Quem por aqui me vai acompanhando sabe-me fascinado por pormenores e pelo simbólico. O não tangível que partilhamos e aquilo em que precisamos de acreditar, juntos, para que exista. Da democracia ao dinheiro passando pelas instituições, é o facto de acreditarmos (ou não) neles que os (des)legitima e lhes dá (ou não) valor.
Nesse acreditar, a confiança é essencial. Confiança que vai sendo desafiada, ora pela quebra dos mediadores formais no acesso à (des)informação na sociedade contemporânea, ora por pessoas, organizadas ou não, com fins políticos ou económicos.
Quem por aqui me vai acompanhando sabe também que julgo que a confiança (em nós, nas/os outras/os e nas instituições) é um valor essencial a promover e preservar porque influencia a nossa possibilidade de bem-estar e a coesão social. Sabe, ainda, que defendo que acompanhemos as tendências da confiança da população, como fonte de informação sobre os factores que as determinam e para a tomada de decisão informada.
Nesse sentido, numa equipa coordenada pelo Miguel Ricou e que envolveu na 1ª fase a Sílvia Marina, a Helena Patrícia Pereira e o Ricardo Picoli e depois o Hugo Rodrigues Fernandes, promovemos dois pequenos estudos acerca da confiança em grupos profissionais no período da pandemia por COVID-19. O 1º publicado em Março de 2021 [COVID-19 Pandemic: Effect on Confidence Levels of Portuguese Towards People of Different Professions]. O 2º há dias [Trends in trust of professional groups in Portugal during COVID-19].
Neles encontramos resultados que apontam para o aumento da confiança em grupos profissionais cuja actividade se baseia na ciência neste período, particularmente, em médicas/os, enfermeiras/ou e investigadoras/es, e uma tendência contrária em jornalistas e decisoras/es políticas/os, algo que, creio, merece reflexão.
“Em 1964 73% das/os Republicanas/os dizia confiar que o governo federal faria o melhor sempre ou quase sempre. Hoje esse número desceu para 9%. Podemos ver a mesma tendência para os media, as Escolas ou Universidades públicas ou as vacinas. Não podemos compreender o Partido Republicano hoje sem compreender o colapso total da confiança nas instituições”, dizem-nos a abrir uma conversa com Katharine Ham’s sobre a “rampa deslizante” para a desconfiança nos EUA.
Ouço-o e evoco o Cormac McCarthy que no seu “A Estrada” tratou a confiança máxima entre pai e filho num contexto de desconfiança máxima, num Mundo pós-apocalíptico, com a civilização e as suas bases em colapso. Nele escreveu: “Tu tens de carregar o fogo. | Eu não sei como. | Sim, sabes sim. | O fogo é real? | O fogo? Sim, é. | Onde está? Eu não sei onde está. | Sim, sabes. Está dentro de ti. Sempre esteve lá. Eu consigo vê-lo.”
A confiança está dentro de nós. Que a carreguemos e que façamos, juntos, por a ver e nela acreditar.