
Nunca?
Ontem perdemos Cormac McCarthy, escritor norte-americano que comigo partilhava o seu mês de nascimento, embora com meio século de diferença (faria no próximo mês 90 anos). E que diferente é ter vivido o (Mundo) que viveu face ao (Mundo) que eu vivi e viverei.
Perdemos alguém que nos deu muito a pensar e reflectir, através da sua vida e da sua escrita. A mim deixa-me a adaptação feita pelos irmãos Coen de um seu livro para o filme “No country for old men”. Deixa-me, mais significativamente ainda, os seus livros, particularmente, o “Meridiano de Sangue” e o “A Estrada”.
Apesar de em 2011, sei exactamente o momento da minha vida em que li este último. Sei de lugares onde o li. E sei, mais, a forma como trata nele a ideia do “nunca”, na perspectiva de nunca ser “imenso tempo” e no questionar “em que é que o nunca que existirá difere do nunca que existiu”? Em quê mesmo?
Soube da sua morte num lugar onde o nunca é, a cada momento, questionado. Onde a ideia da estrada rumo ao “nunca” como lugar ganha outro significado. Também onde o contexto, conforme no “Meridiano de Sangue”, muito determina, com uma força e um poder “até aos ossos”. Em que a fronteira se dilui, existindo, co-existindo e não existindo tudo e quase sempre ao mesmo tempo.
Soube da sua morte num dos lugares mais impressionantes onde já estive. Celebro-o, como neste lugar celebrei ter acontecido o que há tempos seria pensado como improvável, senão impossível, lembrando-o na sua escrita:
“Se quebrares pequenas promessas, quebrarás as grandes”.
Que não o esqueçamos… Que não esqueçamos que nunca é demasiado tempo. Eu, voltarei sempre a ele, para que, neste caso, nunca não seja mesmo demasiado tempo.
Obrigado, Cormac.