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Se uma parte relevante de nós se julga capaz de aterrar um avião comercial numa emergência apenas com o apoio da torre de controlo… (Ao redor…; 13.06.2023)

…porque haveria de considerar-se incapaz de realizar actos próprios de diferentes profissões e de escolher pessoas habilitadas, preparadas e competentes para junto de si realizarem determinados actos, sejam de índole jurídica, contabilística ou psicológica?

A “YouGov” é um grupo que se propõe recolher e disponibilizar dados que estimulem a reflectirmos como o “Mundo pensa”. Num seu recente estudo, uma em cada três das mais de 20.000 pessoas dos EUA que nele participaram referem sentirem-se “algo ou muito confiantes” em que conseguiriam aterrar um avião comercial, apenas com indicações da torre de controlo. Quase um em cada dois se considerarmos apenas os homens. Estes dados, numa tarefa de enormíssima complexidade e cuja probabilidade de sucesso é, de acordo com as/os especialistas, virtualmente 0, correspondem a um excelente exemplo de como o “Mundo pensa” e do excesso de confiança que pessoas, sem determinada competência e experiência para a realização de uma tarefa ou de um acto, têm sobre a sua capacidade de realizarem com sucesso essa tarefa ou acto. Trata-se do efeito descrito como “Dunning-Kruger”, fenómeno que, com maior ou menor consciência de cada um de nós, a todos impacta.

Felizmente, na grande maioria das situações, o seu impacto resume-se a discussões enviesadas, a impossibilidades como a grandíssima maioria das pessoas se considerar um/a condutor/a acima da média (algo estatisticamente impossível) ou a erros sem consequências graves. Porém, se pensarmos no pilotar de um avião comercial ou em possíveis exemplos das três áreas profissionais acima referidas, as consequências podem ser muito graves e impactar decisiva e significativamente os direitos, a segurança, a saúde ou até a vida de pessoas. Podem impactar o interesse público e o bem-comum.

Não se tratando de situações decididas por mais sorte ou azar, falamos de competência, incompetência e da capacidade de reconhecimento das mesmas por cada pessoa, em cada momento, face a cada situação. Falamos do quão potencialmente graves podem ser os seus efeitos quando patentes em pessoas “com poder”, formal ou não, sobre outras pessoas, sem (possibilidade de) controlo por pares, situações possíveis em actividades profissionais em que existe a percepção por parte de clientes de que estão perante um/a especialista na área em que procuram ajuda. Clientes estes, muitas vezes, em situação de vulnerabilidade a propósito do próprio pedido de ajuda e/ou de desequilíbrio de informação e conhecimento potencial face à pessoa que procuram.

A acrescentar complexidade à situação somemos à sobrevalorização das nossas competências o viés do optimismo, ou seja, a tendência também comum nos seres humanos para sobrestimarmos a possibilidade de vivenciarmos situações positivas no futuro. A eles, a “ditadura da autorreferenciação”, pela qual as pessoas tendem a generalizar as suas experiências, percepcionando-as como “a realidade” única. Ainda um momento e contexto onde o acesso à informação é simples e rápido e em que a exposição, por via por exemplo de séries ou filmes, às mais diversas situações nos permitem percepcionar como próximas, simples e com “finais felizes” determinadas circunstâncias complexas (quem nunca viu um filme de um potencial desastre aéreo de final feliz e herói/heroína improvável?). Tudo a reforçar a sobrevalorização das nossas competências particularmente em áreas que nos despertam interesse mas que não conhecemos com profundidade, a partir da formação, treino, experiência e realidade.

Com este quadro de referência, e mesmo considerando o aumento global da literacia das populações em áreas diversas, creio restar clara e compreensível a necessidade de organização e regulação profissional em áreas com impacto significativo nas pessoas e no interesse público. De um quadro comum base de necessidade de uma (“boa”) formação académica, complementada com treino, experiência e formação (específica) profissional, com compromisso e responsabilização com a excelência das práticas assentes num quadro ético e deontológico, numa atitude de desenvolvimento profissional contínuo, potenciados por processos de validação e melhoria conjunta entre colegas da mesma profissão e no quadro de equipas e trabalhos multidisciplinares.

Por tudo isto, e pelo seu reforço, devíamos mobilizar-nos enquanto sociedade, coesa. Acontece, porém, como aqui escrevi no início de Março (Generalização, disponibilidade e desconfiança – Alterações ao regime jurídico das Ordens Profissionais), que debates públicos assentes na disponibilidade restrita de informação, na generalização e na desconfiança são “limitados” e não permitem “promover solidariedade, respeito pelas especificidades” e “construir mais participadas e equilibradas respostas, logo soluções melhores que beneficiariam a sociedade e o interesse público”. Assim tem sido com o “debate” em curso das propostas de alteração aos estatutos das Ordens Profissionais, modelo em que o Estado delega, sob sua tutela e supervisão, competências e atribuições diversas a um conjunto de associações públicas profissionais por ele legitimadas.

O presente “debate” é caracterizado pela desconfiança e pela narrativa de “corporativismo” das Ordens, nada mais injusto para parte delas, cujos órgãos são muitas vezes pressionados nesse sentido pelos seus membros, mantendo, porém, o foco no contributo para mais equitativo acesso a melhores serviços dos seus profissionais pela população e no desenvolvimento da profissão com vista ao interesse público. Diminui-se, assim, o envolvimento cívico, a construção conjunta, e abre-se espaço para, à boleia de resultar num potencial crescimento económico, assistirmos a propostas de maior desregulação da actividade profissional em áreas que envolvem direitos fundamentais, desprotegendo a sociedade e as pessoas, particularmente as em situação de maior vulnerabilidade ou impossibilitadas de decisões totalmente informadas e em liberdade. Urge que nos questionemos se os valores em que assenta este “debate” são os adequados a mudanças com impacto no presente e no futuro e se, ainda que se concretizando os benefícios económicos estimados com a desproteção das pessoas, isso resultaria em aumento do seu bem-estar, fim último que creio que decisores e a sociedade prosseguem com o objectivo de crescimento económico.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a ideia feita do “declínio moral” das pessoas pode ser uma “ilusão” percebida como verdade ao longo dos últimos 70 anos (!), conforme um importante estudo recente demonstra. Cabe, pois, a quem nos governa, estimular a reflexão, a construção conjunta, projectar o futuro e decidir, procurando prevenir os enviesamentos e os efeitos do momento e do contexto que ajudam a explicar o comportamento e tomada de decisão de pessoas individuais. Cabe serem, também, responsivos à expectativa das pessoas de ter instituições de proximidade que reforçam a confiança mais empoderadas e uma sociedade civil mais forte e participativa no sentido do bem-comum. Confiemos mais. Co-construamos mais. A sociedade não se faz “num dia” e é imensamente perigoso o caminho de muito pôr em causa por uma vitória, num processo ou num “irritante”. Pirro, o Rei de Epicuro e da Macedónia, teria certamente algo a dizer sobre isso.

 

Tiago Pereira

Se uma parte relevante de nós se julga capaz de aterrar um avião comercial numa emergência apenas com o apoio da torre de controlo…

in Sábado (Ao redor…); 13.06.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/se-uma-parte-relevante-de-nos-se-julga-capaz-de-aterrar-um-aviao-comercial-numa-emergencia-apenas-com-o-apoio-da-torre-de-controlo

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A morte da COVID é manifestamente exagerada

O jornal Inevitável desta semana volta ao tema da pandemia e dedica a sua edição a pensar e a reflectir o momento actual da COVID-19 e os diversos e múltiplos impactos da pandemia. Sob o mote “A morte da COVID é manifestamente exagerada”, reúne um conjunto de contributos, incluindo uma conversa/entrevista minha com a jornalista @Sónia Peres Pinto, que abaixo partilho.

Ao destaque da capa do jornal (“A ansiedade e os ataques de pânico aumentaram muito nas crianças e jovens”), a partir de um relato meu do que as colegas psicólogas e psicólogos referem relativamente às questões da saúde mental na população mais jovem, junta-se o destaque do interior da entrevista (“Não regressámos todos ao que éramos em 2019”), reflexão minha sobre a forma (diversa) e o tempo (diverso) do regresso à “normalidade” (dos eventos, das comemorações, do trabalho, …).

Além destes destaques, a entrevista foca outros aspectos, como são exemplo a ideia de que “o regresso a determinas as rotinas é um momento de celebração e de partilha”, fundamental à nossa identidade, ao bem-estar e à saúde mental ou a de que “não há hoje um psicólogo no SNS que tenha tempo para receber mais pessoas”, discutindo a necessidade de um investimento mais significativo e assertivo do Serviço Nacional de Saúde no reforço de profissionais de saúde mental, também porque as “pessoas com menos recursos são as que têm maior dificuldade em aceder-lhes”.

A quem possa interessar, partilho links para a entrevista completa nos sites Jornal i e Nascer do Sol.

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Presidência da República

9 de Março de 2021. Marcelo Rebelo de Sousa toma posse para o segundo mandato enquanto Presidente da República. No seu discurso, perante um país há um ano em pandemia, refere ser uma das suas prioridades a reconstrução “da vida das pessoas”. Diz ser “tudo ou quase tudo – emprego, rendimentos, empresas, mas também saúde mental, laços sociais, vivências e sonhos. É mais, muito mais do que recuperar.”

Ontem passou um mês sobre uma sua audiência a uma comitiva que integrei da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Nela abordamos esta “reconstrução maior que uma recuperação”. Sentimos interesse na profissão e nas/os profissionais, mas, também, o reconhecimento do seu rápido crescimento e impacto crescente. Falamos do seu papel e contributo e dos desafios da sua prática em diferentes contextos, da educação à saúde, passando pela área social, comunitária e do trabalho. Reflectimos sobre melhorias no acesso a serviços de psicólogas/os em diferentes áreas e por diversos tipos de prestadores e da participação dos profissionais em equipas multidisciplinares. Reforçamos a necessidade de aprofundar e acelerar este caminho, particularmente no SNS e na área social, junto das pessoas em situação de maior vulnerabilidade.

Discutimos, ainda, a presidência portuguesa da Federación Iberoamericana de Asociaciones de Psicología (FIAP) e os seus temas em torno do contributo da psicologia nas questões da pobreza e exclusão social, temas também fundamentais do VI Congresso da OPP/XIII Congresso IberoAmericano de Psicologia que decorrerá em Lisboa (SET 2024) e que conta com o seu Alto Patrocínio (informações/inscrições: https://congresso.ordemdospsicologos.pt).

“Só haverá, porém, verdadeira reconstrução se a pobreza se reduzir, os focos de carência alimentar extrema desaparecerem, as desigualdades se esbaterem, a exclusão diminuir, a clivagem entre gerações e entre territórios for superada”, dissera também na tomada de posse. Sabe o Sr. Presidente que o país pode contar, nestes e noutros desígnios, com o contributo das psicólogas e psicólogos e da sua associação pública profissional, tal como sabemos que o Sr. Presidente o reconhece e valoriza.

Simbolicamente, horas depois, receberíamos a proposta do Governo de revisão do Estatuto da OPP. Proposta que teve tanto de surpreendente como de inaceitável e que, a cumprir-se, representaria um retrocesso na protecção dos cidadãos, do interesse público e no acesso a serviços de psicologia de qualidade, pela desregulação da profissão e fim das suas especialidades profissionais.

Um conjunto de acções, a par da forte mobilização de psicólogas/os e não apenas, permitiram que se acordassem alterações que esperamos ver “formalmente” espelhadas na proposta final aprovada (e confirmada) em Conselho de Ministros, que muito em breve conheceremos. Resta, depois, trabalhar junto da Assembleia da República com o propósito último de podermos prosseguir o nosso papel e (importante) contributo enquanto profissão fundamental ao país e às pessoas.

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Se uma parte relevante de nós se julga capaz de aterrar um avião comercial numa emergência apenas com o apoio da torre de controlo…

“Se uma parte relevante de nós se julga capaz de aterrar um avião comercial numa emergência apenas com o apoio da torre de controlo…

…porque haveria de considerar-se incapaz de realizar actos próprios de diferentes profissões e de escolher pessoas habilitadas, preparadas e competentes para junto de si realizarem determinados actos, sejam de índole jurídica, contabilística ou psicológica?”

A primeira frase deste texto, título do 59º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado), resulta de um recente estudo da “YouGov”, onde “1 em cada 3 das mais de 20.000 pessoas dos EUA que nele participaram referem sentirem-se “algo ou muito confiantes” em que conseguiriam aterrar um avião comercial, apenas com indicações da torre de controlo (quase 1 em cada 2 se considerarmos apenas os homens)”.

Exemplo que, “numa tarefa de enormíssima complexidade e cuja probabilidade de sucesso é, de acordo com as/os especialistas, virtualmente 0”, demonstra “o excesso de confiança que pessoas, sem determinada competência e experiência para a realização de uma tarefa têm sobre a sua capacidade de a realizarem com sucesso.”

“Somemos à sobrevalorização das nossas competências o viés do optimismo” (…), a “ditadura da autorreferenciação”, (…) um momento e contexto onde o acesso à informação é simples e rápido” e onde existe uma enorme possibilidade de percepcionarmos como próximas e com “finais felizes” situações complexas.

Assim, mesmo considerando o aumento global da literacia, creio “compreensível a necessidade de organização e regulação profissional em áreas com impacto significativo nas pessoas e no interesse público. De um quadro comum base de necessidade de uma (“boa”) formação académica, complementada com treino, experiência e formação (específica) profissional, com compromisso e responsabilização com a excelência das práticas assentes num quadro ético e deontológico, numa atitude de desenvolvimento profissional contínuo, potenciados por processos de validação e melhoria conjunta entre colegas da mesma profissão e no quadro de equipas e trabalhos multidisciplinares.”

A desconfiança e a narrativa de “corporativismo” tem marcado o debate em torno das Ordens Profissionais, “nada mais injusto para parte delas, cujos órgãos são muitas vezes pressionados nesse sentido pelos seus membros, mantendo, porém, o foco no contributo para mais equitativo acesso a melhores serviços dos seus profissionais pela população e no desenvolvimento da profissão com vista ao interesse público”. Diminui-se, assim, “o envolvimento cívico, a construção conjunta, e abre-se espaço para (…) assistirmos a propostas de maior desregulação da actividade profissional em áreas que envolvem direitos fundamentais, desprotegendo a sociedade e as pessoas, particularmente as em situação de maior vulnerabilidade ou impossibilitadas de decisões totalmente informadas e em liberdade.” 

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Nunca?

Nunca?

Ontem perdemos Cormac McCarthy, escritor norte-americano que comigo partilhava o seu mês de nascimento, embora com meio século de diferença (faria no próximo mês 90 anos). E que diferente é ter vivido o (Mundo) que viveu face ao (Mundo) que eu vivi e viverei.

Perdemos alguém que nos deu muito a pensar e reflectir, através da sua vida e da sua escrita. A mim deixa-me a adaptação feita pelos irmãos Coen de um seu livro para o filme “No country for old men”. Deixa-me, mais significativamente ainda, os seus livros, particularmente, o “Meridiano de Sangue” e o “A Estrada”.

Apesar de em 2011, sei exactamente o momento da minha vida em que li este último. Sei de lugares onde o li. E sei, mais, a forma como trata nele a ideia do “nunca”, na perspectiva de nunca ser “imenso tempo” e no questionar “em que é que o nunca que existirá difere do nunca que existiu”? Em quê mesmo?

Soube da sua morte num lugar onde o nunca é, a cada momento, questionado. Onde a ideia da estrada rumo ao “nunca” como lugar ganha outro significado. Também onde o contexto, conforme no “Meridiano de Sangue”, muito determina, com uma força e um poder “até aos ossos”. Em que a fronteira se dilui, existindo, co-existindo e não existindo tudo e quase sempre ao mesmo tempo.

Soube da sua morte num dos lugares mais impressionantes onde já estive. Celebro-o, como neste lugar celebrei ter acontecido o que há tempos seria pensado como improvável, senão impossível, lembrando-o na sua escrita:

“Se quebrares pequenas promessas, quebrarás as grandes”.

Que não o esqueçamos… Que não esqueçamos que nunca é demasiado tempo. Eu, voltarei sempre a ele, para que, neste caso, nunca não seja mesmo demasiado tempo.

Obrigado, Cormac.

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Habitação, crise, saúde e bem-estar

No início de 2023, uma sondagem do ICS/ISCTE para o Expresso, mostrava que 92% das e dos jovens entre os 18 e 35 anos concordava ou concordava totalmente que existe uma crise de habitação em Portugal. 9 em cada 10 jovens.

“Crise habitacional, baixos salários e o futuro incerto – Há problemas muito significativos na saúde mental dos jovens”, foi exactamente o destaque escolhido pela CNN Portugal para divulgar o seu trabalho sobre o tema e a sua relação com a saúde (incluindo a saúde mental) e bem-estar das pessoas. Trabalho que partiu de uma entrevista comigo, realizada pelo José Gabriel Quaresma no passado Sábado.

Nela foco questões associadas à “quebra” de importantes factores protectores da saúde mental (segurança, previsibilidade e controlo) decorrente da instabilidade e/ou precariedade habitacional e do stresse e ansiedade financeira de muitas pessoas e famílias. Foco as consequências, no presente e para o futuro, na saúde (física e mental) e bem-estar e o sofrimento psicológico associado a estas questões. Também, as desigualdades e iniquidades que resultam das diferentes condições habitacionais entre diferentes pessoas, agravadas pelo facto de no contexto da pandemia e pós-pandemia (por ex., com o aumento do teletrabalho) as pessoas passarem/trabalharem mais tempo nas suas cadas. Ainda, a forma como a instabilidade habitacional obstaculiza melhores adaptações a processos de transição, seja numa situação de um nascimento/crescimento da família, num divórcio ou noutras. Termino advogando por mais apoios a programas que facilitem o acesso a uma primeira habitação pela população mais jovem, que facilitem processos de transição e adaptação a diferentes circunstâncias de vida e de suporte à reparação e melhoria de condições das habitações.

Mas, a mesma sondagem indica que na restante população são cerca de 90% as pessoas que concordam (ou concordam totalmente) com a existência de uma crise de habitação, dados que apontam a uma generalização desta percepção/sentimento. “Crise na habitação provoca maior procura por psicólogos”, foi mesmo o destaque escolhido pelo Novo Semanário (Edição 20.05.23) e pelo Jornal Económico para publicarem a entrevista do João Santos Costa comigo sobre o mesmo tema e sobre a sua relação com outras “crises” como a demográfica, de fixação/vinculação de trabalhadoras/es, da solidão/isolamento ou da saúde mental da população mais jovem.

Nesse trabalho, afirmo que “estarmos a discutir [a Habitação] é algo muito importante”. Talvez termos estado porque, apesar de tão significativa preocupação com o tema e do seu forte impacto nas pessoas e na sociedade, o debate tem vindo a perder intensidade. Oxalá tal não suceda, também, com a acção e priorização desta área. E oxalá a ciência (e prática) psicológica e os seus contributos possam ser consideradas e suportar esta acção.

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De pequenino é que se torce o ecrãzinho (Ao redor…; 16.05.2023)

“Quero ir a todas maternidades do país e quero que, quando um bebé nascer, alguém de forma aleatória, coloque uma etiqueta na testa que determinará a sua condição nos seus primeiros, digamos, 50 anos de vida. Baseado na cor da etiqueta organizaremos os bebés através de diferentes condições de exposição a ecrãs e redes sociais e acompanharemos o seu progresso e comportamento ao longo da vida.” Foi a proposta experimental impossível que Adam Alter apresentou quando Malcolm Gladwell o desafiou para um desenho experimental com uma “varinha mágica de investigação”. Fê-lo considerando a lacuna de conhecimento relativo aos que poderão ser os efeitos a longo prazo da exposição a ecrãs e redes sociais, em diferentes momentos da nossa vida.

Havendo quem entenda que as preocupações com estes temas são excessivas, creio importante reflectirmos sobre os seus impactos, particularmente em bebés, crianças e adolescentes e sobre o que sabemos do seu efeito a curto/médio prazo. Senão, vejamos.

Não resultando de uma “varinha mágica de investigação”, pudemos recentemente comparar resultados de provas de aferição de 2º ano entre crianças sem (2019) e com (2022) dois anos de pandemia COVID-19 e dos seus impactos no relacionamento interpessoal e na Educação. Em Português, na Oralidade, a percentagem de alunas/os que “conseguiram” caiu 46,4 pontos percentuais, de 59,7% para 13,3%, aumentando 42,8 pontos a percentagem de crianças que revelaram dificuldade ou não conseguiram / não responderam (de 16,1% para 62,9%). Valores que confirmam o que ouvimos ao redor e preocupa as equipas técnicas que trabalham com estas idades: um aumento considerável de dificuldades na área da fala e na aquisição da “língua materna”, menor número e diversificação de palavras e maior utilização de “estrangeirismos”, associados a vídeos e jogos online, observados cada vez mais precocemente.

Não resultando de uma “varinha mágica de investigação”, podemos também comparar as alterações ao nível dos problemas de saúde mental das e dos jovens nos últimos anos. Alguns estudos demonstram aumentos progressivos e significativos, com a prevalência a duplicar no Reino Unido ou a quadriplicar, se considerarmos apenas a depressão, em França. E, ao contrário do anterior, estes últimos anos remetem para mais de uma década, com início entre os anos 2010 e 2012, momento em que, entre outras mudanças, se generalizaram os smartphones, a utilização de redes sociais e recursos tipo “Like” e “Retweet”. Um artigo recente do “Finantial Times” apresenta-o, graficamente. Nele, três linhas sobem consistentemente de 2010 a 2022: a de jovens dos EUA que referem não se ter encontrado presencialmente com amigas/os no último mês (de 4% para 12%); a dos que referem não se “sentirem bem por viver” (de 6% para 11%) e a do aumento do suicídio na adolescência. Gráficos em linha com as já consideráveis investigações que demonstram correlação, mais significativa no sexo feminino, entre longos períodos de exposição a redes sociais e a deterioração da saúde mental na população jovem.

Os ecrãs e as redes sociais, pela sua aditividade, pelo “negócio” envolvido e com o “impulso” que resultou do isolamento em períodos da pandemia, estão a pressionar a substituição de interacções presenciais pela socialização em ambiente digital. Alterações que, particularmente se precoces e/ou excessivas, tenderão a reproduzir-se mais intensamente mais tarde e que têm e terão impactos no bem-estar, na conexão com outras e outros, nos processos de aprendizagem (social), no desenvolvimento cerebral, cognitivo e motor, no feedback e resposta emocional e comportamental face a situações quotidianas e, até, nas dimensões da actividade física e do sono.

Atendendo a que esta é uma área onde a regulação dos meios/plataformas não tem sido intensa e eficaz (por exemplo, nos limites de idade de utilização de tecnologias ou de aplicações), o papel das e dos cuidadores adultos é absolutamente preponderante. Mas, se conforme os dados de fenotipagem digital do “Sistema de Vigilância e Monitorização da Actividade Física e Desportiva”, 71,2% da população adulta em Portugal cumpre as recomendações de actividade física da Organização Mundial da Saúde (OMS) e um número superior as de vacinação, qual é a percentagem que cumpre as recomendações da OMS para a exposição a ecrãs de crianças com menos de 5 anos a seu cargo? A OMS recomenda que crianças até aos 2 anos não estejam expostas a ecrãs (televisão, computador, tablets e telemóvel) e que entre os 2 e os 4 anos a exposição seja pelo menor tempo possível e com supervisão, indicando como tempo máximo uma hora diária. Ora, das cadeirinhas de bebé com suporte para tablet, às mesas de cafés e restaurantes à nossa volta, creio sabermos que, ao contrário de outras recomendações da OMS, estas não são, infelizmente, particularmente consideradas.

Sabemos porquê. Pela própria utilização e pressão que se coloca a quem cuida e pela facilidade, adequação ao estilo de vida e resultado da utilização de ecrãs. É muito mais simples, por exemplo, quando se conjuga com a necessidade de trabalhar, realizar tarefas domésticas, fazer uma refeição ou, simplesmente, mantermos bebés e crianças sentadas e minimamente sossegadas. É muito mais simples para que nós, adultos, possamos prevenir conflitos e desfrutar de diferentes momentos. Muito mais simples hoje, mas muito mais difícil amanhã. Como com alguns alimentos, é assim com os vídeos online, com os jogos online e, mais cedo ou mais tarde, com as redes sociais.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, tendemos a olhar este desafio e os problemas que dele resultam em dimensões iminentemente individuais, não considerando que estas alterações profundas marcam hoje a sociedade e uma geração de bebés, crianças, adolescentes, jovens, mas também de quem cuida. Com a presença fortíssima de ecrãs há menos pessoas disponíveis para interacções presenciais, facto que reforça a dificuldade e os desafios que se colocam às mesmas. Com a presença fortíssima de ecrãs acresce a pressão para a sua utilização como meio de entretenimento e lazer, pressão que decorre quer das próprias crianças que querem como as outras fazê-lo e participar nesse meio, quer de quem cuida dessas crianças que pretendem que as nossas se mantenham, desde logo, sentadas e sossegadas nos espaços públicos, mas não apenas. Quando a pressão social concorre para incumprirmos recomendações algo está errado e precisa, rapidamente, mudar, sob pena do que hoje verificamos poder ser mais grave no futuro, também pelo que aí vem com a inteligência artificial, com níveis potenciais de aditividade, “negócio” e impacto ainda imprevisíveis. Aceitam que estamos perante um problema? Aceitam o desafio de mudarmos e partilharmos o Mundo ao redor com os ecrãs de forma mais equilibrada?

 

Tiago Pereira

De pequenino é que se torce o ecrãzinho

in Sábado (Ao redor…); 16.05.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/de-pequenino-e-que-se-torce-o-ecrazinho

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A lã e a neve…

Ferreira de Castro viveu apenas dois meses após o 25 de Abril de 1974. A sua biografia informa, destacando, a sua participação no célebre primeiro 1º de Maio pós-25 de Abril e retenho-me nesse momento, quando o penso a partir do livro “A Lã e a Neve”, que publicou quase 30 anos antes desse dia e que, felizmente, foi recentemente reeditado pela Cavalo de Ferro.

“…Nos olhos do qual ele adivinhava, também, uma nuvem de tristeza.” Uma nuvem de tristeza, mas não apenas, percorre o livro que trata, ficcionada, mas não totalmente, a pobreza de Portugal no período próximo da II Guerra Mundial. Uma pobreza entre a Serra da Estrela (Manteigas, em particular) e a Covilhã. Uma pobreza a partir de um trabalho permanente, constante, entre a pastorícia, as casas, o campo e as fábricas, particularmente as tecelagens, da região. Uma pobreza que coarta a dignidade, que impacta a saúde e a saúde mental, que impossibilita uma ideia mínima de bem-estar, de (auto)cuidado. Uma pobreza que se reproduz, cíclica e socialmente, e que acompanha o desamparo de tudo e de todas as pessoas que, ao mínimo “abalo” ou acontecimento imprevisto, pessoal ou social, treme. Uma pobreza, nuvem de tristeza. Permanente.

80 anos depois, aquela região é bem diferente. O país, a Europa, o Mundo, são bem diferentes. Apesar disso, e com formas de expressão e dimensão (felizmente) distintas, a pobreza e os seus impactos permanece na vida de muitas pessoas e famílias. De demasiadas. Isso mesmo e os contributos da ciência e da prática de psicólogas e psicólogos na minimização dos seus impactos e no combate às diversas formas de pobreza, discutiremos ali bem perto, na Guarda, na próxima sexta-feira (25.5).

O VI Encontro Luso-Espanhol de Psicologia, organização conjunta entre a Ordem dos Psicólogos Portugueses e o Consejo General de la Psicología de España centrar-se-á em dois temas principais, preocupações sociais significativas: a deficiência e a pobreza. Na área da pobreza, além de uma “Oficina Transformadora” a cargo do Alexandre Teixeira com a experiência do projecto “Cais Recicla”, terá uma mesa por mim moderada com a Isabel Soares (referência importantíssima no trabalho no nosso país nestas áreas e pessoa e profissional que muito admiro) e a Laura Vallejo Slocker e o Pedro Rafael Altungy Labrador, importantes referências do trabalho nestas dimensões em Espanha. Mais informações e inscrições, aqui.

Jorge Amado disse sobre Ferreira de Castro que “com a arma da literatura ajudou a transformar o Mundo (…) [Foi] coveiro de um Mundo caduco, de um tempo podre, parteiro de um Mundo novo, de um tempo alegre e livre”.  Que este Encontro e que os debates que dele decorram seja (mais) um contributo e, particularmente, estímulo a que com a “arma da psicologia” ajudemos “a transformar o Mundo”, pela possibilidade de um “tempo alegre e livre”, para todas e para todos.

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1, 2, 3, 4, 6 e… 7

1, 2, 3, 4, 6 e… 7. Ou, quando a aleatoriedade de um jogo nos desafia.

Esta sequência incompleta foi a chave do 37º concurso de 2023 do Totoloto, uma de 24.789.492 combinações possíveis. Quase sequência que, embora tão possível como qualquer outra chave, gerou surpresa e questionamento. Como nela faltou esse número, partilho 5 reflexões sobre o tema a propósito de uma peça e explicador da @Cristina Nascimento e do @Pedro Mesquita (@Radio Renascença), para as quais contribui.

  1. Percebemos como mais (ou menos) prováveis determinados acontecimentos ou eventos do que realmente são por via dos nossos, humanos, vieses cognitivos. Ou seja, pela nossa tendência para interpretarmos o mundo, tomarmos decisões e/ou nos comportarmos de forma irracional em consequências de erros no processamento de informação;
  2. É por isso natural que uma chave assim nos desafie, como dizia. Que automaticamente foque a nossa atenção, que seja “notícia” e suscite conversas e debates.
  3. O que deixa de ser natural, digamos racional, é que, quando depois reflectimos sobre ela, não concluamos sobre a sua igual possibilidade face a outras e, antes, desconfiemos dela. São diversos os motivos que podem a isto conduzir, mais ou menos conscientes ou intencionais, entre eles a susceptibilidade das pessoas à dúvida, a insegurança e ambiguidade ou a dificuldade em “lidar” com cenários de incerteza e, consequente, necessidade de controlo.
  4. Os ambientes digitais, onde o comportamento se altera e emoções como a raiva, a zanga ou o ódio são “dominantes”, é particularmente propicio e incrementa este tipo de situação de dúvida. Também, muito, porque facilita a resolução de ambiguidades por via de vieses de atribuição e confirmação, ao suscitar que as pessoas comuniquem a sua visão como a certa/verdadeira e ao ligar pessoas que “acreditam no mesmo”, o que neste caso permitiu a emergência e reforço de exemplos/comentários relativos, por exemplo, a eventuais investigações em curso ou ao célebre momento em que saiu um número não possível (0), para suscitar dúvidas sobre o jogo.
  5. Tudo isto seria não tão importante quanto é se se cingisse a esta chave do Totoloto. Infelizmente, não é assim. Nos 4 pontos anteriores estão pistas importantes para percebermos a desconfiança e as teorias da conspiração. Da origem da COVID-19, aos objectivos das vacinas. Dos “Pizzagte” ou “QAnon”, à “Grande Substituição” ou ao suposto “peso” para a Segurança Social da população imigrante em Portugal. Tudo a lembrar-nos a importância de reflectirmos sobre como interpretamos o Mundo e tomamos decisões… Sobre os efeitos das redes sociais e novas tecnologias e a justificar a necessidade de reforçarmos a confiança e a literacia digital e em ciência de toda a população.
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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Política

O desemprego como factor de risco da saúde mental e do bem-estar (Ao redor…; 02.05.2023)

Há 10 anos, o Instituto Nacional de Estatística publicava os dados consolidados do (des)emprego em Portugal no primeiro trimestre desse ano de 2013. “Novo máximo histórico”, destacava-se, com o aumento para 17,7% de população (mais de 950.000 pessoas) em situação de desemprego, a diminuição em 70.000 pessoas da população activa e em 100.000 do número de pessoas empregadas, apenas num trimestre, resultante, também, do saldo migratório e das pessoas que haviam desistido de procurar emprego. Mais, eram já 10,4% as pessoas em situação de desemprego de longa duração (560.000 pessoas há mais de um ano), 42,1% as e os jovens até 24 anos e 21,3% entre os 25 e os 34 anos. Mais de um em cada cinco jovens em média do meu grupo etário. Não sendo um destes jovens, tinha-os no grupo de amigos e nas pessoas mais próximas e vi alguns deles partirem para fora do país, uns cumprindo uma vontade, outros uma inevitabilidade. Uns voltando depois, outros não mais voltando até hoje.

Tínhamos nesse momento um plano nacional de saúde mental (PNSM) para o período 2007-2016, com implementação paupérrima, sem recursos, quer a nível da sua coordenação, quer, particularmente, de reforço dos serviços/unidades de saúde para a sua implementação. Durante estes anos, nada se alterou no seu desenho e na sua não-implementação, mesmo tendo-se assistido a uma grave crise socioeconómica. Como exemplo, nesse período, verificou-se apenas um aumento no número de médicas/os psiquiatras (particularmente em internato), mas uma diminuição do número total de outros profissionais integrados nas equipas de saúde mental (psicologia, enfermagem, serviço social, entre outras), algo nos antípodas das melhores práticas e recomendações internacionais, do próprio PNSM e paradigmático do não investimento na prevenção da doença e na promoção da saúde mental.

É certo que temos vivido de desafio em desafio e, talvez por isso, tenhamos menos oportunidade de reflectir sobre as consequências de cada um no presente e futuro das pessoas, comunidades e país. Importa, no entanto, que tenhamos presente que o trabalho e o emprego de qualidade e com valores ajustados à pessoa – ao garantirem uma estrutura do quotidiano e tempo das pessoas adultas; um contexto e prática fundamental à identidade; ao conferirem propósito e significado; e ao permitirem uma importante interacção e conexão social – são fundamentais à nossa saúde mental, bem-estar e qualidade de vida. Que tenhamos presente que a ausência de um emprego de qualidade e com valores ajustados à pessoa são factores de risco de saúde mental e bem-estar. E que a transição para uma situação de desemprego e, particularmente, a vivência em situação de desemprego por um período longo pode ser uma fonte expressiva de stresse e ansiedade e, até, um evento potencialmente traumático.

Particularmente o desemprego de longa duração porque, como noutros eventos adversos significativos, a nossa resposta psicológica aos eventos tem diversas fases e, quando não adaptativa, tende a avançar do “choque” inicial e de uma fase ainda caracterizada por algum optimismo, para uma fase mais pessimista, já marcada pelo sofrimento psicológico, ou mais fatalista, com falta de entusiasmo e esperança no futuro. Com estas, a quebra de autoestima, as alterações ao autoconceito e as dúvidas nas próprias capacidades, junto com a percepção de falta de controlo sobre a vida e o futuro e a desesperança e, ainda, com uma sensação de não contributo para a família e para a comunidade, formam um triângulo que condiciona as possibilidades de bem-estar e periga a saúde mental. Determina ou influencia mesmo, em diversas situações, a emergência de sintomatologia ou até de quadros depressivos e ansiosos, situações de consumo de substâncias ou de stresse pós-traumático e risco acrescido de suicídio.

Como noutros fenómenos complexos e multideterminados, porém, não existem inevitabilidades ou unidireccionalidades. Naturalmente, nem todas as pessoas em situação de desemprego ou de desemprego de longa duração, desenvolvem doença mental, apesar das dificuldades que sentiram nesta área e da quebra de bem-estar. Mas, que quem tem problemas de saúde mental resultantes de vivenciar uma situação desta natureza, tem também mais dificuldade em sair dela. E, quando ao desemprego se associa a dificuldade/incerteza económica, existirá pior prognóstico de recuperação (na área da depressão os estudos indicam que pessoas com dificuldades financeiras têm cerca de 4 vezes maior probabilidade de continuarem nessa situação 18 meses depois).

Tudo isto nos impele a olhar responsavelmente as políticas públicas de emprego como fulcrais e preponderantes em diversas áreas da vida. Da procura do estímulo à possibilidade da garantia de empregos de qualidade, com valores ajustados às pessoas e correspondente ao combate à precariedade, apresentado como objectivo da Agenda do Trabalho Digno e das alterações ao Código do Trabalho em vigor desde 1 de Maio último. À necessidade de apoio e suporte, também emocional e psicológico, aquando da transição de uma situação de emprego para desemprego. Finalmente, à necessidade de complementar medidas de estímulo à procura activa de emprego de pessoas em situação de desemprego (especialmente de longa duração), com acções informadas pela ciência psicológica, nomeadamente de promoção de saúde mental e intervenção nas dimensões motivacionais, cognitivas e socioemocionais, algo cuja evidência demonstra aumentar significativamente a eficácia dos programas e das medidas de emprego.

Os números com que iniciei este artigo melhoraram nesta década e, felizmente, hoje são distintos. Apesar disso, é ainda notório o forte impacto desta realidade nas pessoas e famílias, ajudando a explicar, também com a precariedade e a pobreza/exclusão, problemas significativos do país como a natalidade, a dimensão e qualificação da população activa ou a produtividade. Sabemo-lo porque conhecemos, certamente, famílias que se “destruturaram” neste período, casais que se separaram sem se divorciarem e que adiaram ou mesmo não cumpriram desejos de (re)viver a maternidade/paternidade. Jovens que não puderam investir na sua formação e especialização. Adultos e pessoas mais velhas que não tiveram iguais oportunidade de autocuidado, de desenvolvimento e motivação para aumentarem as suas qualificações. Sabemos, sentimos, em diversos papéis tudo isto, mas… Pouco, muito pouco, falávamos em 2013 de saúde mental. Menos, ainda menos, investimos em saúde mental.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, temos de fazer do dia 1 de Maio momento de celebração de quem trabalha e de aspiração para quem, momentaneamente e contra a sua vontade, não se encontra a trabalhar. Temos de falar sobre emprego, desestigmatizar a situação de desemprego e prevenir a autoculpabilização das pessoas por essa sua situação. Temos de promover a saúde mental, o bem-estar e a qualidade de vida, também trazendo mais ciência à reflexão sobre as causas e efeitos do desemprego e estimulando/informando abordagens baseadas na evidência para a promoção de emprego de qualidade e com valores ajustados para todas as pessoas.

 

Tiago Pereira

O desemprego como factor de risco da saúde mental e do bem-estar

in Sábado (Ao redor…); 02.05.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-desemprego-como-factor-de-risco-da-saude-mental-e-do-bem-estar