Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

O país precisa de mais saúde pública. A saúde pública precisa de mais psicologia.

Penso ser inegável que a psicologia tem hoje mais “voz e participação na sociedade e que isso contribui para a diminuição do estigma, para o aumento da literacia e do conhecimento e para uma maior participação da ciência e das/os profissionais no debate público e em diferentes contextos, da educação à saúde, passando pela área social e comunitária, desporto e actividade física e, muito importante, das organizações. Em todas estas áreas, mas a ritmo diferente. Na saúde subsistem 2 áreas em que tarda a integração mais consistente da ciência e de mais psicólogas/os: os cuidados de saúde primários e a saúde pública.”

“O país precisa de mais saúde pública. A saúde pública precisa de mais psicologia”, 62º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) responde à questão: “Beneficiaria a saúde pública em Portugal de ter mais psicólogas/os nas suas equipas e de ter mais conhecimento e ciência psicológica no seu planeamento e na sua gestão e administração?”

“Sim, estou certo de que sim. Tal qual estou certo de que a experiência da pandemia o demonstrou possível e os desafios do presente e futuro o exigem”, respondo.

Faço-o afirmando que “a saúde pública tem e terá uma importância significativa, além da resposta a situações de crise, na melhoria dos indicadores de saúde do país (…) e na redução de desigualdades.”

Faço-o afirmando que os contributos das/os psicólogas/os e da psicologia, enquanto ciência comportamental, vão “além dos papéis mais tradicionalmente atribuídos na promoção da saúde mental (…) ou em situações de crise ou catástrofe”, podendo contribuir para o melhor desenho e efectividade das políticas, para melhores processos de investigação e avaliação, para o trabalho conjunto, multidisciplinar e de consultoria, formação, mobilização ou de educação psicológica deliberada, na transição digital, big data ou na capacitação de consumidores de saúde e melhoria de processos de comunicação.

Faço-o afirmando que “persistem barreiras históricas a esta maior integração que começam na compreensão do papel dos profissionais, na sua incorporação na legislação que enquadra as equipas e a sua actividade” e na (ainda) associação da “saúde pública à doença, particularmente às doenças físicas e a um modelo excessivamente, senão exclusivamente, biomédico, centrado, portanto, na/o médica/o, modelo para o qual são dirigidos os principais incentivos financeiros e recursos humanos.”

Mudar é fundamental sendo “necessário que, paralelamente ao aumento de recursos humanos, decorrente das maiores necessidades presentes e futuras, se diversifique a gestão e constituição das equipas e as suas competências, melhorando capacidades, eficiência e apontando a uma visão mais biopsicossocial de pessoas e comunidades como preconizado pela World Health Organization a partir do conceito “uma só saúde” e na advocacia pelo reforço do investimento em abordagens multissectoriais e multidisciplinares de saúde pública.”

“Nada mais essencial, também em Portugal.”

Categories
Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Psicologia Tomada de Decisão

Desenrascanço

Estamos a horas do último fim de semana de Julho. Há dias escrevi aqui sobre como, uma certa quebra de rotina neste período, nos pode permitir “activarmo-nos para procurarmos mais quem e o que nos rodeia”, sugerindo falarmos e interagirmos com pessoas que nos são desconhecidas. Volto hoje, mas para reflectir sobre como podemos pensar o que nos rodeia, sejam objectos ou comportamentos, nos seus detalhes, histórias e “funções”.

Sobre como podemos, a partir dessas descobertas, pensar no que move ou não a nossa resposta a problemas, da inércia à força colectiva das comunidades, sempre na relação da ou das pessoas com o espaço e com desafios.

Deixo-vos um estímulo. Usem 4 dos vossos minutos e sintam o pequeno vídeo da Joana Astolfi para a Monocle que partilho. Visa, com uma beleza invulgar, também resultado de uma simplicidade conjugada com intensidade e intencionalidade, apresentar ao Mundo uma forma de resolver problemas que tendemos a atribuir/ver em Portugal: o desenrascanço.

Esse “desprender-se da rede” expandido ao “desprender-se do problema”, de forma simples e “esperta”, com os recursos à nossa volta, não raras vezes criativamente, não raras vezes sob a forma de improviso. A Joana Astolfi mostra-nos e mostra-se num expoente do desenrascanço, o Cais Palafitico da Carrasqueira, local que muito gosto e gostamos e que vos convido a visitar. Mostra-nos, também, na abertura de uma cerveja e recorda-me quando na construção civil brincávamos dizendo (e testando) que a esponja era a única “ferramenta” com a qual não era possível abrir.

Fá-lo lembrando-nos, porém, que o desenrascanço tem tanto de bom e belo como pode ter de menos bom, por menos rigoroso.

Se olharmos com atenção à nossa vamos vê-lo muitas vezes. No espaço, na sua utilização. Nos detalhes. No comportamento das pessoas. A “abordagem de última hora” como lhe chama a Joana Astolfi, por oposição a um planeamento atempado e rigoroso, que procura preparar potenciais problemas com planos a, b e c. O “português MacGyver”, por oposição a um potencial português Hippodamus de Miletus.

Mas belo, sempre belo. E mais belo quando o desenrascanço contempla a/o outra/o e o cuidado e impacto com ela/e. Quando comtempla uma ideia de colectivo, de equidade e de sustentabilidade, também ambiental, com o que se encontra ao nosso redor. Quando foca uma ideia de promoção do bem-estar individual, mas, também, colectivo, presente, mas, também, futuro, considerando gerações vindouras. Quando acontece, mais livremente e seguro, por as respostas aos problemas/desafios mais estruturais estarem asseguradas, essas sim, na antítese do desenrançando. No planeamento, no rigor, na ciência.

É essa conjugação que tornará o nosso país ainda mais belo, ainda mais delicioso nos detalhes. Façamos por isso, mas, porque disso precisamos também para que para isso possamos contribuir, olhemos à volta e “deixemo-nos surpreender”. Dizia-o, também, há dias antes de terminar como volto a terminar: “No geral, fará e far-nos-á bem.”

Categories
Comportamento Democracia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Psicologia

14.600 dias na Terra

Hoje é um dia diferente para mim. Um daqueles em que, necessariamente, olho os dias, todos os dias, que vivi. Faço-o pensando-me hoje, no presente, e, de certa forma, como me fui pensando e imaginando a chegar ao dia de hoje, em cada momento já vivido.

Faço-o e faço-o com um grande sorriso. São 14.600 dias de curiosidade, de descoberta e de um processo de preenchimento. Dias, dias e dias a cumprirem dimensões expectáveis, mas, principalmente, a surpreenderem-me e a sugerirem-me o menos expectável. O menos expectável bom, muitas vezes. O menos expectável, menos bom, poucas vezes. O menos expectável, muito bom, felizmente, mais vezes. Pessoal e profissionalmente.

Um pequeno exemplo que beneficia do efeito de recência. Cresci, profissionalmente, desde quando era ainda apenas um estudante de psicologia, interessado e admirado pela forma como a American Psychological Association e a The British Psychological Society tinham capacidade de transferir a investigação científica em psicologia para o quotidiano do nosso dia-a-dia, para os desafios que se colocavam a pessoas e sociedade, para a afirmação da nossa ciência e dos seus profissionais e para a forma como a ciência psicológica poderia melhor informar as políticas públicas. Cresci assim e hoje, singelamente, procuro também eu fazê-lo.

Cresci, profissionalmente, a ler as revistas dessas Associações, particularmente a “The Psychologist”. Cresci e este mês, mês deste meu dia, num momento dos claramente menos expectáveis mas muito bons da minha vida, a edição da “The Psychologist” tem uma entrevista minha (cujo link abaixo partilho) sobre um tema que de uma ou de outra forma me tem acompanhado – a pobreza, a desigualdade, os seus impactos e como, a partir da psicologia, podemos contribuir para a sua mitigação e erradicação e para a promoção da saúde e bem-estar de todas as pessoas.

Nela, a propósito de uma pergunta, falo do “20.000 dia na Terra”, documentário que trata 24 horas fictícias de vida do Nick Cave e de onde provém a frase destacada na entrevista: “Let’s raise this flame of great things that can be built” [“Façamos crescer a chama das grandes mudanças que podemos construir”, numa tradução minha]. É um mote perfeito para estes meus não 20.000 mas 14.600 dias na Terra. Ajudar a fazer crescer, convosco, esta chama.

Que tenham mais um bom dia na Terra. Obrigado a todos quantos os vão partilhando comigo. Tudo de bom.

Entrevista “The Psychologist” (July/August 2023) | https://www.bps.org.uk/psychologist/lets-raise-flame-great-things-can-be-built

Categories
Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Psicologia

Comecemos com um minimal “Olá”

Há dias vi(mos) Kings of Convenience, banda norueguesa que vive de diálogos… Do diálogo entre dois amigos de quase sempre, Erlend e Erik, compositores e intérpretes. Do diálogo entre as suas guitarras, que parecem, em certos momentos, conversar entre si, e entre elas e o violino e contrabaixo que, em certos momentos, as acompanham. Do diálogo entre eles e um conjunto de pessoas “estranhas” que os escuta e segue, pessoas como eu.

Este encontro entre a música e o contactar ou falar com pessoas que nos são “estranhas” é, também, um diálogo entre dois elementos importantes ao meu e ao nosso bem-estar. A crescente compreensão dos fenómenos envolvidos e a investigação têm-no demonstrado, tal qual sublinham que tendemos a desconsiderar o quão importantes para nós podem ser / são as interacções sociais que temos com pessoas “desconhecidas” e o quanto podemos, a partir delas, aprender e nos sentir bem.

Acontece, porém, que existem hoje barreiras significativas a que falemos com pessoas nossas desconhecidas com frequência. A voracidade do tempo e das nossas múltiplas e permanentes ocupações e estímulos, a facilidade com que contactamos com pessoas nossas conhecidas e a forma como muitas vezes socialmente estamos pouco disponíveis para tal, ou porque através dos dispositivos móveis estamos “sempre a ouvir algo” (música, por exemplo) ou em interacção com “conhecidos” (redes sociais, por exemplo), obstaculizam o contacto com desconhecidas/os ao nosso redor. E, a menor oportunidade gera maior dificuldade e receio e, sucessivamente, o hábito de não o fazermos, hábito que se reforça e autoalimenta. De não conhecermos mais outras/os, de não as/os procurarmos perceber, compreender, colocarmo-nos no seu lugar. De não nos confrontarmos com novas pespectivas ou pontos de vista. De recebermos, menos. De termos menos feedback.

Este período, de férias para algumas pessoas, pré-férias para outras ou simplesmente de Verão, é um bom momento para, com a quebra de algumas rotinas, reflectirmos sobre isto e activarmo-nos para procurarmos mais quem e o que nos rodeia. Olharmos fora do nosso círculo, permitirmo-nos humanizar, iniciar diálogos e discussões construtivas. Contribuirmos, um pouquinho que seja, para quebrar este nós vs. outras/os que com intensidade e impacto crescente nos cerca e nos polariza. Contribuirmos, um pouquinho que seja, para promovermos a empatia, as relações, a confiança… A paz, conforme ela se pode promover, pelo esbater do receio do desconhecido, do medo da outra e do outro e pelo reforço da coesão.

Do simbolismo variado (até pelo facto do Erik ser, também, psicólogo), às letras e às melodias profundas e introspectivas, é talvez um certo minimalismo tocante que melhor caracteriza os “Kings of Convenience”. Minimalismo que podemos e devemos usar para começar estes nossos diálogos com pessoas nossas desconhecidas… Comecemos com um minimal “Olá”. Surpreendamos. Deixemo-nos surpreender. No geral, fará e far-nos-á bem.

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Futuro da Psicologia Psicologia

A falácia do apelo pelo natural, a desigualdade e a negação da ciência (Ao redor…; 11.07.2023)

Eis-nos no Verão. Tempo propicio a pensarmos em nós, no nosso corpo e mente, na nossa saúde e bem-estar. Tempo propicio a associarmos o calor, por vezes extremo, a “bom tempo”. Os alimentos orgânicos ou biológicos a algo “mais saudável”. Tudo quanto é natural a algo “que faz bem”, é seguro e eficaz. Nada mais simples. Nada mais, sistematicamente, aprendido. Nada mais errado.

Não, calor, por vezes extremo, não é “bom tempo”. Não, os alimentos orgânicos ou biológicos não são sempre “mais saudáveis” e seguros. Não, há alimentos naturais que “não fazem bem” e que podem, potencialmente, ser mais perigosos que outros, não biológicos ou orgânicos. Não, há produtos químicos ou sintéticos que são muito mais benéficos face a naturais na promoção da saúde e do bem-estar.

A complexidade desta questão reside no facto dos produtos naturais serem associados a algo “saudável” e “seguro” estando hoje, e na nossa sociedade, abundantemente disponíveis e intensa (por vezes, eficazmente) promovidos e “marketizados”. Podemos, hoje, sem grande dificuldade quando existe poder de compra, alimentarmo-nos todo o dia com produtos orgânicos ou naturais, considerando que desde 2019 mais de 60% dos novos produtos alimentares colocados no mercado mencionam ser “orgânicos”, “naturais” e/ou “sem aditivos”.

O viés pró-natural conjuntamente com o viés desta crescente disponibilidade, reforça a preferência pelo natural e, de certa forma, a “falácia do apelo pelo natural” que justifica, também, porque acabamos a aceitar pagar mais por estes produtos (face a convencionais) e porque inferimos benefícios para a saúde e bem-estar destas escolhas, alimentando todo o ciclo atrás descrito. No entanto, estas nossas escolhas não resultam, necessariamente, de recomendações oficiais e, como Alexandra Bento, Bastonária da Ordem dos Nutricionistas, recentemente afirmou “a evidência científica até à data não corrobora que o consumo de alimentos biológicos possa estar associado a menor incidência de doenças crónicas associadas ao estilo de vida”.

Esta “falácia do apelo pelo natural” tem dois riscos que importa ter presentes. O primeiro relativo a uma potencial generalização da ideia de que os alimentos / produtos convencionais ou químicos são menos saudáveis ou prejudiciais, algo que poderá conduzir a que sejam menos consumidos / utilizados, penalizando particularmente as pessoas e famílias com maiores dificuldades económicas ou com menor acesso a estes produtos (por exemplo, também por viveram em zonas mais remotas).

O segundo relacionado com a associação entre o apelo pelo natural e a negação da ciência, muito expressa, por exemplo, na crescente desconfiança e recusa de terapêuticas químicas (antibióticos e medicação no geral, quimioterapia, …), de terapêuticas baseadas na evidência como a psicoterapia ou outras intervenções psicológicas ou na desconfiança e negação das vacinas, apesar de terem sido e serem algo absolutamente preponderante na melhoria global de bem-estar e qualidade de vida, no aumento da esperança média de vida e diminuição da mortalidade infantil ou na prevenção e erradicação de um conjunto de doenças nas últimas largas décadas.

Mesmo na União Europeia (noutros países os dados são ainda mais significativos), e mesmo ainda em período pré-pandemia (na pandemia alguns destes problemas foram agudizados), mais de 1 em cada 3 cidadãos diziam que as vacinas poderiam “causar as doenças para as quais criam imunidade” e quase 1 em cada 3 “diminuir o sistema imunitário”, sendo a confiança na imunidade natural associada a ideias pró-naturalistas e um dos factores que mais contribuem para a hesitação na vacinação.

Estamos no terceiro ano, da terceira década do terceiro milénio e, num Mundo onde a ciência e conhecimento estão mais acessíveis que nunca, o espaço e o debate público é profundamente influenciado por teorias da conspiração, desinformação ou notícias falas e promessas acientíficas ou pseudocientíficas de resolução dos problemas, dos mais simples aos mais complexos. Como Steven Pinker refere, mesmo para problemas muito complexos e com muito sofrimento associado para pessoas, famílias e comunidades, “o problema é que as pessoas aceitem (e utilizem) as soluções encontradas para os problemas”, vencendo-se o obscurantismo, missão fundamental da sociedade hoje.

Missão fundamental, mas exigente, quando existe um valor monetário e comercial significativo associado a esta situação e cultura. Nos EUA, o sector da saúde mental foi no final de 2022 a área com maior investimento na saúde digital e, ao investimento, não correspondeu o desenvolvimento e a necessária utilização da ciência e da melhor evidência científica, algo particularmente notório na proliferação de “aplicações de saúde mental”, não baseadas em evidência científica. Aplicações que, não raras vezes, prometem soluções para problemas complexos como a ansiedade ou a depressão com apelativas, também por simples, “terapias naturais ou orgânicas” (falar com amigas/os, sair de casa, …), importantes certamente, mas nunca substitutas de intervenções convencionais baseadas na evidência como a intervenção psicológica ou psicofarmacológica, quando necessárias. Significativo valor monetário e comercial, portanto, que vive dos desafios do presente e para o presente, mas que impacta verdadeiramente o futuro de todas as pessoas, seja no fomento do discurso anticiência, seja no fomento da desconfiança, seja no fomento de discursos mais populistas, antipolítica e políticos. Todos, em todo o caso, têm em simultâneo e paralelo a colocação dos interesses pessoais de alguém, de algum movimento ou partido, de alguma empresa ou negócio, acima do bem-comum e uma não preocupação com as pessoas em situação de maior vulnerabilidade, com um futuro de confiança, de ciência e de coesão. Com um futuro mais potencialmente promotor e possibilitador de bem-estar para todos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, passou a ser necessário “marchar” pelos factos, como assinalava recentemente um cartaz de um jovem numa manifestação por acções face à crise climática [“I can’t believe in marching for facts”]. Pelos factos, pela saúde pública e por acções contra a falácia do apelo pelo natural e contra a negação da ciência.

 

Tiago Pereira

A falácia do apelo pelo natural, a desigualdade e a negação da ciência

in Sábado (Ao redor…); 11.07.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-falacia-do-apelo-pelo-natural-a-desigualdade-e-a-negacao-da-ciencia

Categories
Comportamento Desafios da Psicologia Educação Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Psicologia

The kids are not all right

Vivemos um momento muito complexo relativo à prevalência de problemas de saúde mental nas crianças e jovens. Em rigor, vivêmo-lo em todas as faixas etárias, mas, muito especialmente, na população mais jovem.

Problema que não é problema apenas em Portugal. Há sensivelmente um ano fiquei profundamente impactado ao assistir a um evento muito a propósito intitulado “The kids are not all right”, sobre o declínio da saúde mental na população jovem nos EUA. Tal qual fico ao reflectir sobre o aumento das perturbações depressivas e de ansiedade na última década na Europa, com países como a França ou o Reino Unido a aumentarem 2 a 4 vezes a incidência. Ou quando observo dados portugueses sobre comportamentos autolesivos ou dados globais sobre suicídio na adolescência. Quando um relatório do Centers for Disease Control and Prevention indica que em 2021 13% das alunas do ensino secundário nos EUA tentaram o suicídio (30% consideraram-no seriamente), 20% se considerarmos o universo das/os estudantes LGBTQ+ (45% consideram-no seriamente), existindo dados consistentes também sobre a maior prevalência em jovens com pertenças comunitárias distintas.

Desigualdade(s). Exclusão. Nas suas antigas e novas formas, enquanto determinantes do passado e presente fundamentais para os problemas referidos, potenciados pelas novas formas de desigualdade e exclusão decorrentes da relação com as outras e outros (também por via das novas tecnologias e de uma sociedade focada no presente, no imediato e numa “ditadura” da felicidade), da pressão das notas e do mérito, da ausência de previsibilidade, controlo e de alguma segurança face ao futuro. Isto a par da carência de suporte e apoio consistente e contingente que acompanhe esta pressão e desafio à saúde mental e o capital social hoje existente que faz com que as/os jovens “exijam”, bem, respostas mais significativas e eficazes neste âmbito.

Sobre isto conversei com a Margarida Gaspar de Matos e a Tânia Monteiro Neves no Encontro Nacional de Psicólogos Ubuntu a 22.06, momento que aqui partilho: https://www.youtube.com/watch?v=qzRJWQvmqBs. Sobre isto conversei, com amigas/os e colegas de sempre, a convite da Cláudia Espiguinha Guerra, no meu primeiro Agrupamento de Escolas, onde estagiei e trabalhei os primeiros 7 anos enquanto psicólogo, reflectindo sobre os “Desafios na promoção da saúde mental de crianças e jovens”.

Sobre isto, finalmente, volto a partilhar o artigo “(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem” que escrevi na rubrica “Ao redor” em Setembro de 2022: https://www.linkedin.com/pulse/rosa-dos-ventos-da-saúde-mental-população-jovem-tiago-pereira/.

Também para lembrar que a pandemia continuou/aprofundou alguns destes problemas, nomeadamente as suas manifestações comportamentais. Apenas continuou/aprofundou, não explica por si o aumento consistente da última década, pelo que há muito mais a fazer que a simples (e importante) recuperação da pandemia.

Para isso, todos contamos. Todos somos fundamentais.

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

A falácia do apelo pelo natural, a desigualdade e a negação da ciência

“Eis-nos no Verão. Tempo propicio a pensarmos em nós, no nosso corpo e mente, na nossa saúde e bem-estar. Tempo propicio a associarmos o calor, por vezes extremo, a “bom tempo”. Os alimentos orgânicos ou biológicos a algo “mais saudável”. Tudo quanto é natural a algo “que faz bem”, é seguro e eficaz. Nada mais simples. Nada mais, sistematicamente, aprendido. Nada mais errado.”

“A falácia do apelo pelo natural, a desigualdade e a negação da ciência”, 61º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) trata a “falácia do apelo pelo natural” e dois riscos dela decorrentes:

  1. A potencial generalização da ideia de que os alimentos / produtos convencionais ou químicos são menos saudáveis ou prejudiciais, algo que poderá conduzir a que sejam menos consumidos / utilizados, penalizando particularmente as pessoas e famílias com maiores dificuldades económicas ou com menor acesso a estes produtos (por ex., também por viveram em zonas mais remotas);
  2. A associação entre o apelo pelo natural e a negação da ciência, muito expressa, por ex., na crescente desconfiança e recusa de terapêuticas químicas (antibióticos e medicação no geral, quimioterapia, …), de terapêuticas baseadas na evidência como a psicoterapia ou outras intervenções psicológicas ou na desconfiança e negação das vacinas, apesar de terem sido e serem algo absolutamente preponderante na melhoria global de bem-estar e qualidade de vida, no aumento da esperança média de vida e diminuição da mortalidade infantil ou na prevenção e erradicação de um conjunto de doenças nas últimas largas décadas.

“Estamos no terceiro ano, da terceira década do terceiro milénio e, num Mundo onde a ciência e conhecimento estão mais acessíveis que nunca, o espaço e o debate público é profundamente influenciado por teorias da conspiração, desinformação ou notícias falas e promessas acientíficas ou pseudocientíficas de resolução dos problemas, dos mais simples aos mais complexos. Como Steven Pinker refere, mesmo para problemas muito complexos e com muito sofrimento associado para pessoas, famílias e comunidades, “o problema é que as pessoas aceitem (e utilizem) as soluções encontradas para os problemas”, vencendo-se o obscurantismo, missão fundamental da sociedade hoje.”

Mais ainda, quando a “falácia do apelo pelo natural” gera um “significativo valor monetário e comercial, vivendo, portanto, dos desafios do presente e para o presente, mas impactando verdadeiramente o futuro de todas as pessoas, seja no fomento do discurso anticiência, seja no fomento da desconfiança, seja no fomento de discursos mais populistas, antipolítica e políticos.”

“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, passou a ser necessário “marchar” pelos factos, como assinalava recentemente um cartaz de um jovem numa manifestação por acções face à crise climática [“I can’t believe in marching for facts”]. Pelos factos, pela saúde pública e por acções contra a falácia do apelo pelo natural e contra a negação da ciência.”

Categories
Comportamento Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Política Psicologia Tomada de Decisão

European Congress of Psychology 2023

É. Vivemos uma “Era de Paradoxos”. Possivelmente o tempo histórico com mais recursos disponíveis, mas, ao mesmo tempo, desigualdades significativas, grandes (e graves) problemas de saúde mental na população e ameaças críticas à possibilidade de bem-estar de todas as pessoas.

Na próxima semana, com orgulho, mas, principalmente, com sentido de responsabilidade e missão serei um dos Keynote Speakers do 18th European Congress of Psychology (https://ecp2023.eu/scientific-programme/keynote-speakers/).

Responsabilidade e missão, pela temática fundamental da intervenção versar a pobreza e ser, desta forma, focada, destacada e reflectida no congresso a partir da comunicação que intitulei de “Multiple contributions of psychology to a “Full Stop to Poverty” – The role of psychological science, practice and professional associations” [“Múltiplos contributos para um “.Final à Pobreza” – O papel da ciência e da prática psicológica e das suas associações profissionais”] e que será moderada pela Claudia Hammond.

Responsabilidade e missão, também, porque permitirá apresentar um projecto que procura reunir um triângulo que creio virtuoso (ciência, prática, associação profissional), procurando um contributo mais assertivo e decisivo da psicologia, nas suas diversas áreas, públicos e contextos de intervenção, para o “combate à pobreza” e para a promoção da saúde, bem-estar e coesão social nesta “Era de Paradoxos”.

Responsabilidade e missão, ainda, porque reflicitirá uma visão para a profissão à escala nacional e global, enquanto ciência hub e prática transversal, capaz de positivamente influenciar outras ciências e práticas e, com elas, colaborar na prossecução da resposta a desafios societais de enorme complexidade, que necessitam de empenho e envolvimento conjunto do micro ao macro.

Responsabilidade e missão, finalmente, porque assentará numa visão do papel de uma associação pública profissional (Ordem dos Psicólogos Portugueses) activa e participativa, que procura estimular, suportar e afirmar o contributo das/os psicólogas/os para os que são os mais relevantes desafios do nosso país e Mundo, particularmente quando tão significativamente impactam a vida das pessoas. Quando condicionam (tão cruelmente), como a pobreza e a exclusão a ela associada o fazem, a dignidade, a saúde (incluindo a saúde mental), o bem-estar e a autodeterminação das pessoas, além da coesão social e prosperidade da sociedade e do Mundo.

Categories
Comportamento COVID-19 Democracia Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade

Uns óculos para pensarmos as profissões no futuro e a solidão e isolamento

“Nós, enquanto seres humanos, somos no geral pouco eficazes a prever o futuro.” Ainda assim, acompanho o CEO da Apple quando, na recente apresentação do “Vision Pro”, referiu que, como os computadores pessoais e, mais tarde, os computadores portáteis, os computadores espaciais, conforme o definiu, representarão uma “nova era”.

“Uns óculos para pensarmos as profissões no futuro e a solidão e isolamento”, 60º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre como um dispositivo que “permite aceder ao “Mundo digital” sem ecrãs físicos e interagir com o computador sem dispositivos “extra-humanos” como teclados, ratos ou superfícies”, imergindo totalmente o “Mundo digital” no real a partir apenas de uns óculos”, pode ser disruptivo, transformar-se e revolucionar a forma como se “projecta em Engenharia ou Arquitectura”, como se assistirá a espectáculos ou eventos desportivos e como se prestam serviços de Educação e Saúde.”

“Se as reuniões, a formação e o treino e intervenção à distância, aprofundadas na pandemia, melhoraram consideravelmente o quadro antes existente, particularmente para quem vive/trabalha em locais mais remotos, tudo tenderá a evoluir rapidamente para novas e potentes ferramentas que permitirão, através de experiências imersivas em tempo real cada vez mais simples e satisfatórias, o encontro de pessoas no “Mundo digital” a partir do seu “Mundo real”.

Assistiremos, potencialmente, a mudanças na forma de “formarmos (inicial e continuamente) profissionais de saúde, de treinarmos tarefas específicas, de realizarmos processos de articulação e intervisão interpares e de melhoria significativa da prestação de serviços (incluindo especializados), particularmente em contextos de difícil acesso e mais remotos. Na psicologia, juntar-se-á à evolução da utilização da realidade virtual e aumentada em intervenções psicológicas e psicoterapêuticas em diversas áreas (hoje já bastante testada e utilizada nas fobias), na complementaridade de intervenções (por exemplo, possibilitando experiências imersivas que potenciem a empatia), na realização de avaliação psicológica ou na assistência por parte de tradutores/interpretes em processos de intervenção.”

“Poderá, também, ter um positivo impacto nos serviços públicos e, até, em fenómenos particularmente relevantes em Portugal como a solidão/isolamento, a perda de população e serviços no interior ou a emigração. Mas pode, também e noutro prisma, se não utilizados responsavelmente, representar um conjunto de riscos também na questão da solidão/isolamento, na estigmatização/marginalização, na desinformação, na cibercriminalidade e, no limite, nos fenómenos de Guerra e conflito entre países.”

Deve, portanto, “para o bem da Humanidade, atender às evidências da ciência psicológica” e concorrer para “mais, mais próxima, personalizada e eficaz psicologia ao serviço das pessoas, do planeta, da prosperidade e da equidade.”

Categories
Comportamento Desafios da Psicologia Emergência Climática Futuro da Psicologia Política Psicologia

Junho, “bom tempo”…

Estamos a viver o Junho mais quente no Mundo desde que existem registos meteorológicos e o primeiro Junho em que ultrapassamos o importante 1,5º Celsius acima da temperatura média esperada.

Dados atrás de dados a confirmar as alterações climáticas decorrentes da crise climática que vivemos. Fenómenos atrás de fenómenos, novos ou “antigos” mais intensos e/ou frequentes, a confirmar o seu impacto na vida de comunidades e na saúde e bem-estar das pessoas.

O “bom tempo” – conforme o “narramos”, considerando que permite pelo aumento de temperatura, a quem dele gosta e pode usufruir, uma extensão do período típico de “Verão” para outros momentos do ano – tem múltiplas e perigosas consequências no presente e no futuro. Deixo dois grupos de exemplos, de duas entidades com trabalho e especial envolvimento nesta área:

a) O IPCC no seu sexto relatório de avaliação, publicado em Março deste ano, destaca os efeitos do aumento da temperatura e dos fenómenos de calor extremo no aumento da mortalidade e morbilidade (vejam-se os dados em Portugal), na maior propagação de doenças transmissíveis, na deslocação e migração força de comunidades e, entre um conjunto significativa de outros elementos, no aumento de problemas de saúde mental, incluindo questões de stresse e trauma face a eventos particularmente significativos;

b) O World Economic Forum publicou recentemente um trabalho sobre consequências menos óbvias que as anteriores, mas relevantes das alterações climáticas, que incluem o aumento até ao triplo dos incidentes aéreos relacionados com forte e inesperada turbulência; a perda significativa do peso médio de animais como as cabras e redução da diversidade de sexos de animais como os lagartos ou as tartarugas, com consequências no ecossistema; o aumento das erupções vulcânicas; mais tempestades e relâmpagos e a diminuição brusca de um grão que muito aprecio, o café.

Mais ou menos óbvias, as consequências são impactantes já no presente e sê-lo-ão, muito, no futuro. Este é um desafio, portanto, que a todas e todos convoca e convocará… Desafio enorme, e cujo envolvimento, nas diversas formas, pode, por si, ser promotor de bem-estar e de dimensões psicológicas como a confiança e a auto-estima.

Desafio enorme, mas possível e possível num quadro de melhoria do bem-estar global.