Não posso dizer que cresci rodeado de livros. Mas posso dizer que cresci curioso, com vontade de aprender, de saber, e com acesso a uma enciclopédia “velhinha”, antes, e mais tarde a uma edição, essa já minha, da Nova Enciclopédia Larousse de 22 volumes vermelhos do Círculo de Leitores. Foi, primeiro, muito através dessas enciclopédias, depois também nos diferentes motores de busca e hoje até junto dos novos modelos de linguagem que mais procurei e procuro, quando só, saber o que não sabia ou sei, sabendo que não o sabia ou sei. Pode parecer evidente, assim escrito. Mas é importante sublinhar: temos de saber que não sabemos para procurarmos uma informação ou uma resposta para uma dúvida ou pergunta.
E… Nem sempre o sabemos. Por exemplo, muitas e muitos de nós sabem que não sabem de conceitos ou matérias que não lhes despertam interesse, eventualmente da matemática à química, passando pela física ou engenharia. Porém, a grande maioria de nós não sabe que não sabe de conceitos e matérias que lhes despertam interesse, do futebol à saúde, passando pelo comportamento e pela tomada de decisão das pessoas.
Acresce que a esta característica humana soma-se a ilusão da profundidade explicativa, ou seja, o fenómeno psicológico que explica porque tendemos a crer que entendemos com profundidade conceitos e fenómenos complexos quando, na realidade, não os entendemos ou apenas os entendemos superficialmente. Assim é, do mecanismo de funcionamento do autoclismo aos processos de construção e aprovação de legislação.
A conjugação destes fenómenos ajuda a explicar, em parte, porque é que, muitas vezes, em matérias que remetem para o comportamento humano, tomada de decisão, saúde e bem-estar, não apenas não reconhecemos que não sabemos o que não sabemos como somos suscetíveis à procura de respostas simplistas, imediatas e absolutas para desafios e problemas complexos e por vezes interconectados. Porque somos suscetíveis, mesmo num período de forte desenvolvimento da ciência, a fazer atribuições “místicas”, particularmente face a fenómenos naturais como catástrofes, e à pseudociência.
A pseudociência, presente em diversos contextos, é, por isto, especialmente significativa e impactante no contexto das relações, da saúde, da saúde psicológica e do bem-estar em geral. Corresponde a todo o conjunto de intervenções que se procuram confundir com ciência, procurando apresentar-se como tendo uma base científica e produzindo resultados credíveis e reproduzíveis, quando tal não corresponde à realidade. Enquadram-se, neste conceito, as terapias alternativas e complementares como a homeopatia e pseudo-terapias, incluindo algumas apresentadas como “holísticas” ou mesmo psicológicas, como a aromaterapia. A pseudociência é, na Europa, uma actividade económica com valor já significativo e em expansão, procurada anualmente, segundo estudos recentes, por até 1 em cada 4 cidadãs e cidadãos Europeus (15% no caso da população portuguesa). É um desafio, em algumas situações, para a saúde e segurança das populações, quer pelos seus potenciais impactos directos (desde logo via más práticas e práticas não seguras/regulamentadas), quer pelos impactos indirectos relativos à não procura e à não adesão a respostas com suporte científico, à descredibilização das disciplinas científicas pela confusão que, por vezes intencionalmente, promovem, bem como, e não menos importante, pelo risco que significam para a confiança e para a sustentabilidade dos sistemas de saúde.
O Mundo pós-pandemia por COVID-19; de enorme polarização, complexidade e incerteza; e de informação, desinformação e marketing torrenciais; mas também de maior reconhecimento por parte das pessoas das suas necessidades de saúde, incluindo psicológica, e bem-estar resulta em mais espaço e oportunidade para a pseudociência. Para quem, navegando estes contextos e as inseguranças e vulnerabilidades das pessoas, vende (caro) soluções simplistas, não baseadas na ciência, mas invariavelmente assentes na crença de que “se acreditarmos e quisermos tudo conseguimos”, crença perfeita para a desresponsabilização quando as práticas “não resultam” e, mais grave, para a dupla penalização de quem utiliza estes serviços que, se não resultam, é por “culpa”, inacção ou imperfeição das próprias pessoas.
Quem o faz fá-lo normalmente apelando a falácias associadas à natureza e aos produtos naturais, à ancestralidade e à autoridade, logo não dispensando títulos, incluindo também “pseudoacadémicos”, cores, objectos, histórias e outros simbolismos significativos no contexto da ciência, da história e da natureza. Normalmente usando, também, da heurística da disponibilidade da informação (quem nunca se deparou com uma fantástica história de sucesso de uma terapia alternativa?), de uma confusão comum entre correlação (fiz algo e melhorei) e causalidade (melhorei porque fiz algo) que esconde o “efeito placebo”. Esconde, portanto, o papel que tem a nossa crença em que determinado procedimento/tratamento funcionará connosco, independentemente da sua eficácia comprovada ou, no limite, até de existir. Esconde como esta crença, influenciando a relação entre o nosso corpo e o nosso cérebro, impacta a forma como pensamos e comunicamos o “problema”, como nos sentimos e como pode directamente influenciar sintomas vários como a percepção de dor, a fadiga ou o stresse. O que, claro está, é importantíssimo e cada vez mais usado também nos desenvolvimentos da ciência e ao serviço da saúde e bem-estar das pessoas.
Porém, a “odisseia” da pseudociência que deste efeito usa e abusa comporta riscos significativos que só reconhecidos e só consequentemente considerados se podem prevenir. Isso implica um papel activo e até activista das disciplinas científicas, esclarecendo e prevenindo associações e confusões entre práticas científicas e pseudocientíficas pelos seus profissionais. Também o reforço de investimento na literacia da população. Literacia de informação (onde, o quê e como pesquisar informação fidedigna), científica (como identificar o que é ciência e científico) e em saúde, incluindo saúde psicológica. Ainda, reforçar a protecção de clientes, incluindo a relativa à comunicação e marketing “abusivo” e à necessidade de utilização de consentimentos informados, bem como reforçar a informação à população via sistemas de “what works” (o que – realmente – funciona) junto dos sistemas públicos e a dimensão ética e de cidadania de pessoas e, também, deontológica de profissionais.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a “evolução é o processo de tentativa e erro, e o erro é tão importante quanto o sucesso pois é através dele que aprendemos como evoluir”. Conforme Arthur C. Clarke expôs em 1948 no “A Sentinela”, conto base do argumento do “2001 – Odisseia no Espaço” que Stanley Kubrick dirigiria 20 anos depois, a evolução depende deste processo de tentativa e erro, característico da ciência e apenas possível se confiado, co-construído e partilhado entre seres humanos. Típico do que nos pode trazer maior possibilidade de bem-estar e coesão num Mundo que talvez até a fantástica mente de Kubrick teria dificuldade de imaginar e perspectivar.
Tiago Pereira
2023 – Odisseia na Pseudociência
in Sábado (Ao redor…); 19.12.2023