
Kameradschaft. Palavra alemã que descreve um sentimento de camaradagem. De companheirismo. Sentir profundamente humano, abundantemente partilhado entre as pessoas e com forte impacto no nosso comportamento e tomada de decisão.
Se partilhamos múltiplas características e comportamentos com diferentes espécies animais (estima-se que 98,7% do nosso DNA seja idêntico ao dos macacos bonobo), partilhamos ainda mais com as diversas pessoas que experienciam connosco o Mundo. Não com algumas dessas pessoas, antes com todas essas pessoas. Do nosso grupo de amigas/os, ao nosso grupo de colegas de trabalho, hobbie ou desporto. Mas, também, com as pessoas que não votam e pensam a sociedade como nós, que vivem em lugares longínquos e que têm práticas culturais que nos parecem distantes. Com as pessoas que sentimos e percepcionamos como “boas” e incapazes de conscientemente provocarem sofrimento a outras pessoas, mas, também, com as que sentimos e percepcionamos como “más”, como pouco empáticas e pensamos poderem desejar ou, pelo menos, serem capazes de, conscientemente, provocar sofrimento a outras pessoas.
Roy Baumeister dedicou parte da sua vida e do seu trabalho a estudar o “mal” e a procurar desconstruir o “mito do mal puro”, a visão que tendemos a ter de associar o mal a outras pessoas que não nós ou nossos próximos, pessoas “intrinsecamente más”, sádicas por vezes, e que o dirigem contra pessoas “como nós”, boas, inocentes. Baumeister procura introduzir matizes a esta visão, estimulando-nos a pensar a complexidade do fenómeno e a considerar as circunstâncias e motivações que podem conduzir a determinados comportamentos. No fundo, como pessoas “como nós” a elas expostas podiam, eventualmente, adoptar outro tipo de comportamentos. Ou como em grupo podemos ter comportamentos tão distintos de outros, fora do grupo. Ou como não foi a ideologia ou objectivos militares/políticos os motivos identificados pelas tropas nazis para a não dissidência e persistência na II Guerra Mundial, mesmo quando já perto da derrota, antes a “kameradschaft” partilhada com as e os seus companheiros.
Pensá-lo é fundamental a olhar o que sucedeu no Mundo nos últimos muitos milhões de anos. As relações, a confiança, o companheirismo e o paradoxo da inexistência tão clara como gostaríamos de um “nós” e um “outras/os” foram fundamentais ao progresso, à persistência e à resposta a desafios que se colocaram à vida nele, sempre. São fundamentais, hoje, à mitigação da crescente polarização ou à prevenção da desinformação e do seu impacto na sociedade, apoiando a legitimação de diferenças e dúvidas e estimulando que, em comunidade e sociedade, se iniciem conversas construtivas, capazes de criar pontes de encontro baseadas no não julgamento, na relação, segurança e confiança. Baseadas num conjunto de valores que, enquanto seres humanos, procurarmos consensualizar e atingir e num companheirismo que partilhamos. Companheirismo que nos permite persistir.
A persistência é hoje, aliás, uma competência ao mesmo tempo fundamental e, de certa forma, desafiada. Fundamental, num Mundo em (cada vez mais) rápida mudança e de enorme complexidade e ambiguidade. Desafiada, por esse Mundo, também pautado por hiper e diversa estimulação e pela procura de gratificações e sensações imediatas. Em todo o caso, permite-nos resistir ao insucesso e continuar, permite-nos falhar para melhorar, aprender, desenvolvermo-nos, investirmos em, também com outras pessoas, contribuirmos para a resolução de problemas complexos. Sendo individual e relacionando-se com características de cada pessoa (a autoestima, o autoconceito ou a autoeficácia, por exemplo) e com as suas circunstâncias e história, depende, em muito, das relações próximas, dos grupos, do companheirismo. Debrucemo-nos sobre um exemplo concreto e actual.
Soubemos por estes dias de um feito importante do país. Voltamos a ver subir o número de estudantes no Ensino Superior, que já tinha sido o maior número de sempre no ano lectivo anterior (446 mil). Sabemos, no entanto, que existem níveis de insucesso e abandono muito altos, realidade que impacta a vida (futura) de estudantes e que não faz jus ao investimento das famílias e do país. A título de exemplo, em 2022/23, quase 11% das e dos novos estudantes de licenciaturas e 25% dos cursos técnicos superiores profissionais, abandonaram os estudos antes do final do ano lectivo. Isto, além de uma percentagem não despiciente ter mudado de curso e da percentagem historicamente significativa que tenderá a abandonar os estudos sem concluir os respectivos graus.
Existem múltiplas razões para tal, desde logo, naturalmente, as socioeconómicas. Mas a entrada no Ensino Superior traz um conjunto de exigências e dificuldades, incluindo cognitivas, que implicam adaptação, estudo, treino e método, que também justificam parte do insucesso e sucessivo abandono. Quando se aprofunda o estudo do fenómeno percebe-se que nem sempre a capacidade ou competência são o que melhor explicam a persistência e continuidade. Estudos realizados nos EUA demonstram que, em áreas tendencialmente muito complexas como as matemáticas aplicadas, apesar do tercil mais baixo em capacidades dos estudantes das “melhores” Universidades ser muito próximo do primeiro tercil dos estudantes dos mesmos cursos de outras Universidades, a taxa de abandono é praticamente idêntica no mais baixo tercil entre as “melhores” Universidades e as outras. Parecem ser o sentimento de pertença e a posição relativa face ao grupo próximo que estimulam ou obstaculizam a persistência, mais do que as competências ou capacidades. Reflictamos, portanto, sobre o impacto da competição no insucesso e abandono e o papel que a pertença e companheirismo devem assumir.
Um exemplo que, sublinho, é muito influenciado pelas condições socioeconómicas decisivas até à entrada e na continuidade/término do Ensino Superior. Mas extensível aos estilos de vida e comportamentos que adoptamos, pensando na prática de exercício físico ou no consumo de álcool ou tabaco. Ou aos comportamentos associados à crise climática e à necessidade de alteração de determinados comportamentos e padrões de consumo, onde a pertença e o companheirismo são determinantes na tal persistência.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, são pessoas como nós que tomam decisões e agem. Pessoas expostas às mesmas heurísticas, suscetíveis aos mesmos vieses. Pessoas que precisamos de, empaticamente, compreender e aceitar na sua diversidade, criando relação. Pessoas que necessitam do companheirismo para persistir e para, persistindo, aprender, mudar, não abandonar, resolver, florescer. Pessoas que fizeram, fazem e farão a nossa relação com o Mundo. Persistamos, com elas, pelo Mundo.
Tiago Pereira
Companheirismo e Persistência
in Sábado (Ao redor…); 04.10.2023
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/companheirismo-e-persistencia