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Desenvolver perspectiva e construir esperança como antídoto para os desafios do presente e do futuro (Ao redor…; 09.08.2023)

“Não, acho que os tempos eram outros (…) Vivíamos em tempos sem medo do futuro. Com uma grande expectativa em relação ao que poderia vir do futuro.” Recentemente, num podcast, ouvi a Eurodeputada Marisa Matias dizê-lo, após explicar o seu dia-a-dia enquanto estudante universitária num momento em que, depois das aulas e durante cerca de dois anos, trabalhou entre as 22h e as 02h. “E tu pensavas quando estavas nesses trabalhos, nessas limpezas e a trabalhar à noite, que estavas numa espécie de ciclo fechado, que seria difícil sair dele? Ou seja, que estavas quase que fadada a uma vida que não sairia daquilo?”, havia perguntado o jornalista. “Sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E perspectiva.

Muito mudou nas décadas que passaram sobre o tempo em que a geração de 70 pensava o futuro quando adolescentes e jovens adultas/os. Muito. Mudaram as circunstâncias. Mudou a rapidez com que mudam as circunstâncias e como as mudanças nos impactam. Mudou a forma como acedemos e comunicamos as circunstâncias. Quando antes pensávamos e projetávamos e projetávamo-nos no futuro, hoje tendemos para o presente, como que soprados por ventos de incerteza. Hoje tendemos para o presente, como que estimulados por media e por redes sociais que reforçam a propensão humana de considerarmos mais o caso que a tendência, mais o negativo que o positivo.

Tudo a concorrer para que o medo emerja e se propague, gerando mais ansiedade e medo, dividindo-nos como sociedade, condicionando-nos e não nos permitindo florescer e desenvolver como indivíduos. Impelindo-nos para nos polarizarmos, como sociedade. Impelindo-nos para nos comportarmos, nos movermos, nos mobilizarmos mais pelo evitamento do que não queremos, do que não gostamos, do que não acreditamos, de quem não queremos que pela procura do que queremos, do que gostamos, do que acreditamos, de quem queremos. Para nos activarmos, pela oposição. Para, fundamentalmente, descrermos das outras e dos outros e da sociedade. Para desacreditarmos de nós. Para perdermos a perspectiva.

Mas, também no podcast, a Eurodeputada Marisa Matias conta-nos sobre o seu pai e sobre os quase dois anos em que este dormiu cada noite da sua semana em dois períodos. O imediatamente anterior ao despertador tocar para a ir buscar a Coimbra, onde estudava e trabalhava, às 02.30h de cada madrugada. O que sucedia à chegada de ambos e antecedia o despertador tocar, novamente, para mais um dia de trabalho seu e de estudo e trabalho dela. De uma ela, sua filha, “sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E esperança.

Uma esperança possível, naquele momento, dependente das circunstâncias, mas, também, do que e de quem nos rodeia. Não um desejo passivo. Não forças que ilegitimam as dúvidas, as dificuldades, a sobrecarga. Antes uma esperança enquanto energia que nos activa, pela agência. Antes uma esperança que nos devolve poder, controlo e motivação, porque nos dá um caminho. Uma esperança que previne que nos movamos pelo medo, de falhar (novamente), por exemplo. Uma esperança que previne que nos movamos pelo evitamento, de ousar tentar, para não falhar (novamente), por exemplo.

Uma esperança possível e que, também pela ciência que a estuda, sabemos que se desconstrói quando, perante a adversidade, a raiva ou a fúria bloqueiam objectivos perspectivados, resultando, sucessivamente, numa descrença que não nos permite ajustar objectivos, porque nos bloqueia os caminhos, e numa apatia que nos desmotiva e pode vencer. Mas, ao contrário, que se constrói, que se pode promover, ensinar, educar. Uma esperança que depende de identificarmos um caminho e de navegarmos através dele com sentido de agência e de controlo. Que vive de histórias significativas para nós e exemplos, que vão além da mera ocasião e são especialmente impactantes quando tratam processos de construção e vida longos no tempo e impacto. De como, ainda, vive do suporte social e de como a resistência colectiva promove a esperança colectiva. De como a esperança, individual e colectiva, nos pode activar, enquanto indivíduos e sociedade, e se sobrepor ao medo e ao evitamento.

A perspectiva e a esperança são antídotos poderosos para os impactos negativos dos complexos desafios do presente e do futuro. São veículos essenciais para navegar o Mundo actual e as suas circunstâncias, para a nossa adaptação e bem-estar. E, se forças existem que os desafiam, são também possíveis de ensinar, de educar, de desenvolver e, particularmente, de construir. Também pela ciência. Também com psicólogas e psicólogos, como motor junto de indivíduos e da sociedade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, precisamos de olhar e pensar mais as tendências e menos as manchetes. Mais as tendências dos dados que determinam o bem-estar e como têm ou não evoluído. Menos as manchetes dos media que nos dão o acontecimento, em cima do acontecimento, não raras vezes marcado pela negatividade. Mas, também, mais as nossas tendências e menos, apenas, o nosso dia-a-dia, não raras vezes marcado pela adversidade. Recuperar um “sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E desenvolver perspectiva, construindo esperança.

 

Tiago Pereira

Desenvolver perspectiva e construir esperança como antídoto para os desafios do presente e do futuro

in Sábado (Ao redor…); 09.08.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/desenvolver-perspectiva-e-construir-esperanca-como-antidoto-para-os-desafios-do-presente-e-do-futuro

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