Há dias vi(mos) Kings of Convenience, banda norueguesa que vive de diálogos… Do diálogo entre dois amigos de quase sempre, Erlend e Erik, compositores e intérpretes. Do diálogo entre as suas guitarras, que parecem, em certos momentos, conversar entre si, e entre elas e o violino e contrabaixo que, em certos momentos, as acompanham. Do diálogo entre eles e um conjunto de pessoas “estranhas” que os escuta e segue, pessoas como eu.
Este encontro entre a música e o contactar ou falar com pessoas que nos são “estranhas” é, também, um diálogo entre dois elementos importantes ao meu e ao nosso bem-estar. A crescente compreensão dos fenómenos envolvidos e a investigação têm-no demonstrado, tal qual sublinham que tendemos a desconsiderar o quão importantes para nós podem ser / são as interacções sociais que temos com pessoas “desconhecidas” e o quanto podemos, a partir delas, aprender e nos sentir bem.
Acontece, porém, que existem hoje barreiras significativas a que falemos com pessoas nossas desconhecidas com frequência. A voracidade do tempo e das nossas múltiplas e permanentes ocupações e estímulos, a facilidade com que contactamos com pessoas nossas conhecidas e a forma como muitas vezes socialmente estamos pouco disponíveis para tal, ou porque através dos dispositivos móveis estamos “sempre a ouvir algo” (música, por exemplo) ou em interacção com “conhecidos” (redes sociais, por exemplo), obstaculizam o contacto com desconhecidas/os ao nosso redor. E, a menor oportunidade gera maior dificuldade e receio e, sucessivamente, o hábito de não o fazermos, hábito que se reforça e autoalimenta. De não conhecermos mais outras/os, de não as/os procurarmos perceber, compreender, colocarmo-nos no seu lugar. De não nos confrontarmos com novas pespectivas ou pontos de vista. De recebermos, menos. De termos menos feedback.
Este período, de férias para algumas pessoas, pré-férias para outras ou simplesmente de Verão, é um bom momento para, com a quebra de algumas rotinas, reflectirmos sobre isto e activarmo-nos para procurarmos mais quem e o que nos rodeia. Olharmos fora do nosso círculo, permitirmo-nos humanizar, iniciar diálogos e discussões construtivas. Contribuirmos, um pouquinho que seja, para quebrar este nós vs. outras/os que com intensidade e impacto crescente nos cerca e nos polariza. Contribuirmos, um pouquinho que seja, para promovermos a empatia, as relações, a confiança… A paz, conforme ela se pode promover, pelo esbater do receio do desconhecido, do medo da outra e do outro e pelo reforço da coesão.
Do simbolismo variado (até pelo facto do Erik ser, também, psicólogo), às letras e às melodias profundas e introspectivas, é talvez um certo minimalismo tocante que melhor caracteriza os “Kings of Convenience”. Minimalismo que podemos e devemos usar para começar estes nossos diálogos com pessoas nossas desconhecidas… Comecemos com um minimal “Olá”. Surpreendamos. Deixemo-nos surpreender. No geral, fará e far-nos-á bem.