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Oh Lord, please don’t let me be misunderstood

“Oh Lord, please don’t let me be misunderstood”. Vivemos dias, mais uns, de enorme imprevisibilidade. Incredibilidade, até. Mundo fora e em Portugal. Dias onde a complexidade e múltiplas nuances – não se coadunando com simplificações, julgamentos e preconceitos sempre presentes – estimulam incompreensões, mal-entendidos, polarizações.

Por estes dias lia Bob Dylan, um dos prémios Nobel da literatura mais incompreendidos. No seu “A filosofia da canção moderna” (que recomendo) escreve sobre um conjunto de canções que inspira(ra)m o seu percurso. Entre elas, uma, interpretada por uma cantora (Nina Simone) também bastante incompreendida. Falo da “Don´t let me be misunderstood”, canção que Bob Dylan apresenta como “de mal-entendidos e ideias falsas”, sublinhando que “o problema de ser mal interpretado é que diminui o prazer da vida”. E a possibilidade de (co-)construção, acrescento eu.

Também há dias, embora há já mais alguns, participei num trabalho da @Rádio Renascença, onde procurei disponibilizar um conjunto de informações e reflexões que, espero, contribuam para prevenir “mal-entendidos e ideias falsas” sobre o ano profissional júnior (estágio profissional) da @Ordem dos Psicólogos Portugueses, particularmente reforçando o seu enquadramento enquanto um “primeiro ano de prática profissional supervisionada”, acompanhada e enquadrada num plano de formativo e de desenvolvimento profissional.

Na peça, focando também a necessidade de crescimento rápido para resposta às necessidades da população do número de profissionais no SNS, destaco que apesar do número crescente de psicólogas/os em Portugal (27.000, resultado de uma profissão ainda recente e com elevado crescimento anual), “nos últimos anos, houve uma melhoria do acesso dos profissionais a atividades na área da psicologia”. Para tal junta-se ao “impulso forte da OPP no advogar pela melhoria de acesso a serviços de psicologia nas mais diversas áreas e contextos, a procura cada vez maior por parte dos cidadãos” fazendo com que “tanto os serviços públicos como alguns privados estejam cheios e com listas de espera”, logo “subdimensionados face à procura”.

Isso reflecte-se, e refiro-o na peça, na diminuição da taxa de desemprego e aumento da procura de serviços reportada e no aumento significativo de novos anos profissionais júnior (2021 e 2022 foram dois dos anos com mais novas/os psicólogas/os júnior e 2023 será também um ano excepcional).

Há, no entanto, e como em qualquer assunto com complexidade, desafios pela frente, associados, desde logo, às alterações legislativas em curso. Também há, porém, oportunidades significativas, nomeadamente pela ainda elevada “capacidade de absorção de novos profissionais”, pelo aumento das possibilidades de estágio profissional em serviços públicos e, ainda, pelas novas áreas profissionais em forte expansão e “reforço de profissionais a trabalharem temáticas emergentes”, com significativo “benefício para a sociedade e para as pessoas”.

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“A psicoterapia nasce e realiza-se tipicamente num espaço individual. Mas esse encontro é estritamente ligado a uma história e a um contexto social, cultural e até político. A psicoterapia é um produto da nossa sociedade, mas também a molda. Certas ideias, que nascem ou são fortemente influenciadas pelas concepções da psicoterapia, invadem positivamente o espaço social. Os quatro exemplos discutidos são o papel da infância e da parentalidade, o enquadramento da sexualidade, a dimensão representacional dos comportamentos e afectos, e o princípio da equidade no acesso ao cuidado.

O capítulo aborda ainda a dimensão de poder que permeia as relações sociais e que, dessa forma, também está presente na psicoterapia. São refletidos os cuidados éticos que tal implica no sentido da vivência do poder nas relações de uma forma saudável. Tal como no tema anterior, procura discutir-se a relação circular entre a psicoterapia e sociedade e em que medida tal pode inspirar novas e mais positivas formas de encarar o poder socialmente.

A interacção conceptual entre a psicoterapia e a sociedade é benéfica para ambas. Por um lado, sociedade molda os clientes e a intervenção. Os pedidos e objetivos presentes não são idênticos aos motivos que traziam as pessoas à psicoterapia no passado ou noutros contextos. Por outro lado, a psicoterapia promove autonomia, autodeterminação, assertividade e respeito pelos outros – qualidades de um cidadão activo. A psicoterapia (e intervenção psicológica no geral), é por isso central na construção de uma polis de pessoas envolvidas e enquanto comunidade que procura deliberadamente o bem-estar geral.

“

Resumo do Capítulo: Psicoterapia, sociedade, poder e política: Entre o privado do encontro e o público da possível polis [@David Dias Neto e @Tiago Pereira]

Livro: A psicoterapia na Torre de Babel [Constança Biscaia e @David Dias Neto]

Colecção: Psicologia e Psicoterapia [@Telmo Mourinho Batista]

Editora: @Edições Silabo

….

A partir do Episódio | Psicoterapia, sociedade, poder e política: https://lnkd.in/d99qQA3d [@David Dias Neto, @Telmo Mourinho Baptista e @Tiago Pereira]

Podcast | A psicoterapia na Torre de Babel: https://lnkd.in/dimudiRw [@APTCCI]

 

……

Psicoterapia e Sociedade, Poder e Política:

Entre o privado do encontro e o público da possível polis

(Excerto)

Psicoterapia e Sociedade, Poder e Política

A ideia de existir uma relação entre a psicoterapia e a sociedade é uma ideia simultaneamente evidente e estranha. Evidente no sentido em que é claro que a psicoterapia é uma prática criada, desenvolvida e implementada no seio de uma sociedade e como resposta às circunstâncias, necessidades e expectativas das pessoas que a fazem. Estranha, por ser um processo, embora relacional, eminentemente individual, em espaço reservado por oposição a processos sociais públicos que ajudam a entender a sociedade. No entanto, são vários os exemplos desta relação e do seu carácter circular. Talvez menos evidente e mais estranha, é a ligação com a política, enquanto processo de ação, de tomada de decisão e de construção e interação entre grupos envolvendo relações de poder. Afinal, a psicoterapia é vista como uma forma de ajudar pessoas e não de promoção de uma ação social. Neste capítulo abordaremos e reflectiremos as pouco evidentes, estranhas, mas profundas, interligações entre a psicoterapia e a política, enquadradas em diferentes tempos da sociedade e nas sempre presentes relações de poder.

(…)

As ideias perigosas que partem da psicoterapia para a sociedade

(…)

A psicoterapia e a ideia de saúde mental participam também no processo de transformação e densificação dos valores humanistas. Neles também decorre a emergência dos direitos humanos e dos objectivos globais (e.g., do desenvolvimento sustentável). Aquilo que as teorias que subjazem à psicoterapia trazem, em diferentes momentos e, por isso, de formas distintas, é uma clarificação do que está na base e do conjunto de circunstâncias que conduzem ao sofrimento humano e de potenciais contributos para o superar.

(…)

Os vários modelos da psicoterapia sugerem que muito do que é relevante para o bem-estar (vs. Patologia) resulta ou é condicionado pelos primeiros anos de vida. A psicoterapia, a par de outras contribuições da ciência psicológica, concorre assim decisivamente para que os séculos XX e XXI tornem a infância um foco de atenção da sociedade e se consolide a ideia (e a filosofia) dos direitos das crianças.

(…)

Antes das perspetivas psicológicas subjacentes à psicoterapia, e influenciada pela religião, a sexualidade era, quando não negada, vista de forma desarticulada do resto do funcionamento humano, resquício da nossa animalidade, devendo pois ser coartada ou ignorada. Com a psicoterapia, em primeiro lugar pela psicanálise, a sexualidade começa a ser encarada como uma faceta humana indissociada da relação, que devia ser vivida de forma saudável e plena. Passou a associar-se a coartação da sexualidade ou a sua vivência “desequilibrada” a psicopatologia. Estas ideias foram social e politicamente muito influentes. A ideia de não só descriminalizar a homossexualidade, mas também penalizar a sua discriminação nasce destas ideias. A emancipação da mulher e a igualdade de direitos, independentemente do género ou orientação sexual também é fortemente influenciada por estas ideias de sexualidade e dos seus impactos no comportamento. A sexualidade feminina é equiparada em termos de valor à masculina e o caminho da independência desta da função reprodução é particularmente relevante. A condenação do abuso sexual, independentemente do contexto, é outro exemplo do desvio do foco da censura social.

(…)

Mais uma vez, os modelos psicológicos em que assentam algumas psicoterapias salientam duas dimensões que são importantes como determinantes do comportamento. Primeiro, as representações ou as crenças associam-se a determinados comportamentos. Estas representações envolvem dimensões atitudinais e afetivas que se relacionam com outro tipo de representações (e.g., visão de si, visão dos outros, emoções predominantes) e podem ter como base a falta de literacia. Segundo, a dimensão representativa não ser desligada de aspetos de processo (e.g., perceção, atenção, memória) que influenciam de forma relevante o comportamento

(…)

A quarta ideia tem que ver com a equidade, com o acesso e com uma ideia e um princípio da possibilidade de uma “psicoterapia para todas as pessoas”. A evolução do conceito de saúde para uma visão que inclui a saúde psicológica e o bem-estar, traz à sociedade este desafio referente à possibilidade de permitir acesso a cuidados de saúde psicológica e psicoterapêuticos mais amplos. Este princípio traz à psicoterapia alguma pressão para se repensar no sentido de poder chegar e impactar mais pessoas. Pensar um e outro movimento e esta tensão entre possibilidade, necessidade e justiça apoia a reflexão acerca de novas soluções.

(…)

O Poder na Psicoterapia

Muito se tem escrito sobre a psicoterapia envolver uma relação de poder. Esse poder é influenciado pela natureza da relação, pelas características do contexto e clientes, frequentemente a vivenciar períodos de maior vulnerabilidade. Essa vulnerabilidade aumenta o potencial impacto de más práticas e diminui a capacidade de os clientes as reconhecerem e agirem sobre elas.

(…)

Os psicoterapeutas agem no sentido de promover a mudança dos clientes de formas que não são necessariamente conhecidas ou conscientes para os últimos. Não se trata de um processo de manipulação, porque os objetivos da mudança são definidos pelos clientes no quadro do contrato e relação estabelecidos. Sê-lo-á quando, num registo de má prática, os psicoterapeutas procuram mudar os clientes em dimensões que estes não solicitaram. São abusos de poder, mesmo quando justificados como a interpretação do melhor para os clientes, a promoção de formas particulares de ser, de crenças, de tomadas de decisão específicas ou de formas de relacionar que vão para além dos pedidos.

(…)

Face a estas características, a prática de psicoterapia deve ser pautada por um conjunto relevante de cuidados éticos. Adicionalmente, esses cuidados éticos devem responder à evolução dos pedidos que chegam aos psicoterapeutas e à sociedade nas suas normas formais ou menos formais. Nomeadamente, estes cuidados devem ser acautelados nos processos de formação, desenvolvimento pessoal e enquadramento profissional dos psicoterapeutas. Estes processos são fundamentais na prestação de cuidados nesta área e, por isso, também são social e politicamente determinados porque dependentes de normativos legais. Os referidos cuidados éticos balizam os psicoterapeutas, protegem os clientes e apoiam o bom resultado do processo.

(…)

O exercício do poder no contexto da psicoterapia deve ser consciente, ciente das suas limitações, dos princípios éticos que o norteiam e centrado no respeito da autonomia dos clientes. Para que este objetivo seja cumprido, em termos da relação, o exercício de poder deve ser atento aos outros. Também num registo empático, mas também numa contínua apreciação dos impactos da intervenção ou da posição interpessoal dos psicoterapeutas e da construção da relação no processo psicoterapêutico.

(…)

Se a psicoterapia é o catalizador da mudança nos indivíduos e se os indivíduos fazem a polis – enquanto comunidade de cidadãos ativos – então a psicoterapia pode assumir o seu papel na construção de uma possível polis desejada pelos seus cidadãos.

Psicoterapia e Sociedade, Poder e Política: Entre o privado do encontro e o público da possível polis in A psicoterapia na Torre de Babel

David Dias Neto & Tiago Pereira

[Outubro de 2023]

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Política Psicologia Tomada de Decisão

A dúvida e o regresso aos outros

“O Mundo em que vivemos é desafiador e complexo. Sabemo-lo, muitas vezes de forma desconcertante [que o digam estas últimas 48 horas em Portugal], por vezes de forma irónica, outras vezes, infelizmente, com muito sofrimento.” Sendo-o, é preocupante que nos confrontemos com um tempo onde parece não existir espaço para a dúvida.

“A dúvida e o regresso aos outros”, 69º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) detalha e reflecte sobre as causas deste tempo de ausência de dúvida, “da polarização à sobrecarga e facilidade e rapidez de acesso a informação”, das “redes sociais e seus algoritmos” ao efeito descrito como Dunning-Kruger. Das heurísticas e vieses à nossa necessidade de pertença e enquadramento num grupo social.

No fundo, como “os nossos abundantes “nunca” e “sempre” navegam os ventos deste Mundo desafiador e complexo em que vivemos onde a dúvida parece não ter lugar. Rigidificam e limitam opções, diálogos e processos de adaptação no dia-a-dia e ao longo da vida. Afastam-nos de pessoas e de opiniões, polarizando-nos. Promovem a desconfiança que, essa sim e ao contrário da dúvida, floresce com consequências severas na diminuição da coesão social e da qualidade das instituições e da democracia.”

Aborda, depois, a forma como “cultivar a dúvida, a possibilidade de não estarmos (sempre) certos, é um contributo fundamental para respondermos aos desafios contextuais que se nos colocam”, detalhando e reflectindo, mais uma vez, sobre a forma como a podemos promover. Desenvolvendo “capacidades de escuta, relação e competências socio-emocionais”, promovendo “o interesse, a curiosidade e literacia científica e capacidade de pesquisa, organização e interpretação da informação” e contextos de “segurança psicológica” e comunicação aberta.

“Fazermo-lo pode, mesmo, ser um antídoto para interpretações, decisões e comportamentos automáticos e precipitados associados a processos como os de desinformação, de oposição e destruição e do extremar de posições. Pode, ainda e nesse sentido, ser fundamental a um questionamento essencial ao progresso social e científico, ser gerador de espaço de construção e co-criação, de um espaço de entendimento entre polos e posições diversas, permitindo mais crítica construtiva, colaboração e potenciado melhores e mais participadas respostas aos problemas e desafios mais significativos.” Pode ser estímulo para um outro RTO que não o “Return to Office”, o “Return to Others” [Regresso às Outras e Outros].

“A dúvida, ao invés de uma demonstração de fraqueza ou de vulnerabilidade, é virtuosa (…) Particularmente se assente em princípios de confiança e não de desconfiança, é elemento central de construção de soluções em áreas muito diversas, incluindo o respeito e a paz, de aproximação de comunidades e de progresso da sociedade, dependendo isso de que, dia-a-dia, nos nossos diferentes papéis, pratiquemos e utilizemos pensamento crítico e a dúvida construtiva.”

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Chão pegajoso.

“Chão pegajoso.” Eventualmente poderão não estar familiarizadas/os com este conceito, quando não literal e aplicado às dimensões económicas e sociais. A Susana Peralta abordou-o num artigo ontem no @PUBLICO (“Chão pegajoso: nascer pobre é uma fatalidade”), onde, com a evidência disponível (e muito devemos ao seu trabalho e das suas equipas) sublinha o quão a mobilidade social ascendente (de geração para geração, na mesma família), curiosamente conforme a descendente em Portugal é “fraca”.

Problema que, não sendo exclusivo de Portugal é particularmente relvante, muito condicionado as possibilidades de bem-estar das pessoas e o país, considerando a sustentabilidade dos serviços (públicos) e a coesão social. A Susana Peralta, também no artigo, refere que o “chão cola” particularmente em 3 dimensões: nível de educação (veja-se o trabalho/reflexão do @Miguel Herdade que aqui trouxe há semanas); nível de rendimento; e nível de privação mais básico (ausência de possibilidade de uma refeição proteica).

Quem me costuma ler/ouvir sabe que este é um tema de permanente reflexão minha. Regresso a ele porque, sendo os ciclos intergeracionais de pobreza um fenómeno naturalmente complexo, multidimensional e “não solúvel” com uma única acção ou política, sinto que reflectimos (e actuamos) pouco numa das suas principais dimensões: a vivência da infância precoce em situação de pobreza e os impactos desproporcionais dessa adversidade em toda a vida desses bebés e crianças.

A esse propósito, no final da semana em que se comemorou o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, conversei com a @Carla Rocha (a quem agradeço) em mais um “Quarto do Fundo” (que partilho), parceria da @Rádio Renascença com a @Ordem dos Psicólogos Portugueses.

“Como travar a pobreza na primeira infância?” foi o mote de uma conversa que, passando por outros assuntos (a tal multidimensionalidade), se focou no impacto da adversidade relacionada com a pobreza e exclusão nos primeiros anos de vida. Estímulo para pesarmos como intervenções de políticas públicas que a reduzam no período da gravidez e primeira infância são fundamentais a par de investirmos na melhoria da actual geralmente má qualidade dos contextos educativos dos 0-3 anos e em fortalecer a intervenção precoce e as respostas em saúde, educação e área social.

Uma nota final, permitam-me, para reforçar que: a) a pobreza é um problema todos os minutos, horas, dias e não apenas de períodos em que, por via de datas comemorativas ou de um acontecimento tem projecção pública; b) que a pobreza é um problema de todas as pessoas, ainda que impactando mais quem vive em situação de pobreza; c) que é possível progredir na sua erradicação, se esse for um desígnio de todos nós e se todos, a partir dos nossos papéis de cidadania e profissionais, para isso contribuirmos.

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Quanto tempo têm(os)?

“Vá directamente até ao estúdio de trabalho de Sigmund Freud e veja o famoso divã do psicanalista”. Esta é a sugestão de visita do Museu Freud (Londres) caso tenhamos apenas meia hora. Foco no mais óbvio, mediático, eventualmente impactante, porém sem aprofundar o contexto (sugestão do museu para 1h de visita), o seu redor (para 90m), sem sentir, verdadeiramente, o espaço (para mais de 2h).

Assim comecei lembrando o porquê deste ser, hoje, um Museu (Museu), e do caminho de afirmação, autonomização e contributo amplo da psicologia enquanto ciência e prática para múltiplas áreas e processos, a partir da abordagem biopsicossocial. Indo, necessariamente, muito além das importantes dimensões clínicas e remediativas, sendo particularmente relevante na prevenção e promoção, do individual ao societal, passando, naturalmente, pelas organizações, seu desenvolvimento, sustentabilidade e bem-estar das pessoas que as constituem.

Assim comecei, dizia, a minha intervenção na “Mental Health in the Workplace Summit 2023”. Resultante do Pacto pela Saúde Mental nos Locais de Trabalho, subscrito por dezenas de organizações e promovid pelo CRBL da Católica Lisbon School of Business and Economics, que decorreu na semana passada numa lindíssima sala na sede da EDP (obrigado Frederico Fezas-Vital pelo convite, palavras, por sentires que tinha/tenho um contributo válido).

Chamei-lhe “SP500 – Segurança Psicológica e o seu papel nas organizações” porque prossegui reflectindo sobre como a nossa ilusão da profundidade explicativa (tendermos a pensar saber mais sobre o funcionamento de algumas coisas do que realmente sabemos) se revela, significativamente, no entendimento que temos (ou não) das pessoas, dos seus comportamentos e da psicologia de forma geral. De como isso impacta, por vezes, o priorizar (ou não) da evidência científica nestas áreas e de como, a conjugação disso com termos “apenas meia hora”, resulta em eventuais “vieses” de actuação, por exemplo, na promoção da saúde e bem-estar em contexto organizacional.

Como pode, apesar do momento rápido, imprevisível, “angustiante” do Mundo, desfocar-nos de um elemento essencial base a qualquer acção nestas matérias – a segurança psicológica das pessoas. Fundamental à boa comunicação (importantíssima em contextos de e com diversidade), à coesão (fulcral à flexibilidade), ao envolvimento e propósito, à relação e ao auto e heterocuidado, à responsabilização individual/colectiva, à resolução de problemas, à confiança. Desfocar-nos de como a segurança psicológica é base e suporte de tudo e de todos.

Organizações falarem sobre este tema é importante. Comprometerem-se é ainda mais importante. Serem, cada dia (mais) consequentes, mais ainda. Para tal é importante que reflictam(os) quanto tempo (30m ou mais de 2h?) têm(os) para a saúde e bem-estar.

Quanto tempo para “mudar o possível na direccão do excelente”, conforme Gonçalo M. Tavares sabiamente escreveu há dias.

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“Competências; Cooperação; Activação Social”. Tema, simultaneamente, arrojado e que nos confronta e convoca. Tema do III Congresso dos Psicólogos dos Açores que, nos dias 19 e 20 deste mês, decorreu em Ponta Delgada.

Lembro-me muito bem das 1ª e 2ª edições. Do impulso, visão e ousadia da equipa que, coordenada pela Luz Melo, então presidente da Delegação Regional dos Açores da Ordem dos Psicólogos Portugueses, as pensou, projectou e concretizou. Saúdo a equipa actual (Carla Rocha, Joana Amen, Filipe Fernandes e Paula Domingues), liderada pelo Marco Santos, por continuarem e aprofundarem estas realizações, pelo tema e pela relevância e impacto de um evento que, reunindo, juntando e aproximando colegas, demonstrou o impacto do trabalho de colaboração desenvolvido com o Governo Regional e Secretarias Regionais, conforme bem expresso pelo presidente José Manuel Bolieiro, bem como com os municípios e diferentes projectos e organizações sociais, conforme expresso, por exemplo, pela vereadora do Município de Ponta Delgada (e colega psicóloga) Cristina Canto Tavares.

Saúdo e agradeço a confiança pelo convite que me foi feito para, neste III Congresso e com moderação da Cristina Dutra, realizar uma intervenção com o mote: “Psicologia: Reforçar o envolvimento e a activação comunitária para promover resultados em saúde, bem-estar e equidade”.

Nela falei do papel da psicologia nos processos de transformação social e como foram, são e serão possíveis. Falei de determinantes macro do individual e como, em qualquer área de actividade, os temos que considerar, afirmando o nosso papel potencial neles. Falei de bem-estar, da sua relação com a saúde (e saúde mental) e de factores protectores e de risco. Falei do Mundo hoje e de como podemos melhorar e potenciar a utilização da ciência psicológica. De como a profissão se deve repensar e como pode e deve influenciar a sociedade para responder aos seus desafios e promover maior possibilidade de autodeterminação a cada pessoa. Falei, ainda, de envolvimento e participação. De propósito, pertença e activação comunitária. De agência e co-criação do futuro colectivo. De que podemos começar por fazer algo para, logo, fazer algo mais e, em seguida, melhor.

Pensei-o e partilhei-o, no final com a “Difference” (https://www.youtube.com/watch?v=eSElIhIcHAE) do Benjamim Clementine a acompanhar, qual singelo contributo para o envolvimento na mudança e activação pela saúde, bem-estar e equidade.

Reflecti-o, no final, a partir de uma pergunta da Carla Fernandes, ligando-o à forma como é fundamental reforçarmos a estrutura de projectos e organizações, procurando o por vezes exigente equilíbrio de tempo e foco nas actividades concretas junto do público-alvo e no desenvolvimento da estrutura e envolvimento das equipas no caminho para uma dinâmica que consolide, aprofunde, envolva e torne mais possível e mais fácil para quem se nos segue, continuar, fazendo mais e melhor para o bem comum.

Pois esse é, também, nosso desígnio.

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3 Semanas, 3 Dias

Ontem comemorou-se o Dia das Nações Unidas, dia que assinala o aniversário da entrada em vigor da Carta das Nações Unidas em 1945. “Nós, os povos das Nações Unidas decididos”, assim começa, para logo referir: “A promover o progresso social e melhores condições de vida dentro de um conceito mais amplo de liberdade”.

Sempre me interpelou este “conceito mais amplo de liberdade” no quadro de um Mundo profundamente diverso. De um Mundo profundamente desigual. Isso e a curiosidade deste Dia das Nações Unidas (24.10) se comemorar, exactamente, duas semanas após o Dia Mundial da Saúde Mental (10.10) e uma semana após o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza (17.10), quando os problemas de saúde mental e a pobreza (e exclusão a ela associada) condicionam de forma tão significativa a liberdade, o bem-estar e a coesão social.

Hoje, no evento “Diálogos sobre Pobreza – Saúde, pobreza e desigualdades”, organizado pela EAPN – European Anti Poverty Network (Bragança) darei um contributo sobre as interfaces entre a saúde mental e pobreza, pensando o contributo da ciência, da prática, da cidadania e das políticas públicas.

Faço-o após ter, no âmbito do I Fórum Intermunicipal para a promoção da Saúde Mental da Região do Vale do Homem (obrigado Sofia Pinto), discutido contributos potenciais da psicologia (enquanto ciência e prática) e da Ordem dos Psicólogos Portugueses, através da estratégia “.Final à Pobreza” (https://finalapobreza.pt), para a erradicação da pobreza e para melhorar a possibilidade de saúde e bem-estar de todas e todos.

Faço, também, após três outros contributos nestes temas que provêm no Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza:

a) O artigo “Estamos a falhar às pessoas em situação de maior vulnerabilidade quando as instituições, organizações e projectos da área social vivem, na generalidade, em situação de vulnerabilidade?” (https://www.linkedin.com/posts/tiagoandpereira_estamos-a-falhar-%C3%A0s-pessoas-em-situa%C3%A7%C3%A3o-de-activity-7120308409584791552-1n4h?utm_source=share&utm_medium=member_desktop)

b) A participação no fórum da TSF (https://www.youtube.com/watch?v=cdnaUyJoH84)e), onde abordei o papel do plano de acção da estratégia nacional de combate à pobreza, a medida das/os “gestoras/es de caso” e a necessidade de reforço, capacitação e empoderamento das organizações/instituições sociais;

c) E na Antena Aberta da Antena 1 (https://www.youtube.com/watch?v=ibUgO6pcISc), onde discuti o quão determinante será fazer do combate à pobreza desígnio nacional para a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde e equidade no Sistema Educativo e como a ciência deve informar mais as políticas e práticas nesta área, particularmente no que toca à pobreza infantil.

A psicologia pode, efectivamente, contribuir para a mudança, para a transformação e para promover “o progresso social e melhores condições de vida dentro de um conceito mais amplo de liberdade”, para todas e todos.

Nisso, contam sempre comigo. Contam sempre connosco.

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A Igualdade de Género nas Organizações: Onde Estamos? Para Onde Vamos?

“Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade que condiciona e dificulta a dignidade, o cumprimento integral dos Direitos Humanos e a possibilidade de bem-estar e autodeterminação das Mulheres (…) Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade com menor competitividade e desenvolvimento económico sustentável, com maiores desafios demográficos e com menor qualidade das suas instituições”.

 

Escrevi-o há 11 meses. Parte de um artigo intitulado “Menina-Rapariga-Mulher” que partilho, naturalmente, mas infelizmente, actual ontem, hoje e, certamente, num futuro próximo mas espero não, num futuro necessariamente menos próximo.

 

Para tal, e para que tal aconteça rapidamente, iniciativas como as promovidas pelo cluster “Igualdade de Género” da @Grace – Empresas Responsáveis, liderado pela @Margarida Couto e pela @Susana Almeida Lopes, são fundamentais. Agradeço-lhes, juntamente com a @Mariana Silva, o convite, o cuidado e o facto de me confiarem espaço de contributo neste assunto tão fundamental, desta vez no evento do passado dia 28 de Setembro, organizado pelo cluster com o título “A Igualdade de Género nas Organizações: Onde Estamos? Para Onde Vamos?”.

Conforme me foi solicitado, reflecti a partir do tema (“Os enviesamentos inconscientes, dados atuais e tendências”), discutindo contributos da ciência e da prática psicológica para, nesta matéria, melhor se compreender o impacto de heurísticas e vieses e as condições de mudança individual, organizacional e societal, nomeadamente os obstáculos e estímulos que se lhes colocam. Mais, discuti a importância de introduzir mais ciência nas práticas, prevenindo os efeitos do placebo e nocebo nesta área, e o papel da comunicação efectiva, da eficiência de processos, da co-construção da decisão e avaliação e no papel das tecnologias e ferramentas de apoio na promoção da igualdade de género nas organizações. Terminei sublinhando o papel fundamental da promoção do bem-estar e da segurança psicológica de todas e todos neste caminho.

Um contributo que se seguiu a um outro, exactamente focado no bem-estar. Falo do artigo “O bem-estar psicológico como promotor da igualdade de género nas organizações” que escrevi para o livro “Igualdade de Género nas Organizações em Portugal”, coordenado pela Margarida Couto e Susana Almeida Lopes, e cuja leitura recomendo, também pelas práticas que reúne e que podem estimular e inspirar pessoas e organizações face a este desígnio e justa (legitima e possível) aspiração.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Futuro da Psicologia Política Psicologia

Companheirismos e Persistência (Ao redor…; 04.10.2023)

Kameradschaft. Palavra alemã que descreve um sentimento de camaradagem. De companheirismo. Sentir profundamente humano, abundantemente partilhado entre as pessoas e com forte impacto no nosso comportamento e tomada de decisão.

Se partilhamos múltiplas características e comportamentos com diferentes espécies animais (estima-se que 98,7% do nosso DNA seja idêntico ao dos macacos bonobo), partilhamos ainda mais com as diversas pessoas que experienciam connosco o Mundo. Não com algumas dessas pessoas, antes com todas essas pessoas. Do nosso grupo de amigas/os, ao nosso grupo de colegas de trabalho, hobbie ou desporto. Mas, também, com as pessoas que não votam e pensam a sociedade como nós, que vivem em lugares longínquos e que têm práticas culturais que nos parecem distantes. Com as pessoas que sentimos e percepcionamos como “boas” e incapazes de conscientemente provocarem sofrimento a outras pessoas, mas, também, com as que sentimos e percepcionamos como “más”, como pouco empáticas e pensamos poderem desejar ou, pelo menos, serem capazes de, conscientemente, provocar sofrimento a outras pessoas.

Roy Baumeister dedicou parte da sua vida e do seu trabalho a estudar o “mal” e a procurar desconstruir o “mito do mal puro”, a visão que tendemos a ter de associar o mal a outras pessoas que não nós ou nossos próximos, pessoas “intrinsecamente más”, sádicas por vezes, e que o dirigem contra pessoas “como nós”, boas, inocentes. Baumeister procura introduzir matizes a esta visão, estimulando-nos a pensar a complexidade do fenómeno e a considerar as circunstâncias e motivações que podem conduzir a determinados comportamentos. No fundo, como pessoas “como nós” a elas expostas podiam, eventualmente, adoptar outro tipo de comportamentos. Ou como em grupo podemos ter comportamentos tão distintos de outros, fora do grupo. Ou como não foi a ideologia ou objectivos militares/políticos os motivos identificados pelas tropas nazis para a não dissidência e persistência na II Guerra Mundial, mesmo quando já perto da derrota, antes a “kameradschaft” partilhada com as e os seus companheiros.

Pensá-lo é fundamental a olhar o que sucedeu no Mundo nos últimos muitos milhões de anos. As relações, a confiança, o companheirismo e o paradoxo da inexistência tão clara como gostaríamos de um “nós” e um “outras/os” foram fundamentais ao progresso, à persistência e à resposta a desafios que se colocaram à vida nele, sempre. São fundamentais, hoje, à mitigação da crescente polarização ou à prevenção da desinformação e do seu impacto na sociedade, apoiando a legitimação de diferenças e dúvidas e estimulando que, em comunidade e sociedade, se iniciem conversas construtivas, capazes de criar pontes de encontro baseadas no não julgamento, na relação, segurança e confiança. Baseadas num conjunto de valores que, enquanto seres humanos, procurarmos consensualizar e atingir e num companheirismo que partilhamos. Companheirismo que nos permite persistir.

A persistência é hoje, aliás, uma competência ao mesmo tempo fundamental e, de certa forma, desafiada. Fundamental, num Mundo em (cada vez mais) rápida mudança e de enorme complexidade e ambiguidade. Desafiada, por esse Mundo, também pautado por hiper e diversa estimulação e pela procura de gratificações e sensações imediatas. Em todo o caso, permite-nos resistir ao insucesso e continuar, permite-nos falhar para melhorar, aprender, desenvolvermo-nos, investirmos em, também com outras pessoas, contribuirmos para a resolução de problemas complexos. Sendo individual e relacionando-se com características de cada pessoa (a autoestima, o autoconceito ou a autoeficácia, por exemplo) e com as suas circunstâncias e história, depende, em muito, das relações próximas, dos grupos, do companheirismo. Debrucemo-nos sobre um exemplo concreto e actual.

Soubemos por estes dias de um feito importante do país. Voltamos a ver subir o número de estudantes no Ensino Superior, que já tinha sido o maior número de sempre no ano lectivo anterior (446 mil). Sabemos, no entanto, que existem níveis de insucesso e abandono muito altos, realidade que impacta a vida (futura) de estudantes e que não faz jus ao investimento das famílias e do país. A título de exemplo, em 2022/23, quase 11% das e dos novos estudantes de licenciaturas e 25% dos cursos técnicos superiores profissionais, abandonaram os estudos antes do final do ano lectivo. Isto, além de uma percentagem não despiciente ter mudado de curso e da percentagem historicamente significativa que tenderá a abandonar os estudos sem concluir os respectivos graus.

Existem múltiplas razões para tal, desde logo, naturalmente, as socioeconómicas. Mas a entrada no Ensino Superior traz um conjunto de exigências e dificuldades, incluindo cognitivas, que implicam adaptação, estudo, treino e método, que também justificam parte do insucesso e sucessivo abandono. Quando se aprofunda o estudo do fenómeno percebe-se que nem sempre a capacidade ou competência são o que melhor explicam a persistência e continuidade. Estudos realizados nos EUA demonstram que, em áreas tendencialmente muito complexas como as matemáticas aplicadas, apesar do tercil mais baixo em capacidades dos estudantes das “melhores” Universidades ser muito próximo do primeiro tercil dos estudantes dos mesmos cursos de outras Universidades, a taxa de abandono é praticamente idêntica no mais baixo tercil entre as “melhores” Universidades e as outras. Parecem ser o sentimento de pertença e a posição relativa face ao grupo próximo que estimulam ou obstaculizam a persistência, mais do que as competências ou capacidades. Reflictamos, portanto, sobre o impacto da competição no insucesso e abandono e o papel que a pertença e companheirismo devem assumir.

Um exemplo que, sublinho, é muito influenciado pelas condições socioeconómicas decisivas até à entrada e na continuidade/término do Ensino Superior. Mas extensível aos estilos de vida e comportamentos que adoptamos, pensando na prática de exercício físico ou no consumo de álcool ou tabaco. Ou aos comportamentos associados à crise climática e à necessidade de alteração de determinados comportamentos e padrões de consumo, onde a pertença e o companheirismo são determinantes na tal persistência.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, são pessoas como nós que tomam decisões e agem. Pessoas expostas às mesmas heurísticas, suscetíveis aos mesmos vieses. Pessoas que precisamos de, empaticamente, compreender e aceitar na sua diversidade, criando relação. Pessoas que necessitam do companheirismo para persistir e para, persistindo, aprender, mudar, não abandonar, resolver, florescer. Pessoas que fizeram, fazem e farão a nossa relação com o Mundo. Persistamos, com elas, pelo Mundo.

 

Tiago Pereira

Companheirismo e Persistência

in Sábado (Ao redor…); 04.10.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/companheirismo-e-persistencia

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A 21 de Outubro de 1879, Thomas Edison apresentou, formalmente, o pedido de patente para um projecto – a lâmpada incandescente – que viria a transformar a vida das pessoas. Creio-o um momento simbólico e creio-o, particularmente, num momento em que algum obscurantismo parece querer, metaforicamente, um regresso a alguma penumbra.

Num momento em que por cá e um pouco por todo o Mundo a saúde, particularmente a saúde mental, e o bem-estar são desafiados (veja-se as administrações hospitalares do Reino Unido a classificarem a “saúde mental como uma emergência nacional”), dados e informação científica sobre esta área, particularmente nas/os jovens (onde os desafios são muito significativos) é, julgo, como que uma “patente para uma lâmpada incandescente”, 144 anos depois.

É, também por isso, que venho partilhar o Ebook “Saúde Mental dos Jovens”. Coordenado pela Tania Gaspar, pelo Fábio Botelho Guedes e pelas Ana Cerqueira e Margarida Gaspar de Matos, resulta de um estudo colaborativo da World Health Organization sobre o bem-estar de adolescentes (6º, 8º, 10º e 12º anos), envolvendo 51 países e promovido em Portugal pela Aventura Social – Associação, com colaboração de um conjunto de entidades, incluindo a Ordem dos Psicólogos Portugueses.

Os seus resultados sublinham o agravamento dos problemas de saúde mental e bem-estar, nomeadamente no que se refere às preocupações, relações interpessoais e expectativas futuras. Procuram detalhar e discutir as causas (e consequências), para melhor informar políticas públicas.

Conta com um capítulo (“Estatuto socioeconómico, saúde mental e bem-estar em adolescentes em contexto de pandemia”; página 45-67) para o qual contribui com as/os autoras/es e a que se juntaram, ainda, a Marta Barata e a Sofia Sousa. Artigo que analisa, especificamente, o impacto da condição sócio-económica na saúde mental e bem-estar, que surgem penalizados em populações com os mais baixos níveis, procurando, também, apresentar e reflectir outras variáveis que os condicionam, mais uma vez, para melhor informação às políticas públicas, numa matéria particularmente sensível.

Perguntava a Margarida Gaspar de Matos na sessão de apresentação o que podemos fazer para que esta informação chegue mais e com maior impacto a decisoras/es. Três curtas sugestões, tornar e manter “salientes” os determinantes sociais da saúde, bem-estar e sucesso educativo. Envolver todo o ecossistema no processo de investigação e acção. E, particularmente, reforçar um esforço e empenho conjunto de promoção da confiança, que permita mais possibilidade, quando justificada, de mudança e mais envolvimento e compromisso na mesma de todos. Todos.

Muito obrigado por este trabalho. Muito obrigado por terem procurado o meu contributo e por me darem esta oportunidade.