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Emergência climática: O meu papel. O nosso papel.

“A vida, exigente, quer a resposta certa ao mesmo tempo da pergunta difícil formulada.”

Recentemente li num artigo esta impactante frase de Gonçalo M. Tavares. Pensei, porque pensava vagamente nas questões associadas à emergência climática: A vida, exigente, implica uma resposta (certa, convicta) para a pergunta difícil (que temos de formular) – O que fazer face à emergência climática? O que fazer?

“Somos encorajados por uma recente onda de preocupação…”

Esta frase surge na conclusão uma recente publicação (BioScience Journal) assinada por uma aliança de mais de 11.000 cientistas de 153 países a propósito da comemoração dos 40 anos da primeira Conferência Mundial do Clima (Geneve, 1979). Este documento, além de expor dados concretos (muito além do inquietante facto dos últimos 5 anos terem sido os anos mais quentes de sempre no planeta desde que existem estas medições) que complementam os do IPCC (https://www.ipcc.ch), foca as declarações de emergência climática por todo o Mundo (o parlamento Português aprovou por unanimidade uma declaração nesse sentido em Julho) e um compromisso de apoio aos decisores para uma transição justa para um futuro mais sustentável e equitativo a partir de seis passos para travar a emergência climática que vivemos (aqui nas palavras de Thomas Newsome, um dos promotores: https://www.youtube.com/watch?v=ikmI4wx9MRE&feature=emb_logo).

Creio como decisivo este compromisso de apoio aos decisores. A crise climática é hoje uma preocupação central no Mundo. Segundo o Eurobarómetro de Setembro, 23% dos Europeus consideram-na como o problema “mais sério que o mundo vive” e 9 em cada 10 Portuguesas/es considera-o como um problema muito sério (8 em 10 na Europa) e apenas 1 em cada 100 diz não considerar que seja um problema (6 em cada 100 na Europa).

Eu sou um daqueles 9 Portugueses. E um Português, psicólogo.

Não raras vezes quando falo dos contributos da Psicologia nesta matéria, algumas pessoas reagem com alguma perplexidade e dúvida. É compreensível, pela dificuldade de percepcionar como ´tangíveis´ esses contributos. Tal já não sucede quando acrescento que se a Psicologia estuda o comportamento e as razões (causas, factores) que levam as pessoas a comportarem-se como se comportam (e a decidirem como decidem), então a Psicologia e as/os psicólogas/os são um recurso importante na promoção de mudanças comportamentais (e na tomada de decisão), fundamentais na mitigação deste problema. E julgo possível conceptualizar o seu papel a quatro níveis:

Na mitigação da emergência climática: Por exemplo, através de contributos para a promoção de mensagens e comportamentos pró-ambientais, visando alterações no comportamento dos indivíduos, grupos e comunidades, através da utilização do conhecimento relativo à identidade de espaço, coesão social ou normas sociais / “green nudges” (um exemplo concreto: a maioria das famílias diminui o consumo de água de uma factura para a factura seguinte apenas por lhe ser dado conhecimento na factura de que consomem mais X% de água face a uma família semelhante no seu bairro ou freguesia). Ou, demonstrando como a ciência psicológica tem feito e o psicólogo David Uzzell tem advogado, que a informação mais “pessoal, imediata, concreta e local” é mais eficaz do que factos e estatísticas mais globais. Ou ainda, procurando envolver os cidadãos numa dimensão de justiça para com as comunidades mais sensíveis, vulneráveis e muitas vezes minoritárias (nos seus países, mas também em todo o mundo) algo que a psicóloga Janet Swim muito tem defendido pelo impacto que produz nas alterações comportamentais (a maioria das pessoas é sensível a estas questões e o sentimento de (in)justiça conduz a processos de engagement para a mudança).

Na prevenção dos problemas associados à emergência climática: Além da má nutrição, doenças infecciosas e poluição, fenómenos climatéricos extremos, como fogos rurais, cheias, furacões ou secas prolongadas serão mais frequentes e impactarão no  bem-estar e na saúde psicológica dos cidadãos. A Psicologia e as/os psicólogas/os devem, portanto, envolver-se no planeamento e na concretização de acções preventivas neste âmbito, desenvolvendo iniciativas em comunidades de maior risco a partir da evidência científica existente que, entre outras, podem passar por programas de promoção do coping e da resiliência das populações, pela participação na preparação das comunidades para a resposta e adaptação a estes fenómenos ou pela participação na definição de planos de intervenção ou de gestão e redução do stress.

Na resposta aos problemas associados à emergência climática: Nomeadamente, com intervenção psicológica baseada na vasta evidência científica, em situações como as migrações, os problemas de saúde mental associados a este tipo de fenómenos, desde os mais comuns – stress, a ansiedade e depressão – aos mais complexos – por exemplo, a perturbação de stress pós-traumático. Em todos eles um denominador comum, intervenções mais próximas e imediatas ao problema (por exemplo os primeiros socorros psicológicos), também por mais curtas mas eficazes, demonstram-se claramente custo-efectivas, poupando recursos e sofrimento, pois previnem o desenvolvimento de perturbações nos meses e anos subsequentes aos acontecimentos.

Na participação e no contributo para o desenho de políticas: Quer elas sejas centradas nas alterações comportamentais ou nas recompensas (ou penalizações) a atribuir aos cidadãos e organizações face a alguns comportamentos (por exemplo, produção de resíduos comuns Vs recicláveis), utilizando os inputs do conhecimento e da ciência psicológica sobre o comportamento, pensamento (e consequentes enviesamentos) e sentimentos associados a este tema dos cidadãos, dos cidadãos líderes de organizações e dos cidadãos decisores.

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É, no entanto, ainda comum as campanhas que vemos a este respeito parecerem privilegiar o ambiente face às pessoas, que parecem surgir em segundo lugar e o seu bem-estar e felicidade ter necessariamente de ser sacrificado em prol do ambiente. Ora, é hoje claro que as narrativas mais eficazes são em torno dos ganhos e não das perdas, pelo que são tão relevantes projectos como o da Ayr, uma ferramenta de mobilidade sustentável desenvolvida por uma empresa Portuguesa sedeada em Matosinhos (CEiiA)  e agora disponibilizada na cidade de Nova Iorque. Esta tecnologia permite, com facilidade para a/o utilizador/a, “medir” (a não produção / emissão de CO2) e “recompensar” (atribuir um valor, por exemplo para utilizar noutras viagens ou serviços) a opção por deslocações “menos poluentes” na cidade, salientando os aspectos positivos desta opção e incentivando-a. Reforçando-a.

“The global is also local, the global is here.”

Afirmou David Uzzell no Dia da Psicologia nas Instituições Europeias, uma iniciativa realizada em Janeiro de 2019 e promovida pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) com o apoio da ex-Eurodeputada Sofia Ribeiro, para discutir o papel da Psicologia e das/os psicólogas/os face aos grandes desafios societais – migrações, crise climática, emprego e bem-estar e saúde mental.

“O global é também local”. Porque as cheias de Veneza, são e serão também as cheias do Rio Tejo. Porque os incêndios da Austrália, são e serão também, os nossos incêndios rurais. Porque um furação como o Dorian, poderá passar no futuro em Portugal, conforme o Lorenzo passou recentemente na região autónoma dos Açores. Por isto e porque…

“O global é aqui”. Em Lisboa, a partir de hoje e até Sábado, na International Summit on Psychology and Global Health – A leader in Climate Action. Esta cimeira resulta – literalmente – de anos de maturação de uma ideia conjunta da OPP com a American Psychological Association (em particular nas pessoas da Amanda Clinton e Arthur Evans) em torno de ´como criar condições para discutir o papel da Psicologia e das/os psicólogas/os nos principais desafios societais num contexto transnacional (para problemas complexos e globais, uma visão global da Psicologia)´, tendo resultado nesta organização conjunta da OPP com a APA que permite a reunião de representantes de 43 associações nacionais, transnacionais e federações que representam – literalmente – milhões de psicólogas/os dos cinco continentes para discutir contributos globais da Psicologia e das/os psicólogas/os para esta área.

Porque consideramos essencial um (re)posicionar à escola global da Psicologia enquanto ciência que informa e é determinante na decisão política e no desenho de políticas que localmente tenham em consideração as pessoas, grupos e comunidades e as envolvam, trabalhar-se-á num modelo para a integração dos contributos de todas as entidades presentes, em forma de três produtos: uma proclamação (já fechada); uma resolução final (já em draft) e um white paper final que reunirá os contributos de todas as organizações a entregar às Nações Unidas. Nesta edição em torno da crise climática. Noutras, se existirem outras, relativamente a “outras crises”, que aí estão e, certamente, aí virão.

São pequenos estes meus e nossos passos, é certo. Mas são passos. E contributos. Juntemo-los aos demais.

Sejamos “encorajados” por uma “onda de preocupação”. 

Sejamos “encorajados” por uma outra “onda” mas de optimismo.

Meu. Nosso.

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Comportamento. Tomada de decisão. Futuro? [Challenges of Government Conference 2019]

“Parabéns pelo dia sem Escola!”

Foi este o primeiro cumprimento que Kate Forbes, Ministra das Finanças Públicas e Economia Digital do Governo da Escócia, recebeu de um membro do Parlamento Escocês quando assumiu funções como Ministra. Tinha 28 anos e ali sentiu aquilo que já sabia. Que sendo jovem (e mulher) teria que mostrar sempre mais (provar) para ser respeitada naquelas funções.

Ao lado de Syed Saddiq, 26 anos, Ministro da Juventude e do Desporto da Malásia, foi este o primeiro estímulo que Kate Forbes deu a quem como eu e o meu colega Duarte Zoio teve oportunidade de participar na Challenges of Government Conference 2019 promovida pela Blavatnik School of Government da Universidade de Oxford para reflectir sobre as novas gerações, as políticas de envolvimento e o papel das/os jovens, hoje, nas (e fora das) instituições governamentais.

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Batool Asadi considera que “não é nada de mais” ser a primeira mulher Assistant Comissier no Paquistão, sublinhando sentir que tem atributos que não apenas ser mulher. Sim, tem. Mas, é claramente algo, ‘algo de mais’. É um ponto de viragem. Um ponto de viragem, como o que estamos a começar a discutir relativo à forma de governo e à acção nos principais desafios societais que enfrentamos, onde o comportamento e a tomada de decisão são chave para o futuro. Onde a identidade, a sua procura e a sua construção são fundamentais. Mas de que futuro falamos quando…

“No meu país há 1 milhão de novos jovens a entrar no mercado de trabalho a cada mês.”

Dizia no mesmo painel, Snigdha Poonam. 12 milhões de novos jovens trabalhadores a cada ano nesse país (mundo) que é hoje a Índia, com mais de 1300 milhões de habitantes e que se estima que a partir de 2022 passe a ser o país com mais habitantes do Mundo, ultrapassando a China.

Como pensar a identidade num mundo em mudança? Num mundo crescentemente impactado pela tecnologia, onde num ano se guardam tantos bits de dados quantos grãos de areia existem em todas as praias do mundo (estima-se que 1 elevado a 22)? Num mundo crescentemente impactado com ´novos nacionalismos´ e ´tribalismos´? Num mundo em que países antes liderantes parecem ter encontrado ´novos muros´, também no que se refere aos tradicionais indicadores de desenvolvimento, nomeadamente económicos (salário médio não sobe nos EUA desde os anos 70) ou de saúde (a esperança média de vida nos homens nos dos EUA desceu nos últimos três anos, com um contributo significativo das doenças crónicas, do consumo de drogas e do suicídio).

Mas, e o que esperar da juventude e das novas gerações?

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Peter Frankopan autor do “The new silk roads” trouxe-nos pistas para pensar nesta questão ao reflectir sobre o papel das/os jovens ao longo da história, desde os antigos impérios construídos por jovens “que correram riscos” (pensemos em Júlio César, por exemplo), aos não tão antigos ´impérios´ também eles em muito dependentes de jovens (as médias de idades dos participantes no congresso Bolchevique em 1917, no congresso que lançou o partido Nazi Alemão ou dos recrutados pelo ISIS são todas inferiores a 30 anos). E pensando na contemporaneidade, em que parte da inovação e da irreverência juvenil se concentra em Silicon Valley, poderemos reflectir como a norma social de comportamento das/os jovens tem moldado o futuro e como o poderá fazer também ao nível da governação e dos seus modelos.

“E quando tudo parece impossível?”

Perguntou uma jovem do Zimbabwe a Chuka Umunna membro do parlamento e candidato pelos LibDems às próximas eleições no Reino Unido, onde o Brexit mais de três anos após o referendo se mantém como tema de debate (único). Quando olhamos para a estrutura da administração pública do Zimbabwe e não encontramos espaço para a mudança… Espaço para a esperança, espaço para jovens como ela?

“Ask yourself what is possible!”

Havia já respondido, antes, Yemi Babington-Ashaye defendendo que devem as/os jovens, em qualquer circunstância, assumir sempre a sua “representação” ainda que numa perspectiva incremental como forma de ultrapassar esta crise de representação.

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A Challenges of Government Conference 2019, dedicada às novas gerações, foi em mim ainda mais impactante pelo ambiente próximo, amigável, ‘aceitante’ de todas/os criado à volta da conferência pela Dean da Blavatnik School of Government Ngaire Woods e sua equipa. Um ambiente, até certo ponto, contrastante com a polarizada sociedade em que vivemos, mesmo no Reino Unido. Durante o curioso continental breakfast organizado para discutir o Brexit no segundo dia da conferência foi mostrada esta imagem…

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…que mostra bem como se polarizou a sociedade e como Londres parece uma ilha no Reino Unido (continental, neste gráfico). E, dentro ou fora das instituições, as/os jovens devem comprometer-se numa mobilização para aproximar e não extremar, não estigmatizando, antes valorizando a diferença e as diferenças.

Envolvimento, identidade, juventude, norma social, crise de representação, mobilização para aproximar e não extremar… Pistas para pensar o presente e o futuro, a juntar ao papel das ciências comportamentais (do comportamento e da tomada de decisão) para o futuro… Para o futuro do(s) governo(s) e das pessoas que os fazem. Porque, vivemos um ponto de viragem.

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Um ponto de viragem como foi a marcha de Selma a Montgomery, também percorrida por Martin Luther King cujo imaginário nos recorda que o (‘bom’, permitam-me) poder não nos é dado, é (por Nós, permitam-me também) conquistado. E assim sendo…

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A Psicologia e a(s) política(s)

“(…) É mentira. É mentira.”

Será certamente recordado o momento em que António Costa, Primeiro-Ministro de Portugal, reage exaltado a um diálogo com um cidadão a poucas horas do encerramento da campanha eleitoral relativa às Eleições Legislativas de 2019.

E, com esse momento, muitas discussões e reflexões sobre a sua reacção inapropriada (“intempestiva mas humana”, escreveria o PS aos seus militantes numa SMS horas depois), sobre questões da personalidade do anterior e próximo Primeiro-Ministro, sobre a forma como reage sob pressão ou a crises e, consequentemente, a gestão emocional que faz dos processos – em particular nas campanhas eleitorais, em que não parece ser tão eficaz quanto noutras “tarefas” políticas.

“(…) O senhor, quando foram os incêndios lá em cima, de Pedrógão Grande, estava nas suas merecidas férias. (…) Não esteve presente.”

Creio que também se discutirá e reflectirá sobre o que provocou a exaltação de António Costa. Esta frase, com a qual foi interpelado, reproduz algo que foi sendo dito (escrito, partilhado) explícita ou implicitamente por diversas personalidades com responsabilidades e motivações distintas. Algo dito ao longo dos últimos dois anos, com especial ênfase durante e no pós-greve dos motoristas em Agosto e da ligação deste facto ao período de férias de Rui Rio. Algo que é um exemplo claro da propagação de informação errada que – quer seja sem intenção (má informação), com intenção (desinformação) ou com intenção e agenda política (propaganda) – impacta na política e nos políticos podendo claramente influenciar comportamentos e tomadas de decisão neste âmbito.

Olhando de qualquer um dos lados, há um potencial contributo da ciência psicológica na sua compreensão, explicação e prevenção / intervenção. Quando reconhecido pelos políticos, um/a psicólogo/a pode conferir um apoio de e na proximidade, intervindo na dimensão emocional, na redução da ansiedade ou no apoio à preparação / gestão das crises e planeamento da comunicação. Quando reconhecida pela sociedade, a Psicologia, pode, a título de exemplo, contribuir para a sensibilização e o aumento da literacia em torno da temática das fake news, garantindo maiores condições para, conforme o psicólogo Sander van der Linden tem estudado, a sua inoculação (sim, inocular como uma vacina) e reconhecimento (para a identificação das “reais fake news” – não é curiosa esta contradição dos nossos tempos?).

Mas não gostaria de confinar esta reflexão a estas duas dimensões, antes num outro papel da Psicologia e das/os psicólogas/os na(s) política(s). Num momento em que se discute qual o programa e, até, que governo que teremos, gostaria de abordar a (insuficiente) utilização do conhecimento das ciências psicológicas e comportamentais no desenho, implementação e avaliação de políticas (públicas).

Legislar sobre e para pessoas sem as ter em conta ou desenhar políticas que dependem dos comportamentos das pessoas ou neles impactam, sem ter em conta o conhecimento disponível sobre como estas tomam decisões ou se comportam é, numa analogia às comunicações, como investir no desenvolvimento de um smartphone complexo que só funciona com 3G, não aproveitando as capacidades do 4 e do 5G já disponíveis. Logo, não adequado às características de quem poderá utilizar. Não conforme às expectativas destes. Não potenciado. Assim, muitas vezes, continua em 2019 a suceder em Portugal. Nova legislação 3G que se junta a legislação em vigor GPRS (pré-3G), quando o conhecimento disponível está já a preparar o pós-5G.

Este enorme hiato entre o conhecimento científico, em particular das ciências psicológicas e comportamentais, e a sua incorporação na(s) política(s) é gerador de amplos desperdícios e redunda em perdas significativas de eficácia e dinâmica da apelidada “máquina do estado”. Tem também custos enormes do ponto de vista económico e potencia a possibilidade de erro, sem intenção mas também com intenção, não apoiando a prevenção de fenómenos como o da corrupção, que impactam em diversos domínios da sociedade e desgastam a imagem do país, dos responsáveis pelas políticas e do seu próprio sistema democrático.

Desde questões, simples, como é exemplo o conhecimento dos estudos de que nos comprometemos mais na resposta a um inquérito ou formulário quando assinamos antes do seu preenchimento face a assinarmos no final do seu preenchimento, respondendo assim com “mais verdade”. A outras mais complexas, como é exemplo o conhecimento de que as/os utentes sentem menos stress e ansiedade (que não raras vezes surgem associados às situações de violência face aos profissionais de saúde) quando têm informação concreta dos passos (e etapas) pelas quais passarão quando entram num serviço de saúde com um mapeamento claro e simples das diversas etapas pelas que passarão e respectivos tempos de espera. Assim o diz a ciência, com estudos e amplos exemplos a comprovarem-no mas… enquanto utentes, se numa situação de fragilidade entrarmos numa urgência de um hospital o mais certo será a incerteza do que depois da triagem virá, por onde passaremos, que tempo demorará… Tal qual se pelo meio ou no final dessa ida ao hospital preenchermos um qualquer inquérito com assinatura (de hábitos de vida, de avaliação de satisfação, …), o mais certo é que o local para assinarmos o formulário seja o último passo. Multipliquemos por muitos estes exemplos e vejamos a quantidade de conhecimento não utilizado no desenho e na própria aplicação de políticas e o que se perde (e se deixa de ganhar) em consequência.

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Como forma de percorrermos um caminho que diminua progressivamente este hiato creio fundamental uma maior sensibilização dos decisores para a utilização deste conhecimento. Nesta viagem, investimentos na simplificação e modernização administrativa e experiências como a da criação do LabX devem ser valoradas, aprofundadas e complementadas por outras que partindo, também, de organizações da sociedade civil consigam demonstrar as mais-valias destes processos. Foi exactamente com esse objectivo que, numa parceria entre Secretaria de Estado da Modernização Administrativa na pessoa do Sr. Secretário de Estado Luís Goes Pinheiro, a Fundação Calouste Gulbenkian na pessoa do Diretor-Adjunto do Programa Gulbenkian Conhecimento, Pedro Cunha, e da Ordem dos Psicólogos Portugueses, se realizou em 11 de Julho passado o workshop Behavioural Insights e Políticas junto de um conjunto de mais de 30 altos dirigentes da administração pública.

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Aqui, o António Silva, o Francisco Miranda Rodrigues e eu procuramos sensibilizar quem participou para as mais valias da integração deste conhecimento na sua prática e na acção das equipas sob sua responsabilidade. Para tal, além de rapidamente passarmos pelas origens e bases deste tipo de conhecimento, procuramos que através de exemplos (e dos seus impactos) e da apresentação de metodologias de trabalho neste âmbito, quem participou levasse consigo uma ideia concreta da razão para utilizar estas ferramentas, dos resultados que daí podem decorrer mas também do como o fazer, partindo de um problema identificado e com a sucessiva exploração do mesmo, procura de soluções e teste das mesmas. Testagem esta determinante nestes processos…

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Esta metodologia – assente no método RCT (Randomized Controlled Trial), o mesmo utilizado no teste de novos medicamentos – tem sempre como pressuposto o teste da eficácia da solução proposta a partir de um grupo experimental de pessoas (a quem se aplica a “solução”) e um grupo de controlo (a quem nada se altera), para validação da solução. Aqui na foto, um ilustrativo simples (não científico) do potencial destas metodologias. Tendo-se como objectivo o aumento do consumo da salada, colocou-se a hipótese de que se esta estivesse mais acessível para um grupo (“à frente” na mesa da comida), este consumiria mais salada face a um outro grupo em que a salada não estive tão acessível (“atrás” na mesa da comida). As fotos abaixo ilustram (na segunda a salada estava inicialmente onde estão agora os pratos de sobremesa) o que aconteceu no almoço do grupo antes do workshop, grupo este que se sentou aleatoriamente em duas mesas redondas que tinham em frente as duas mesas que vêem nas fotos, fotos estas, agora menos impactantes face a quem as viu (e, com elas, se viu no seu comportamento) no workshop.

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É um outro pequeno e muito prático exemplo de como criar ou retirar “barreiras” (retirar ou acrescentar “etapas” entre o comportamento inicial e o objectivo, tornar mais ou menos acessível) pode promover um ou outro comportamento, sem retirar a liberdade da pessoa na “escolha”. Pensemos, por exemplo, nas barreiras que se nos colocam quando necessitamos de aceder digitalmente a uma declaração ou mesmo, voltando às eleições, para votar quando estamos deslocados da nossa residência. Ou, noutra perspectiva, na facilidade como dentro de algumas localidades podemos circular num automóvel na via principal em grande velocidade.

Aqui fica (mais) um desafio para o novo governo – o de a utilizar mais conhecimento da psicologia na sua acção. Da minha e da nossa (OPP) parte o governo pode contar com contributos nesta área mas também com o constante desafio e estímulo nesse sentido, em favor de melhores e mais eficazes políticas. Em favor do país e das pessoas que o fazem país.

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Psicologia e Marketing; Diálogos da Psicologia

Na última quinta-feira passaram 15 dias sobre o 11 de Setembro de 2019.

“15 dias e 18 anos sobre o mesmo 11 de Setembro mas de 2001. Estou certo que todas/os recordamos esse dia. Que temos imagens mentais do que vimos (apoiadas no que fomos e vamos vendo, ano após ano). Que alguns de nós se lembram até onde estavam quando nos chegou a informação do que aconteceu. Eu lembro-me, exactamente.

Vem isto a propósito de ter ouvido a história de Robyn, uma recém estudante de Psicologia da Universidade de Columbia.

A Robyn nasceu a 03 de Novembro de 2001, 7 semanas depois do 11 de Setembro e é uma das e dos 108 jovens apelidados de “Children of 9.11”, todas e todos com idades muito próximas (no máximo 9 meses de diferença), cujos ataques “roubaram” o pai antes de terem oportunidade de o conhecer (no caso dela Robert, que havia sabido exactamente um mês antes numa ecografia que (ela) seria uma menina e que nesse dia lhe comprou um coelho de peluche que ainda hoje guarda). A par destes há nos EUA cerca de 3000 jovens e jovens adultos que tinham até 18 anos naquele dia que lhes retirou a mãe, o pai ou ambos.

Não raras vezes estas/es “sobreviventes”, uma das quais a Robyn, confessam desconforto com esta etiqueta. Ela vai estudar Psicologia na esperança de desenvolver competências para ajudar estas pessoas. Pessoas como estas. Para melhor as perceber e melhor as ajudar.

Eu, a Robyn e tantas/os que partilhamos hoje esta sala estudamos Psicologia e, com histórias naturalmente diversas, tendemos para um denominador comum – tivemos, temos, interesse em contribuir para uma maior equidade social e desenvolver ferramentas baseadas em evidência científica para compreender melhor como e porquê pensamos o que pensamos, sentimos o que sentimos, nos comportamos como nos comportamos, tomamos decisões como tomamos.

Anos e anos deste estudo sistemático têm disponibilizado um campo de evidência e um campo científico importantíssimo ao mundo e num conjunto amplo de áreas, não apenas na Psicologia. Um campo de evidência cada vez mais relevante que, por exemplo, deu à humanidade, três prémios Nobel nos últimos 20 anos, dois no campo de Economia e um na Medicina.

É esse campo que temos explorado com estes Diálogos da Psicologia e de que falaremos hoje relativamente à área do Marketing. Da dialética, do diálogo entre a Psicologia e esta área do saber. Afinal, como poderíamos promover (ou vender) sem olhar ao que as pessoas querem e à forma como decidem?”

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Foi assim que na quinta feira passada iniciei a moderação do Diálogos Psicologia na Ordem dos Psicólogos Portugueses. Caminhamos neste debate a partir das relações entre a Psicologia e o Marketing, passamos pelo papel das narrativas, reflectindo a partir do impacto que têm (veja-se os fenómenos resultantes da narrativa pós-11 de Setembro e do seu impacto em áreas fundamentais para o bem-estar como a guerra, a discriminação, o terrorismo, as migrações e refugiadas/os), de como se constroem e impactam nos acontecimentos (veja-se os estudos na área das narrativas e da economia e pense-se no impacto que a narrativa económica pode ter em potenciar crises económicas) e, consequentemente, do papel das narrativas na comunicação e no Marketing.

Pensamos também o papel do Big Data, que a American Psychological Association considerou como uma das 10 tendências para a Psicologia em 2019, reflectindo sobre dois discursos (Sala Oval e Mesquita de Baltimore) do presidente Obama pós-atentados de San Bernardino em 2015 e as fortes implicações da crescente facilidade de acesso a grandes quantidades de dados no Marketing e na Psicologia.

Tal qual fizemos com as fake news (e deep fake), partindo dos novos veículos (particularmente as redes sociais) que facilitam a sua disseminação e cristalização. Neste ponto introduzimos também o desafio que se coloca à Psicologia com a emergência do “populismo em ciência” e de todos os fenómenos que brotam à sua volta, pelo que pensamos em como promover e comunicar a própria Psicologia e em como as/os Psicólogas/os, pessoas geralmente como a Robyn que procuram ferramentas para ajudar os outros e que não raras vezes sentem constrangimentos na sua promoção, se podem melhor e mais eficazmente promover.

Foi um momento particularmente rico e interessante. Obrigado à Rute Ferreira e ao Francisco Baptista, pela partilha de conhecimentos, de experiências e pelos desafios que nos deixaram. Obrigado ao Duarte Zoio pela reflexão, pelos contributos e por ser o grande impulsionar deste tema nestes Diálogos. Diálogos também imaginados pelo sempre impulsionar Nuno Colaço e possíveis pelo compromisso da grande equipa, um/a por um/a, que a Ordem dos Psicólogos Portugueses tem. É, na verdade.

Obrigado a todas/os.

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