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Temos (mesmo) de falar sobre pobreza e exclusão social

Penso claro para todas e todos que as questões da saúde mental estão hoje muito mais presentes no espaço/debate público face ao que acontecia há muitos, alguns e, até, há poucos anos. São diversos os fenómenos que para isso contribuem e que tornam relevantes projectos de comunicação nesta área que promovam a literacia, a personalização/concretização da informação e, fundamentalmente, a credibilidade, factualidade e cientificidade da mesma.

Penso claro, também, que este movimento beneficia do envolvimento de todas as pessoas. Que a secção do Observador dedicada à Saúde Mental é um excelente exemplo, pelo envolvimento de diversas entidades, projectos, profissionais de saúde e cidadãos. Que o título escolhido para a newsletter da secção (“Temos (mesmo) de falar sobre saúde mental”), da responsabilidade do Paulo Farinha, é profundamente significativo e representativo disso mesmo.

Há dias foi publicado o artigo/contributo meu para o projecto, que partilho. A propósito do título da newsletter chamei-lhe “Temos (mesmo) de falar sobre pobreza e exclusão social” e, destacando a importância de “aceder[mos] a informação de qualidade, cientificamente validada e ajustada aos nossos conhecimentos, experiências e necessidades para que possamos melhor reconhecer o que estamos a vivenciar, atribuir-lhe significado e promover mudanças”, reflicto sobre o facto de “falar sobre saúde mental implica[r] falar também sobre o que a influencia e, muitas vezes, determina”, particularmente da pobreza e exclusão social.

“Cresci numa aldeia que durante muito tempo via partir pessoas, demasiadas pessoas, e com elas, “partia” famílias, relações e a comunidade. Pessoas que, como o meu avô (e depois os meus 2 tios), saiam da aldeia e depois do país a pé, boleia aqui, boleia ali, a caminho de diferentes cidades e países (…) Eu sei o quanto a pobreza impacta a possibilidade de saúde, de bem-estar, de autodeterminação. Eu sei o quanto a pobreza e a exclusão limitam e obstaculizam a saúde mental. Eu sei e você sabe-o. Se queremos falar sobre saúde mental temos (mesmo) de falar sobre pobreza e exclusão social.”

Mas “todas as pessoas que vivem em situação de pobreza têm ou vão ter uma dificuldade de saúde mental ou mesmo desenvolver doença mental? Ou, todas as pessoas com doença mental vivem ou viveram em situação de pobreza e exclusão?”, questiono. “Não. E não. Mas, não sendo uma inevitabilidade, há uma relação forte entre a vivência em situação de pobreza e exclusão e os problemas de saúde mental, principalmente o stresse, a ansiedade e a depressão.”

“Temos (mesmo) de falar sobre saúde mental. De pessoas, da vida dessas pessoas por trás dos impressionantes números. De acesso e de equidade e qualidade no acesso a literacia, recursos e serviços na área da saúde mental, certamente. Mas, se queremos falar de saúde mental, temos também de falar sobre como combater a pobreza e os seus ciclos geracionais e de como construir uma sociedade mais inclusiva e mais sensível à diversidade.”

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Comportamento Educação Psicologia

Especiais interesses…

Não sei quantas e quantos de vós já estiveram dentro de uma pegada de dinossauro com cerca de 175 milhões de anos. Eu já estive e, além de fascinante, é uma sensação complexa, pela difícil concretização da ideia de estar, no presente, numa pequena cratera, produzida por um ser vivo de uma espécie extinta que, naquele caso, podia ter tido até 30 metros de altura e pesar 70 toneladas.

Mais quando a primeira vez que o fiz foi num momento em que ainda não abundava o acesso fácil à informação e à imagem que a internet e televisão/streaming proporcionam ou aos parques temáticos que, conjuntamente, permitem maior concretização.

Essa primeira vez seguiu-se a 3 acontecimentos significativos para mim naqueles anos próximos: um livro que recebi, hoje impossível pela crueza da informação e imagem e, até, pela informação hoje existente e não existente à época, livro que esteve no meu quarto de infância até ao dia em que mudou para o quarto do meu filho mais velho; o filme e todo o “universo Jurassic Park”; e todo o debate em torno da Pedreira do Galinha, ali a poucos km da minha aldeia, onde se tinham descoberto os trilhos de pegadas e onde meses (anos até) de debate se prolongaram até à abertura do parque das “Pegadas dos Dinossauros da Serra de Aire”. Hoje serão poucas as crianças que não visitaram já uma exposição ou um parque temático com reproduções próximas de diferentes dinossauros e/ou que não tenham acedido a ampla informação, imagens, vídeos sobre dinossauros. Mas…

O meu fascínio, o nosso fascínio, é o fascínio dos meus e nossos filhos, das crianças de hoje e, penso, de amanhã. Aqui e Mundo fora.

Fascínio que nos une, também porque atravessa gerações, reforçando a nossa curiosidade pelo que nos rodeia, pelo nosso passado, pela nossa história, pelo nosso planeta. Ainda, porque trata de seres vivos poderosos e gigantes, algo particularmente magnético para crianças e que se associa à atracção destas por meios de transporte / veículos de grandes dimensões (algo que também, hoje, testemunho) como autocarros, camiões, tractores, comboios ou aviões, estes últimos “voadores” como alguns dinossauros.

Podemos chamar-lhe “hiperfixação” ou “um especial interesse”. É comum, natural, talvez até desejável, seja face a dinossauros, como em tantas crianças, seja face a outro tema. Estimula o jogo baseado na imaginação e conceptualização, sendo particularmente benéfico para o desenvolvimento cognitivo das crianças pois requer (mais) atenção, persistência e aprofundamento da informação, além de relacionamento com outra informação e memória.

As férias, incluindo as “férias grandes”, são momentos relevantes para as famílias percorrerem estes especiais interesses das crianças. As escolas, aí à porta, em qualquer ciclo de estudo incluindo o pré-escolar, são instituições relevantes para reconhecerem e validarem os especiais interesses de cada aluna/o e garantirem espaços para o seu desenvolvimento, por exemplo, através de trabalho em equipa, grupo ou de projecto.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia

30 meses ao redor, um pedido e um compromisso

Hoje passam 30 meses da data em que escrevi o 1º artigo da rubrica “Ao redor”. Chamei-lhe “Nós e os nossos Mundos” e terminava com uma proposta: “Pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntas/os podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa.”

“Nesse dia, sabia dos desafios complexos do país e do Mundo nesse momento e sabia, também, que estariam para vir outros, não menos complexos e não totalmente previsíveis. Estávamos a 24 de Fevereiro de 2021 e não previa que, exactamente um ano depois, se entrasse numa escalada da invasão pela Federação Russa da Ucrânia e se iniciasse uma Guerra na Europa (…) É por isso, pensando no presente, mas sobretudo no futuro, que 63 artigos depois desse primeiro, aqui partilho um pedido e um compromisso.”

“30 meses ao redor, um pedido e um compromisso”, 64º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) parte do pedido de complementarmos o discurso sobre a necessidade de promovermos crescimento económico, “com a necessidade de promovermos, simultaneamente, a equidade e a segurança, incluindo psicológica, de pessoas e comunidades, como vectores fundamentais para, num quadro de direitos humanos, democracia e multilateralismo e de protecção do meio ambiente, contribuirmos para a possibilidade de bem-estar e para a coesão social.”

Afirma-o possível, como a redução significativa das desigualdades nas últimas 3 décadas demonstrou, mas desafiante, particularmente no que se refere a determinadas dimensões e a “iniquidades internas”, por ex. em Portugal, onde “o ritmo de decréscimo da desigualdade tem sido relativamente baixo no que se refere aos rendimentos e permanecem desfasamentos significativos na saúde, educação, habitação ou no acesso à recreação, cultura ou ao desporto pelo nível de rendimentos, localização (por vezes dentro da mesma cidade) ou pertença comunitária.”

Nele abordo ainda como “a ascensão das chamadas “democracias iliberais” e o retorno do autoritarismo em alguns países condicionam a segurança, incluindo a psicológica, e a igualdade, como fundamentos base das sociedades” essenciais “à promoção do bem-estar e da coesão social.”

Assumo, finalmente, o compromisso de, “enquanto este espaço e esta rubrica me for permitida, continuar a disponibilizar contributos, a partir de um olhar que procuro que seja informado pela ciência, para que este pedido seja tema e desígnio e de como é possível continuarmos e acelerarmos o caminho percorrido nestas áreas em Portugal e no Mundo.”

São particularmente significativos os “impactos da desigualdade e da insegurança psicológica nas pessoas e sua possibilidade de bem-estar, nas comunidades e seu desenvolvimento e na sociedade e sua coesão social” (…) “Por isso, este meu pedido, a quem me lê e também à minha ciência e profissão. Por isso, este meu compromisso, como responsável desta rúbrica e enquanto psicólogo.”

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Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia Tomada de Decisão

A confiança, uma vez mais…

Quem por aqui me vai acompanhando sabe-me fascinado por pormenores e pelo simbólico. O não tangível que partilhamos e aquilo em que precisamos de acreditar, juntos, para que exista. Da democracia ao dinheiro passando pelas instituições, é o facto de acreditarmos (ou não) neles que os (des)legitima e lhes dá (ou não) valor.

Nesse acreditar, a confiança é essencial. Confiança que vai sendo desafiada, ora pela quebra dos mediadores formais no acesso à (des)informação na sociedade contemporânea, ora por pessoas, organizadas ou não, com fins políticos ou económicos.

Quem por aqui me vai acompanhando sabe também que julgo que a confiança (em nós, nas/os outras/os e nas instituições) é um valor essencial a promover e preservar porque influencia a nossa possibilidade de bem-estar e a coesão social. Sabe, ainda, que defendo que acompanhemos as tendências da confiança da população, como fonte de informação sobre os factores que as determinam e para a tomada de decisão informada.

Nesse sentido, numa equipa coordenada pelo Miguel Ricou e que envolveu na 1ª fase a Sílvia Marina, a Helena Patrícia Pereira e o Ricardo Picoli e depois o Hugo Rodrigues Fernandes, promovemos dois pequenos estudos acerca da confiança em grupos profissionais no período da pandemia por COVID-19. O 1º publicado em Março de 2021 [COVID-19 Pandemic: Effect on Confidence Levels of Portuguese Towards People of Different Professions]. O 2º há dias [Trends in trust of professional groups in Portugal during COVID-19].

Neles encontramos resultados que apontam para o aumento da confiança em grupos profissionais cuja actividade se baseia na ciência neste período, particularmente, em médicas/os, enfermeiras/ou e investigadoras/es, e uma tendência contrária em jornalistas e decisoras/es políticas/os, algo que, creio, merece reflexão.

“Em 1964 73% das/os Republicanas/os dizia confiar que o governo federal faria o melhor sempre ou quase sempre. Hoje esse número desceu para 9%. Podemos ver a mesma tendência para os media, as Escolas ou Universidades públicas ou as vacinas. Não podemos compreender o Partido Republicano hoje sem compreender o colapso total da confiança nas instituições”, dizem-nos a abrir uma conversa com Katharine Ham’s sobre a “rampa deslizante” para a desconfiança nos EUA.

Ouço-o e evoco o Cormac McCarthy que no seu “A Estrada” tratou a confiança máxima entre pai e filho num contexto de desconfiança máxima, num Mundo pós-apocalíptico, com a civilização e as suas bases em colapso. Nele escreveu: “Tu tens de carregar o fogo. | Eu não sei como. | Sim, sabes sim. | O fogo é real? | O fogo? Sim, é. | Onde está? Eu não sei onde está. | Sim, sabes. Está dentro de ti. Sempre esteve lá. Eu consigo vê-lo.”

A confiança está dentro de nós. Que a carreguemos e que façamos, juntos, por a ver e nela acreditar.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política

Desenvolver perspectiva e construir esperança como antídoto para os desafios do presente e do futuro (Ao redor…; 09.08.2023)

“Não, acho que os tempos eram outros (…) Vivíamos em tempos sem medo do futuro. Com uma grande expectativa em relação ao que poderia vir do futuro.” Recentemente, num podcast, ouvi a Eurodeputada Marisa Matias dizê-lo, após explicar o seu dia-a-dia enquanto estudante universitária num momento em que, depois das aulas e durante cerca de dois anos, trabalhou entre as 22h e as 02h. “E tu pensavas quando estavas nesses trabalhos, nessas limpezas e a trabalhar à noite, que estavas numa espécie de ciclo fechado, que seria difícil sair dele? Ou seja, que estavas quase que fadada a uma vida que não sairia daquilo?”, havia perguntado o jornalista. “Sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E perspectiva.

Muito mudou nas décadas que passaram sobre o tempo em que a geração de 70 pensava o futuro quando adolescentes e jovens adultas/os. Muito. Mudaram as circunstâncias. Mudou a rapidez com que mudam as circunstâncias e como as mudanças nos impactam. Mudou a forma como acedemos e comunicamos as circunstâncias. Quando antes pensávamos e projetávamos e projetávamo-nos no futuro, hoje tendemos para o presente, como que soprados por ventos de incerteza. Hoje tendemos para o presente, como que estimulados por media e por redes sociais que reforçam a propensão humana de considerarmos mais o caso que a tendência, mais o negativo que o positivo.

Tudo a concorrer para que o medo emerja e se propague, gerando mais ansiedade e medo, dividindo-nos como sociedade, condicionando-nos e não nos permitindo florescer e desenvolver como indivíduos. Impelindo-nos para nos polarizarmos, como sociedade. Impelindo-nos para nos comportarmos, nos movermos, nos mobilizarmos mais pelo evitamento do que não queremos, do que não gostamos, do que não acreditamos, de quem não queremos que pela procura do que queremos, do que gostamos, do que acreditamos, de quem queremos. Para nos activarmos, pela oposição. Para, fundamentalmente, descrermos das outras e dos outros e da sociedade. Para desacreditarmos de nós. Para perdermos a perspectiva.

Mas, também no podcast, a Eurodeputada Marisa Matias conta-nos sobre o seu pai e sobre os quase dois anos em que este dormiu cada noite da sua semana em dois períodos. O imediatamente anterior ao despertador tocar para a ir buscar a Coimbra, onde estudava e trabalhava, às 02.30h de cada madrugada. O que sucedia à chegada de ambos e antecedia o despertador tocar, novamente, para mais um dia de trabalho seu e de estudo e trabalho dela. De uma ela, sua filha, “sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E esperança.

Uma esperança possível, naquele momento, dependente das circunstâncias, mas, também, do que e de quem nos rodeia. Não um desejo passivo. Não forças que ilegitimam as dúvidas, as dificuldades, a sobrecarga. Antes uma esperança enquanto energia que nos activa, pela agência. Antes uma esperança que nos devolve poder, controlo e motivação, porque nos dá um caminho. Uma esperança que previne que nos movamos pelo medo, de falhar (novamente), por exemplo. Uma esperança que previne que nos movamos pelo evitamento, de ousar tentar, para não falhar (novamente), por exemplo.

Uma esperança possível e que, também pela ciência que a estuda, sabemos que se desconstrói quando, perante a adversidade, a raiva ou a fúria bloqueiam objectivos perspectivados, resultando, sucessivamente, numa descrença que não nos permite ajustar objectivos, porque nos bloqueia os caminhos, e numa apatia que nos desmotiva e pode vencer. Mas, ao contrário, que se constrói, que se pode promover, ensinar, educar. Uma esperança que depende de identificarmos um caminho e de navegarmos através dele com sentido de agência e de controlo. Que vive de histórias significativas para nós e exemplos, que vão além da mera ocasião e são especialmente impactantes quando tratam processos de construção e vida longos no tempo e impacto. De como, ainda, vive do suporte social e de como a resistência colectiva promove a esperança colectiva. De como a esperança, individual e colectiva, nos pode activar, enquanto indivíduos e sociedade, e se sobrepor ao medo e ao evitamento.

A perspectiva e a esperança são antídotos poderosos para os impactos negativos dos complexos desafios do presente e do futuro. São veículos essenciais para navegar o Mundo actual e as suas circunstâncias, para a nossa adaptação e bem-estar. E, se forças existem que os desafiam, são também possíveis de ensinar, de educar, de desenvolver e, particularmente, de construir. Também pela ciência. Também com psicólogas e psicólogos, como motor junto de indivíduos e da sociedade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, precisamos de olhar e pensar mais as tendências e menos as manchetes. Mais as tendências dos dados que determinam o bem-estar e como têm ou não evoluído. Menos as manchetes dos media que nos dão o acontecimento, em cima do acontecimento, não raras vezes marcado pela negatividade. Mas, também, mais as nossas tendências e menos, apenas, o nosso dia-a-dia, não raras vezes marcado pela adversidade. Recuperar um “sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E desenvolver perspectiva, construindo esperança.

 

Tiago Pereira

Desenvolver perspectiva e construir esperança como antídoto para os desafios do presente e do futuro

in Sábado (Ao redor…); 09.08.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/desenvolver-perspectiva-e-construir-esperanca-como-antidoto-para-os-desafios-do-presente-e-do-futuro

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Dualidade(s)

Ontem nasceu em Portugal o primeiro bebé por inseminação pós-morte. O Hugo resulta de uma luta e activismo da sua mãe, Ângela, que nos e o inspirará, estou certo, vida fora. Desse activismo, e de um desejo partilhado com o seu marido que faleceu vítima de cancro aos 29 anos, e que deixou escrito que o desejava, mesmo quando a Lei ainda não o permitia.

Lei esta, agora com resultado concreto, cuja base, desafiante, não depende apenas das áreas da Medicina, Direito ou Ética. Envolve, também e necessariamente, a Psicologia e a consideração dos impactos psicológicos destes processos, naturalmente complexos, em todas as pessoas envolvidas. Isso mesmo referiu a Ordem dos Psicólogos Portugueses no contributo científico em fase de discussão da alteração à Lei (https://recursos.ordemdospsicologos.pt/files/artigos/parecer_sobre_projectos_de_lei_n___214_xiv__223_xiv__237_xiv_e_572_xiv.pdf) que o passou a possibilitar e que permitiu, entre outras alterações, que fosse nela incluído um ponto (Art. 22º; 7) que refere que “É assegurado, a quem o requerer, acompanhamento psicológico no quadro da tomada de decisão de realização de uma inseminação post mortem, bem como durante e após o respetivo procedimento.” Um contributo da ciência e da prática das psicólogas e psicólogos para, cremos, melhorar a Lei e reforçar a possibilidade de bem-estar de todas as pessoas envolvidas e a confiança da sociedade nestes processos.

Este nascimento acontece, curiosamente, quando estou a ler um pequeno livro cujo narrador é um bebé ainda no útero da sua mãe, no seu último trimestre de gravidez. A certa altura tem uma passagem impactante sobre a sua dúvida em se nascerá num “tempo bom” quando considera os desafios do tempo presente (de há menos de uma década) de um Reino Unido onde nascerá Vs. o tempo do bem-estar e de todos os indicadores que, retirando os desafios imensos que descreveu, tornariam sempre o melhor e, eventualmente, mais seguro momento para nascer e viver no contexto do UK.

Esta dualidade creio que nos acompanha também nestes exemplos. Esta possibilidade, oportunidade, mesmo num tempo desafiante. Esta, outras, outra.

Penso, por exemplo, o que pensaria G. Engel quando, após a publicação em 1977 de um artigo na Science propondo um “modelo biopsicossocial” que desafiasse “o modelo biomédico” que “não deixa espaço na sua conceptualização ao papel das dimensões sociais, psicológicas e comportamentais na doença”, veria passarem 23 anos até ao fim do século e milénio e mais 23 anos de novo século e milénio para as United Nations aprovarem, em 26 de Junho último, a primeira resolução sobre “saúde mental e suporte psicossocial” para o desenvolvimento sustentável e paz, assente na protecção direitos humanos.

46 anos passaram, é certo. Mas temos hoje aprovada por unanimidade (e bem sabemos o quão isso é relevante por difícil ao tratar direitos humanos no quadro dos países da ONU) uma resolução que o determina e nos convoca. A todas e todos, por todas e todos.

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Fact Check – PHDA

A 30 de Julho de 1962 a capa do New York Times assinalava o pedido de “desculpas incondicionais” do presidente Eisenhower (EUA) à Suécia. Pedido de desculpas relativo a um discurso que havia feito 2 anos antes onde associara as políticas sociais da Suécia a um caminho para um país de “pecado, nudez, consumo excessivo de álcool e suicídio”. Sabemos, ainda melhor hoje e com maior escala de dados, a evolução da Suécia nestes 60 anos. Mas já sabíamos da inversão da taxa de suicídio, particularmente nos homens a partir dos anos 50, e que sendo ainda muito alta nos anos 60, muito decresceu, sendo já há anos mais baixa que a dos EUA.

Sabemos. Sabíamos. Mas a utilização de informação não factual ou de desinformação em política não é um fenómeno de hoje. Como não o é noutros aspectos da nossa vida, do marketing à saúde, incluindo, pela sua sensibilidade, a saúde mental e parentalidade. Tem passado. Tem presente, expandido pela diminuição de mediadores na comunicação, pela tecnologia que aumenta o acesso e pelos algoritmos das redes sociais que estimulam a sua (rápida) propagação e polarização. Terá futuro, com tecnologias ainda mais poderosas e, potencialmente, impactantes.

Pelo seu papel na saúde e bem-estar de indivíduos, na saúde pública, equidade e coesão da sociedade, projectos diversos de fact check são fundamentais ao tempo que vivemos. Partilho um, da autoria da Ana Kotowicz, uma importante colaboração do Observador com o Facebook, com contributo meu.

Trata-se do “Fact Check – Teste online permite fazer diagnóstico de perturbação de hiperatividade com défice de atenção?” a propósito de uma publicação assim resumida pela jornalista: “Nas redes sociais, um destes testes [Motion Induced Blindness] está a ser partilhado como uma forma de testar, muito rapidamente, se se tem Perturbação de Hiperatividade com Défice de Atenção (PHDA). O problema? Não é verdade, como explica ao Observador o psicólogo Tiago Pereira.” Continua referindo que argumento existir “um aspeto positivo que leva a que este tipo de publicações apareçam”, a crescente “procura de informação sobre o tema e isso é bom” e que “a parte menos boa é que a informação factual coabita com informação não factual e enganadora, assim como a ciência coabita com a pseudociência nas redes sociais.”

Na peça refiro-me, ainda, a dados de prevalência e questões associadas ao diagnóstico de PHDA e aponto a especial “perversidade” da publicação dado que num dos poucos estudos que existem sobre a utilização do teste para diagnóstico de PHDA as/os autores “reconhecem [sublinhando-o] que não é possível utilizar esta ilusão visual para fazer um diagnóstico”.

Como o pedido desculpas, o fact check não resolve tudo, bem sabemos. Mas também sabemos da importância de repor a factualidade, a ciência, e, particularmente, de criarmos espaço, contexto e estímulo nas redes sociais e na sociedade que, com liberdade, não permita a diluição da fundamental separação entre ciência e pseudociência e factos e opiniões.

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APA 2023 | You belong here

“You belong here”. Este “pertences aqui” foi a impactante assinatura da Convenção da American Psychological Association de 2023. E o “pertences aqui” ganha particular relevância quando ali estamos, num país e numa associação com enormes complexidades, entre as e os que constroem e desenvolvem a nossa ciência (das/os jovens investigadoras/es às históricas referências) e que, dia-a-dia, um pouco por todo o Mundo, a advogam e praticam, por vezes em condições muito exigentes.

Pertences aqui. Pertencemos aqui. A uma ciência e profissão que tem a possibilidade mas, sobretudo, o dever de olhar o micro mas também o macro, de olhar o local, o nacional, o regional, o global. Uma ciência e profissão que deve integrar isso mais e mais nas suas práticas de investigação e intervenção, incorporando especificidades e, mesmo que muito mais difícil, aproximando a ciência das pessoas que pretende impactar na forma como a faz e a transfere para a sociedade civil, para decisoras/es e nas suas práticas, aumentando a sua eficácia e eficiência, o impacto e garantindo mais confiança das pessoas na ciência e nos profissionais.

Uma ciência e uma prática que deve prosseguir o multilateralismo. Uma ideia de construção conjunta a partir de uma base identitária de uma psicologia no quadro dos direitos humanos a contribuir para a possibilidade de autodeterminação de todas as pessoas. Algo para o qual procurei contribuir na sessão (e grupo de discussão) “Moving Forward a Global Perspective: Developing Effective Strategies” [Construindo uma Perspectiva Global: Desenvolver Estratégias Específicas], onde coordenei o grupo de trabalho em torno dos contributos da psicologia para a erradicação da pobreza, conjuntamente com a representação da USAID – Bureau for Humanitarian Assistanceque coordenou o grupo sobre a erradicação de terapias de reconversão sexual e oFernando de la Mora Salcedo das United Nations que coordenou o grupo dos contributos para a melhoria de acesso a serviços na área da saúde mental.

Uma ciência e uma prática que deve advogar pela saúde pública e pela protecção das pessoas. Num tempo de crescente obscurantismo e de desafios e questionamento à ciência, reforçar a sua ligação às pessoas, promover a confiança e a forma como “entrega” resultados positivos é fundamental. Também aqui, algo para o qual procurei contribuir na sessão “Is Psychotherapy a Separate Profession from Therapy Delivered by Psychologists?” [É a Psicoterapia uma profissão separada da Psicologia?] num quadro internacional, discussão a partir da realidade e dos contributos dos EUA discutidos pela Amanda Clinton, Ph.D., de Espanha pelo Manuel Berdullas (Consejo General de la Psicología de España) e de Portugal, por mim apresentados e reflectidos, com contributos fundamentais do David Dias Neto.

Isto, além dos diversos encontros/reuniões com associações congéneres e com boas e importantes, creio, perspectivas para o futuro, também para a psicologia em Portugal.

Pertences aqui. Pertencemos aqui.

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O país precisa de mais saúde pública. A saúde pública precisa de mais psicologia. (Ao redor…; 26.07.2023)

Mas beneficiaria a saúde pública em Portugal de ter mais psicólogas/os nas suas equipas e de ter mais conhecimento e ciência psicológica no seu planeamento e na sua gestão e administração? Sim, estou certo de que sim. Tal qual estou certo de que a experiência da pandemia o demonstrou possível e os desafios do presente e futuro o exigem.

E beneficiaria, certamente, nos papéis mais tradicionalmente atribuídos a estes profissionais, na promoção da saúde mental, desde a promoção da literacia nesta área, à promoção do autocuidado e de respostas de prevenção e intervenção contingentes aos problemas, mas, também, na intervenção em situações de crise ou catástrofe.

Mas mais. Beneficiaria no contributo da psicologia, enquanto ciência comportamental, para o melhor desenho e maior efectividade das políticas públicas na área da saúde e no que aportaria aos processos de investigação e avaliação, por exemplo na percepção de risco, no risco comportamental ou custo-efectividade de intervenções. Beneficiaria no trabalho conjunto, multidisciplinar e de consultoria, junto de profissionais de saúde e na formação, activação, mobilização e possibilidade de promover educação psicológica deliberada relativa, por exemplo, à adesão a comportamentos pró-sociais e/ou manutenção de determinados comportamentos. No processo de transição digital, de integração de novas tecnologias e do trabalho com grandes números, fundamentais no domínio da saúde pública e que a psicologia pode apoiar, a par da capacitação dos consumidores de saúde e da melhoria dos processos de informação, comunicação e da eficácia de campanhas, por exemplo de prevenção do consumo de tabaco ou álcool.

Mas, considerando este papel e considerando a disponibilidade e motivação das psicólogas e dos psicólogos, parece justo perguntar porque são ainda tão escassos estes profissionais na área da saúde pública em Portugal? Tal qual parece justo responder que persistem barreiras históricas a esta maior integração que começam na compreensão do papel dos profissionais de psicologia e na sua incorporação na legislação que enquadra as equipas e a sua actividade. Obstáculos que se estendem a uma visão, embora em mutação, ainda pouco focada na promoção da saúde e prevenção da doença e que, ao invés, ainda tende a associar a saúde pública à doença, particularmente às doenças físicas, transmissíveis ou infecciosas, e a um modelo excessivamente, senão exclusivamente, biomédico, centrado, portanto, na/o médica/o, modelo para o qual são dirigidos os principais incentivos financeiros e recursos humanos.

Quebrar estas barreiras e ultrapassar estes obstáculos é algo fundamental para o país responder, também via saúde pública, ao desafio de acrescentar ao aumento da esperança média de vida da população, anos de vida com qualidade e cuidados de saúde mais humanizados e personalizados. Para tal é necessário que, paralelamente ao aumento de recursos humanos na saúde, decorrente das maiores necessidades presentes e futuras, se diversifique a gestão e constituição das equipas e as suas competências, melhorando as suas capacidades, a sua eficiência e uma visão mais biopsicossocial de pessoas e comunidades. É exactamente o preconizado pela Organização Mundial da Saúde que tem advogado, a partir do conceito “uma só saúde”, pelo reforço do papel das políticas ambientais e sociais na saúde (pública) e pelo aumento do investimento em abordagens multissectoriais e multidisciplinares de saúde pública. Nada mais importante. Nada mais essencial, também em Portugal.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, ao crescente reconhecimento da população e da sociedade civil do papel da psicologia e das psicólogas e psicólogos, deveria corresponder uma mais rápida e decisiva integração destes profissionais nas equipas de saúde pública, a par do reforço da própria saúde pública e das políticas de promoção da saúde e bem-estar no nosso país. Um e outro aspecto são fulcrais à promoção da sustentabilidade dos serviços públicos e a um país mais coeso e resiliente face às adversidades hoje existentes e que se prevêm para o futuro. Fulcrais, ainda, a mais solidariedade e ao caminho para transformações sociais essenciais ao reforço do acesso e da equidade de acesso à saúde e da possibilidade de bem-estar para todos.

 

Tiago Pereira

O país precisa de mais saúde pública. A saúde pública precisa de mais psicologia.

in Sábado (Ao redor…); 26.07.2023

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Into the Wild – Guaranteed

Esta é uma das vistas da praia de Ribeira d’Ilhas (Ericeira), quando olhada da estátua à/ao Surfista. Uma de um conjunto de lindas praias da costa portuguesa, algumas que frequentaremos nas próximas semanas. Esta com duas particularidades. Ser próxima de onde vivo, logo local de fruição com família e encontro com amigas/os. Ser particularmente apreciada por praticantes de Surf, sejam amadoras/es ou profissionais.

Um deles, embora amador, nada tem de desconhecido. Eddie Vedder, desde há muito, quando em Portugal, procura-a para praticar Surf, contactando com a natureza e, como refere, sentindo-se “mais um” nesse encontro. Já o fez após o seu trabalho “Into the Wild”, banda sonora do filme com o mesmo nome, onde aborda esta busca da natureza em músicas como a “Guaranteed” que, numa tradução possível, assim começa:

“De joelhos dobrados não é forma de ser livre;

Erguendo um copo vazio, pergunto em silêncio;

Que todos os meus destinos aceitem aquele que sou;

Para que possa respirar“

Por aqui, há dias, escrevi a propósito da falácia do apelo pelo natural quando conjugado com a negação da ciência e, ainda mais, quando estimula desigualdades. Hoje, porém, gostava de reflectir um pouco sobre a importância do natural (e da natureza) quando conjugado com a ciência e, ainda mais, na procura da equidade e iguais possibilidades para todas e todos.

Faço-o partindo, exactamente, de um “Into the Wild”, título de uma metanálise de estudos que tratam o impacto de intervenções psicológicas/psicoterapêuticas em contexto natural (fora de gabinetes convencionais) que discute os seus prós e desafios, permitindo pensar este tipo de intervenção como potencialmente promotoras de melhores resultados, em determinadas circunstâncias e pessoas.

Faço-o pensando nas novas formas que a psicologia tem encontrado (e deve continuar a procurar) para chegar a mais pessoas, em diferentes contextos e momentos de vida, considerando os enormes desafios hoje da saúde mental e bem-estar. Formas que devem ir além das “clínicas” (ainda que fundamentais em determinadas situações) e incluir, mais e mais, caminhos para a prevenção e promoção da saúde mental ao longo da vida. Desde logo informando e apoiando a formação de outros profissionais nestas dimensões, particularmente quando com funções essenciais na sociedade civil desde as Escolas aos estabelecimentos que mais directamente contactam com pessoas como pastelarias ou restaurantes, cabeleireiros/barbeiros e salões de beleza aos clubes e associações desportivas, recreativas, culturais e/ou religiosas.

Caminhos fundamentais para mais psicologia, mais próxima das pessoas e mais personalizada às necessidades de cada um/a. Para uma sociedade mais sensitiva e mais promotora de saúde mental. Para uma sociedade menos (Into the) “Wild” e mais “Guaranteed” (for all).