Estamos a horas do último fim de semana de Julho. Há dias escrevi aqui sobre como, uma certa quebra de rotina neste período, nos pode permitir “activarmo-nos para procurarmos mais quem e o que nos rodeia”, sugerindo falarmos e interagirmos com pessoas que nos são desconhecidas. Volto hoje, mas para reflectir sobre como podemos pensar o que nos rodeia, sejam objectos ou comportamentos, nos seus detalhes, histórias e “funções”.
Sobre como podemos, a partir dessas descobertas, pensar no que move ou não a nossa resposta a problemas, da inércia à força colectiva das comunidades, sempre na relação da ou das pessoas com o espaço e com desafios.
Deixo-vos um estímulo. Usem 4 dos vossos minutos e sintam o pequeno vídeo da Joana Astolfi para a Monocle que partilho. Visa, com uma beleza invulgar, também resultado de uma simplicidade conjugada com intensidade e intencionalidade, apresentar ao Mundo uma forma de resolver problemas que tendemos a atribuir/ver em Portugal: o desenrascanço.
Esse “desprender-se da rede” expandido ao “desprender-se do problema”, de forma simples e “esperta”, com os recursos à nossa volta, não raras vezes criativamente, não raras vezes sob a forma de improviso. A Joana Astolfi mostra-nos e mostra-se num expoente do desenrascanço, o Cais Palafitico da Carrasqueira, local que muito gosto e gostamos e que vos convido a visitar. Mostra-nos, também, na abertura de uma cerveja e recorda-me quando na construção civil brincávamos dizendo (e testando) que a esponja era a única “ferramenta” com a qual não era possível abrir.
Fá-lo lembrando-nos, porém, que o desenrascanço tem tanto de bom e belo como pode ter de menos bom, por menos rigoroso.
Se olharmos com atenção à nossa vamos vê-lo muitas vezes. No espaço, na sua utilização. Nos detalhes. No comportamento das pessoas. A “abordagem de última hora” como lhe chama a Joana Astolfi, por oposição a um planeamento atempado e rigoroso, que procura preparar potenciais problemas com planos a, b e c. O “português MacGyver”, por oposição a um potencial português Hippodamus de Miletus.
Mas belo, sempre belo. E mais belo quando o desenrascanço contempla a/o outra/o e o cuidado e impacto com ela/e. Quando comtempla uma ideia de colectivo, de equidade e de sustentabilidade, também ambiental, com o que se encontra ao nosso redor. Quando foca uma ideia de promoção do bem-estar individual, mas, também, colectivo, presente, mas, também, futuro, considerando gerações vindouras. Quando acontece, mais livremente e seguro, por as respostas aos problemas/desafios mais estruturais estarem asseguradas, essas sim, na antítese do desenrançando. No planeamento, no rigor, na ciência.
É essa conjugação que tornará o nosso país ainda mais belo, ainda mais delicioso nos detalhes. Façamos por isso, mas, porque disso precisamos também para que para isso possamos contribuir, olhemos à volta e “deixemo-nos surpreender”. Dizia-o, também, há dias antes de terminar como volto a terminar: “No geral, fará e far-nos-á bem.”