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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia

Violências…

“Pensar as violências implica pensar não apenas o que as caracteriza e determina no presente (no tempo e momento em que decorrem), mas todo o percurso e contexto que a elas conduziu.”

“Violências”, 37º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) parte deste mote para “pensar” as violências enquanto fenómenos complexos e diversos que, no Mundo e em Portugal, tanto condicionam a saúde e bem-estar das pessoas e a sociedade, sendo também por ela condicionados. Faço-o procurando reflectir a partir de quatro elementos enquadradores e de quatro acções possíveis para a sua prevenção e mitigação dos seus impactos.

Quando aos elementos enquadradores: a) “a impossibilidade de definição de “uma violência”, antes de violências (individuais, colectivas, institucionais ou estruturais), e as transformações permanentes do que é ou não percepcionado como violência”; b) uma certa “naturalização das violências na sociedade, como algo inevitável, quando não considerado mesmo relevante à organização da sociedade”; c) “a utilização política das violências, quer com vista à afirmação identitária de grupos mais expostos às mesmas, quer, sobretudo, à utilização da insegurança, do medo e do sofrimento dela resultante com fins políticos”; e d) “a forma como o comportamento e a linguagem, e os fenómenos de grupo, contágio e reprodução a eles associados, perpetuam e tornam estruturais as violências”.

Quanto às quatro acções, dependentes de todas e todos, independentemente do nosso papel ou responsabilidades na sociedade, serão tão mais possíveis “quanto nos envolvermos (pessoas, comunidades e instituições) numa resposta conjunta”: a) “melhor compreender o fenómeno [também quanto a questões associadas à pobreza / exclusão e saúde mental], para melhor informar as respostas e as políticas públicas”; b) “necessidade de promover um ambiente de segurança, também psicológica, e saúde mental nas pessoas e nas comunidades”, onde a vulnerabilidade, qualquer que seja, deverá ser validada, não penalizada; c) o reforço da intervenção psicológica e psicossocial de “reparação e apoio às vítimas de diversos fenómenos de violência”, enquanto direito de justiça social e fundamental à prevenção da reprodução e perpetuação de ciclos de violência; e d) “a integração, articulação e inovação de respostas” caminhando “de uma responsabilização quase exclusivamente interpessoal pelas violências, para a identificação dos mecanismos sociais delas justificativos e de como os podemos modificar”.

“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, prevenir e mitigar as violências passa por as contextualizarmos no quadro da sua complexidade, por nos mobilizarmos contra a ideia da sua inevitabilidade e contra a sua naturalização e por nos activarmos, qualquer que seja o nosso papel, para a mudança necessária. Para um contributo para uma sociedade de maior inclusão, equidade, coesão e bem-estar para todas e para todos. Para uma sociedade que possibilite a auto-determinação no presente, garantia de futuro.”

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Desafios da Psicologia Política Psicologia Tomada de Decisão

Negatividade, espaço público e debate político

Ontem, com o meu filho mais novo no colo e na sua rotina pré-banho, dei por mim a fechar a janela do quarto enquanto lhe dizia “mais um dia de vida”. Mas… Mais um dia de vida (vivido) ou menos um dia de vida (por viver)?

Pensei-o, creio, pela coincidência de ter acontecido o debate “Estado da Nação”. A esse propósito, durante o dia, havia lido o trabalho “De zero a 20, As notas para o estado da Nação” onde “O painel do programa “O Vencedor É..”, da Rádio Observador, faz a avaliação dos protagonistas políticos”. Continuava o título, “A escala é de 0 a 20 (mas não há nenhum 20)”, frase “contida” porque, além de não existir nenhum 20, conforme referido, não existe também nenhum 19, 18, 17, 16 ou mesmo 15.

15 pessoas avaliaram 15 personalidades políticas (225 avaliações) e nenhuma tem mais de 14 valores numa escala de 0 a 20. Ou de 0 a 14, no caso, pois existem 0, 1, 2, 3, 4, 5, … todas as avaliações possíveis entre 0 e 14, incluindo um curioso (porque preciso) 9,5. Podemos pensar que tal decorre por ser a avaliação de um governo num período de especial complexidade, com problemas e erros significativos. No entanto, o painel faz a avaliação “Do Governo à oposição. De Belém a São Bento”, avaliando o Primeiro-ministro e 5 Ministras/os, mas também o Presidente da República, da Assembleia da República e as/os líderes dos 7 partidos com assento parlamentar, incluindo o recém-empossado Luís Montenegro. A título de ex., as notas atribuídas por J.M.Fernandes, publisher do Observador, resultam numa média de 7,8 (média mais baixa é 6,5 – Filomena Martins; média mais alta é 9,6 – Júlio Magalhães/Pedro Raínho). Podemos ainda pensar que tal sucede por se tratar do Observador, mas assim não creio. Ainda que não idêntico, imagino algo próximo noutros órgãos de comunicação social e/ou painéis.

Antes, creio decorrer de alguma falta de consideração da dificuldade do papel e da crescente utilização da dimensão negativa no espaço público e debate político. Independentemente do contexto e apesar de nem sempre assumido, é este o tipo de discurso mais procurado pelas e pelos (e)leitores e espectadores e é o que melhor funciona no estilo comunicacional breve e “sensacionalista” que as redes sociais estimulam e propagam. Assim, os media tendem a promover mais discursos/campanhas negativas, incentivando a sua reprodução, a polarização política e intensificando a associação da “negatividade” à política e às e aos decisores, aumentada pelo viés (da negatividade) que leva as pessoas a considerarem mais (e serem mais impactadas) por informações, factos ou feedbacks negativos (face a positivos).

Ao invés de “fecharmos, abramos janelas” para que, com o país e o Mundo confrontados com desafios societais complexos, com crises de desconfiança e com o autoritarismo a reemergir, possamos ter mais e não menos pessoas disponíveis para dar o seu contributo na política. Mais e não menos pessoas que acreditem nos princípios democráticos e no valor da dignidade e dos direitos humanos.

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Comportamento Desafios da Psicologia Emergência Climática Psicologia

Os incêndios e a crise climática.

Acordamos com um Portugal em estado de alerta. Estado semelhante ao que, com excepção da Área Metropolitana de Lisboa (em contingência), o país vivia há exactamente 2 anos. Uma pandemia por um vírus em 2020. O risco imenso de grandes incêndios rurais pela gravosa conjugação de factores climatéricos em 2022. Fenómenos diversos, é certo, mas hoje mais prováveis num Mundo e, particularmente, num Portugal fortemente exposto às consequências da crise climática que vivemos.

Fenómenos diversos, dizia, mas análogos no que remete ao papel do comportamento e da tomada de decisão das pessoas. No que remete para a importância da resiliência individual e colectiva às adversidades, e sua promoção. Para a relevância dos factores de protecção e dos impactos diferenciados em populações com especiais vulnerabilidades. Para a necessidade de decisoras e decisores informarem as suas políticas e decisões na melhor evidência científica disponível e comunicarem com a população de forma clara, transparente, empoderadora e não culpabilizante. Fenómenos diversos, é certo, mas que apelam à psicologia, enquanto ciência e prática, na sua prevenção, no desenho das respostas aos problemas e na intervenção/reparação dos seus impactos nas pessoas, famílias e comunidades.

Na 6ªF, com o país ainda em contingência, junto com o Alexandre Évora e a Andreia Palmeirim (Jornal do Meio Dia; CNN Portugal), discutimo-lo no que se refere aos incêndios. Do contributo da psicologia no momento da prevenção, à compreensão do comportamento e apoio à mudança. Da sua centralidade na promoção da resiliência das pessoas e comunidades, ao treino e testagem de protocolos de actuação, cada vez mais essenciais face ao que o presente e futuro nos reserva. Da sua essencialidade no apoio às populações, qualquer que seja a idade ou condição, mas, particularmente, junto de populações mais vulneráveis: quem revive catástrofes e situações (potencialmente) traumáticas; as e os “profissionais” envolvidos; algumas pessoas mais velhas que, por vezes, vêem a sua identidade, sentido de pertença e autonomia abaladas pela perda de uma casa (ou terreno); as crianças, cuja protecção, a par da compreensão e intencionalização da comunicação, é fundamental. Discutimos o caminho a percorrer, mas também o percorrido, com o reconhecimento, hoje maior, da necessidade de olhar os incêndios também no seu impacto nas pessoas e comunidades e no reforço nos agentes de protecção civil de psicólogas/os para auxílio à decisão e acção.

Partilho este momento. Como partilho a recordação de um vídeo. Imagem alaranjada. Uma mulher, descalça, com uma pequena mangueira. Um oficial da GNR diz-lhe: “Minha senhora, tem que sair daqui” e… “Ai, eu não saio daqui. Tenho os meus animais”. O incêndio lá vinha e, com ele, a perda, o tal momento que tudo muda. Um monstro alimentado por uma crise climática que, passo a passo, elimina o “natural” da expressão “catástrofe natural”. Nem natural nem, cada vez mais, rara. Preparemo-nos. Garantamos agenciamento.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Política

Por um . Final à Pobreza (Ao redor…; Sábado; 05.07.2022)

Imaginemos por um momento um país onde apenas 3 em cada 100 pessoas têm acesso a alimentos que garantem qualidade e segurança alimentar. O cenário de 97% da população não conseguir cumprir as suas refeições mínimas parece o guião de um livro, uma série ou um filme “apocalíptico” inquietante. Não é. É, antes, a realidade que sustenta que António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, tenha afirmado que o “Afeganistão está por um fio.” Guerra. Um regime autoritário que não respeita direitos humanos básicos. Crise climática e seca extrema. Pobreza e exclusão. Determinantes desta situação que, além do sofrimento que comporta e das suas implicações de curto, médio e longo prazo, é um “barril de pólvora” de consequências imprevisíveis para o Afeganistão, para a região e para o Mundo.

Cada um destes determinantes relaciona-se, directa ou, pelo menos, indirectamente, com todas pessoas, com o seu comportamento e com as suas tomadas de decisão. São, portanto, objecto de uma ciência – a Psicologia – que há mais de um século os estuda e assegura, hoje, um vasto e sólido corpo de investigação que apoia a sua compreensão e que pode e deve contribuir para a sua mitigação e prevenção. Que deve, interna e externamente, afirmar-se enquanto ciência e prática não apenas centrada na doença ou nas perturbações da pessoa, que resultam das adversidades que enfrenta, mas também, e cada vez mais, no contributo decisivo que pode ter na qualidade de vida e no bem-estar no dia-a-dia das pessoas, numa potencial mudança da sociedade, rumo a um quotidiano com menos exposição à adversidade (e mais apoio aquando desta), capaz de prevenir a referida doença. Afirmar, na profissão e na sociedade, em Portugal e no Mundo, a Psicologia, também na sua intervenção social e comunitária, complementar ao contributo de outras suas áreas para esta mudança, portanto não só focada no individual e no psíquico, apoiando a pessoa nos seus problemas, empoderando-as e promovendo recursos. Mas, também, focada na mudança de políticas públicas e das realidades que nos conduzem a e perpetuam ciclos de adversidade, como os resultantes da pobreza e da exclusão, impactando significativamente a sociedade e colaborando nos principais desafios societais, a partir dos contributos únicos da ciência e prática da profissional.

Não por acaso a erradicação da pobreza é o primeiro dos 17 Objectivos do Desenvolvimento Sustentável. É-o porque tudo impacta (educação, saúde, trabalho, participação social, …), qual espiral tóxica, alimentando factores de exclusão e dificultando a saída dessa situação, com sérias repercussões no futuro, particularmente das crianças e jovens. E é-o porque, apesar de ser um desafio crítico, sem fronteiras e intergeracional, e apesar de por vezes nos ser difícil assim o sentir, é possível e está ao nosso alcance terminar com a pobreza e, em particular, com a pobreza extrema. Está ao nosso alcance substituir a desesperança, consciente ou inconsciente, individual e colectiva, por um propósito de acção, consciente, individual e colectivo rumo a um fim à pobreza.

Possível, em Portugal, um dos países da União Europeia em que é mais difícil sair desta situação e em que uma em cada cinco pessoas, mesmo considerando apoios sociais, vive hoje em situação de pobreza. Possível, no Mundo, onde vivem hoje 700 milhões de pessoas em situação de pobreza extrema, número que hoje cresce, invertendo uma tendência de diminuição significativa dos últimos anos, particularmente pelos efeitos da pandemia por COVID-19, da crise climática e seca severa ou extrema em diversas regiões e da guerra (não apenas, mas particularmente na Ucrânia).

Curiosamente, ou não tanto, são também mais de uma em cada cinco as pessoas que em Portugal vivem com um problema de saúde mental. A relação entre estes problemas, particularmente a ansiedade, a depressão e o stresse e as situações de exclusão e pobreza é “íntima”, conforme compreendemos e reconhecemos, bastando-nos olhar sensitivamente à nossa volta. Ainda que seja evidente, nem sempre as pessoas e as políticas públicas são responsivas a esta realidade mas, hoje, ao olhar do senso comum, junta-se um forte corpo de investigação que demonstra esta associação cíclica e forte, tal como demonstra como o “efeito túnel” e a escassez mental associada às situações de pobreza, influenciam a capacidade de autocontrolo (comportamental e emocional), de planeamento e de tomada de decisão.

Imagine-se a tomar decisões relativamente à Escola do seu filho no próximo ano num final de tarde em que não tem, e não sabe como poderá ter, uma refeição para lhe dar de jantar. Imagine e imagine, por ser impossível fazê-lo, o quão duplamente injusto é, na maioria das situações, culparmos as pessoas pelas suas situações de pobreza, as penalizarmos por não tomarem as melhores decisões, planearem a sua vida ou reagirem impulsivamente e as estigmatizarmos. Imagine e imagine o quão triplamente injusto pode ser quando, a esta culpabilização e estigmatização, acresce auto-culpabilização e auto-estigmatização por parte das pessoas por não conseguirem dar-se e dar a outras e outros (dependentes, por exemplo) outras condições, sendo muitas vezes penalizadas por isso por uma sociedade que por vezes não lhes garante condições e oportunidade para sair da situação em que se encontram. Imagine e imagine quando a esta realidade juntamos níveis subsequentes de exclusão, por via de se tratar de pessoas especialmente vulneráveis como (algumas) pessoas migrantes, pessoas com problemas de saúde psicológica ou pessoas com baixas qualificações, para dar apenas três exemplos particularmente frequentes. Imagino, eu agora, que parte das pessoas a quem peço que imagem possam já ter vivido alguma destas situações, possam estar a viver ou que, como todas as outras pessoas, possam vir a vivenciar.

Também porque, não esqueçamos: a pobreza vai além da mera ausência ou escassez de recursos materiais. É uma experiência pela qual todas e todos nós poderemos passar e que condiciona direitos, a possibilidade de desenvolvimento e de nos cumprirmos. Condiciona a saúde psicológica e bem-estar. Por compromisso com estes valores, com a promoção da justiça social e dos Direitos Humanos e em total fidelidade com o objecto e com os princípios do Código Deontológico da profissão, a Ordem dos Psicólogos Portugueses apresentou a campanha “. Final à Pobreza” (https://finalapobreza.pt). Com ela pretendemos – assumindo um papel de ciência e profissão capaz de contribuir para a mudança e coordenando a nossa acção com a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030 de Portugal – potenciar a aplicação do conhecimento procedente da Psicologia à construção de políticas públicas eficientes e responsivas às pessoas, de respostas integradas e multidimensionais e reforçar os instrumentos disponíveis para o contributo da profissão e das psicólogas e dos psicólogos na área da pobreza e da exclusão.

Na Madalena (Ilho do Pico), na primeira sessão de recolha de contributos com psicólogas e psicólogos para a campanha, uma das participantes deixou esta simples proposta: “Promover a ideia de que a pobreza de uns afecta todos”. Que a pobreza, mesmo quando são outras as pessoas a vivenciá-la, a todas e todos impacta, que a sua mitigação e prevenção depende, também, de todas e todos e que a sua diminuição (fim, um dia) garantirá maior possibilidade de bem-estar para todas e todos. Que, no fundo, promover a equidade é, em si e pelo seu impacto potencial, preventivo. Além, claro está, de justo, porque é um direito. Além de, até terapêutico, se quisermos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental que priorizemos o combate à pobreza e à pobreza extrema, considerando todos os seus impactos e os problemas que comporta às pessoas e à sociedade. Que priorizemos e que, nesse combate, usemos a ciência que estuda o comportamento humano e os profissionais que, dia-a-dia, a aplicam nos seus diversos contextos de intervenção, em todo o ciclo de vida das pessoas e na informação às decisões e desenho e mobilização de soluções: as psicólogas e psicólogos. Profissionais felizmente disponíveis em Portugal e motivados para um contributo numa matéria decisiva para, afinal, o objectivo fundamental da sua intervenção: promover a autodeterminação, a saúde psicológica e o bem-estar das pessoas; contribuir para uma sociedade de direitos humanos, de equidade e coesão social.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 05.07.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/por-um–final-a-pobreza

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COVID-19 Desafios da Psicologia Emergência Climática Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Ainda o ECP2022

Stephen Reicher. Conheci-o a propósito do estudo das massas (dos grupos). Ouvi-o, por estes dias, pensar a liderança e o comportamento. Como influenciam organizações e governos, a gestão de crises (COVID-19 ou a climática). De como são fundamentais ao contínuo paz-guerra. Recentemente participou num trabalho que resultou num artigo que apresenta em cinco “R”, cinco prioridades das políticas relacionadas com a liderança identitária”: Readying [preparação]; Reflecting [reflexão]; Representanting [representação]; Realizing [realização]; e Reinforcing [reforço]. Além de neles me rever, no dever e na responsabilidade que assumi enquanto coordenador do gabinete de crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), creio 5 “R” farol para o trabalho de contributo de uma associação profissional para os desafios societais que enfrentamos.

Isso discutimos no simpósio que coordenei no European Congress of Psychology 2023 (Human Behavior and Decision Making – Psychology’s Role in Adressing Climate Crisis | Comportamento Humano e Tomada de Decisão – O papel da Psicologia na Crise Climática), onde, também, partindo da defesa da necessidade de caminharmos da pergunta “O que pode a Psicologia contribuir?” para “Como poderíamos enfrentar a crise climática sem o contributo da Psicologia enquanto ciência e profissão?”, apresentei o percurso da OPP nesta área, junto da profissão, da sociedade civil e das decisoras e decisores.

Reforcei também o nosso comprometimento com a Global Psychology Alliance, resultante da Summit que co-organizamos com a American Psychological Association em 2019, e com a EFPA (European Federation of Psychologists’​ Associations), onde integro um Grupo de Trabalho. No simpósio, a Amanda Clinton, Ph.D. e a Nicola Gale, respetivamente, apresentaram o trabalho da APA e da EFPA e a Valeriia Palii (Ucrânia) e a Moanna Waitoki (Nova Zelândia), presidentes das respectivas associações nacionais, o trabalho desenvolvido nestes países.

Mas discuti-o também na comunicação (Dealing With a Pandemic in XXI Century – OPP Role and Contributions in COVID-19 Crisis | Lidar com uma pandemia no século XXI – O papel e os contributos da OPP na crise COVID-19]), reflexão da acção da OPP em 2 anos de pandemia. Entre outros, destaquei os contributos na formação e nos documentos orientadores da prática, na literacia, no apoio à criação do serviço de aconselhamento psicológico e da advocacia para a criação e apoio à Task Force das Ciências Comportamentais, coordenada pela Margarida Gaspar de Matos (ali representada pelo Osvaldo Santos), bem como o contributo para a rede de microinfluenciadores da Direção-Geral da Saúde (ali representada pelo Miguel Arriaga).

Momentos que nos recordam que os complexos desafios societais não têm fronteiras, que necessitamos de uma Psicologia com identidade, elevados padrões éticos, globalmente forte e que os psicólogos e psicólogas portuguesas têm tido (e devem continuar a ter) um relevante e reconhecido contributo para tal.

 

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade

Por um . Final à Pobreza.

Sexta-feira. No conjunto de emails por ler tinha um com título: “Por um . Final à Pobreza”. Tratava-se da newsletter da Revista Sábado com chamada para o artigo que escrevi com esse nome além de para notícias e outro artigo de opinião (“Acreditar no Pai Natal”). Simbólica coincidência, seremos sugeridos a pensar. Mas, “apesar de por vezes nos ser difícil assim o sentir, é possível e está ao nosso alcance terminar com a pobreza e, em particular, com a pobreza extrema. Está ao nosso alcance substituir a desesperança, consciente ou inconsciente, individual e colectiva, por um propósito de acção, consciente, individual e colectivo rumo a um fim à pobreza.”

“Por um . final à pobreza”, 36º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) parte da afirmação que transcrevo para – contextualizando a realidade do fenómeno no Mundo e em Portugal e a inversão recente da “tendência de diminuição significativa dos últimos anos, particularmente pelos efeitos da pandemia por COVID-19, da crise climática e seca severa ou extrema em diversas regiões e da guerra” – apresentar e discutir o contributo da Psicologia, como ciência e profissão, neste desígnio.

Para tal toca a proximidade dos números da prevalência em Portugal de problemas de saúde psicológica com os de pessoas a viver em situação de pobreza, algo não fruto do acaso. Reflecte as relações (e consequências) destas situações, além do “efeito túnel” e do impacto da escassez na “capacidade de autocontrolo (comportamental e emocional), de planeamento e de tomada de decisão” para, com exemplos, sublinhar a “espiral tóxica” que a pobreza impõe ao alimentar “factores de exclusão e dificultar a saída dessa situação, com sérias repercussões no futuro, particularmente das crianças e jovens”.

Para afirmar, ainda, “na profissão e na sociedade, em Portugal e no Mundo, a Psicologia, também na sua intervenção social e comunitária, complementar ao contributo de outras suas áreas para esta mudança, portanto não só focada no individual e no psíquico, apoiando a pessoa nos seus problemas, empoderando-as e promovendo recursos”. Uma Psicologia também “focada na mudança de políticas públicas e das realidades que nos conduzem a e perpetuam ciclos de adversidade, como os resultantes da pobreza e da exclusão, impactando significativamente a sociedade e colaborando nos principais desafios societais, a partir dos contributos únicos da ciência e prática da profissional.”

Uma oportunidade para voltar a abordar a campanha https://finalapobreza.pt e “promover a ideia de que a pobreza de uns afecta todos”, conforme a sugestão de uma psicóloga na 1ª sessão de recolha de contributos na Madalena (Ilha do Pico). Psicólogas e psicólogos, “felizmente disponíveis em Portugal e motivadas/os para um contributo numa matéria decisiva para, afinal, o objectivo fundamental da sua intervenção: promover a autodeterminação, a saúde psicológica e o bem-estar das pessoas; contribuir para uma sociedade de direitos humanos, de equidade e coesão social.”

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European Congress of Psychology

Cachopo. Ouvi esta palavra, certamente, muitas centenas de vezes. Dirigida a outras pessoas também, mas, muitas vezes, a mim. Um equivalente ao gaiato que, mais tarde, quando me mudei do Ribatejo para o Alentejo, passei a ouvir, agora já só dirigido a outras pessoas, a crianças. Moço, rapaz novo, cachopo. Lembrei-me da palavra a propósito de duas situações que marcarão os meus próximos dias:

1. John Cacioppo, hoje Director do “Center for Cognitive and Social Neuroscience (Centro para a Neurociência Cognitiva e Social) da Universidade de Chicago, em 2007 presidente da “Association for Psychological Science (Ass. para a Ciência Psicológica)”. Nesse ano, numa coluna da publicação da Associação, escreveu um artigo (“Psychology is a Hub Science”) onde reflectiu a partir de análise e mapeamento de dados, sobre o facto da ciência psicológica ser, já em 2007 (hoje mais, diria), uma das/os sete “hub sciences” (eixos de ciência). Também já aí, a Neurologia e a saúde pública surgiam entre dois hubs de ciência – a Psicologia e a Medicina. O mapeamento da ciência, efectuado em 2005 e reflectido nesse artigo por Cacioppo, demonstrava já uma Psicologia, que – ainda que pouco compreendida pela sociedade civil e utilizada, particularmente, pelas decisoras e decisores – tinha contributos decisivos para outras ciências e com elas muito crescia.

2. Porque a Psicologia é uma ciência, apesar de em grande e rápido desenvolvimento, ainda “moça”, jovem, em todo o Mundo mas muito em Portugal. Cresce, desenvolve-se, mas não sem enormes desafios que se lhe colocam. Da necessidade de maior afirmação aos processos de especialização e hiperespecialização. Do reconhecimento de erros cometidos, da reparação e da aprendizagem com os mesmos à necessidade de maior identidade, também entre a ciência e prática e além-fronteiras. Da necessidade de rapidez na evolução da ciência (e prática), num Mundo cada vez mais acelerado, ambíguo, sempre em mudança e com desafios societais de complexidade crescente.

Nos próximos dias, eu e várias psicólogas e psicólogos portugueses, estaremos no European Congress of Psychology (https://www.ecp2022.eu). Num momento de particular complexidade do Mundo, ainda a sair de uma pandemia, a viver uma Guerra em território Europeu, num período de rápido retrocesso em diversos indicadores (desde logo na pobreza) e com a crise climática, das migrações e sócio-económica a sinalizarem-no, juntamo-nos a outros e outras psicólogas Europeias com o propósito de contribuir para uma ciência e uma profissão mais ao serviço das pessoas e da sociedade. Eu, com participações na área da saúde pública (COVID-19) e da crise climática, sob o chapéu do tema do congresso (“Psychology as the Hub science: Opportunities & Responsability | Psicologia como o eixo da ciência: Oportunidades e Responsabilidade”) e com a certeza da responsabilidade e dever de contribuir para uma Psicologia mais sem fronteiras a contribuir para os, também sem fronteiras, complexos desafios societais.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Emergência Climática

Mudar (n)as cidades para mudar (n)o Mundo (Ao redor…; Sábado; 21.06.2022)

“Um muro de Berlim no centro de Oslo”. Foi esta a forte metáfora que uma Associação de Comerciantes de Oslo usou para descrever um conjunto de pilaretes utilizados num projecto piloto que experimentou – com o sucesso que hoje todas e todos reconhecem – limitar as deslocações automóveis no centro da cidade, tornando maioritariamente pedonal ou de mobilidade ligeira parte significativa do centro da cidade. Não há muitos anos, a economicamente vibrante cidade de Oslo, frequentemente considerada uma das melhores cidades do Mundo para viver, visitar ou trabalhar, com uma rede de transportes integrada modelo para diversas cidades no Mundo, discutia, nestes termos, mudanças associadas à organização do seu espaço público.

Talvez este debate, relativo a Oslo, surpreenda algumas pessoas. Surpreenda na exacta medida em que não surpreende que cá, relativamente às cidades portuguesas, discutamos nestes termos. Isto porque, racionalmente, associamos os diferentes níveis de surpresa à distinção que estabelecemos entre as condições de Oslo e as das cidades portuguesas para esta transição. Racionalmente, assim é. Mas, creio relevante, particularmente para decisoras e decisores, que se tenha sempre presente que mudar é difícil. Muito difícil. Que vencer a resistência à mudança inerente à condição humana e a inércia (social) associada a estas alterações conceptuais na forma de organização das cidades, é sempre difícil, em qualquer lugar do Mundo, quaisquer que sejam as suas circunstâncias.

Algumas e alguns de nós recordamos ou já vimos imagens da Avenida dos Aliados no Porto, do Terreiro do Paço em Lisboa ou da Praça do Giraldo em Évora quando ainda eram essencialmente ou, pelo menos, também utilizadas como parque de estacionamento / praças de táxis. Qualquer um dos três espaços mudou, significativamente, mas não sem resistência, não sem metáforas ou premonições sobre a perda de dinamismo e de pessoas que implicaria. Premonições, grosso modo, não cumpridas. Ao contrário, cumpriu-se o habitual hindsight bias (viés da retrospectiva), ou seja, depois da mudança ter acontecido, foi sentida como mais provável e possível face às questões que levantou antes de experimentada ou concretizada, parecendo-nos hoje absolutamente natural que a mudança tenha acontecido e o que estranhamos é como foi possível ter sido de outra forma no passado. Isto aplica-se à utilização de emblemáticas praças portuguesas como parques de estacionamento ou ao facto de ter sido, e hoje não ser possível, fumar num autocarro, num avião ou num restaurante.

Aplica-se, portanto, à mudança. Mesmo quando a mudança, críticas e receios à parte, se insere na necessidade de respondermos a desafios societais complexos (como a crise climática ou crises de saúde pública), nos aporta bem-estar e não confirma premonições de perdas económicas ou outras invariavelmente evocadas. Aplica-se, por exemplo, a como desenhamos as cidades, como respondemos às necessidades e expectativas das pessoas e como aproveitamos oportunidades que existem para melhorarmos a qualidade de vida com intervenções que estimulem, incentivem e mitiguem obstáculos a mudanças comportamentais e à adopção de comportamentos e estilos de vida mais saudáveis e mais conectados com os objectivos do desenvolvimento sustentável.

Se hoje, múltiplas cidades portuguesas têm as suas Rua do Alecrim como Lisboa – ruas centrais onde, apesar de uma pequena minoria de pessoas se deslocar em viatura própria, cerca de dois terços do seu espaço público é dedicado a veículos automóveis (neste caso, duas faixas mais uma terceira para estacionamento) e onde intervenções urbanísticas poderiam com sucesso promover mudanças comportamentais no sentido do atrás referido – amanhã mais e mais oportunidades existirão. As Nações Unidas estimam que em 2050 68% da população mundial habitará em zonas urbanas (50% mais face a 2016), apesar destas corresponderem a apenas 3% do espaço do planeta. Também por isso, as cidades serão cada vez mais a expressão micro (contextualizada, territorializada, personificada) dos problemas macro (globais e complexos), sendo, portanto, contextos privilegiados para as intervenções e para que soluções globais sejam aplicadas e adaptadas localmente. As cidades serão espaço de experimentação, de inovação, de transição e estímulo à mudança no Mundo.

Precisamos e podemos ter cidades mais “inteligentes”, mais funcionais, responsivas às necessidades e expectativas das pessoas, mais flexíveis e inclusivas e, com elas, um Mundo melhor. Olhando o exemplo da mobilidade – particularmente quando na Europa e nos Estados Unidos da América cerca de 50% das viagens motorizadas distam menos de 4km e em Portugal temos o clima que conhecemos – precisamos de cidades que permitam mais escolhas equilibradas de transporte, que privilegiem, na medida do possível, a mobilidade ligeira, segurança para se caminhar a cidade, para se circular em bicicleta e para se viver o espaço público. Precisamos e podemos ter cidades em que, ao contrário de nos fazerem adoecer e morrer precocemente pela sua poluição (segundo a Agência Europeia do Ambiente, ainda que tenhamos melhorado nos últimos anos, em 2019 foram mais de 300.000 as mortes prematuras na Europa atribuíveis à poluição atmosférica), incentivem e promovam o bem-estar, a relação com o que nos rodeia (pessoas e meio ambiente) e a nossa pertença. Cidades que respondam, pelo seu desenho, à necessidade de se assumirem como restaurativas, promovendo a conexão das pessoas com a natureza e com os seus espaços verdes/azuis enquanto factor protector e mitigando a discrepância de problemas de saúde mental hoje existente em espaços urbanos face a espaços rurais. Cidades, portanto, que, pelo seu exemplo, mostrem possível, desejável e liderem a mudança no Mundo.

Este caminho será tão mais possível e tão mais bem-sucedido quanto mais pessoas e entidades da cidade se fizerem ouvir, se envolvam e se mobilizem na discussão e construção da mudança. Será tão mais possível e bem-sucedido quanto mais for pilotado, testado, ajustado quando necessário, e abandonadas as más soluções e escaladas as boas soluções. Será tão mais possível e bem-sucedido quanto mais o planeamento e a decisão política integrem a ciência, o conhecimento e a melhor evidência científica disponível, incluindo a proveniente da ciência psicológica, para melhor compreensão do comportamento e dos processos de tomada de decisão das pessoas e grupos. Será tão mais possível e bem-sucedido quanto mais consigamos estimular e facilitar as mudanças necessárias e não as obstaculizar. Quanto mais confiarmos na mudança, na possibilidade da mudança e nos activemos para a operar.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, exemplos como o da cidade de Oslo permitem-nos aspirar a cidades e a um Mundo melhor. Oslo, além de soluções mais integradas de mobilidade, tem hoje um orçamento associado ao consumo de dióxido de carbono, gerido nos exactos termos do orçamento monetário anual da cidade. E, quem habita a cidade, ao contrário de penalizar medidas “apelidadas” de ecológicas, verdes ou de transição, valoriza-as, tendo crescido o apoio a partidos, movimentos e pessoas que mais as advogam e promovem e existindo hoje mais propostas deste tipo nos programas dos diversos partidos e movimentos. Lá, como cá, é possível e as pessoas valorizam a mudança. Lá, como cá, país de recursos fantásticos, as boas e eficazes ideias e soluções são contagiosas. Acreditemos, confiemos e envolvamo-nos na mudança. Das nossas cidades. Do nosso Mundo.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 21.06.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/mudar-nas-cidades-para-mudar-no-mundo

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Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade Tomada de Decisão

Não há combate à pobreza sem promoção da saúde mental dos mais vulneráveis

“Não há combate à pobreza sem promoção da saúde mental dos mais vulneráveis”.

Ontem, dia da 1ª iniciativa de recolha de contributos de psicólogas/os no âmbito da campanha “.Final à Pobreza” da Ordem dos Psicólogos Portugueses (integrada nos Trilhos da Psicologia; Ilha do Pico), foi publicada uma entrevista minha no Expresso, conduzida e assim titulada pelo Bernardo Mendonça.

Nela reflectimos os contributos da psicologia para o combate à pobreza em Portugal. Desde evidência, parte dela da ciência psicológica, que apoia compressão das causas e consequências das situações de pobreza: da que confirma “a associação forte e cíclica entre problemas de saúde psicológica, nomeadamente a ansiedade, a depressão e o stresse e a precariedade, a exclusão e a pobreza”; ao impacto potencial de um “maior conhecimento e literacia de como se processam estes fenómenos” na forma como poderemos minimizar a estigmatização e culpabilização das pessoas associada a situações de pobreza”.

Abordamos, ainda, a situação da psicologia, as iniquidades e dificuldades de acesso da população (mais vulnerável) e a necessidade de que as “palavras (de decisoras/es) passem à concretização”. Discutimos (boas) práticas nesta área e o que pode ser a concretização da ideia de “não deixar ninguém para trás”. Tratamos, ainda, o papel potencial da intervenção psicológica, não apenas nos contextos de saúde, mas também em maior proximidade, das pessoas, nas comunidades, e de quem decide, na informação e apoio às políticas públicas.

Finalmente, distinguimos pobreza extrema de relativa e abordamos exemplos de como a última impõe pressão, potencial sofrimento e stresse a quem a vive – como num/a estudante do ensino superior que tem durante um período de tempo de não acompanhar a atividade letiva, por exemplo, por um problema de saúde, podem ser distintos os níveis em estudantes dependentes de bolsas de estudo, sucessivamente dependentes de resultados escolares, face a estudantes não dependentes de bolsas de estudo e como poderíamos encontrar centenas de situações ao longo da nossa vida em que um erro, uma falha, um azar, têm um impacto completamente distinto entre quem vive numa situação de pobreza, ainda que relativa, face a quem não vive nessa situação. No fundo, como a pobreza é “geradora de desigualdade e de iniquidades, pode condicionar a participação e acesso, o suporte social e a saúde e bem-estar da pessoa.”

Partilho a entrevista… Partilho o pedido de contributo no portal da campanha. Partilho, finalmente, a crença de que Portugal (e o Mundo) podem efectivamente terminar com a pobreza (particularmente a pobreza extrema), que isso depende de todas e de todos e que as psicólogas e os psicólogos podem dar um contributo decisivo.

Por “um país com mais oportunidades de autodeterminação, de florescimento e de bem-estar, logo com mais saúde mental… Por um país, portanto, com potencial de maior de equidade e coesão social e, também por isso, menos desigual.”

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Emergência Climática Futuro da Psicologia Tomada de Decisão

Mudar (n)as cidades para mudar (n)o Mundo

“Nós, os povos das Nações Unidas”. Assim se inicia o preâmbulo e, com ele, a Carta das Nações Unidas aprovada em São Francisco fez ontem 77 anos. Dia sempre (e bem) recordado, pela sua importância, a par do 24 de Outubro, quando, também em 1945, muitos países ratificaram a Carta. Há, no entanto, uma data menos conhecida no processo cujo simbolismo me interpela: as negociações que conduziram aos 26.06 e 24.10, começaram a 25 de Abril de 1945 e, quer a Carta das Nações Unidas, quer a revolução que mudou (o regime em) Portugal, procuraram dar centralidade à equidade, à liberdade, à utilização do conhecimento (científico), à participação e ao envolvimento das pessoas.

“Mudar (n)as cidades para mudar (n)o Mundo”, 35º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre como “precisamos e podemos ter cidades mais “inteligentes”, mais funcionais, responsivas às necessidades e expectativas das pessoas, mais flexíveis e inclusivas e, com elas, um Mundo melhor”. Como tal também depende de “mais pessoas e entidades da cidade se fazerem ouvir, se envolverem e se mobilizarem na discussão e construção da mudança”, do “planeamento e decisão política integrarem a ciência, o conhecimento e a melhor evidência científica disponível, incluindo a proveniente da ciência psicológica, para melhor compreensão do comportamento e dos processos de tomada de decisão das pessoas e grupos” e de “estimularmos e facilitarmos as mudanças necessárias, não as obstaculizando”, testando e pilotando soluções para os desafios. Também, “quanto mais confiarmos na mudança, na possibilidade da mudança e nos activemos para a operar”.

Mas, não podemos esquecer que mudar é difícil, sublinho no artigo. Cá, é certo, mas também noutro lugares do Mundo, onde poderíamos pensar mais simples – em Oslo, por exemplo, onde uma Associação de Comerciantes apelidou de “Muro de Berlim” um conjunto de pilaretes que tornaram maioritariamente pedonal ou de mobilidade ligeira parte significativa do centro da cidade. “Mudar é muito difícil. Vencer a resistência à mudança inerente à condição humana e a inércia (social) associada a estas alterações conceptuais na forma de organização das cidades, é sempre difícil, em qualquer lugar do Mundo, quaisquer que sejam as suas circunstâncias.”

Sublinho, ainda, que “quem habita a cidade, ao contrário de penalizar medidas “apelidadas” de ecológicas, verdes ou de transição, valoriza-as, tendo crescido o apoio a partidos, movimentos e pessoas que mais as advogam e promovem e existindo hoje mais propostas deste tipo nos programas dos diversos partidos e movimentos. Lá (na Noruega), como cá, é possível e as pessoas valorizam a mudança. Lá, como cá, país de recursos fantásticos, as boas e eficazes ideias e soluções são contagiosas. Acreditemos, confiemos e envolvamo-nos na mudança. Das nossas cidades. Do nosso Mundo”, para, conforme continua o preâmbulo da Carta das Nações Unidas, “promovermos o progresso social e a qualidade de vida com mais liberdade”.