, bem como explicitar o período específico (e a janela de oportunidade) que constitui os (primeiros) “1000 dias”, conceito e abordagem que neste artigo há meses desenvolvi: https://www.linkedin.com/pulse/1000-dias-tiago-pereira/

Termino, como terminei. Perguntou-me se estava optimista que as psicólogas e psicólogos poderiam “erradicar a pobreza”. Respondi que não, certamente que não, mas… Que estou optimista que, se isso for nossa prioridade, enquanto sociedade podemos efectivamente caminhar para a erradicação da pobreza e que será sempre mais simples fazê-lo se usarmos mais o conhecimento da ciência psicológica e o contributo da prática das psicólogas e psicólogos.

Assim o disse. Assim o sinto. Assim o espero que o sintam.

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Urgentemente.

Como sempre: Voltamos a encontrarmo-nos no passado dia 07 de Dezembro no X Seminário de Psicologia da Educação, uma organização conjunta entre a Direcção-Geral da Educação e a Ordem dos Psicólogos Portugueses.

Como sempre: Uma sala cheia de psicólogas e psicólogos junto de directoras/es de Agrupamentos de Escolas e outras/os técnicas/os especializados, vindos um pouco de todo o país. Reunidos para pensar o contributo da psicologia e da intervenção psicológica em contexto escolar hoje, e, não menos importante, para reencontrar colegas e amigas/os, confraternizar, partilhar, discutir, desabafar, criar comunidade e construir soluções para os desafios actuais e prementes.

Como sempre: Para mim, momento especial onde me sinto parte de diferentes formas… dos grupos de colegas que reencontro e com quem partilhei contextos escolares na condição de psicólogo; dos grupos com quem partilhei as salas de aulas da Universidade na condição, primeiro, de colega estudante e, depois, de docente de psicólogas e psicólogos hoje em contextos educativos; do grupo, conjuntamente com o Francisco Miranda Rodrigues, com a Sofia Ramalho e com um conjunto de outras pessoas que, desde a assinatura de um protocolo há já quase 10 anos, tem procurado uma profícua colaboração com a Direcção-Geral da Educação no sentido de uma maior, mais capacitada, mais suportada, mais impactante e mais permanente presença da ciência e da prática psicológica em contexto educativo.

Como sempre: Um dia em que o importante prevalece e em que a condição específica em que nos encontramos previne um “mantra” do dia-a-dia das Escolas: “o urgente não deixa tempo para o importante”. Foi exactamente uma tira da Mafalda do Quino com esta expressão que utilizei como mote para a moderação da sessão “Políticas de saúde psicológica e bem-estar de crianças e jovens – Um compromisso social”.

Como sempre: o Francisco Goiana da Silva, a Isabel Loureiro, a Margarida Gaspar de Matos e o Miguel Arriaga ofereceram conhecimento, perspectiva, reflexão e, essencialmente, compromisso ao painel e à forma como se pensaram as dificuldades, é certo, mas também as oportunidades, o caminho percorrido e, essencialmente, como podemos melhorar e operacionalizar colaborações e articulações. Como podemos melhor pensar a promoção da saúde (e da saúde mental) e do bem-estar em contexto educativo e em todas as políticas públicas, potenciando e priorizando também possibilidades de prevenção, promoção e articulações entre áreas, nomeadamente da educação, saúde e área social.

Como sempre: É urgente voltarmos ao “Urgentemente” do Eugénio de Andrade com que terminei a sessão… Para relembrar que é “Urgente o amor”. Para nos relembrarmos do nosso papel num contributo social e cívico para com a promoção da saúde psicológica e do bem-estar.

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Cumprir a Convenção sobre os Direitos da Criança – Um desígnio e Quatro propostas (Ao redor…; 21.11.2023)

Ontem levei o meu filho mais novo à Creche de pijama. Comemorou, com as amigas e os amigos, mais um Dia Nacional do Pijama e, em simultâneo, mais um aniversário da adopção pela Assembleia Geral das Nações Unidas da Declaração dos Direitos da Criança (1959) e da Convenção sobre os Direitos da Criança (1989).

A convenção, quase universalmente ratificada, assenta em quatro pilares fundamentais que incluem: a não discriminação e a aplicação dos direitos a todas as crianças; o princípio do seu superior interesse nas decisões que lhes digam respeito; a sua participação e consideração das suas posições e opiniões; e a garantia de sobrevivência, desenvolvimento integral e da promoção da sua qualidade de vida e bem-estar.

Mesmo considerando as enormes melhorias, Mundo fora, nestes quatro pilares desde 1959 ou de 1989, pensemos por um momento nos últimos anos. Este meu filho nasceu em Junho de 2021 e, em menos de 30 meses de vida, viveu parte da pandemia por COVID-19 e um conjunto de outras crises e catástrofes em lugares diversos do Mundo, a continuação de um conjunto de Guerras, incluindo civis, e o início da Guerra desencadeada pela Federação Russa na Ucrânia. Viveu o hype da inteligência artificial (generativa), as primeiras mortes em contexto de guerra por armas autónomas, o início das viagens turísticas espaciais e, mais recentemente, a (a cada dia mais) trágica situação na Faixa de Gaza, os tenebrosos ataques de 7 de Outubro e a escalada assombrosa da Guerra Israel-Hamas, com bombardeamento e invasão pelo exército Israelita da Faixa de Gaza e incursões na Cisjordânia. Pergunto, portanto, estarão, Mundo fora, melhor as crianças nestes quatro pilares desde 2021?

Mesmo com esta vertigem, com esta ambiguidade, com esta incerteza, penso em pessoas que responderiam, taxativamente, sim e noutras que responderiam não. Penso, também, em pessoas que responderiam sim e não, mas não taxativamente. Mais, penso em pessoas que teriam dificuldade em responder, reconhecendo as profundas diferenças entre diferentes lugares no Mundo e Portugal, fugindo a uma generalização estatística que pode suportar a resposta à pergunta, mas desafiar a universalidade dos direitos e ser profundamente injusta para muitas crianças, Mundo fora. Que pode ser muito injusta para muitas crianças, até, em qualquer país, independentemente do seu nível de desenvolvimento. Que pode ser muito injusta para muitas, em Portugal.

Em Portugal, apesar de alguns indicadores terem melhorado nos últimos anos e de termos hoje compromissos políticos significativos, persistem níveis de pobreza e exclusão, na primeira infância e juventude, que condicionam decisivamente o cumprimento da Convenção, os direitos e a possibilidade de desenvolvimento integral, qualidade de vida e bem-estar de muitas crianças e jovens. Que o impossibilitam no presente e que o obstaculizam para o futuro, gerando injustas e continuadas iniquidades e perigando o desenvolvimento futuro do país. Também por isso, cumprir a Convenção deve ser nosso desígnio. Também por isso, humilde mas comprometidamente, deixo quatro propostas para aprofundarmos e sermos mais efectivos nesse caminho:

  1. Uma estratégia, ancorada em políticas de promoção da natalidade e sociais, que aponte aos primeiros 1000 dias de vida de um bebé, considerando os 9 meses de gestação e os dois primeiros anos de vida extrauterina. Considerando os impactos negativos no seu desenvolvimento integral[1], incluindo mesmo nas suas estruturas cerebrais e neuronais, da exposição a situações de stresse significativo (particularmente presente em famílias expostas a situação de pobreza, exclusão ou marginalização), devemos desenvolver medidas que permitam eficazmente a redução da exposição a estas condições no período da gravidez e primeiros dois anos de vida do bebé, acompanhadas de suporte emocional e de desenvolvimento de competências parentais, disponíveis para todas as famílias;
  1. A revitalização do modelo de intervenção precoce na infância e do conjunto de intervenções educativas, sociais e de saúde que permitam responder, precocemente e de forma contingente, a primeiras necessidades de bebés, crianças e famílias, activando e promovendo competências das e dos cuidadores e comunidade para a identificação e resposta a crianças, nos seus direitos. Revitalização de um modelo, referência internacional na área, fortemente dependente de um compromisso para maior afectação de recursos e para a garantia de condições de continuidade, enquadramento e desenvolvimento sócio-profissional das equipas técnicas e respectivas coordenações;
  1. Ao objectivo de generalizarmos a possibilidade de acesso a contextos educativos de bebés e crianças dos 0 aos 3 anos, juntarmos o importante objectivo de garantirmos a qualidade dos ambientes educativos, ainda pouco considerada, contribuindo para o desenvolvimento integral de bebés e crianças. Neste âmbito, creio relevante acompanharmos o importantíssimo trabalho que o laboratório colaborativo ProChild, presidido pela Isabel Soares, recentemente agraciado pela Assembleia da República com o Prémio Direitos Humanos de 2023 (em conjunto com a P.A.J.E.) e promotor do “Pacto para a Infância”[2], tem desenvolvido e apoiarmos a sua disseminação e generalização;
  1. Sabendo-se hoje o papel que as educadoras e educadores e as professoras e professores, particularmente nos primeiros ciclos de estudo, têm na possibilidade de prevenir o aprofundamento dos desfasamentos educativos de bebés, crianças e jovens provenientes de contextos mais vulneráveis, investir em programas de formação e desenvolvimento profissional da classe docente, fortemente comprometidos com a redução das desigualdades, com a capacidade de responder às situações de maior vulnerabilidade e com a avaliação de impacto. Neste âmbito, creio também relevante conhecermos o trabalho que o Ambition Institute (UK), que tem como Director Associado o Miguel Herdade, tem realizado e a forma como os seus programas contribuem para a diminuição dos desfasamentos nos resultados educativos e no desenvolvimento da crianças e jovens provenientes de contextos mais vulneráveis.

Quatro propostas assentes na ciência e evidência, que melhorariam e tornariam mais efectivas as políticas públicas. Quatro propostas que sedimentariam o desígnio de cumprirmos a Convenção sobre os Direitos das Crianças e minimizar obstáculos e barreiras que se colocam à equidade e ao desenvolvimento futuro de crianças e jovens expostos a contextos de pobreza, exclusão ou marginalização, com foco intergeracional e de investimento para o desenvolvimento económico e coesão social futura do país.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, considerar “que a criança deve estar plenamente preparada para uma vida independente na sociedade e deve ser educada de acordo com os ideais proclamados na Carta das Nações Unidas, especialmente com espírito de paz, dignidade, tolerância, liberdade, igualdade e solidariedade”, conforme a Convenção define, depende de contribuirmos para a universalização destes direitos, tornando-os mais equitativos no país e entre países. No presente e para o futuro.

 

Tiago Pereira

Cumprir a Convenção sobre os Direitos da Criança – Um desígnio e Quatro propostas

in Sábado (Ao redor…); 21.11.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/cumprir-a-convencao-sobre-os-direitos-da-crianca—um-designio-e-quatro-propostas

 

[1] https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/1000-dias

[2] https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=pacto-para-infancia

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Cumprir a Convenção sobre os Direitos da Criança – Um desígnio e Quatro propostas

“Ontem levei o meu filho mais novo à Creche de pijama”. Assim começo referindo-me a anteontem, explicando, depois, que para comemorar “com as amigas e amigos mais um Dia Nacional do Pijama e, em simultâneo, mais um aniversário da (quase universalmente ratificada) Convenção sobre os Direitos da Criança.”

“Cumprir a Convenção sobre os Direitos da Criança – Um desígnio e Quatro propostas”, 70º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre o facto de, apesar de alguns indicadores terem melhorado nos últimos anos e de termos hoje compromissos políticos significativos, persistirem em Portugal “níveis de pobreza e exclusão, na primeira infância e juventude, que condicionam decisivamente o cumprimento da Convenção, os direitos e a possibilidade de desenvolvimento integral, qualidade de vida e bem-estar de muitas crianças e jovens.”

Defende, também, que “cumprir a Convenção deve ser nosso desígnio” e apresenta “humilde mas comprometidamente quatro propostas para aprofundarmos e sermos mais efectivos nesse caminho”. A saber:

 

  1. Uma estratégia, ancorada em políticas de promoção da natalidade e sociais, que aponte aos primeiros 1000 dias de vida de um bebé (…) que permita eficazmente a redução da exposição a condições de pobreza e exclusão no período da gravidez e primeiros dois anos de vida do bebé, acompanhadas de suporte emocional e de desenvolvimento de competências parentais, disponíveis para todas as famílias;

2. A revitalização do modelo de intervenção precoce na infância e do conjunto de intervenções educativas, sociais e de saúde que permitam responder, precocemente e de forma contingente, a primeiras necessidades de bebés, crianças e famílias;

 

3. Ao objectivo de generalizarmos a possibilidade de acesso a contextos educativos de bebés e crianças dos 0 aos 3 anos, juntarmos o importante objectivo de garantirmos a qualidade dos ambientes educativos (ver o trabalho do @ProChild, presidido pela @Isabel Soares, recentemente agraciado pela Assembleia da República com o Prémio Direitos Humanos de 2023 (em conjunto com a P.A.J.E.) e promotor do “Pacto para a Infância”);

4. Investir em programas de formação e desenvolvimento profissional da classe docente, fortemente comprometidos com a redução das desigualdades (ver o trabalho do Ambition Institute (UK), que tem como Director Associado o @Miguel Herdade).

 

Quatro propostas assentes na ciência e evidência, que melhorariam e tornariam mais efectivas as políticas públicas. Quatro propostas que sedimentariam o desígnio de cumprirmos a Convenção sobre os Direitos das Crianças e minimizar obstáculos e barreiras que se colocam à equidade e ao desenvolvimento futuro de crianças e jovens expostos a contextos de pobreza, exclusão ou marginalização, com foco intergeracional e de investimento para o desenvolvimento económico e coesão social futura do país.

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ADSE

Se fora viva, Nadine Gordimer completaria hoje 100 anos. Não os completa porque perdemo-la em 2014 com 90 anos, depois de uma vida intensa, também centrada nos direitos humanos e na luta contra o apartheid. Depois de uma obra intensa, também, que lhe valeu, entre outros prémios, o Nobel da Literatura em 1991. Jamais esquecerei o “Um Mundo de Estranhos”, livro que escreveu ainda cedo na sua vida e que trata com um misto de mestria, simplicidade e genuinidade a diversidade e, particularmente, uma amizade improvável, inaceitável mesmo, para tantas pessoas.

Já Charles Lindblom faleceu, exactamente, com 100 anos. Menos mediático que Nadine Gordimer, também escreveu bastante, embora textos e livros técnicos, sendo essencialmente conhecido pela descrição que fez do “incrementalismo”. Método que remete para a realização de mudanças e para a incorporação de inovação (por ex. na sociedade e nas políticas e administração pública) através de pequenas alterações / incrementos evolutivos, prescindindo da necessidade de permanentes revoluções. Lindblom, apesar de bastante criticado pelo conservadorismo intuído destas posições, defendia-o, particularmente, em contextos de forte divisão política, face a problemas complexos e em períodos de incerteza. Se mais exemplos precisássemos de que o vivemos, Milei acaba de se tornar presidente eleito da Argentina.

Penso no trabalho da Nadine e do Lindblom a propósito de, finalmente, se ter concluído um processo/trabalho de anos com potencial transformador. Falo dos desenvolvimentos e investimento tecnológico realizado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) que, num projecto conjunto com a ADSE, IP, permitem, hoje, a validação automática e “on time” da inscrição na OPP da/o profissional que prestou o serviço, possibilitando, sem “esforço” a verificação automática da sua condição para a realização do acto, validação do reembolso e, ainda e para futuro (que espero curto), com a informação de ser (ou não) especialista com possibilidade de aceder a um reembolso diferenciado porque valorizado, conforme já acontece, hoje, com uma das maiores seguradoras de saúde e algo que  a OPP tem sempre advogado. 

Uma pequena grande mudança, única no contexto da ADSE, que impacta, melhorando, a administração pública. Que facilita e acelera processos de reembolso, simplificando, digitalizando, desburocratizando. Que obstaculiza más práticas, previne potenciais erros e fraudes e, essencialmente, garante segurança e saúde pública.

Compete-nos tornar menos “estranho” o Mundo (para algumas pessoas ainda estranho) dos profissionais de saúde e da intervenção psicológica, também pela garantia de acesso, contingente e o mais equitativo possível, a cuidados de saúde nesta área, praticados por profissionais qualificados, capazes de prestar serviços e garantir respostas competentes e eficazes. Incremental ou não, este é também um contributo para isso e para a afirmação do acto das psicólogas e psicólogos, do seu valor e da sua relevância.

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A dúvida e o regresso aos outros (Ao redor…; 08.11.2023)

O Mundo em que vivemos é desafiador e complexo. Sabemo-lo, muitas vezes de forma desconcertante, por vezes de forma irónica, outras vezes, infelizmente, com muito sofrimento. Cada um de nós tem exemplos disso e não faltam histórias que o tratam, na nossa memória colectiva, umas reais, outras ficcionadas. Pensemos, por exemplo, no Titanic e na forma como a “White Star Line”, sua promotora, o promovia com uma narrativa assente numa suposta “inafundabilidade”, questionada pelas consequências sobejamente conhecidas do embate num iceberg meros quatro dias após o início da sua primeira viagem. Pensemos, por exemplo, no conto do “Patinho Feio” de Hans Christian Andersen e de como a narrativa evolui da ostracização e rejeição de um suposto “patinho” para o mais deslumbrante cisne do lago.

Sendo o Mundo em que vivemos desafiador e complexo, a dúvida é hoje, para muitas pessoas e usando das metáforas anteriores, um “patinho feio” e a ausência de dúvida, responsável por embates que as e nos afundam. Há diversas razões que o justificam. Da polarização, causa e consequência, também, da maior ausência de dúvida, à sobrecarga de informação e facilidade e rapidez de acesso à mesma, que estimula uma maior passividade na aceitação da informação. Passando pela forma como as redes sociais e os seus algoritmos tendem para a amplificação das crenças e opiniões próximas de quem procura informação ou pelo efeito descrito como Dunnig-Kruger, relacionado com a forma como os conhecimentos limitados das pessoas sobre determinados fenómenos podem conduzir, paradoxalmente, a crenças fortes e a uma confiança injustificada da pessoa nas suas próprias capacidades de compreensão desse fenómeno. Como um menor conhecimento sobre algo pode, ao invés de suscitar dúvida e estimular a curiosidade e procura de mais informação, gerar certezas e encerramento nas mesmas.

Estes factores contextuais potenciam-se e potenciam estas características profundamente humanas, às quais acrescem, ainda, a nossa necessidade de pertença e enquadramento num grupo social e um conjunto de heurísticas (por exemplo de disponibilidade, que nos conduz a considerar como mais provável um evento que facilmente podemos evocar face a outros não tão automáticos) e de vieses (por exemplo de confirmação e ancoragem, respectivamente a forma como procuramos ou damos mais atenção a informação que confirme as nossas crenças e opiniões e como confiamos na primeira informação, informação âncora, que recebemos sobre um determinado fenómeno) que, ao simplificarem e automatizarem processos cognitivos e mentais geram, muitas vezes, erros sistemáticos no pensamento e na tomada de decisão.

Os nossos abundantes “nunca” e “sempre” navegam os ventos deste Mundo desafiador e complexo em que vivemos onde a dúvida parece não ter lugar. Rigidificam e limitam opções, diálogos e processos de adaptação no dia-a-dia e ao longo da vida. Afastam-nos de pessoas e de opiniões, polarizando-nos. Promovem a desconfiança que, essa sim e ao contrário da dúvida, floresce com consequências severas na diminuição da coesão social e da qualidade das instituições e da democracia.

É neste quadro que cultivar a dúvida, a possibilidade de não estarmos (sempre) certos, é um contributo fundamental para respondermos aos desafios contextuais que se nos colocam. Devemos fazê-lo ao longo da vida e conjugá-lo com o desenvolvimento da capacidade de escuta, de relação e de competências socio-emocionais, que garantam níveis de auto-estima e auto-confiança. Devemos fazê-lo com a promoção do interesse, da curiosidade e de literacia científica e capacidade de pesquisa, organização e interpretação da informação e, ainda, com a promoção de contextos que promovam a segurança psicológica e uma comunicação aberta. Fazermo-lo pode, mesmo, ser um antídoto para interpretações, decisões e comportamentos automáticos e precipitados associados a processos como os de desinformação, de oposição e destruição e do extremar de posições. Pode, ainda e nesse sentido, ser fundamental a um questionamento essencial ao progresso social e científico, ser gerador de espaço de construção e co-criação, de um espaço de entendimento entre polos e posições diversas, permitindo mais crítica construtiva, colaboração e potenciado melhores e mais participadas respostas aos problemas e desafios mais significativos.

Deixo um exemplo, também porque curioso, o “RTO – Return to Office” [Regresso ao Escritório]. Com o irromper do teletrabalho, necessariamente exponenciado pela pandemia que recentemente enfrentamos, muitas pessoas, incluindo “especialistas”, afirmaram que as transformações no mercado de trabalho e no modo de trabalhar seriam, sem dúvida, permanentes. Sabemos que, no geral, os seres humanos não são bons a prever o futuro mas, ainda que o saibamos, não deixa de ser assinalável que em 2023 as maiores empresas, incluindo consultoras ou tecnológicas como a “Zoom” (cujo negócio principal é exactamente a disponibilização de ferramentas que permitem e facilitam o trabalho à distância), estejam a solicitar aos e às trabalhadoras que, com algumas condições, regressem ao trabalho presencial, ao menos em parte do tempo de trabalho, considerando, entre outros, os impactos que o teletrabalho em exclusivo demonstra ter na vinculação, qualidade de trabalho e produtividade de equipas. Que este “RTO”, possibilitado pela dúvida, informado pela ciência e respeitando a diversidade de trabalhadoras e trabalhadores, seja estímulo para um outro “RTO”, o “Return to Others” [Regresso às Outras e Outros].

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a dúvida, ao invés de uma demonstração de fraqueza ou de vulnerabilidade, é virtuosa. Assume um papel muito relevante, protegendo-nos de heurísticas, vieses e de um contexto que nos rodeia que periga a sua utilização e utilidade, cristalizando-nos e polarizando-nos. A dúvida, particularmente se assente em princípios de confiança e não de desconfiança, é elemento central de construção de soluções em áreas muito diversas, incluindo o respeito e a paz, de aproximação de comunidades e de progresso da sociedade, dependendo isso de que, dia-a-dia, nos nossos diferentes papéis, pratiquemos e utilizemos pensamento crítico e a dúvida construtiva… Dúvida que nos permite melhores tomadas de decisão, sobre as quais versará o próximo texto deste “Ao redor”.

 

Tiago Pereira

A dúvida e o regresso aos outros

in Sábado (Ao redor…); 08.11.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-duvida-e-o-regresso-aos-outros

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Comportamento Democracia Futuro da Psicologia Política Psicologia

“A psicoterapia nasce e realiza-se tipicamente num espaço individual. Mas esse encontro é estritamente ligado a uma história e a um contexto social, cultural e até político. A psicoterapia é um produto da nossa sociedade, mas também a molda. Certas ideias, que nascem ou são fortemente influenciadas pelas concepções da psicoterapia, invadem positivamente o espaço social. Os quatro exemplos discutidos são o papel da infância e da parentalidade, o enquadramento da sexualidade, a dimensão representacional dos comportamentos e afectos, e o princípio da equidade no acesso ao cuidado.

O capítulo aborda ainda a dimensão de poder que permeia as relações sociais e que, dessa forma, também está presente na psicoterapia. São refletidos os cuidados éticos que tal implica no sentido da vivência do poder nas relações de uma forma saudável. Tal como no tema anterior, procura discutir-se a relação circular entre a psicoterapia e sociedade e em que medida tal pode inspirar novas e mais positivas formas de encarar o poder socialmente.

A interacção conceptual entre a psicoterapia e a sociedade é benéfica para ambas. Por um lado, sociedade molda os clientes e a intervenção. Os pedidos e objetivos presentes não são idênticos aos motivos que traziam as pessoas à psicoterapia no passado ou noutros contextos. Por outro lado, a psicoterapia promove autonomia, autodeterminação, assertividade e respeito pelos outros – qualidades de um cidadão activo. A psicoterapia (e intervenção psicológica no geral), é por isso central na construção de uma polis de pessoas envolvidas e enquanto comunidade que procura deliberadamente o bem-estar geral.

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Resumo do Capítulo: Psicoterapia, sociedade, poder e política: Entre o privado do encontro e o público da possível polis [@David Dias Neto e @Tiago Pereira]

Livro: A psicoterapia na Torre de Babel [Constança Biscaia e @David Dias Neto]

Colecção: Psicologia e Psicoterapia [@Telmo Mourinho Batista]

Editora: @Edições Silabo

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A partir do Episódio | Psicoterapia, sociedade, poder e política: https://lnkd.in/d99qQA3d [@David Dias Neto, @Telmo Mourinho Baptista e @Tiago Pereira]

Podcast | A psicoterapia na Torre de Babel: https://lnkd.in/dimudiRw [@APTCCI]

 

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Psicoterapia e Sociedade, Poder e Política:

Entre o privado do encontro e o público da possível polis

(Excerto)

Psicoterapia e Sociedade, Poder e Política

A ideia de existir uma relação entre a psicoterapia e a sociedade é uma ideia simultaneamente evidente e estranha. Evidente no sentido em que é claro que a psicoterapia é uma prática criada, desenvolvida e implementada no seio de uma sociedade e como resposta às circunstâncias, necessidades e expectativas das pessoas que a fazem. Estranha, por ser um processo, embora relacional, eminentemente individual, em espaço reservado por oposição a processos sociais públicos que ajudam a entender a sociedade. No entanto, são vários os exemplos desta relação e do seu carácter circular. Talvez menos evidente e mais estranha, é a ligação com a política, enquanto processo de ação, de tomada de decisão e de construção e interação entre grupos envolvendo relações de poder. Afinal, a psicoterapia é vista como uma forma de ajudar pessoas e não de promoção de uma ação social. Neste capítulo abordaremos e reflectiremos as pouco evidentes, estranhas, mas profundas, interligações entre a psicoterapia e a política, enquadradas em diferentes tempos da sociedade e nas sempre presentes relações de poder.

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As ideias perigosas que partem da psicoterapia para a sociedade

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A psicoterapia e a ideia de saúde mental participam também no processo de transformação e densificação dos valores humanistas. Neles também decorre a emergência dos direitos humanos e dos objectivos globais (e.g., do desenvolvimento sustentável). Aquilo que as teorias que subjazem à psicoterapia trazem, em diferentes momentos e, por isso, de formas distintas, é uma clarificação do que está na base e do conjunto de circunstâncias que conduzem ao sofrimento humano e de potenciais contributos para o superar.

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Os vários modelos da psicoterapia sugerem que muito do que é relevante para o bem-estar (vs. Patologia) resulta ou é condicionado pelos primeiros anos de vida. A psicoterapia, a par de outras contribuições da ciência psicológica, concorre assim decisivamente para que os séculos XX e XXI tornem a infância um foco de atenção da sociedade e se consolide a ideia (e a filosofia) dos direitos das crianças.

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Antes das perspetivas psicológicas subjacentes à psicoterapia, e influenciada pela religião, a sexualidade era, quando não negada, vista de forma desarticulada do resto do funcionamento humano, resquício da nossa animalidade, devendo pois ser coartada ou ignorada. Com a psicoterapia, em primeiro lugar pela psicanálise, a sexualidade começa a ser encarada como uma faceta humana indissociada da relação, que devia ser vivida de forma saudável e plena. Passou a associar-se a coartação da sexualidade ou a sua vivência “desequilibrada” a psicopatologia. Estas ideias foram social e politicamente muito influentes. A ideia de não só descriminalizar a homossexualidade, mas também penalizar a sua discriminação nasce destas ideias. A emancipação da mulher e a igualdade de direitos, independentemente do género ou orientação sexual também é fortemente influenciada por estas ideias de sexualidade e dos seus impactos no comportamento. A sexualidade feminina é equiparada em termos de valor à masculina e o caminho da independência desta da função reprodução é particularmente relevante. A condenação do abuso sexual, independentemente do contexto, é outro exemplo do desvio do foco da censura social.

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Mais uma vez, os modelos psicológicos em que assentam algumas psicoterapias salientam duas dimensões que são importantes como determinantes do comportamento. Primeiro, as representações ou as crenças associam-se a determinados comportamentos. Estas representações envolvem dimensões atitudinais e afetivas que se relacionam com outro tipo de representações (e.g., visão de si, visão dos outros, emoções predominantes) e podem ter como base a falta de literacia. Segundo, a dimensão representativa não ser desligada de aspetos de processo (e.g., perceção, atenção, memória) que influenciam de forma relevante o comportamento

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A quarta ideia tem que ver com a equidade, com o acesso e com uma ideia e um princípio da possibilidade de uma “psicoterapia para todas as pessoas”. A evolução do conceito de saúde para uma visão que inclui a saúde psicológica e o bem-estar, traz à sociedade este desafio referente à possibilidade de permitir acesso a cuidados de saúde psicológica e psicoterapêuticos mais amplos. Este princípio traz à psicoterapia alguma pressão para se repensar no sentido de poder chegar e impactar mais pessoas. Pensar um e outro movimento e esta tensão entre possibilidade, necessidade e justiça apoia a reflexão acerca de novas soluções.

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O Poder na Psicoterapia

Muito se tem escrito sobre a psicoterapia envolver uma relação de poder. Esse poder é influenciado pela natureza da relação, pelas características do contexto e clientes, frequentemente a vivenciar períodos de maior vulnerabilidade. Essa vulnerabilidade aumenta o potencial impacto de más práticas e diminui a capacidade de os clientes as reconhecerem e agirem sobre elas.

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Os psicoterapeutas agem no sentido de promover a mudança dos clientes de formas que não são necessariamente conhecidas ou conscientes para os últimos. Não se trata de um processo de manipulação, porque os objetivos da mudança são definidos pelos clientes no quadro do contrato e relação estabelecidos. Sê-lo-á quando, num registo de má prática, os psicoterapeutas procuram mudar os clientes em dimensões que estes não solicitaram. São abusos de poder, mesmo quando justificados como a interpretação do melhor para os clientes, a promoção de formas particulares de ser, de crenças, de tomadas de decisão específicas ou de formas de relacionar que vão para além dos pedidos.

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Face a estas características, a prática de psicoterapia deve ser pautada por um conjunto relevante de cuidados éticos. Adicionalmente, esses cuidados éticos devem responder à evolução dos pedidos que chegam aos psicoterapeutas e à sociedade nas suas normas formais ou menos formais. Nomeadamente, estes cuidados devem ser acautelados nos processos de formação, desenvolvimento pessoal e enquadramento profissional dos psicoterapeutas. Estes processos são fundamentais na prestação de cuidados nesta área e, por isso, também são social e politicamente determinados porque dependentes de normativos legais. Os referidos cuidados éticos balizam os psicoterapeutas, protegem os clientes e apoiam o bom resultado do processo.

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O exercício do poder no contexto da psicoterapia deve ser consciente, ciente das suas limitações, dos princípios éticos que o norteiam e centrado no respeito da autonomia dos clientes. Para que este objetivo seja cumprido, em termos da relação, o exercício de poder deve ser atento aos outros. Também num registo empático, mas também numa contínua apreciação dos impactos da intervenção ou da posição interpessoal dos psicoterapeutas e da construção da relação no processo psicoterapêutico.

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Se a psicoterapia é o catalizador da mudança nos indivíduos e se os indivíduos fazem a polis – enquanto comunidade de cidadãos ativos – então a psicoterapia pode assumir o seu papel na construção de uma possível polis desejada pelos seus cidadãos.

Psicoterapia e Sociedade, Poder e Política: Entre o privado do encontro e o público da possível polis in A psicoterapia na Torre de Babel

David Dias Neto & Tiago Pereira

[Outubro de 2023]