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Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Psicologia

Resoluções…

Fascina-me pensar o comportamento humano, a sua diversidade (mas também as suas tendências) e os factores que o determinam. Ainda que com reflexão crítica, interessa-me o estudo de (grandes) dados que o permitem e que permitem formular pistas para a sua compreensão, particularmente numa base temporal ou pré/pós-acontecimentos. Uma ferramenta que o possibilita, não sem limitações, é o “Google Trends” utilizado nos estudos de Seth Stephens-Davidowitz (que já aqui abordei) ou do “Behavior Change for Good Initiative”. Três das suas investigadoras, partiram de pesquisas dos termos “dieta”, “visitas ao ginásio” ou “como cumprir objectivos”, observando-os como mais frequentes no início da semana/mês, depois de férias/aniversários e, principalmente, no início de um novo ano, descrevendo o “fresh start effect” e como marcos temporais podem motivar mudanças de comportamento. Sendo assim (assim sentimos), sabemos que parte destas mudanças se perdem (umas nunca concretizadas; outras que, concretizando-se, não conseguimos manter). Ora, de várias estratégias que podemos mobilizar para melhor concretizarmos as mudanças a que aspiramos destaco 2: sermos realistas e “mudarmos” com outras pessoas e não “sós”.

Conforme a psicologia contribui com este conhecimento, é importante que o utilizemos na própria psicologia. Assim, e porque creio realista mas só possível se numa mudança “não só”, aqui partilho a base da minha intervenção na abertura da Psicarreiras On.Summit (OPP; 02.12.2022) focada em como o presente desafia “passados” da psicologia (a dúvida na escolha das áreas das e dos psicólogos na Academia; os limites da intervenção à distância; o foco na intervenção mais micro, individualizada e remediativa face a intervenções mais macro, comunitárias e promotoras/preventivas; o fechamento face à interdisciplinaridade) e numa proposta de mudança de paradigma. Uma mudança de uma psicologia que, enquanto ciência e prática, se afirma numa determinada área para uma psicologia que, como ciência e prática, se concretiza, no contributo das suas áreas e em relação com outras disciplinas, numa dificuldade/problema de uma pessoa ou num desafio societal. Da psicologia clínica à crise associada aos níveis de depressão da população mundial. Da psicologia da educação à necessidade de promoção do bem-estar de estudantes. Da psicologia comunitária aos complexos desafios da erradicação da pobreza ou da inclusão. Da psicologia do trabalho e das organizações ao desafio da conciliação da vida pessoal -profissional. Uma psicologia sempre próxima das pessoas. Uma psicologia proactiva e interventiva, contribuidora para os complexos desafios societais.

Mudança realista mas, só possível, se conjunta. Mudança que beneficia de outra estratégia de promoção da efectividade das resoluções: a partilha das mesmas, algo que aqui faço convosco que, muitas vezes sem o sentirem, tanto me ajudam a reflectir e a procurar, com humildade, contribuir para pequenas mudanças que julgo socialmente relevantes.

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Psicologia

A democracia e os debates (democráticos)

Há poucos dias passou um ano de um triste e, até há pouco tempo, impensável acontecimento: a invasão do Capitólio aquando do processo de ratificação da eleição do actual presidente dos EUA. “Colocaram uma faca no pescoço da democracia americana”, disse Biden numa intervenção que assinalou a data e num momento onde se debatem mudanças na legislação, que condicionam direitos de voto de minorias, e se verifica uma profunda polarização da sociedade americana que coloca em causa a confiança nas instituições, nas eleições e o “chão comum” da democracia. Como aqui chegamos e que reflexões para democracias com riscos para já mais mitigados como a Portuguesa?

“Debater, construir (não destruir), ganhar (não perder)”, 24º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte da narrativa hoje dominante à preparação e análise aos debates: “Debater, destruir (adversárias/os), ganhar”. Narrativa que responde às novas formas de acesso à informação e à velocidade, falibilidade e ferocidade das redes sociais, particularmente centrada em emoções “ditas negativas” (raiva, ódio ou medo). Narrativa tendente em 4 características que empobrecem (se extremadas, que colocam em risco) a democracia: a simplificação e generalização excessivas, promotora de populismos; a polarização, promotora de antagonismos; o tratamento das e dos adversários como inimigas ou inimigos; e a obstaculização dos espaços de diálogo, compromisso e partilha.

No artigo enquadro estas questões e afirmo que “defender a democracia implica usar as ferramentas da democracia para a aprofundar e não para a enfraquecer”, portanto, “utilizar os debates (democráticos) para construir e não para destruir” podendo ganhar-se. Tal implica que “mediadoras e mediadores (comentaristas, jornalistas, líderes societais) não nos deem, também em questões políticas, apenas aquilo que queremos, conhecemos e/ou nos conforta, mas também oportunidade de contactar com o que necessitamos, desconhecemos e/ou nos confronta. Implica que as pessoas, e a sociedade no geral, valorizem e validem a construção, incentivando-a, apoiando-a e nela participando.”

No artigo realço a importância “do conflito (não violento), da crítica (construtiva) e da capacidade de estabelecer conversas e diálogos (desafiantes)” e de que melhorar a comunicação e as formas de entendimento depende de investirmos no desenvolvimento das pessoas, das suas competências (nomeadamente relacionais e sócio-emocionais) e da sua “abertura ao e à outra, ao Mundo, à diversidade e à cidadania e o interesse pelo seu redor, com especial enfoque pela história que nos permite reflectir sobre o passado, pensar o presente e projectar o futuro”. Factores hoje fulcrais porque, no momento complexo que vive(re)mos, o reforço da confiança e da coesão social, pilares fundamentais da democracia, depende da possibilidade de construção de soluções conjuntas e partilhadas para os problemas das pessoas e da sociedade e não da destruição do espaço comum de entendimento que representa a democracia.

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Educação Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

2022

“Apesar dos passos positivos, há um longo caminho a percorrer” pelo que devemos comprometer-nos a “trabalhar conjuntamente e com urgência e propósito para assegurar cuidados de qualidade na área da saúde mental a todas as pessoas em qualquer lugar do Mundo.” A. Guterres, ao assinalar o Dia Mundial da Saúde Mental (10.10), sinalizou a grande preponderância, visibilidade e reconhecimento da saúde mental, para o qual contribuiu um 2º ano (2021) de forte incerteza, perdas diversas e de aprofundamento de desigualdades, consequência de uma pandemia que acresce desafio aos já enormes e complexos desafios societais contemporâneos, bem como o facto de persistir um longo caminho por fazer nesta matéria.

Numa possível “fotografia” portuguesa do tema, participei num trabalho da Clara Soares e da Mariana de Almeida Nogueira (Revista Visão) intitulado “Ansiedade, depressão, fobias: A epidemia escondida na saúde mental” e numa peça da Sónia Bento (Sábado) intitulada “Celebridades fazem da saúde mental um negócio” que, contribuindo e resultando (em simultâneo) da visibilidade descrita, pensa o crescente interesse de celebridades, marcas e “negócios” em torno da saúde mental e bem-estar, com o bom e o menos bom que isso pode comportar, conforme procuro reflectir. Uma e outra peça a sinalizar, também, que “apesar dos passos positivos, há um longo caminho a percorrer” e uma transição a cumprir, conforme há dias referido e defendido pelo Presidente da República. Uma e outra peça a sublinhar o papel da psicologia no momento que vivemos e nesta transição, justa, necessária e urgente.

Mas, também aqui (na visão do contributo da psicologia) e estando nós a iniciar um novo ano, creio importante sublinhar que “apesar dos passos positivos, há um longo caminho a percorrer”. Que, apesar da maior percepção hoje do seu papel na prevenção, na promoção de saúde mental e na intervenção em problemas neste âmbito, há um longo caminho para o reconhecimento mais amplo (e respectiva consequência) do papel desta ciência do comportamento em dimensões mais vastas da saúde, bem-estar e qualidade de vida, do relacionamento e da cooperação, da educação e investigação, do trabalho e da economia, da gestão de (grandes) dados, comunicação ou mudança, da equidade e coesão social e do desenho de políticas (públicas). De reconhecimento, mais amplo, do seu contributo ímpar para os objectivos do desenvolvimento sustentável.

Da minha parte, neste 2022, assumo-o como objectivo e compromisso: tendo oportunidade, contribuir para o papel da nossa Ordem dos Psicólogos Portugueses no aprofundar dos passos positivos na área da saúde mental, mas, também, para avançarmos no caminho a percorrer, particularmente no papel que a psicologia pode (e tem como dever) assumir no caminho de erradicação da pobreza, de combate a todas as formas de exclusão, de resposta à complexa crise climática e de promoção da Paz.

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Ao redor... (Revista Sábado) Política Psicologia

2022, tempo de construirmos mais paz

Chegamos às últimas (difíceis) horas de um 2021 desafiante para todas e todos, dificílimo para muitas e muitos. Muitas vezes, ao longo do ano, aqui, convosco, procurei sublinhar que a saúde mental é muito mais que a ausência de doença mental, correspondendo aos recursos (internos e externos) que cada pessoa tem para lidar e se adaptar aos acontecimentos de vida e à sua possibilidade de florescimento e bem-estar global. Termino o ano a pensar que em 2022 o farei com a paz, sublinhando ser muito mais que a ausência de guerra, representando a harmonia, civilidade entre pessoas e comunidades e serenidade e que compreendê-lo é fulcral para a promovermos.

“Um desejo para 2022? Construirmos mais paz”, 23º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) trata a necessidade da promoção da paz, não apenas na Síria ou na fronteira da Ucrânia com a Rússia, mas em Portugal ou nos EUA. Reflecte sobre o fosso no posicionamento de Portugal nos índices de Paz Global/Negativa (ausência de violência, conflito destrutivo e guerra; 3ª posição em 2020 e 4ª em 2021) e Paz Positiva (civilidade, cooperação e cuidado com outras e outros; 13ª em 2020). Também sobre um 2022 de condições desafiantes da paz em Portugal, pelo agravamento das desigualdades, da desesperança, da dificuldade da resposta dos serviços públicos e da quebra de confiança nas e nos decisores e nas instituições. Não espero que possamos “cair” em guerra, mas creio pudermos “cair” em paz, involuindo em dimensões que a sustentam pelo não investimento na promoção da paz e não assunção do “nosso contributo individual (pessoa) e colectivo (comunidade e sociedade).

No artigo penso a forma como a quebra de confiança, cá como noutras partes do Mundo, contribuirá para o acelerar da degradação dos mediadores sociais e como, em conjugação com a forte e crescente polarização social, isso nos “empurra para um ambiente de (potencial) tensão civil”, com impacto no comportamento das autoridades, incluindo de segurança, decisoras/es e num dado inquietante: 57% das e dos americanos considera que o país está em “guerra civil latente” e que uma guerra civil é possível no seu tempo de vida.

Também por isso, em 2022, precisamos de construir futuro e construir futuro com possibilidade de bem-estar depende de construirmos harmonia, civilidade e de cooperarmos. Precisamos de desenvolver a partilha e a pertença, de gratidão e de pensar que não há individual sem colectivo e colectivo sem individual. De integrar que não confiar nas e nos outros e nas instituições em democracia é, antes de mais, não confiarmos em nós, nas pessoas que fazem as instituições e governos. De investir na paz e na sua promoção e de fazermos do cuidado com as outras e os outros o principal cuidado connosco.

Estou-vos grato por me lerem, questionarem e por conferirem propósito e significado ao que procuro reflectir e contribuir.

Que 2022 seja tempo para nos juntarmos, relacionarmos e para construirmos mais paz, juntas e juntos. Tudo de bom.

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COVID-19 Pobreza e Desigualdade Psicologia

Natal em Isolamento…

Da sequenciação da nova variante do SARS-CoV-2 à morte de Desmond Tutu, passando pela fuga de um cidadão português, a África do Sul tem estado em foco no nosso país. Foi assim neste Natal, com o agravamento da incidência e transmissibilidade atribuído, em parte, à variante Ómicron e com muitas pessoas e famílias a verem alterados os seus planos e a não cumprirem a expectativa criada.

A 24.12 conversei com a Marta Atalaya (@SICNoticias) sobre o significado de viver este momento numa situação de isolamento. Oportunidade para reflectir sobre o cansaço das pessoas face a tantos meses de uma incerteza que desafia a capacidade (grande, mas não ilimitada) de adaptação das pessoas, particularmente das expostas a maiores vulnerabilidades. Oportunidade para procurar estimular a naturalização possível do momento, particularmente face a tantas pessoas nossas próximas a viver uma situação semelhante em Portugal ou em países com quem temos fortes relações (a França e o Reino Unido por exemplo que dia após dia têm ultrapassado máximos de casos diários de infecções). Oportunidade para recordarmos quem, ano após ano, por outros motivos, vivencia o seu Natal de forma mais isolada e sofre com a solidão e/ou exclusão, problemas gravíssimos de saúde pública que temos entre nós e com os quais nos devemos sintonizar (e sobre eles actuar) 365 por ano, todos os anos.

Resistimos 21 meses, lembremo-lo. E lembremos a importância de garantirmos o controlo, segurança e a previsibilidade (possíveis) em diversos aspectos da nossa vida, como a relação/conexão com outras e outros. Podemos fazê-lo promovendo novas formas de encontro, como é exemplo uma caminhada com alguém de quem gostamos, realizando actividade física e contactando com a natureza, factores importantes ao nosso autocuidado. Podemos fazê-lo promovendo novos momentos de celebração, intencionalizando a comemoração não apenas de datas mas também de realizações (um novo projecto/trabalho, o fim da pandemia), aumentando a nossa percepção de controlo e, pela partilha, o sentimento de pertença.

Resistimos 21 meses, lembremo-lo. E pensemos que um ano de transição, conforme o apelo do Sr. Presidente da República para 2022, depende de nos projectarmos no futuro e projectarmo-nos no futuro da nossa saúde mental. Na conversa discuto como os problemas de saúde psicológica nos encurralam a um presente amarrado pelo olhar constante ao passado. Como o futuro depende de apoiar pessoas em sofrimento e com problemas de saúde psicológica, nomeadamente com programas específicos de prevenção e intervenção na ansiedade e depressão nos cuidados de saúde primários (próximos das pessoas e contingentes aos seus problemas), junto das 3 em cada 10 pessoas que se estima que dessa intervenção beneficiariam.

“A minha humanidade está ligada à sua pois só juntos podemos ser humanos”, disse D. Tutu. Verdade ontem, hoje e em 2022. Verdade base da nossa possibilidade de vencermos esta pandemia e concretizarmos esta fundamental transição.

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Ao redor... (Revista Sábado) Psicologia

O valor de nada fazer (Ao redor…; Sábado; 13.12.2021)

Hamburgo é a segunda maior cidade da Alemanha. Conta com um importante porto, um dos maiores da Europa, e é habitualmente percebida como centro financeiro e económico da Alemanha. É, no entanto, concomitantemente, uma cidade com uma educação, ciência e cultura vibrantes, com magníficas salas de espetáculo e museus. Um deles (MK&G) recebeu este ano uma exposição intitulada “A escola da inconsequência”, resultante de um projecto que, em 2020, atribuiu as Bolsas “Doing nothing” [Fazer nada] da Universidade de Belas Artes de Hamburgo, às três pessoas que, de acordo com o júri, responderam com as ideias mais relevantes a quatro questões: “O que pretende não fazer?; Quanto tempo pretende não o fazer?; Porque é particularmente importante para si não o fazer?; Porque é que é a pessoa certa para não o fazer?”. As originais bolsas, assentam na perspectiva de desafiar a visão tradicional (em alguns contextos, pecaminosa) da ociosidade e, dessa forma, questionar a percepção social do sucesso.

Ao contrário da obsolescência programada, por estes dias combatida no seio da União Europeia e que visa tornar obsoleto e por isso não funcional um determinado produto, esta ociosidade programada, estimulada e activada, visa a transformação, a mudança de comportamentos e o questionamento do “prestígio social” no sentido de permitir que este se compatibilize com “tempo para sonhar”, “tempo para nada fazer”. Algo que nos confronta, que nos pode inclusivamente “soar estranho”, por ser divergente. Diria, por ser duplamente divergente, se pensarmos que as bolsas são atribuídas por uma Universidade.

Esta não-conformidade, simbolicamente, elucida um possível binómio entre conformismo e originalidade. Entre o conformismo de fazer, continuando a fazer, e a originalidade de não fazer, não continuando a fazer. Permite-nos reflectir sobre como aceitar que não fazer algo pode ser um primeiro passo e uma oportunidade de espaço e tempo para uma mudança, para (fazer) algo diferente, potencialmente gerador de outras respostas a um mesmo problema ou desafio ou de maior potencial de bem-estar. Como esta originalidade pode ter valor face a um conformismo que nos mantém, imperturbáveis, a fazer, fazer e fazer, não guardando oportunidade para ousar mudar. Como o nada fazer pode gerar instabilidade, por oposição a inércia (que de tão humana se reforça a si própria) e criar condições, pelo pensamento, pela reflexão e pela transformação, para a originalidade, a liberdade, a junção, passo a passo, do que permite e contribui para a possibilidade de sermos criativos, de construirmos criatividade e de lhe darmos significado.

De múltiplas formas, o momento que vivemos demonstra-nos a sua importância. Porque, nas crianças, obstaculiza há muito o brincar e a sua expressão livre, não dirigida e espontânea, fundamental à possibilidade de imaginação e construção de cenários alternativos e de se colocar em papéis diferentes. Porque a criatividade beneficia da abrangência de interesses e de experiências e o momento que vivemos propicia menos diversidade e mais “encerramento”. Porque, sendo cada vez mais óbvia a importância da pausa e da (boa) conciliação entre diferentes papéis de vida, esse conhecimento não é por si suficiente, sendo necessária a sua prática, bem como a sua promoção e estimulação.

Também aqui, esta necessidade de parar (e do momento e forma de parar) depende, não apenas, de pessoa para pessoa no que toca às suas características e interesses, como principalmente depende das suas condições para tal e, a partir delas, da possibilidade de desenvolver capacidades criativas e reflexivas associadas. Estas condições, que mais que nunca devem ser investidas (nas e pelas famílias; na educação pelos e pelas educadoras; nas organizações e instituições pelas suas lideranças), podem ser organizadas em torno de quatro dimensões: 1) importância de estarem cumpridas necessidades básicas de segurança e conforto, pois a criação e a reflexão é condicionada em situações de escassez ou incerteza que impactam na dimensão emocional e cognitiva das pessoas; 2) importância da existência de contextos encorajadores da criação e reflexão, lugares cuja dimensão material o estimule e cuja dimensão imaterial o promova, nomeadamente redes e organizações que funcionem como ambientes seguros onde o erro é possível e onde as relações e as lideranças suscitem oportunidades de reflexão, de co-criação e de resolução criativa de problemas e desafios; 3) importância do desenvolvimento de valores associados à reflexão e de competências, também pelo treino e prática, de criação que, entre outros, incluam a capacidade de sonhar[i] e de se projectar no futuro; 4) importância da saúde psicológica, da existência de recursos internos e externos de adaptação e resiliência, de capacidades e oportunidades de relação com as outras e os outros e com o que nos rodeia e de autocuidado.

Ao contrário de uma visão mistificada – e apesar dos pontos de contacto entre (alguma) disrupção e criatividade e (alguma) doença mental – a capacidade de criação depende do não confronto permanente com o sofrimento (como ser criativa/o muito tempo se nos sentirmos sempre em sofrimento?) e do não esgotamento de recursos, nomeadamente emocionais. A criação não acontece na ausência de condições, mas criando condições para ela, garantindo a possibilidade de equilíbrio entre a disrupção necessária à inovação e originalidade com a concentração e foco fundamental ao selecionar do essencial para concretização ou operacionalização. Mesmo aquando da excepcionalidade associada à genialidade de artistas, desportistas ou cientistas creio legitimo que nos perguntemos não apenas se Cobain, Munch, Plath, Biles ou Newton poderiam ser quem foram/são noutras condições, mas também no que (ainda) mais poderiam ter dado/dar ao Mundo com outras condições e com mais saúde e saúde psicológica.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, conforme afirma Natalia Ginzburg, “quando somos felizes, a nossa fantasia tem mais força; quando somos infelizes, então é a nossa memória que age mais vivamente”. Nada fazer pode não ser fácil, pode ser contraintuitivo, pode até não merecer atenção ou granjear prestígio social e ainda assim ser um caminho para maior possibilidade de bem-estar e para fortalecer a nossa fantasia, a nossa capacidade de sermos criativos e, por nos permitir o exercício e usufruto da nossa liberdade, a nossa autodeterminação. Aproveitemos o momento e a época do ano que vivemos para reflectirmos sobre a possibilidade de parar, de pausar, de nada fazer sem nos culpabilizarmos, intencionalizando uma ociosidade positiva essencial ao nosso florescimento, à diversidade e, através dela, à riqueza. Aproveitemos o momento para desafiar e questionar o prestígio e sucesso conforme o conhecemos e conforme nele nos reconhecemos.

[i] https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/sonhar

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 13.12.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-valor-de-nada-fazer

 

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Política Psicologia

Psicoterapia, sociedade, poder e política – Podcast “Psicoterapia na torre de Babel”

Em 2006 Inãrritu mostrou-nos Babel. Terceiro filme de uma desafiante triologia – Amor cão (2000) e 21 Gramas (2003) – confronta-nos com quatro histórias em tudo distantes (geografia; condições sócio-económicas; expectativas) mas relacionadas entre si na e pelo trágico. “Percebi que o que nos torna felizes como seres humanos pode ser bastante diverso mas que o que nos torna vulneráveis e miseráveis é o mesmo” disse Iñarritu para justificar porque Babel é um filme “sobre o que nos une e não sobre o que nos separa”.

“A psicoterapia na torre de Babel” é um podcast sobre o que nos une… Parte da ideia, do empenho e do entusiasmo da Constança Biscaia e do David Dias Neto (com o apoio da APTCCI – Associação Portuguesa de Terapias Comportamental, Cognitiva e Integrativa) e tem como fim suscitar reflexão a partir de diálogos sobre “as ligações entre a psicoterapia e domínios como a arte, filosofia, ciência.” Um dos episódios/diálogo (que agora partilho) tratou a “Psicoterapia, sociedade, poder e política” e resulta de uma conversa entre mim e o David Dias Neto moderada e estimulada pelo Telmo Mourinho Baptista, duas pessoas com que muito admiro e com quem muito aprendi, aprendo e aprenderei.

Pensamos a “contradição” entre uma intervenção que visa a mudança (individual) e praticada junto do individuo no seu papel de interacção com a sociedade e o que isso significa na necessidade da sua disseminação e maior acessibilidade, também pela reflexão sobre princípios psicoterapêuticos, pela intervenção em contextos e com públicos que o facilitem e pelo reforço da identidade e da solidez dos princípios éticos e deontológicos da intervenção. Falamos como a personalização, o significado, a literacia e o poder influenciam a acção das e dos decisores políticos nesta área. Como a eficácia e eficiência das intervenções é essencial e como temos que investir em demonstrá-las e generalizar esse conhecimento e continuar um caminho de fazer transformar a dictomia assente no modelo biomédico de doença vs ausência de doença (mental) para uma ideia de bem-estar e de florescimento. De liberdade, responsabilidade (auto-contenção, hetero-contenção e auto-regulação), ganho de autonomia e empoderamento. De crescimento, crise e transformação, também nas organizações. De aceitação, abertura à e ao outro e à possibilidade de mudança. De equidade, de coesão social e dos riscos do populismo. Terminamos com os contributos da ciência psicológica para uma “melhor sociedade” e com a necessidade de assumirmos o “poder” que pode(mos) ter nesse processo partindo da auto-confiança e de uma ideia de “poder empático”, assente em auto-crítica.

Uma conversa que foca como diferentes línguas se intersectam numa complexidade que, também como no filme, nos desafia.

Ps. Deixo a nota de que existem outros episódios do podcast já disponíveis (Psicoterapia e meios de comunicação social; Psicoterapia e arte; Psicoterapia e corpo; e Psicoterapia e culturas) e outros vêm a caminho.

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Comportamento Psicologia

Natal e saúde psicológica (e financeira)

A 24 de Novembro – 1 mês antes da noite de Natal – uma sonda da NASA iniciou uma viagem de aproximadamente 1 ano com um objectivo extraordinário: embater num asteroide a 11 milhões de km do planeta Terra com o intuito de se estudar a possibilidade de alteração da sua rota e utilizar essa informação para desenvolver potenciais soluções para situações futuras de asteroides em rota de colisão com a Terra. O DART representa um empreendimento colectivo com vista a garantir maior controlo sobre algo profundamente incerto (rotas de asteroides), procurando-se maior previsibilidade e segurança para o planeta.

Pensei no DART quando conversei com a jornalista Sara Dias de Oliveira para a sua peça que partilho intitulada “Preparativos e compras de Natal – A contagem decrescente começou”, trabalho publicado na Notícias Magazine de 04.12, onde também participa a Susete Lourenço.

Assentando no documento produzido e disponibilizado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, o artigo disponibiliza um conjunto de informações sobre “como manter a saúde psicológica e financeira” no período do Natal. No meu contributo procuro focar questões essenciais que, conforme o DART, se baseiam no reforço da segurança e da previsibilidade: a importância do estabelecimento de expectativas (e orçamento) realistas; da organização, preventiva da impulsividade; do controlo; da necessidade de equilíbrios que deem menos espaço à emergência de situações geradoras de stresse e ansiedade, típicas de acontecimentos significativos como o Natal; da necessidade, finalmente, de aproveitarmos o momento para reforçar o sentimento de pertença e de partilha.

Aproveitei também esta oportunidade para afirmar que o Natal de cada um/a de nós é diferente e, por vezes, muito desafiante, procurando naturalizar o facto de que nem sempre (para todas as pessoas) o Natal é um momento (apenas) feliz e que muitas sentem duplamente este facto: 1) porque, por algum motivo (perdas, lembranças, separações, religiosos, outras dificuldades) pode ser um período exigente; 2) porque não se cumpre com a ideia colectiva de período de alegria onde parece só existir espaço de validação desse sentimento.

“Não temos de sentir culpa ou peso quando se acha que no Natal não é tudo bom”, disse, procurando que nestes dias (em rigor, como em todos os outros dias), valorizemos e respeitemos a diversidade e naturalizemos diferentes reacções e estados emocionais, validando-os. Que nestes dias promovamos o auto e hetero-cuidado e contribuamos para transformar culturas de não cuidado em culturas de cuidado. Se assim for senti-lo-emos também duplamente: 1) reforçaremos a nossa conexão, atenção e cuidado com outras/os, factores protectores da nossa saúde psicológica e bem-estar; 2) mitigaremos a importância de questões mais materiais associadas ao Natal (prendas e não apenas), prevenindo situações potencialmente geradoras de ansiedade e stresse.

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COVID-19 Democracia Psicologia

Ciclo Confiança/Desconfiança na Pandemia…

Richard Jewell. 23 anos volvidos sobre os acontecimentos (JO de Atlanta; 1996), Clint Eastwood decidiu, com a habitual acutilância, dirigir um filme que revisitasse a história do segurança que alertou a polícia da existência de uma mochila com explosivos num evento no Parque Olímpico. Jewell foi de “herói nacional” a “principal suspeito” em poucos dias e, apesar de nunca formalmente acusado, a forma como a investigação e, principalmente, a comunicação social abordaram o caso (e as particularidades do segurança) tornaram-no para “sempre responsável” aos olhos de muitas pessoas, mesmo após E. Rudolph confessar a sua responsabilidade. A dado momento do filme diz Jewell: [Depois disto] “qualquer segurança que vir uma mala abandonada deve fugir e não avisar as autoridades (…) pois pode por elas não estar protegido”. Creio-a uma situação histórica relevante para pensarmos o ciclo de criação e perda de confiança, os seus impactos e como a desconfiança gera mais e mais desconfiança.

Ao longo desta pandemia, numa equipa superiormente coordenada pelo Miguel Ricou (que além de mim inclui a Helena P. Pereira, a Sílvia Marina e o Ricardo Picoli), temos estudado, em momentos distintos, o nível de confiança junto de um conjunto de profissionais, partindo de duas preposições base: que momentos de crise (significativa) têm impacto potencialmente significativo nos níveis de confiança com todas as consequências, num e noutro sentido, que daí advêm; que termos mais e mais permanentemente (longitudinal) informação sobre estas oscilações ajudará a suportar acções que previnam a desconfiança e promovam a confiança, enquanto elemento fulcral de coesão das sociedades (fundamental sempre, mas particularmente quando em situações de crise).

O 1º trabalho já publicado (COVID-19 Pandemic: Effect on Confidence Levels of Portuguese Towards People of Different Professions), apresenta e discute dados recolhidos em dois momentos (pré e pós-Verão 2020) e evidencia as e os profissionais de saúde (medicina, enfermagem, farmácia e psicologia), educação (professoras/es e educadores/as) e investigação como profissionais cuja confiança aumentou com a pandemia. Em sentido inverso, nos mesmos períodos, a confiança decresceu nas e nos decisores políticos e jornalistas. No artigo (e na notícia, de forma sintética), discutimos estes dados, mas também o facto de em alguns grupos profissionais, existir uma quebra de confiança significativa face a esse grupo entre o 1º e o 2º momento de recolha de dados, o que nos deixa pistas importantes para outros momentos do estudo e para o segundo trabalho que estamos a preparar.

Ao contrário do que terá afirmado Bismarck sobre Leis e salsichas, cremos fundamental compreender melhor o ciclo confiança/desconfiança em momentos societais distintos e com esse (pequeno, naturalmente) contributo, contribuirmos para uma sociedade (e organizações, políticas e pessoas) mais centrada na confiança e não na desconfiança.

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Psicologia

Palavra(s)…

Era uma vez um rei amigo de um cozinheiro humilde. Cozinheiro que, com vergonha, recusou o convite do amigo rei para o seu casamento. O rei aborrecido escreveu ordenando “Levem-no à forca!”. Uma cedilha ausente, a palavra, a interpretação e (o seu impacto no triângulo) comportamento-sentimento-pensamento.

Este “era uma vez” foi-me contado por um amigo. Um amigo “rei da palavra”. Trabalha com e a partir delas e reflecte (muito e muito bem) sobre o seu significado.

Recordo-a no dia em que passam 20 anos do Conselho da Europa que criou o Dia Europeu das Línguas (hoje comemorado a 26.9) visando a valorização e preservação da riqueza e diversidade linguística da Europa e a promoção da proficiência linguística das pessoas para uma participação efectiva na cidadania democrática. Recordo-a dias depois da morte de Lawrence Weiner, um artista conceptual, amigo do “rei” Julião Sarmento, que ancorou as suas obras artísticas na linguagem e na reflexão que suscitava a partir de palavras impressas como as que partilho (no original [foto] e numa tradução possível e difícil): “Muitas coisas deixadas nas margens de um rio | Inevitavelmente arrastadas na corrente.”

Vivemos um tempo em que a percepção do impacto da linguagem e da palavra (das que existem e não existem; das que se usam e porque se usam e das que não se usam e porque não se usam) está muito presente nas nossas vidas. Na minha vida.

Não definem todo o pensamento, mas, na relação com os contextos e com as pessoas, através do simbólico, inevitavelmente “arrastam-nos na corrente”. Não definem toda a emoção, mas a palavra condiciona a narrativa emocional (também com a literacia emocional de cada um/a), impactando a dimensão afectiva (a sua partilha, comunicação e interpretação) e a nossa cidadania. Não definem todo o comportamento, mas, na relação connosco, com outras e outros e com o que nos rodeia, impactam-no, bastando observar como em situações de elevada incerteza (por ex. num rapto) a possibilidade de negociação (interacção) com o/a raptor/a pela equipa de negociação aumenta se lhe for sugerido “falar” ao invés de “conversar”.

Vivemos um tempo em que se discute mais a palavra nos processos de reconhecimento e de inclusão/exclusão mas, muitas vezes, sem se atender a que a palavra se concretiza no contexto e na relação sendo, portanto, diversa (e por isso rica) pessoa a pessoa, momento a momento. Tempo em que, não esquecendo a máxima que (alguns) actos (potencialmente) valem mais que mil palavras, devemos reflectir quanto valem milhões de palavras, sempre usadas, sempre repetidas. Tempo de não esquecermos que parte importante da relação e entendimento humano decorre da reparação, pelo diálogo, de mal-entendidos, erros e de dificuldades de comunicação e do que isso representa na construção e nos distingue das máquinas, cuja comunicação sem estes erros, mal-entendidos e sem o incerto não o permite.