“O trabalho liberta”. L. Blum, ao contrário de outras e outros judeus (e não apenas), não terá lido esta frase quando, em 1943, entrou no campo de concentração de Buchenwald. Este campo, ao contrário de Auschwitz ou Sachsenhausen, não a tinha no portão, antes a não menos inquietante e perturbadora: “a cada um o que lhe é devido”. Seria mais um anacronismo a acrescer ao inominável da situação, quando, 7 anos antes, Blum havia liderado o primeiro governo a instituir legalmente e universalizar o direito a férias pagas.
“Férias. França. Falta de memória e de factualidade”, 38º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) trata a importância inegável das férias (pagas), hoje assumidas por vários, persistindo importantes excepções mesmo quando defendidas pela OIT desde 1936 e na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). Fá-lo, também, reflectindo sobre o seu papel na saúde e bem-estar, na produtividade e na gestão das organizações, na oportunidade que comportam à prevenção da exposição a situações adversas e riscos psicossociais, de criação de novos hábitos, rotinas e centração noutras dimensões da vida.
Mas se França, porque pioneira, me e nos deu (infelizmente ainda não a todas/os) isso, também me (e nos, a tantas e tantos portugueses) deu outras possibilidades de qualidade de vida, por ter sido local de trabalho de familiares no passado. “Esta é [portanto] ainda, hoje, a época do ano onde famílias se reencontram, onde a “terra” ganha vida, sotaque, economia, histórias do e dos passados, sonhos de regresso e de futuro. Onde, quando paro eu de férias, penso no que foi no passado e é para muitas e muitos ainda hoje, a abnegação e o sofrimento de partir não raras vezes não apenas por si, mas pelas e pelos seus”.
“Não deixa, portanto, de ser anacrónico que seja esta, também, a altura do ano em que algumas pessoas questionam as migrações. Das pessoas, de quem escolhe (ou não) Portugal enquanto país para viver ou de quem, particularmente nesta altura do ano, regressa ao país. Das ideias e dos ideais, de direitos e de liberdades, da procura da igualdade de oportunidades.” Nem “precisamos de evocar o importante contributo da população imigrante e emigrante para o desenvolvimento do país, os seus contributos para o sistema de segurança social ou para os grandes desafios (pobreza, crises sócio-económicas, natalidade, falta de trabalhadoras e trabalhadores em diferentes sectores…), basta “evocar as férias e França e olhar ao redor para aferirmos como a (sua) falta de factualidade e falta de memória não as/os (pre)ocupam tanto quanto a possibilidade de circulação e de migração de pessoas e de ideias e ideais.”
A ociosidade positiva e prazerosa é essencial num caminho rumo a uma maior possibilidade de bem-estar, autodeterminação e ao exercício e usufruto da nossa liberdade. À mudança. À diversidade que enriquece todas e todos, enquanto comunidade. A que posamos interagir, espantar-nos e inspirar-nos mutuamente por um Mundo melhor.
Boas férias, sim?