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Re…cooperar (Ao redor…; Sábado; 16.08.2022)

A história, experiência e os recursos da American Psychological Association (APA) não nos podem “fazer esquecer dos importantes contributos que outras associações podem trazer à nossa acção.” Ouvi-o há dias quando uma pessoa responsável da APA, a mais histórica (130 anos) e uma das mais significativas associações de psicologia do Mundo, discursou para afirmar a “necessidade de se intencionalizar a cooperação global, considerando os significativos desafios que pessoas e sociedades hoje enfrentam”.

Afinal, como bem sabe quem vive no Alentejo, os efeitos da crise climática e da seca extrema não terminam na Extremadura Espanhola. Como bem sabe quem vive na Galiza, a pobreza não impacta a saúde e bem-estar de pessoas apenas no Alto Minho. Sabe Portugal e Espanha. Sabem a Nigéria, o Chile, a Austrália, a Moldávia, o Vietname ou os Estados Unidos da América que desafios societais globais, particularmente quando complexos, não se limitam a ou com fronteiras e que não se ultrapassam sem colaboração e cooperação, nacional e internacional.

Foi (é ainda) a cooperação que nos tem permitido, não sem obstáculos ou críticas e pela definição de princípios e objectivos em torno dos Direitos Humanos e da vida no Planeta, melhorar índices de paz, saúde e bem-estar a nível global. Este caminho conjunto permite que, hoje, milhares de milhões de pessoas no Mundo aspirem e expectem condições de vida que talvez supuséssemos globalmente inatingíveis há não muitas décadas.

Há 50 anos, onde no meu caso, igual ao de tantas outras famílias, seria inimaginável às minhas avós (com 53 e 40 anos em 1972) ou aos meus pais (ambos com 11 anos) imaginarem o neto/filho que nasceria 11 anos depois e, através dele, o Portugal de 2022. Ou há 99, quando se comemorou, em Julho de 1923, o primeiro Dia Internacional das Cooperativas, assinalando o contributo destas organizações centradas no interesse social, geridas de acordo com princípios democráticos e de igualdade de oportunidades e comprometidas com o desenvolvimento comunitário e a integração social e nasceu, em Novembro de 1922 e a poucos quilómetros de onde cresci, José Saramago.

À parte da extraordinária e muito complexa história de vida, Saramago escreveu, talvez como muito poucos, aquilo que apelidou como a “involução humana”, enquanto movimento regressivo aplicado a diversos fenómenos, desde a língua (portuguesa) ao comportamento em sociedade. Pensou e tratou a ideia de que não existe um caminho uno de permanente evolução (humana) e a que involução era, não apenas possível, mas previsível e se “escondia”, para escondida crescer e se propagar, em pequenos nichos, acontecimentos ou realidades.

Saramago não viveu os últimos 12 anos do Mundo. Viveu, no entanto, 4 dos 16 anos últimos anos com consecutivo declínio da liberdade e da democracia, conforme assinala o Relatório “Liberdade no Mundo 2022 – A expansão global do autoritarismo” da Freedom House. Com a proliferação dos regimes autoritários a que vimos assistindo, a proporção de população mundial que vive em países considerados “livres” caiu progressiva e consecutivamente nestes 16 anos (2005-2021) de 46% para 20,3%, considerando o grande aumento da população que vive em países “apenas parcialmente livres” (17,9 para 41,3%) e o aumento da que vive em países “não livres” (36,1 para 38,4%). Ainda de acordo com este relatório são quatro as principais forças internas aos países que o justificam: enfraquecimento das instituições (particularmente judiciais) e do valor da Lei; ataque à liberdade de imprensa; perversão das eleições; e discriminação de migrantes e outras comunidades.

Resumidamente, diminuição propositada da qualidade e independência das instituições e da própria confiança das pessoas nas instituições e nas (outras) pessoas, algo que é depois causa, mas, curiosamente, também consequência do crescimento do individualismo, da competição e de uma certa “meritocracia” em algumas sociedades e da fragilização da colaboração e cooperativismo real ou percebido pelas e pelos outros. Fragilização de instituições económicas, sociais e políticas que, conforme D. Acemoglu e J. Robinson concluem no livro “Porque falham as nações”, explicam mais o porquê de os países florescerem (ou não), do que a sua geografia, as pertenças comunitárias da sua população ou a sua riqueza natural.

Esta situação, e este retrocesso, é particularmente preocupante quando a colaboração, a intervenção articulada e a cooperação são a cada dia mais essenciais, considerando a complexidade dos desafios que as organizações e sociedades enfrentam. Particularmente preocupante quando as redes sociais e a forma de organização da sociedade, globaliza velozmente movimentos, ideais e ideias, particularmente as e os que apelam a emoções fortes e normalmente associadas a aspectos negativos como o medo, o ódio ou a raiva, emoções hoje centrais no comportamento, decisão e participação política e social.

Este contexto claramente justifica que o último dos 17 objectivos do desenvolvimento sustentável (ODS) seja mesmo centrado nas parcerias para a implementação dos ODS, através do reforço dos meios de implementação e revitalização da parceria global para o desenvolvimento sustentável. E justifica que tenhamos presente o papel da cooperação na superação e na adaptação à mudança e à(s) crise(s) e de processos muito estudados e trabalhados pela psicologia para a promoção e reforço da cooperação, como a relação, a orientação para os valores sociais, a empatia e altruísmo, a comunicação, o compromisso, a confiança, a identificação e a cultura.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental criarmos condições para nos aproximarmos e trabalharmos juntas e juntos, numa perspectiva de persecução de objectivos comuns e/ou complementares. De favorecermos uma sociedade e uma cultura de alianças e compromisso com valores comuns, assentes nos Direitos Humanos e na preservação da vida no Planeta, e com o princípio da colaboração e cooperação a curto, médio e longo-prazo, nacional e internacional, entre pessoas, organizações, ciências e profissões. É momento de recuperarmos do conjunto de crises que vimos enfrentando também pela recuperação da cooperação. Tempo de Re…cooperarmos, pela confiança nas instituições e nas pessoas. De Re…cooperarmos, pela paz, pela saúde e pela possibilidade de bem-estar, de todas e todos. De Re…cooperarmos, pela nossa sobrevivência, enquanto Planeta e espécie, hoje e amanhã, como desde há centenas de milhares de anos.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 16.08.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/recooperar

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Democracia Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Causa-Consequência…

“Uma pessoa quando pensa em problemas de saúde mental não pensa automaticamente em pobreza. São duas questões dissociadas, mas que vocês associam neste projecto. Interligam-nas. Com que objectivo?” Questão inicial que o Rodrigo Pratas me colocou em entrevista (Edição da Noite; SICNotícias; 12.08.22) a propósito da aprovação, em Conselho de Ministros, do reforço no Abono de Família e da Garantia para a Infância e com o intuito último de discutir a campanha “.Final à Pobreza”.

Entrevista 20 meses após aqui ter partilhado que uma das 100 medidas do programa de candidatura à Ordem dos Psicólogos Portugueses seria a implementação de “um programa de apoio e desenvolvimento profissional para o combate à pobreza e exclusão social”. Fi-lo em NOV2020, afirmando que, conforme refere Wallace-Wells em “A terra inabitável”, “a postura intelectual da impotência é sempre uma boa desculpa” mas “porque a rejeito e porque rejeito que nos puxem para trás, advogo uma Psicologia a responder com excelência a desafios micro, junto das pessoas nos seus contextos e acontecimentos de vida significativos, mas também macro.

Respondi que o https://finalapobreza.pt servia “desde logo para que se compreenda melhor esta relação causa-consequência” e a pobreza “enquanto um dos principais determinantes não apenas da saúde mental mas da saúde no global” (…), altamente condicionadora daquilo que são a dignidade humana, a capacidade das pessoas se cumprirem, florescerem.” Disse, ainda, ser “importantíssimo que a OPP e as psicólogas e psicólogos portugueses se associem a um esforço nacional de tornar o combate à pobreza um grande desígnio, como previsto na estratégia nacional de combate à pobreza” [eixo f].

Na entrevista, que partilho, afirmei os 4 domínios de contributo do projecto (profissão, sociedade civil, decisoras/es e cooperação), além dos impactos das sucessivas crises nas pessoas e comunidades. Discuti como os problemas de saúde mental da população contribuem para que em Portugal seja difícil sair (geracionalmente) da pobreza sem apoios sociais, o que faz com que devamos, naturalmente, reforçar apoios sociais, mas também as condições psicológicas da população, se quisermos ser eficazes. Finalmente, aprofundei essa necessidade de reforço do apoio e a necessária e possível complementaridade entre respostas mais remediativas e respostas preventivas/promotoras, fundamentais para o futuro do país e para, enquanto pessoas, famílias e comunidades, lidarmos melhor com a adversidade no presente e futuro.

Conforme também havia escrito, advogo “uma psicologia activista no combate à pobreza e à exclusão”. Espero que este possa ser um contributo e estímulo para que mais pessoas e mais psicólogas e psicólogos se envolvam neste fundamental desígnio: contribuir para um “. final à pobreza”.

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Futuro da Psicologia Política Psicologia

Re…cooperar

“Afinal, como bem sabe quem vive no Alentejo, os efeitos da crise climática e da seca extrema não terminam na Extremadura Espanhola. Como bem sabe quem vive na Galiza, a pobreza não impacta a saúde e bem-estar de pessoas apenas no Alto Minho (…) Os desafios societais globais não se limitam a ou com fronteiras e não se ultrapassam sem colaboração e cooperação, nacional e internacional.”
“Re…cooperar”, 39º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) pensa como a cooperação “foi (é ainda) o que nos tem permitido, não sem obstáculos ou críticas e pela definição de princípios e objectivos em torno dos Direitos Humanos e da vida no Planeta, melhorar índices de paz, saúde e bem-estar a nível global” e possibilitar “que, hoje, milhares de milhões de pessoas no Mundo aspirem e expectem condições de vida que talvez supuséssemos globalmente inatingíveis há não muitas décadas.”

“Há 50 anos, onde no meu caso, igual ao de tantas outras famílias, seria inimaginável às minhas avós (com 53 e 40 anos em 1972) ou aos meus pais (ambos com 11 anos) imaginarem o neto/filho que nasceria 11 anos depois e, através dele, o Portugal de 2022. Ou há 99, quando se comemorou o 1º Dia Internacional das Cooperativas (…) e nasceu, a poucos km de onde cresci, José Saramago.”

“À parte da extraordinária e muito complexa história de vida, Saramago escreveu, talvez como muito poucos, aquilo que apelidou como a “involução humana”, enquanto movimento regressivo aplicado a diversos fenómenos, da língua (portuguesa) ao comportamento em sociedade. Saramago não viveu os últimos 12 anos do Mundo mas viveu 4 dos 16 anos últimos anos com consecutivo declínio da liberdade e da democracia, pelo “enfraquecimento das instituições (particularmente judiciais) e do valor da Lei; ataque à liberdade de imprensa; perversão das eleições; e discriminação de migrantes e outras comunidades”.

“Esta situação (e retrocesso) é particularmente preocupante quando a colaboração, a intervenção articulada e a cooperação são a cada dia mais essenciais, considerando a complexidade dos desafios que as organizações e sociedades enfrentam. Quando as redes sociais e a forma de organização da sociedade, globalizam velozmente movimentos, ideais e ideias (….) Justifica-se, assim, que o último dos 17 objectivos do desenvolvimento sustentável (ODS) seja centrado nas parcerias para a implementação dos ODS (…), que tenhamos presente o papel da cooperação na superação e na adaptação à mudança e à(s) crise(s) e de processos muito estudados e trabalhados pela psicologia para a promoção da cooperação, como a relação, orientação para os valores sociais, empatia e altruísmo, comunicação, compromisso, confiança, identificação e a cultura.”

“É momento de recuperarmos do conjunto de crises que vimos enfrentando também pela recuperação da cooperação. Tempo de Re…cooperarmos, pela confiança nas instituições e pessoas. De Re…cooperarmos, pela paz, pela saúde e pela possibilidade de bem-estar, de todas e todos.”

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Desafios da Psicologia

Férias. França. Falta de memória e de factualidade (Ao redor…; Sábado; 21.07.2022)

“O trabalho liberta”. Leon Blum, ao contrário de outras e outros judeus (e não apenas), não terá lido esta frase quando, em 1943, entrou no campo de concentração da Alemanha Nazi de Buchenwald. Este campo, ao contrário de Auschwitz ou Sachsenhausen, não a tinha no portão, antes a não menos inquietante e perturbadora: “a cada um o que lhe é devido”. Seria mais um anacronismo a acrescer ao inominável da situação, quando, sete anos antes, Blum havia liderado o primeiro governo no Mundo a instituir legalmente e universalizar o direito a férias pagas. A partir de 1936, quem sabe não por acaso no primeiro governo também com Mulheres com funções executivas (quando as Mulheres ainda não tinham direito de voto), além da fixação de uma jornada de trabalho fixa (40h semanais) e do prolongamento da escolaridade obrigatória (14 anos), as “congés payés” permitiram que milhões de trabalhadoras e trabalhadores em França usufruíssem de férias anuais, pagas.

A importância das férias é, hoje, inegável e França foi farol para que outros países, com importantes e significativas excepções, fossem progressivamente assumindo as férias pagas. Apesar da Organização Internacional do Trabalho o defender, também desde 1936, e da Declaração Universal dos Direitos do Homem afirmar desde 1948 que “toda a pessoa tem direito ao repouso e aos lazeres, especialmente a uma limitação razoável da duração do trabalho e a férias periódicas pagas”, em Portugal, as férias pagas foram generalizadas e universalizadas, sob a forma de Subsídio de Férias, a par da instituição do Subsídio de Desemprego, apenas em 1975, meses após a generalização do 13º mês de retribuição (Subsidio de Natal) em Agosto de 1974.

“As férias não devem ser um luxo, pois são cruciais para garantir a saúde e o bem-estar dos trabalhadores”, diz um recente relatório da Confederação Europeia dos Sindicatos que alerta para o crescimento significativo, de 2019 até hoje, do número de trabalhadoras e trabalhadores que na União Europeia não tem hoje capacidade financeira para “pagar férias”. Em Portugal, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística, em 2020 foram 61% e em 2021 56% das e dos residentes que não realizaram qualquer viagem em férias, ou seja, que não se deslocaram para fora do seu ambiente habitual, pernoitando uma noite que fosse.

Se o trabalho pode ser um factor importante na realização, a possibilidade das e dos trabalhadores desligarem (mesmo que não a 100%), de pararem (ou, pelo menos, reduzirem) é, além de um direito, um elemento central na produtividade, na gestão das organizações e na saúde e bem-estar das pessoas. Uma oportunidade de descansar, de prevenir a exposição a situações adversas ou desafiantes no contexto de trabalho (muitas vezes potenciadoras de ansiedade, angústia ou stresse) e a riscos psicossociais. Uma oportunidade de quebrar rotinas, algo fundamental à criação de novos hábitos e à mudança que tantas vezes procuramos e que, com a diminuição potencial de estímulos em férias, pode ser realizada, repetida e acomodada (logo mais facilmente manutenível), quer seja relativa a uma actividade desportiva, cultural, na alimentação ou na interrupção de um comportamento impregnado no dia-a-dia. Uma oportunidade de centração noutros elementos importantes da vida além trabalho, como a família, as amigas e amigos, os projectos “adiados” ou os hobbies, da leitura às viagens, da praia aos festivais, das romarias ao “regresso à terra”.

França, simbolicamente, deu-nos e deu-me isso. Deu-me também, como a muitas e muitos portugueses, oportunidades e outras possibilidades de qualidade de vida, porquanto, noutro momento, parte da minha família lá viveu e trabalhou, em busca da liberdade impossível em Portugal naqueles anos. Em busca de um futuro melhor para o nosso país e para nós que, dia-a-dia, o construímos e vivemos. Esta é ainda, hoje, a época do ano onde famílias se reencontram, onde a “terra” ganha vida, sotaque, economia, histórias do e dos passados, sonhos de regresso e de futuro. Onde, quando paro eu de férias, penso no que foi no passado e é para muitas e muitos ainda hoje, a abnegação e o sofrimento de partir não raras vezes não apenas por si, mas pelas e pelos seus.

Não deixa, portanto, de ser anacrónico que seja esta, também, a altura do ano em que algumas pessoas questionem as migrações. Das pessoas, de quem escolhe (ou não) Portugal enquanto país para viver ou de quem, particularmente nesta altura do ano, regressa ao país. Das ideias e dos ideais, de direitos e de liberdades, da procura da igualdade de oportunidades e de um país e de um Mundo que não discriminam pessoas pela sua nacionalidade, características ou escolhas. Numa duplicidade só possível em quem acha que tudo pode resolver com soluções simples e simplistas e que aspira a reconhecimentos divinos, questionam-se as migrações em Portugal dizendo-se defender as portuguesas e portugueses e Portugal, um país em vários momentos da sua história (e felizmente hoje) aberto ao Mundo, contribuidor para a partilha, para a troca e a cooperação e feito, também, de migrantes e de migrações, de pessoas e de ideias e ideais.

Não precisamos de evocar o importante contributo da população imigrante e emigrante para o desenvolvimento e para o futuro do país. Não precisamos de evocar os significativos contributos anuais para o sistema de segurança social português das trabalhadoras e trabalhadores sem nacionalidade portuguesa. Não precisamos de evocar o papel que as migrações tiveram, têm e terão no enfrentar dos grandes desafios do país, desde os seus níveis de pobreza, às crises sócio-económicas ou aos desafios da natalidade e da falta de trabalhadoras e trabalhadores em alguns sectores de actividade. Basta-nos evocar as férias e França, basta-nos olhar ao redor para aferirmos como a (sua) falta de factualidade e falta de memória não (pre)ocupam tanto algumas pessoas quanto a possibilidade de circulação e de migração de pessoas e de ideias e ideais.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, podendo para algumas pessoas, como aqui escrevi há alguns meses, ser contraintuitivo parar e intencionalizar uma ociosidade positiva e prazerosa, é essencial num caminho rumo a uma maior possibilidade de bem-estar, de autodeterminação e ao exercício e usufruto da nossa liberdade. Essencial, portanto, a sermos abertos à mudança, às e aos outros, à diversidade que resulta do contacto com novas pessoas, lugares e ideias. A uma diversidade que nos enriquece a todas e todos, enquanto comunidade. Promovamos, enquanto indivíduos e enquanto sociedade, a possibilidade e a oportunidade de todas e todos terem férias, de todas e todos circularem, interagirem e se espantarem e inspirarem mutuamente por um Mundo melhor.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 04.08.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/ferias-franca-falta-de-memoria-e-de-factualidade

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Falemos, pois.

A fonte, a luz e, particularmente, os imponentes claustros do Colégio do Espírito Santo (Évora) são parte do meu imaginário. São, também, parte do “roteiro Eborense” do livro “Aparição” de Vergílio Ferreira. Escritor importante e que me permitiu e nos permite pensar o século XX Eborense, além de outras cidades deste país, na triangulação pessoas / binómio lugar-tempo / relações.

Vergílio Ferreira que, com uma lucidez desconcertante (porque há largas décadas), disse podermos afirmar “com energia o disparate que quisermos”, acabando sempre “por encontrar quem acredite em nós”. E, se isso era verdade há décadas, é-o também hoje, com maior impacto, num Mundo onde parte da conexão (relação) e da comunicação (das pessoas) usa de redes (sociais) que aceleraram a forma como a informação se propaga, também (ou mesmo particularmente) quando “disparatada”.

Curiosamente (ou talvez não) a necessidade que, enquanto seres humanos, temos de nos relacionar com outras pessoas, podendo parecer uma vulnerabilidade, permite-nos desenvolver as dimensões de compaixão, de compreensão mútua e as capacidades de empatia, centrais no que ao longo de milénios vem permitido a continuidade dos seres humanos e a sua possibilidade de desenvolvimento. Mas, em algumas situações, conduz a processos de identificação e polarização (tipo “eu/nós vs. tu/vós”) em muito responsáveis pela fragmentação da sociedade, por violências e discriminações várias (implícitas ou explicitas) e pela perda de confiança nas pessoas, instituições e na ciência.

Aqui chegados, é importantíssimo que, além das (ou também nas) redes sociais, realmente conversemos com outras pessoas. Iniciemos conversas, particularmente junto de quem não conhecemos ou totalmente concordamos, usando da compreensão mútua, empatia e compaixão, procurando não extremar posições pela construção de pontes de entendimento. A construção a este nível também passa por procurarmos complicar e complexificar narrativas (para não discutirmos de forma redutora e simplista os temas, particularmente os complexos), conforme trabalhos que relacionam a ciência psicológica com o jornalismo têm procurado desenvolver.

Questões que permitam discutir, sempre com os devidos cuidados, algumas contradições (“como decidiu que esta informação era confiável?”) e motivações (“porque é que isto é tão importante para ti/si?”). Questões que permitam expor outras pessoas a outras ideias (“o que acha(s) que outro grupo de pessoas pretende?”) ou questões que permitam ouvir e compreender melhor (“o que sente(s) ao contar essa história?”).

Nos últimos dias participei de conversas muito relevantes. Sobre o mote “a psicologia está aqui” e sobre temas de especial complexidade (e importância, creio) como a crise climática, a saúde mental em crianças e jovens, a equidade, diversidade e inclusão ou a ciência e uso da tecnologia.

Criticar, construtivamente, não resolve tudo. Mas pode ajudar, muito. Conversar não resolve tudo. Mas pode ajudar, muito.

Falemos, pois.

 

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Férias. França. Falta de memória e de factualidade

“O trabalho liberta”. L. Blum, ao contrário de outras e outros judeus (e não apenas), não terá lido esta frase quando, em 1943, entrou no campo de concentração de Buchenwald. Este campo, ao contrário de Auschwitz ou Sachsenhausen, não a tinha no portão, antes a não menos inquietante e perturbadora: “a cada um o que lhe é devido”. Seria mais um anacronismo a acrescer ao inominável da situação, quando, 7 anos antes, Blum havia liderado o primeiro governo a instituir legalmente e universalizar o direito a férias pagas.

“Férias. França. Falta de memória e de factualidade”, 38º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) trata a importância inegável das férias (pagas), hoje assumidas por vários, persistindo importantes excepções mesmo quando defendidas pela OIT desde 1936 e na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). Fá-lo, também, reflectindo sobre o seu papel na saúde e bem-estar, na produtividade e na gestão das organizações, na oportunidade que comportam à prevenção da exposição a situações adversas e riscos psicossociais, de criação de novos hábitos, rotinas e centração noutras dimensões da vida.

Mas se França, porque pioneira, me e nos deu (infelizmente ainda não a todas/os) isso, também me (e nos, a tantas e tantos portugueses) deu outras possibilidades de qualidade de vida, por ter sido local de trabalho de familiares no passado. “Esta é [portanto] ainda, hoje, a época do ano onde famílias se reencontram, onde a “terra” ganha vida, sotaque, economia, histórias do e dos passados, sonhos de regresso e de futuro. Onde, quando paro eu de férias, penso no que foi no passado e é para muitas e muitos ainda hoje, a abnegação e o sofrimento de partir não raras vezes não apenas por si, mas pelas e pelos seus”.

“Não deixa, portanto, de ser anacrónico que seja esta, também, a altura do ano em que algumas pessoas questionam as migrações. Das pessoas, de quem escolhe (ou não) Portugal enquanto país para viver ou de quem, particularmente nesta altura do ano, regressa ao país. Das ideias e dos ideais, de direitos e de liberdades, da procura da igualdade de oportunidades.” Nem “precisamos de evocar o importante contributo da população imigrante e emigrante para o desenvolvimento do país, os seus contributos para o sistema de segurança social ou para os grandes desafios (pobreza, crises sócio-económicas, natalidade, falta de trabalhadoras e trabalhadores em diferentes sectores…), basta “evocar as férias e França e olhar ao redor para aferirmos como a (sua) falta de factualidade e falta de memória não as/os (pre)ocupam tanto quanto a possibilidade de circulação e de migração de pessoas e de ideias e ideais.”

A ociosidade positiva e prazerosa é essencial num caminho rumo a uma maior possibilidade de bem-estar, autodeterminação e ao exercício e usufruto da nossa liberdade. À mudança. À diversidade que enriquece todas e todos, enquanto comunidade. A que posamos interagir, espantar-nos e inspirar-nos mutuamente por um Mundo melhor.

Boas férias, sim?

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The future is…

“O que as/os psicólogas/os desejam que as/os jovens adultas/os de hoje saibam?”. Com este chamativo título, Dani Blum escreveu um estimulante artigo no The New York Times sobre uma potencial crise de “quarto de vida” e como a “geração que hoje chega à idade adulta se confronta com novos [muito complexos, acrescento], por vezes debilitantes, desafios”. Olhando o Mundo e usando da racionalidade, creio possível vermos hoje dos melhores indicadores de educação, saúde e bem-estar globais e, simultaneamente, desigualdades gritantes e desafios societais de complexidade significativa, apenas endereçáveis com mobilização global, concertação de esforços e, sobretudo, cooperação.

Como sabe, quem me lê, um dos que muito me (pre)ocupa é a crise climática (e suas consequências). Nele há trabalho desenvolvido (e em desenvolvimento) globalmente pela psicologia, a partir dos seus contributos enquanto ciência e profissão, que permitiu a participação na COP26 e outros contributos junto da United Nations (https://www.apaservices.org/advocacy/news/global-climate-policy). Não é este, todavia, o único dos desafios e este não se pode desligar de outros.

Um outro, particularmente relevante, relaciona-se com os fenómenos de ódio, racismo e xenofobia que muito condicionam a sociedade, a democracia, a coesão social e as possibilidades de saúde (incluindo psicológica) e bem-estar das pessoas e comunidades. Aqui, creio, há caminho a percorrer, particularmente num contributo mais global da psicologia.

Desde logo, conforme a American Psychological Association está a fazer, olhando, de forma crítica, o passado dos contributos e reflectindo sobre os seus impactos, alguns muito negativos. A reportagem que partilho (abaixo) relata este “confrontar sos erros para construir um futuro de equidade”, a partir de um devido pedido de desculpas e de acções de reparação do racismo histórico -convido também à reflexão sobre esta cronologia (https://www.apa.org/about/apa/addressing-racism/historical-chronology) de 1869 (com Galton, com os primeiros estudos das diferenças individuais em psicometria e emergência do conceito de “eugenia”) até 2021 (aprovação pela APA da resolução que suporta este trabalho).

Este é tema central da #APAconvention 2022. Tema central num momento do Mundo (mas também pelo que se vive em Portugal) onde é premente unirmos esforços nesta temática. A convenção será nos próximos dias na cidade onde G. Floyd foi brutalmente assassinado em 2020. Minneapolis, cidade que viu Prince nascer e “partir” para nos dar, entre outras, a música “The future” (lembram-se do Joker J. Nicholson dizer “Hey Eckhardt, think about the future!”) que Prince termina a repetir 6 vezes “Eu vi o futuro e ele será…”, acrescentando um “all right” apenas na primeira.

6 possibilidades de inovação, novas narrativas e futuros alternativos. Futuros que, com cooperação e com uma psicologia a reflectir o seu passado para projectar o futuro, existam. Sejam “all right”… para todas e todos.

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Violências (Ao redor…; Sábado; 21.07.2022)

Noite de Sábado, 24 de Julho de 1999. Numa base aérea desactivada nas imediações de Nova Iorque, Fred Durst sobe ao palco e, perante centenas de milhares de pessoas (e milhões a assistirem na TV), com os seus Limp Bizkit, canta a canção “Break stuff [Partam coisas]”. Diz, depois e repetidamente, “não existirem regras” e encoraja a que as pessoas “se zanguem”. Em pleno Woodstock 1999 – depois de dias de calor intenso, com péssimas condições de espaço e de higiene, após um acumular de tensão e de violências várias – Durst convida à “zanga”. Com ou sem consciência, com ou sem intenção, contribuiu para uma legitimação do que se sucedeu nas horas seguintes e que conduziu ao fim abrupto do festival, com uma forte intervenção policial, resultante do perigo provocado pelo total descontrolo de parte significativa do público e já depois da MTV e outros órgãos de comunicação social terem retirado as e os jornalistas do recinto por falta de segurança.

Pensar as violências implica pensar não apenas o que as caracteriza e determina, no presente (no tempo e momento em que decorrem), mas todo o percurso e contexto que a elas conduziu. No Woodstock 1999, nos fenómenos diversos que no Mundo e em Portugal tanto condicionam a sociedade e a saúde e bem-estar das pessoas ou até no percurso etimológico da própria palavra – violência – que a traz ao presente a partir do latim “violentia” (vis), associada a algo bravio, de vigor e de potência, bem como a uma ideia de abundância, essência e força (física) em acção. Associada, portanto, a quatro elementos que me parecem essenciais à reflexão sobre este fenómeno, à forma como impacta a sociedade e as pessoas e à forma como é por elas impactada.

Desde logo, a impossibilidade de definição de “uma violência”, antes de violências (individuais, colectivas, institucionais ou estruturais), e as transformações permanentes do que é ou não percepcionado como violência, da sua (in)visibilidade social, política e/ou jurídica e dos normativos sociais e de direitos humanos que as enquadram. Esta realidade acresce complexidade ao fenómeno, pela dificuldade da sua definição estanque, permanente e abstracta, fazendo depender a sua consideração, logo a sua prevenção e mitigação, de quadros éticos e valorativos também partilhados entre (tod)as pessoas e (tod)as instituições da sociedade, desprotegendo dessa forma grupos ou pessoas com menor visibilidade e capacidade e/ou possibilidade de participação.

Existe ainda, de certa forma, uma naturalização das violências na sociedade, como algo inevitável, quando não considerado mesmo relevante à organização da sociedade. Isto é, ainda hoje e em Portugal, evidente em determinados comportamentos individuais (por exemplo, na violência no namoro e doméstica, particularmente a exercida sobre as Mulheres), colectivos (por exemplo, no Desporto e, particularmente, nos grupos organizados de adeptas e adeptos), institucionais (por exemplo, nas instituições e equipamentos sociais, sobre população mais velha e normalmente mais dependente) ou mesmo em questões mais estruturais de organização da sociedade (por exemplo, os fenómenos de discriminação e exclusão, mais ou menos explícitos, de grupos populacionais). Desnaturalizar e invalidar as diversas formas de violência é essencial à sua não legitimação e, nesse sentido, a uma sociedade de maior equidade, coesão social e possibilidade de bem-estar para todas e todos.

Há também a utilização política das violências, quer com vista à afirmação identitária de grupos mais expostos às mesmas, quer, sobretudo, à utilização da insegurança, do medo e do sofrimento dela resultante com fins políticos. Daqui podem resultar mecanismos pseudo-securitários que, ao invés de garantirem maior segurança da e na diversidade e liberdade, contra ela atentam. Resultam, ainda, desconfianças e incompreensões diversas, muito relacionadas com os fenómenos de tribalização e polarização das sociedades e de fragilização das instituições da sociedade. Resulta, também, a emergência de autoritarismos e a legitimação de determinadas violências, algo a que crescentemente vimos assistido no discurso na proposta política em Portugal.

Finalmente, a forma como o comportamento e a linguagem, e os fenómenos de grupo, contágio e reprodução a eles associados, perpetuam e tornam estruturais as violências. Se o comportamento é a expressão visível das cognições e emoções que para ele contribuem, e por visível, socialmente aprendido, perpetuado e reproduzido, a linguagem e o vocabulário são um reflexo e uma imagem destes pensamentos, destas emoções e destes potenciais comportamentos, reflectindo as estruturas sociais e históricas que os mantêm e perpetuam. Efectivamente, não há neutralidade na comunicação, na expressão e na linguagem e estas podem ser fundamentais na manutenção ou na criação de possibilidades de mudança no sentido de um futuro com menos naturalização, legitimação e utilização das violências. De um futuro com menos violências.

Futuro que, dependendo de todas e todos, independentemente do nosso papel ou responsabilidades na sociedade, será tão mais possível quanto nos envolvermos (pessoas, comunidades e instituições) numa resposta conjunta que assente na ideia da não inevitabilidade das violências e que nos mobilize numa acção concertada visando a sua prevenção e mitigação, assente em quatro objectivos fundamentais.

À cabeça, melhor compreender o fenómeno, para melhor informar as respostas e as políticas públicas. Caracterizar, estudar e aprofundar dados e conhecimento, prevenindo a cristalização de preconceitos e vieses não factual ou cientificamente comprovados. Como disse o Ministro da Administração Interna, na apresentação da Comissão de Análise Integrada da Delinquência Juvenil e da Criminalidade Violenta, temos a responsabilidade de não associarmos automaticamente o aumento em 2021 da “delinquência juvenil e grupal” (num ano em que a criminalidade violenta no global voltou a decrescer) a questões relacionadas com as zonas ou comunidades de proveniência, algo que apenas confirma e perpetua estereótipos, preconceitos e factores de exclusão. Disse, José Luís Carneiro, que devemos analisar “em que medida os efeitos da pandemia, no domínio da saúde mental, podem contribuir para explicar este fenómeno” e “qual o grau de reemergência [também na sequência da pandemia] de fenómenos de exclusão [e isolamento com consequente maior e menos controlada exposição a conteúdos, alguns violentos, nas redes sociais e internet] e de pobreza que possam contribuir para explicar a delinquência juvenil e a criminalidade”. Mais que associar a um grupo de pessoas ou em comunidades, perceber o quão as dimensões macro ajudam a explicar o fenómeno, e logo, informam a possibilidade de intervenção no mesmo.

Um segundo objectivo está, necessariamente, relacionado com a necessidade de promover um ambiente de segurança, também psicológica, e saúde mental nas pessoas e nas comunidades. A vulnerabilidade, qualquer que seja, tem que ser validada, não penalizada. Tem que ser visível, não escondida. Tem que ser apoiada, para que possa ser superada. Outras pessoas e a comunidade no geral devem assumir-se como apoiantes e garantes de suporte da diferença, da diversidade e da ou das pessoas em situação de vulnerabilidade. Devem adoptar posturas e atitudes que criem um ambiente de segurança psicológica fundamental a uma mais adaptativa resposta da pessoa e das comunidades quando confrontada com adversidades. Para tal é fundamental promover a saúde mental, ao longo de todo o ciclo de vida e, particularmente, construir e capacitar respostas nesta área, contingentes e sensíveis às necessidades e aos momentos das pessoas e comunidades. Ambientes psicologicamente seguros e intervenções psicológicas que apoiem a mudança de comportamentos, de cognições e uma melhor gestão e regulação emocional, desempenham um papel muito importante na prevenção das violências.

A intervenção psicológica e psicossocial, constituem elementos essenciais à reparação e ao apoio às vítimas de diversos fenómenos de violência, por isso destaco-as como terceiro objectivo. Porque, não apenas este apoio é devido às pessoas, enquanto direito da mais elementar justiça social, como este apoio é fundamental à prevenção da reprodução e perpetuação de ciclos de violência, onde pessoas vítimas podem vir a ser pessoas agressoras, particularmente quando falamos de vítimas (ou observadoras/es) directas ou indirectas, ainda crianças ou jovens.

Finalmente, o quarto objectivo, a integração, articulação e inovação de respostas. Quando enfrentamos desafios sociais sistémicos e complexos, conforme os que justificam as violências, precisamos de respostas não simplitas (normalmente populares), mas sistémicas, com envolvimento de todas as instituições políticas, jurídicas e sociais. Precisamos de caminhar de uma responsabilização quase exclusivamente interpessoal para a identificação dos mecanismos sociais justificativos e de como os podemos, a par da intervenção individual, modificar, particularmente com políticas sociais que promovam mais possibilidades de inclusão, maior equidade e que verdadeiramente não “deixem ninguém para trás”. Esta modificação promoverá o empoderamento da participação das pessoas e comunidades menos visíveis e, dependerá, fortemente, do combate a discursos e narrativas (de cada um e uma de nós, das decisoras e decisores, das jornalistas e dos jornalistas, para dar apenas alguns exemplos) e a atitudes, comportamentos e decisões (de entidades e autoridades policiais, judiciais e políticas) se não promotoras, legitimadoras, das violências.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, prevenir e mitigar as violências passa por as contextualizarmos no quadro da sua complexidade, por nos mobilizarmos contra a ideia da sua inevitabilidade e contra a sua naturalização e por nos activarmos, qualquer que seja o nosso papel, para a mudança necessária à sua prevenção e mitigação. Para um contributo para uma sociedade de maior inclusão, equidade, coesão e bem-estar para todas e para todos. Para uma sociedade que possibilite a auto-determinação no presente, garantia de futuro.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 21.07.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/violencias

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Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia Tomada de Decisão

Maioridade(s)

Acabo de cumprir o momento do ano em que um segundo, minuto, hora e dia significam (mais) um ano de vida. E, se esse momento significa hoje “apenas” mais um ano de vida, no passado mais um segundo, minuto, hora e dia significaram uma mudança de idade que me garantiu (novos) direitos e deveres.

O meu aniversário de 2022 distou 5 dias da publicação do trabalho da Maria João Bourbon (Fisga; Revista Expresso) focado, exactamente, na questão da maioridade e da recente alteração nessa Lei no Japão (de 20 para 18 anos).

A peça trata a realidade em diferentes países, incluindo Portugal, e procura focar “discrepâncias” entre países e dentro dos países para questões distintas (votar, consumir álcool/tabaco, apostas, conduzir, casar, entre outras). “Discrepâncias” que – digo na peça – considero naturais, afirmando que o que “seria inconsistente com a ciência e o conhecimento disponível seria existir uma idade igual para todas as situações”, particularmente quando os estudos, cada vez mais sólidos, identificam diferentes momentos de maturidade e desenvolvimento que influenciam a idade de maioridade. Nomeadamente “funções mais racionais, cognitivas, de deliberação e de pensamento lógico”, onde, em média. o nível de competência da idade adulta se atinge aos 15/16 anos, e “funções e capacidades mais relacionadas com o autorregulação e a capacidade de controlar determinados impulsos”, onde, em média, se alcança próximo dos 20 anos.

Significa isto, digo, “que existe mais capacidade de tomada de decisão, mais precocemente, que envolva uma situação de saúde (se devem ou não ser alvo de um determinado procedimento, por ex.) do que serem capazes de, a conduzir, não avançarem num sinal amarelo ou para controlarem determinados impulsos relacionados com o consumo de álcool ou jogo”.

Ainda assim, refiro que persistem perplexidades na legislação (como a agora corrigida no Japão que permitia o serviço militar a partir dos 18 anos, mas o direito de voto apenas aos 20) demonstrativas de que nem “sempre há a consideração da melhor evidência disponível”. Afirmo, portanto, que a legislação (e quem a faz e aplica) deve ser sensível aos fenómenos sociais e culturais e ao conhecimento científico, também da psicologia, procurando as melhores e mais informadas decisões e estando disponível para produzir alterações, quando convenientes e suportadas, até pela “complexificação muito significativa dos processos de vivência e de escolha” com que as e os jovens se confrontam na sociedade contemporânea.

Tema exemplar onde ciência, sociedade, Lei e tomada de decisão devem “andar de mãos dadas”. Exemplar do quão certeiro é o mote da rubrica Fisga: “Quem sabe tudo é porque anda muito mal informado”. Do quão certeira é a metáfora de Carlos Fiolhais (“Por vezes os cientistas parecem para os governos como os candeeiros para as pessoas alcoolizadas – mais apoio [encosto] que iluminação”) e do quão assim não deverá ser visando o melhor interesse das pessoas, da justiça e da coesão social.

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COVID-19 Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses

Ontem. Amanhã.

Ontem foi um dia bom e importante para mim. Dia em que, necessariamente, pensei (e penso) o que passou e em que procurei (e procuro), na medida do possível, projectar o que aí vem. Dia em que me senti (e sinto) grato.

Neste caso, e neste ano, dia deste anúncio. Simbolicamente associado também a um momento de reflexão sobre o que foi, no empenho, dedicação e compromisso das psicólogas e dos psicólogos em Portugal, o contributo da sua ciência e da sua prática para um grave desafio de saúde pública global – a pandemia que ainda vivemos por COVID-19.

Simbolicamente associado a um momento de reflexão sobre os 30 meses que vão ter passado sobre os primeiros casos confirmados em Portugal e a constituição do gabinete de crise COVID-19 da OPP. Sobre as muitas centenas de colegas que, desde a primeira hora, contactaram a sua associação profissional disponibilizando-se a apoiar as mais diversas iniciativas e disponibilizando-se para contribuir num momento muito desafiante na vida das pessoas, das famílias, das e dos profissionais, das comunidades e das decisoras e decisores.

Sobre o quão também envolvido estive, o quanto propósito e significado acresceu ao que procurei que fosse também o meu contributo e ao quão grato estive, estou e estarei por o poder ter feito e essa tarefa me ter sido confiada.

Por, finalmente, a forma como aquele momento impacta o presente da psicologia em Portugal e impactará, ainda, o futuro. Um futuro com a psicologia e as psicólogas e psicólogos cada vez mais presente em cada vez mais momentos e circunstâncias da vida de cada vez mais pessoas.

Sobre isso procurarei reflectir nesta conversa / entrevista. Fica o convite para que nos encontremos e conversemos no V Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses, no final de Setembro em Aveiro. Nesta sessão e em qualquer outro momento porque falar, conversar, reflectir conjuntamente, é verdadeiramente importante.