A 30 de Julho de 1962 a capa do New York Times assinalava o pedido de “desculpas incondicionais” do presidente Eisenhower (EUA) à Suécia. Pedido de desculpas relativo a um discurso que havia feito 2 anos antes onde associara as políticas sociais da Suécia a um caminho para um país de “pecado, nudez, consumo excessivo de álcool e suicídio”. Sabemos, ainda melhor hoje e com maior escala de dados, a evolução da Suécia nestes 60 anos. Mas já sabíamos da inversão da taxa de suicídio, particularmente nos homens a partir dos anos 50, e que sendo ainda muito alta nos anos 60, muito decresceu, sendo já há anos mais baixa que a dos EUA.
Sabemos. Sabíamos. Mas a utilização de informação não factual ou de desinformação em política não é um fenómeno de hoje. Como não o é noutros aspectos da nossa vida, do marketing à saúde, incluindo, pela sua sensibilidade, a saúde mental e parentalidade. Tem passado. Tem presente, expandido pela diminuição de mediadores na comunicação, pela tecnologia que aumenta o acesso e pelos algoritmos das redes sociais que estimulam a sua (rápida) propagação e polarização. Terá futuro, com tecnologias ainda mais poderosas e, potencialmente, impactantes.
Pelo seu papel na saúde e bem-estar de indivíduos, na saúde pública, equidade e coesão da sociedade, projectos diversos de fact check são fundamentais ao tempo que vivemos. Partilho um, da autoria da Ana Kotowicz, uma importante colaboração do Observador com o Facebook, com contributo meu.
Trata-se do “Fact Check – Teste online permite fazer diagnóstico de perturbação de hiperatividade com défice de atenção?” a propósito de uma publicação assim resumida pela jornalista: “Nas redes sociais, um destes testes [Motion Induced Blindness] está a ser partilhado como uma forma de testar, muito rapidamente, se se tem Perturbação de Hiperatividade com Défice de Atenção (PHDA). O problema? Não é verdade, como explica ao Observador o psicólogo Tiago Pereira.” Continua referindo que argumento existir “um aspeto positivo que leva a que este tipo de publicações apareçam”, a crescente “procura de informação sobre o tema e isso é bom” e que “a parte menos boa é que a informação factual coabita com informação não factual e enganadora, assim como a ciência coabita com a pseudociência nas redes sociais.”
Na peça refiro-me, ainda, a dados de prevalência e questões associadas ao diagnóstico de PHDA e aponto a especial “perversidade” da publicação dado que num dos poucos estudos que existem sobre a utilização do teste para diagnóstico de PHDA as/os autores “reconhecem [sublinhando-o] que não é possível utilizar esta ilusão visual para fazer um diagnóstico”.
Como o pedido desculpas, o fact check não resolve tudo, bem sabemos. Mas também sabemos da importância de repor a factualidade, a ciência, e, particularmente, de criarmos espaço, contexto e estímulo nas redes sociais e na sociedade que, com liberdade, não permita a diluição da fundamental separação entre ciência e pseudociência e factos e opiniões.