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Falemos, pois.

A fonte, a luz e, particularmente, os imponentes claustros do Colégio do Espírito Santo (Évora) são parte do meu imaginário. São, também, parte do “roteiro Eborense” do livro “Aparição” de Vergílio Ferreira. Escritor importante e que me permitiu e nos permite pensar o século XX Eborense, além de outras cidades deste país, na triangulação pessoas / binómio lugar-tempo / relações.

Vergílio Ferreira que, com uma lucidez desconcertante (porque há largas décadas), disse podermos afirmar “com energia o disparate que quisermos”, acabando sempre “por encontrar quem acredite em nós”. E, se isso era verdade há décadas, é-o também hoje, com maior impacto, num Mundo onde parte da conexão (relação) e da comunicação (das pessoas) usa de redes (sociais) que aceleraram a forma como a informação se propaga, também (ou mesmo particularmente) quando “disparatada”.

Curiosamente (ou talvez não) a necessidade que, enquanto seres humanos, temos de nos relacionar com outras pessoas, podendo parecer uma vulnerabilidade, permite-nos desenvolver as dimensões de compaixão, de compreensão mútua e as capacidades de empatia, centrais no que ao longo de milénios vem permitido a continuidade dos seres humanos e a sua possibilidade de desenvolvimento. Mas, em algumas situações, conduz a processos de identificação e polarização (tipo “eu/nós vs. tu/vós”) em muito responsáveis pela fragmentação da sociedade, por violências e discriminações várias (implícitas ou explicitas) e pela perda de confiança nas pessoas, instituições e na ciência.

Aqui chegados, é importantíssimo que, além das (ou também nas) redes sociais, realmente conversemos com outras pessoas. Iniciemos conversas, particularmente junto de quem não conhecemos ou totalmente concordamos, usando da compreensão mútua, empatia e compaixão, procurando não extremar posições pela construção de pontes de entendimento. A construção a este nível também passa por procurarmos complicar e complexificar narrativas (para não discutirmos de forma redutora e simplista os temas, particularmente os complexos), conforme trabalhos que relacionam a ciência psicológica com o jornalismo têm procurado desenvolver.

Questões que permitam discutir, sempre com os devidos cuidados, algumas contradições (“como decidiu que esta informação era confiável?”) e motivações (“porque é que isto é tão importante para ti/si?”). Questões que permitam expor outras pessoas a outras ideias (“o que acha(s) que outro grupo de pessoas pretende?”) ou questões que permitam ouvir e compreender melhor (“o que sente(s) ao contar essa história?”).

Nos últimos dias participei de conversas muito relevantes. Sobre o mote “a psicologia está aqui” e sobre temas de especial complexidade (e importância, creio) como a crise climática, a saúde mental em crianças e jovens, a equidade, diversidade e inclusão ou a ciência e uso da tecnologia.

Criticar, construtivamente, não resolve tudo. Mas pode ajudar, muito. Conversar não resolve tudo. Mas pode ajudar, muito.

Falemos, pois.

 

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