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O país precisa de mais saúde pública. A saúde pública precisa de mais psicologia. (Ao redor…; 26.07.2023)

Mas beneficiaria a saúde pública em Portugal de ter mais psicólogas/os nas suas equipas e de ter mais conhecimento e ciência psicológica no seu planeamento e na sua gestão e administração? Sim, estou certo de que sim. Tal qual estou certo de que a experiência da pandemia o demonstrou possível e os desafios do presente e futuro o exigem.

E beneficiaria, certamente, nos papéis mais tradicionalmente atribuídos a estes profissionais, na promoção da saúde mental, desde a promoção da literacia nesta área, à promoção do autocuidado e de respostas de prevenção e intervenção contingentes aos problemas, mas, também, na intervenção em situações de crise ou catástrofe.

Mas mais. Beneficiaria no contributo da psicologia, enquanto ciência comportamental, para o melhor desenho e maior efectividade das políticas públicas na área da saúde e no que aportaria aos processos de investigação e avaliação, por exemplo na percepção de risco, no risco comportamental ou custo-efectividade de intervenções. Beneficiaria no trabalho conjunto, multidisciplinar e de consultoria, junto de profissionais de saúde e na formação, activação, mobilização e possibilidade de promover educação psicológica deliberada relativa, por exemplo, à adesão a comportamentos pró-sociais e/ou manutenção de determinados comportamentos. No processo de transição digital, de integração de novas tecnologias e do trabalho com grandes números, fundamentais no domínio da saúde pública e que a psicologia pode apoiar, a par da capacitação dos consumidores de saúde e da melhoria dos processos de informação, comunicação e da eficácia de campanhas, por exemplo de prevenção do consumo de tabaco ou álcool.

Mas, considerando este papel e considerando a disponibilidade e motivação das psicólogas e dos psicólogos, parece justo perguntar porque são ainda tão escassos estes profissionais na área da saúde pública em Portugal? Tal qual parece justo responder que persistem barreiras históricas a esta maior integração que começam na compreensão do papel dos profissionais de psicologia e na sua incorporação na legislação que enquadra as equipas e a sua actividade. Obstáculos que se estendem a uma visão, embora em mutação, ainda pouco focada na promoção da saúde e prevenção da doença e que, ao invés, ainda tende a associar a saúde pública à doença, particularmente às doenças físicas, transmissíveis ou infecciosas, e a um modelo excessivamente, senão exclusivamente, biomédico, centrado, portanto, na/o médica/o, modelo para o qual são dirigidos os principais incentivos financeiros e recursos humanos.

Quebrar estas barreiras e ultrapassar estes obstáculos é algo fundamental para o país responder, também via saúde pública, ao desafio de acrescentar ao aumento da esperança média de vida da população, anos de vida com qualidade e cuidados de saúde mais humanizados e personalizados. Para tal é necessário que, paralelamente ao aumento de recursos humanos na saúde, decorrente das maiores necessidades presentes e futuras, se diversifique a gestão e constituição das equipas e as suas competências, melhorando as suas capacidades, a sua eficiência e uma visão mais biopsicossocial de pessoas e comunidades. É exactamente o preconizado pela Organização Mundial da Saúde que tem advogado, a partir do conceito “uma só saúde”, pelo reforço do papel das políticas ambientais e sociais na saúde (pública) e pelo aumento do investimento em abordagens multissectoriais e multidisciplinares de saúde pública. Nada mais importante. Nada mais essencial, também em Portugal.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, ao crescente reconhecimento da população e da sociedade civil do papel da psicologia e das psicólogas e psicólogos, deveria corresponder uma mais rápida e decisiva integração destes profissionais nas equipas de saúde pública, a par do reforço da própria saúde pública e das políticas de promoção da saúde e bem-estar no nosso país. Um e outro aspecto são fulcrais à promoção da sustentabilidade dos serviços públicos e a um país mais coeso e resiliente face às adversidades hoje existentes e que se prevêm para o futuro. Fulcrais, ainda, a mais solidariedade e ao caminho para transformações sociais essenciais ao reforço do acesso e da equidade de acesso à saúde e da possibilidade de bem-estar para todos.

 

Tiago Pereira

O país precisa de mais saúde pública. A saúde pública precisa de mais psicologia.

in Sábado (Ao redor…); 26.07.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-pais-precisa-de-mais-saude-publica-a-saude-publica-precisa-de-mais-psicologia

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