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(Des)informação e conflito violento

“É mais um tabu que cai”.

J.Borrell, líder da diplomacia europeia, disse-o no anúncio da inédita utilização do Mecanismo Europeu para Apoio à Paz para reembolso aos países da UE dos custos da assistência prestada à Ucrânia, seja militar, de equipamento não-letal, de protecção ou de primeiros socorros. No novo pacote de restrições inclui-se o encerramento do espaço aéreo europeu a aviões de entidades/personalidades russas e, não menos relevante/polémico, a proibição da emissão de canais de TV associados ao governo russo. “Não vão mais poder espalhar as suas mentiras para justificar a guerra de Putin e para semear a divisão na nossa União”, disse Von der Leyen.

A gestão de conflitos entre grupos ou países (e a sua “evolução” para formas violentas) vive muito da comunicação e, desde sempre, mas com cada vez maior intensidade/ rapidez, do binómio informação/desinformação. Os inimagináveis e trágicos últimos dias, que se sucedem a meses e anos deste binómio, demonstram-no. Como demonstra o Roskomnadzor, serviço federal de supervisão de telecomunicações, tecnologias de informação e media, apelidado de “regulador” da comunicação social russo, que proíbe as palavras “invasão” e “guerra” sugerindo a descrição da invasão e guerra como “operação militar especial de manutenção da paz”. Serviço criado por Medvedev, hoje Vice-Presidente do Conselho de Segurança presidido por Putin, que sugeriu o “rompimento com todos os países ocidentais” e a possibilidade da Rússia sair do “New START” (acordo de controlo de armamento nuclear), horas antes da Bielorrússia “votar” ontem o fim da sua neutralidade nuclear.

“Há aqui uma mudança. Nessa altura [há décadas] era para decidirmos entre champôs. Agora sobre pessoas para presidir países (…) ou para excluir países da UE”. Excerto da conversa que tive com a Gabriela Moita para o “Impaciência do Coração” (RTP2) que volto a partilhar. Conversa sobre (des)informação, impactos e sobre o contributo da ciência psicológica para a sua compreensão, mitigação e prevenção, há qual hoje acrescentaríamos a situação no Leste Europeu. Ou, como a desinformação influi na polarização da sociedade e na quebra de confiança, base da coesão social, discutido numa conversa com a Marisa Anastácio promovida pela CM Torres Vedras.

A comunicação é fundamental na mobilização e no apoio à gestão emocional da população em situações complexas, como crises ou catástrofes, conforme testemunhamos na pandemia e nos incêndios rurais de 2017. Fundamental a comportamentos pró-saúde, de cuidado connosco e com as e os outros, e pró-sociais, de compaixão e empatia. É certo que a verdade tende a ser a 1ª vítima da guerra mas, é também certo, que a verdade (e confiança) é, também, o 1º caminho para a Paz. Pela réstia de previsibilidade na imprevisibilidade. Pelo que representa de empatia, compaixão e de esperança em que se inverta rapidamente o cenário e caminhemos em direcção à Paz.

 

https://www.rtp.pt/play/p8960/e564277/impaciencia-do-coracao

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Democracia Desafios da Psicologia Política Psicologia

Conversas difíceis…

Evitar ou promover conversas difíceis?

Alexandra Stein, hoje especialista em extremismo, foi durante cerca de 10 anos membro do “The 0”, culto declarado como “bizarro” e responsável por “experiências dolorosas e traumatizantes” por quem, como ela, nele participou. “A chave para ter experienciado o que experienciei não foi a minha estupidez, mas não saber o que procurar fora e para onde dirigir a minha atenção”, diz.

“Pelo futuro e pelo bem comum – evitar ou promover conversas difíceis?”, 27º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte da necessidade de “procurar fora” e do encontrar de outros espaços para “dirigir a atenção” para discutir a necessidade de não evitar(mos), mas sim, promover(mos) conversas difíceis.

“Da gestão da pandemia às migrações, da política à religião, todas e todos já nos vimos perante situações cuja sensibilidade dos temas redundam em conversas difíceis, seja junto de pessoas amigas, familiares, colegas de trabalho ou de equipa”, sendo fundamental que construamos espaço para estas conversas difíceis essenciais “à relação com outras e outros, ao não afastamento e à promoção de diferentes pontos de vista”.

No artigo procuro enumerar algumas pistas que considero importantes para melhor gerir estas conversas, nomeadamente a procura de momentos e contextos adequados, bem como de pontos de convergência e entendimento, o respeito, a empatia, a abertura à e ao outro ou a validação, aceitação e escuta activa. Ainda a importância da manutenção da racionalidade e da calma, bem como do questionamento, da reflexão e, quando necessário, do concordar em discordar, sempre no sentido da definição de uma relação de maior entendimento, reconhecimento e benefício mútuo.

No artigo discuto ainda os muito humanos viés da sobrevalorização (como podemos considerar a priori algo mais desconfortável do que efectivamente será) e ansiedade face ao desconhecido (e a necessidade de se ultrapassar a sensação de ameaça possibilitando a “experimentação”). Bem como a necessidade de criarmos “ambientes seguros do ponto de vista psicológico para relações e conversas livres, para a divergência, para a discussão de erros e “arrependimentos” e para o conflito não violento”, fundamentais a uma polis de encontro, diálogo, sobreposições e penumbras (sociais), assente na diversidade e na riqueza dela resultante em termos de segurança, criatividade, prosperidade, desenvolvimento e paz.

Numa sociedade crescentemente polarizada e que procura soluções simplistas, por vezes acientíficas e até salvíficas para problemas complexos, manter, com resiliência e optimismo, conversas difíceis “é um extraordinário compromisso com a e o outro, pelo futuro e pelo bem-comum. É um extraordinário contributo para maior florescimento próprio e dos outros e outras, para a relação e para a edificação da igualdade, da não discriminação e de ambientes psicológicos seguros para a diversidade. É um extraordinário contributo para a confiança, para a coesão e para a construção da paz.”

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Psicologia

Trabalhar – Pensar um verbo da primeira conjugação através de quatro verbos da segunda conjugação (Ao redor…; Sábado; 07.02.2022)

Além do seu significado gramatical referente à flexão dos verbos, conjugar corresponde a unir de forma harmoniosa. A harmonia é tanto uma aspiração de cada um e uma de nós, quanto um exigente desafio verificável, entre outros, na dificuldade que temos em conjugar ou unir de forma harmoniosa diferentes interesses, escolhas ou papéis. Em conciliar, por exemplo, a nossa vida pessoal com a nossa vida profissional.

Se pensarmos a quantidade de tempo que nos últimos dias, semanas, meses e anos dedicamos a trabalhar; ou a quantidade de tempo que estivemos, mesmo que fora do contexto de trabalho, com pessoas a ele associadas (hoje nossas amigas, companheiras, familiares); ou quanto o nosso trabalho implicou e influenciou decisões de toda a natureza na nossa vida, consciencializaremos a centralidade e importância que assume. Que assume, assumiu e assumirá a par da sua importância na nossa saúde e no nosso bem-estar. Basicamente em como o trabalhar (primeira conjugação) nos faz caminhar em dois contínuos de verbos da segunda conjugação: adoecer–florescer; confranger–desenvolver.

Tem aumentado a reflexão em torno da “great resignation” [grande renúncia], expressão atribuída ao fenómeno que cresce desde o início em 2021 e que corresponde ao número elevado de saídas dos locais de trabalho e da indisponibilidade para determinados empregos de trabalhadoras/es nos EUA e que, tendo múltiplas, diversas e complexas causas, tem na questão da “qualidade do emprego” e na exigência por parte das pessoas de possibilidades de melhor conciliação entre vida pessoal e profissional, pontos cardeais à sua compreensão. Na Europa tem-se assistido a algo próximo, particularmente no que se refere ao emprego e mercado laboral jovem. Um estudo da YPulse estima que até 20% de jovens trabalhadoras/es tenha, entre 2020 e 2021, abandonado o seu trabalho, identificando como razões principais, logo a seguir ao salário, o impacto do trabalho na saúde mental (24% nas/os jovens até 24 anos) e a dificuldade no equilíbrio entre vida pessoal e profissional (20%). Mais expectativas e exigências das e dos trabalhadores, não apenas da camada mais jovem da população, por um “local de trabalho saudável”, avançando-se do trabalho como direito humano fundamental, tal qual previsto na declaração universal dos direitos humanos, para a promoção da possibilidade de florescer e nos desenvolvermos a trabalhar e respectiva necessidade de prevenção da possibilidade de adoecermos e de nos confrangermos a trabalhar. Tal não é apenas um desígnio ou um objectivo irrealizável. Antes, é realizável e há significativa evidência científica que o demonstra. É realizável e há profissionais preparadas/os e motivadas/os para participarem neste processo. É realizável e há práticas já instituídas que o demonstram, com ganhos para todas as partes envolvidas, desde a organização a trabalhadoras/es, incluindo lideranças e a sociedade como um todo.

A Agência Europeia de Segurança e Saúde no Trabalho [EU-OSHA], suportada na evidência científica crescente, também da ciência psicológica, tem colocado na agenda europeia a necessidade, premência e a mais-valia de se promoverem locais de trabalho saudáveis. Desde 2000 promove as campanhas locais de trabalho saudáveis, a partir de uma visão da saúde e bem-estar ampla que naturalmente considera as dimensões físicas e psicológicas e a necessidade de prevenção. Tem também insistido que um dos investimentos com maior retorno em questões como a produtividade, a redução do absentismo, o abandono laboral ou a redução de erros/acidentes laborais é a prevenção e a gestão dos riscos psicossociais associados ao trabalho, nomeadamente as questões do stresse, depressão e burnout [esgotamento].

Em Portugal, a DGS, através do Programa Nacional de Saúde Ocupacional, apresentou e disponibilizou em 2021 o guia técnico “Vigilância da saúde dos trabalhadores expostos a fatores de risco psicossocial no local de trabalho”, uma recomendação técnica de actuação de Serviços de Saúde e Segurança e de Saúde Ocupacional (SST/SO) no trabalho para promoção da “saúde mental e bem-estar”, identificando “medidas de prevenção, factores de risco psicossocial, instrumentos/metodologias para a sua avaliação, análise e gestão e determinando processos de identificação e referenciação” de trabalhadoras/es. Para tal lista o conjunto de profissionais que devem integrar estas equipas, com preparação e especialização adequada, ao referir a necessidade de se “estabelecer e fomentar processos de articulação e o trabalho integrado entre os diversos profissionais que integram os Serviços de SST/SO, nomeadamente médico do trabalho, enfermeiro do trabalho, técnico (superior) de segurança do trabalho, psicólogo do trabalho e outros profissionais (ex. assistentes sociais, ergonomistas, entre outros)”.

Ainda em Portugal, a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), em colaboração com a EU-OSHA e a ACT, com alto patrocínio dos Ministérios da Saúde e do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social e com apoio as principais confederações representativas de trabalhadoras/es e associações de empregadoras/es, tem, desde 2015, no âmbito do “Prémio Healthy Workplaces – Locais de Trabalho Saudáveis”, reconhecido micro e pequenas, médias e grandes organizações públicas, do sector social e/ou privadas, com empenho na gestão dos riscos psicossociais e da saúde ocupacional e com práticas relevantes de gestão promotoras da segurança, saúde e do bem-estar no trabalho. A quarta edição deste reconhecimento tem, por ora e até ao próximo dia 18 de Fevereiro, candidaturas (gratuitas) abertas no portal maisprodutividade.org, que disponibiliza, além do regulamento e da checklist de candidatura (que funciona como um referencial de boas práticas), informação sobre saúde psicológica no trabalho – para organizações, trabalhadoras/es e psicólogas/os do trabalho – e uma calculadora que estima custos associados à perda de produtividade resultante de problemas de saúde psicológica e do absentismo e “presentismo” deles decorrentes.

Discutimos, recentemente, propostas diversas de diferentes partidos políticos que convergem na identificação de desafios prementes do país: assegurar e reforçar a resposta do nosso sistema de saúde, garantindo a sustentabilidade do serviço nacional de saúde; assegurar e reforçar a sustentabilidade da segurança social e o seu importante papel na coesão social; aumentar a produtividade e a competitividade das nossas organizações, estimulando um crescimento económico mais inclusivo. Discutimos, ainda e embora menos, como utilizar verbas do Next Generation EU (Plano de Recuperação e Resiliência) e do PT2030 ou de como e em que condições realizar alterações à matriz fiscal hoje vigente. A prevenção e gestão de riscos psicossociais e a construção de locais de trabalho saudáveis é, com toda a certeza, uma das formas possíveis de investir nos três desafios atrás salientados, prevenindo custos em doença física e psicológica que, resultando do trabalho, chegam ao sistema de saúde; prevenindo perdas na segurança social baseadas não apenas em “baixas” e em reformas antecipadas, mas também no não cumprimento do potencial de trabalhadoras/es em virtude de problemas de saúde psicológica; e, finalmente, prevenindo perdas de produtividade e competitividade do país. A prevenção e gestão de riscos psicossociais e a construção de locais de trabalho saudáveis pode e deve ser incentivada, também, pelo recurso aos fundos da União Europeia que visam “não apenas a recuperação”, mas a “transformação de economias e das sociedades europeias”, bem como pode ser um dos investimentos que permitam acesso a incentivos fiscais pelas organizações, em claro benefício de todas/os.

Num dos, para mim, sempre importantes dias 23 de Dezembro (o de 2008) encerrou em Dayton uma grande fábrica automóvel que empregava 10.000 pessoas, muitas delas pertencentes aos mesmos agregados familiares. A sua reconfiguração em 2014 numa fábrica de uma empresa chinesa está na base do “Fábrica Americana”, vencedor do Óscar de melhor Documentário (2020), e trouxe, além de esperança à comunidade, grandes exigências pessoais e profissionais de conformação a uma nova realidade de trabalho (e de papel/reconhecimento profissional) pautado pela procura de um “chão comum” entre culturas de trabalho. “Fazer a mesma coisa vezes sem conta acaba por nos desgastar. Corpo, mente… De vez em quando pensamos porque faço isto? Pensamos se teremos a resistência e a vontade para fazer este tipo de trabalho”, confessa um trabalhador no documentário, cuja produção foi apoiada por Barack e Michelle Obama que, numa conversa com a sua realizadora e o seu realizador, reforçam a “importância do propósito e do significado na relação”. Do propósito e do significado no cumprimento e na conciliação dos nossos diferentes papéis de vida. Do propósito e do significado no florescimento e desenvolvimento.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a saúde mental tem ganho preponderância e relevância e existe uma crescente exigência de pessoas e sociedades por maior possibilidade de bem-estar, particularmente a partir dos locais de trabalho. Estando as organizações cada vez mais despertas para esta realidade, será fundamental que as suas estratégias neste sentido sejam integradas e suportadas em evidência e não baseadas em acções esporádicas e não cientificamente sustentadas. Que estas estratégias se suportem em mudanças na cultura, nas lideranças, na confiança, nas práticas e nas normas (formais e informais) da organização. Assim, com benefícios para a organização, para o/a trabalhador/a e para a sociedade, caminharemos, insisto, do trabalho como direito para a dignidade e propósito no trabalho como direito, contribuindo para maior produtividade, desenvolvimento, prosperidade, sustentabilidade dos serviços públicos e coesão social. Contribuindo para maior possibilidade de bem-estar para todas e todos.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 07.02.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/trabalhar–pensar-um-verbo-da-primeira-conjugacao-atraves-de-quatro-verbos-da-segunda-conjugacao

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Comportamento COVID-19 Psicologia

Sim ou não?

Aceita um desafio? Experimente escrever num motor de busca (Google, por ex.) “yes or no” [sim ou não]. No meu caso devolve-me 3 080 000 000 resultados. Os primeiros três são de ligação a sites com rodas (tipo “roda da sorte ou azar”) que, com um clique, giram para decidirem (por nós e pelo acaso) um sim ou um não para uma pergunta façamos. Simples ou complexa. Seja de sim ou não ou não seja de sim ou não.

Estou certo de que nos últimos tempos foi confrontada/o com questões para as quais lhe pediram um sim ou não, mesmo que não as considerasse questões de sim ou não. Tão certo quanto de que a crescente polarização da sociedade (de causas múltiplas mas onde as novas formas de acesso e partilha de informação assumem centralidade) e a vivência de um longo período de incerteza/imprevisibilidade, estimulam a procura de um sim ou não para questões complexas e com nuances, reforçando “sins” e “nãos” a questões que não podem dessa forma ser respondidas.

Procurei afirmá-lo à Rita Costa da TSF quando, alguns dias antes da “reunião do Infarmed” de ontem, me perguntou se deveria ou não terminar a publicação do boletim diário da situação epidemiológica em Portugal. Na intervenção, que partilho, procuro reflectir sobre a forma como, efectivamente, junto de algumas pessoas, a exposição permanente a informação sobre a COVID-19 constitui um risco para a sua saúde psicológica, potenciando situações de stress, ansiedade ou depressão. Mas, também, sobre o facto da existência, disponibilização e publicação diária dos dados não ser, por si só, desencadeadora destas situações e, ainda, que a retirada ou ausência desta informação pode, também e em certas situações, produzir efeitos perniciosos nas dimensões mencionadas, na confiança e na diminuição de comportamentos de autoprotecção (das/os próprias/os) e heteroprotecção (das/os outras/os).

Em todo o caso, defendi que existem hoje dados e motivos para que, em simultâneo com alterações previstas nas medidas de prevenção/protecção definidas, se repense estrategicamente o modelo de comunicação de risco/crise para esta fase/momento, incluindo as matrizes e boletins existentes mas, sendo decididas alterações, devem estas ser clara e cabalmente enquadradas e explicadas, estimularem previsibilidade e reforçarem o controlo pelas pessoas, não permitindo, ainda, que a ausência de (boa) informação deixe espaço para má informação.

Apesar dos 15 meses volvidos, recordo parte da pronúncia do Supremo Tribunal de Justiça do Brasil quando voltou a “obrigar” o governo à publicação diária de dados da COVID-19: “À consagração constitucional de publicidade e transparência corresponde a obrigatoriedade do Estado em fornecer as informações necessárias à sociedade. O acesso às informações consubstancia-se em verdadeira garantia instrumental ao pleno exercício do princípio democrático.”

Transparência, clareza e confiança. Responsabilidade, coesão e democracia. Em Novembro de 2020, hoje e para o futuro. No Brasil, em Portugal e para o Mundo.

 

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COVID-19 Educação Psicologia

Estado da Educação – Edição 2021

Ontem, Dia de São Valentim, vimos (sentimos?) nas ruas mais manifestações visíveis de carinho, afecto e amor. Talvez algumas destas nos tenham estimulado a evocar uma célebre fotografia de um beijo nas ruas de Paris de R. Doisneau (1950). Esta foto, parte do nosso imaginário, fez muito pela ideia romântica da cidade Luz e foi um marco da carreira de um fotógrafo que, como poucos, retratou a vida social e uma “cultura de rua”, também de crianças e jovens de diferentes origens sócio-económicas, o que lhe valeu existirem muitas Escolas em França com o seu nome, celebrando-o.

Noutra evocação, esta pessoal, trago Doisneau porque o associo, em virtude da forma como fotografou as crianças nas ruas e nas Escolas, a um outro momento/retrato que acompanho há uma década com interesse pessoal (cidadão) e profissional (a partir da ciência psicológica): a publicação pelo CNE do Estado da Educação. A edição de 2021, a cuja leitura/consulta convido  retrata um 2020 com indicadores positivos, de um caminho de décadas que tem vindo a ser feito na Educação em Portugal, mas fortemente desafiados pelo impacto do 1º ano de pandemia, particularmente nas crianças e jovens com maiores vulnerabilidades. Neste sentido, além dos tradicionais indicadores, uma componente significativa do Estado da Educação 2020 nas suas partes II (Educação em tempo de pandemia: Estudos do CNE), III (Testemunhos) e IV (Reflexões) trata os impactos da pandemia na Educação (e não apenas), tendo a parte IV um artigo (A saúde mental dos alunos e dos profissionais na escola: Escolas como ecossistemas de bem-estar, saúde e aprendizagem) da responsabilidade da Margarida Gaspar de Matos onde participo com o Osvaldo Santos e a Sofia Ramalho.

Na página oficial de Doisneau são partilhadas respostas suas a um questionário de Proust com décadas (faleceu em 1994). À pergunta “O que mais gosta nas/os amigas/os?” responde “A cumplicidade incondicional”. Também aqui tratamos uma cumplicidade incondicional entre (possibilidade de) bem-estar – saúde – aprendizagem. Cumplicidade apenas cumprível com um contínuo investimento, hoje de urgência reforçada, na prevenção, promoção e recuperação, quando necessário, de cada um dos vértices deste importante – também longitudinalmente – virtuoso triângulo da Educação. Apenas cumprível se assumirmos as conclusões da Summit de Saúde Mental de Atenas (organizada pela OMS em Julho), partilhadas por vários países Europeus (incluindo Portugal), que reforçam a necessidade de colocar a “saúde mental no coração da agenda de recuperação pós-COVID-19”, “repensando os seus serviços no sentido de abordagens holísticas e humanas”, assegurando práticas “participadas” e de “elevada qualidade” e, não menos e importante, priorizando “crianças e jovens, particularmente impactadas com disrupções nos seus processos educativos e vida social”.

Sejamos, tanto quanto possível, incondicionais neste investimento e nesta urgência.

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Política Psicologia Tomada de Decisão

Direito a Confiar (Revista Líder – 24.01.2022)

Pensemos no dinheiro. Y. N. Harari convida-nos a pensá-lo como “o sistema mais pluralista de confiança mútua já existente”. Como, usando e mediatizando abundante conhecimento, nos convida a reflectir sobre como a nossa capacidade de relação, de abstracção e de envolvimento em torno de ideias não claramente tangíveis como a amizade, o amor, o passado e o futuro ou a ideia de comunidade nos permitiram um caminho de evolução. Foi assim ao longo de centenas de milénios, desde as primeiras e os primeiros Homo sapiens. Foi assim nos últimos séculos, com a emergência e desenvolvimento da ciência e da cultura, com forte impacto na quantidade e qualidade de vida. Foi assim nas últimas décadas, com a emergência e desenvolvimento dos direitos humanos, com forte impacto na possibilidade de bem-estar e de equidade. É-o assim hoje.

Pensemos – através da pandemia COVID-19 que ainda vivemos, mas com olhos nos complexos desafios societais que se avizinham e que incluem a crise climática e demográfica, as migrações ou a transição digital – em tudo quanto aqui nos trouxe, à sociedade como hoje a conhecemos, com o que de bom e de menos bom tem. Tudo, ciência, cultura, direitos humanos, futuro assenta nessa nossa capacidade de nos relacionarmos (e na capacidade sucessiva que temos de empatizar com outras e outros) e de abstração (e na capacidade sucessiva que temos de confiar).

A empatia influencia e é influenciada pela confiança num diálogo essencial à coesão e ao propósito das sociedades, elementos fulcrais em contexto de prolongada incerteza como o que vivemos e que resulta da convivência com uma pandemia que, além da imprevisibilidade que comporta, implicou e acelerou significativas transformações e revelou e aprofundou também significativas vulnerabilidades. A empatia e a confiança são fundamentais à adopção de comportamentos pró-saúde e pró-sociais de cada pessoa e à adesão a recomendações, complementares a medidas restritivas e logo assentes no comportamento individual, como o distanciamento físico, a (boa) utilização de equipamentos de protecção individual e a vacinação. Estes comportamentos, com especial destaque para o exemplar (porque por muitos países estudado e desejado) processo de vacinação português, permitem-nos, ao dia de hoje, ser um dos países da Europa com menores medidas restritivas e que mais faz depender a resposta ao momento ainda difícil da pandemia do comportamento de cada cidadão e cidadã.

Por isso, pelo que representa e significa, não nos surpreendemos que “vacina” seja “palavra do ano”, superando a muito badalada segunda posicionada – “resiliência”. No futuro, quando recuarmos à palavra do ano de 2021, espero que lembremos quanto a confiança (nas vacinas) e o quanto a empatia e relação, por oposição à estigmatização ou exclusão (também de quem tem dúvidas legitimas sobre o processo de vacinação), foram garantes neste período de crise e pilares da coesão social. Em como estas fundamentais abstrações se concretizaram num processo complexo, que respondeu a um problema das pessoas e da sociedade.

E, se assim é na resposta à COVID-19, com os resultados cuja democrática distinção entre factos e opiniões e entre ciência e não-ciência tornam evidência, é-o também com outros desafios societais e com desafios e problemas complexos de organizações, do presente e para o futuro. Aqui, a relação, a empatia e, principalmente, a confiança são base para a concretização de projectos, programas ou acções que respondem a problemas concretos do seu dia-a-dia, como foi a necessidade de passagem ao teletrabalho ou a manutenção da actividade em período de pandemia ou são e serão os desafios da digitalização e automação, transição energética, os crescentes riscos psicossociais do trabalho, a conciliação vida pessoal-profissional e o bem-estar das pessoas.

Ser consequente com esta consideração implica que métricas que procurem aferir valor e produtividade de organizações incluam a necessidade de avaliar e validar a “abstracção” confiança como garante de capacidade de resposta a problemas e desafios e como factor diferenciador e protector no presente e de futuro. Implica, também, que a cultura organizacional verdadeiramente assuma a confiança como valor maior a defender, estimular e disseminar, não apenas, mas também, a partir das suas lideranças. Que se desenhem processos, procedimentos, construam relações e se invista (também recursos), primeira e prioritariamente com base na confiança e não na desconfiança, porque mais empoderador. Que se use do conhecimento de que as pessoas tendem a envolver-se mais no que se sentem auto-eficazes e quando sentem consequente a sua participação, criando agenciamento sobre a confiança na organização, valorizando ao invés de penalizar, quem confia e promove a confiança. Que, afinal, se entenda a confiança como um direito (de todas e todos) e não como dever (de alguns e algumas).

Se assim for – como quando investem em locais de trabalho saudáveis e na promoção do bem-estar das pessoas – as organizações estarão simultaneamente a ganhar valor, a cumprir-se, a preparar o futuro e a contribuir significativamente para a coesão social e para a equidade. E porque, como desconfiança gera desconfiança, mas confiança também gera confiança, para o desenvolvimento de outros poderosos “sistemas pluralistas de confiança mútua” como a ciência, a democracia, os direitos humanos e até a paz.

Voltemos às vacinas. Aquando do último fórum do G20, António Guterres referiu-se-lhes afirmando que “ciência está sobre ataque e a solidariedade desaparecida” pela hesitação face às mesmas e pela dificuldade da sua disseminação a todo o Mundo, sublinhando que “um surto de desconfiança e de desinformação está a polarizar as pessoas e a paralisar as sociedades”. Desinformação que Roberta Metsola, no primeiro discurso como nova presidente do Parlamento Europeu, afirma “alimentar um cinismo fácil e soluções baratas de nacionalismo, autoritarismo, proteccionismo e isolacionismo”. É, assim é, com as consequências que conhecemos.

Invistamos na confiança e no direito a confiar como recurso do país. Como um mineral precioso do tempo que vivemos, que (ainda) temos em Portugal e que escasseia e está em risco Mundo fora. Como um recurso que, porque base para parte significativa das concretizações que podem contribuir para mitigar e resolver problemas das pessoas, das organizações e das sociedades, pode ser diferenciador das nossas organizações e do nosso país, valorizando-as e valorizando-o hoje e para o futuro. Preservemos e invistamos na confiança a partir das organizações enquanto estímulo e exemplo para o país e a partir de Portugal enquanto estímulo e exemplo para o Mundo. Para o Mundo e por um Mundo que continue a evoluir e a garantir maior possibilidade de bem-estar, de equidade e de paz para todas e todos.

 

Tiago Pereira

Revista Líder

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Ao redor... (Revista Sábado) Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Trabalhar…

“Viver para contá-la” de G.G.Márquez é, para mim, um dos mais impactantes títulos de livro. Viver para contar a vida e na vida (contá-la). Viver para conjugar a vida e na vida (conjugá-la). A viver, conjugamos. Procuramos, com dificuldade e desafio, harmonizar diferentes interesses, escolhas e papéis. Conciliar, por exemplo, a nossa vida pessoal com a nossa via profissional. A contar, conjugamos. Verbos. Por exemplo, o trabalhar que, pela centralidade e importância que assume na nossa saúde e bem-estar, nos faz caminhar em dois contínuos de verbos: adoecer–florescer; confranger–desenvolver.

“Trabalhar – Pensar um verbo da primeira conjugação através de quatro verbos da segunda conjugação”, 26º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte destes dois contínuos para reflectir sobre como a “great resignation” e o mercado laboral jovem na Europa nos conferem pistas sobre (novas) expectativas/exigências de trabalhadoras/es, nomeadamente locais de trabalho saudáveis e avanços da ideia do trabalho como direito para a perspectiva da dignidade, propósito e florescimento no trabalho como direito. Caminho, não apenas desígnio ou objectivo irrealizável.

É realizável e há significativa evidência científica que o demonstra, algo cujas campanhas locais de trabalho saudáveis da EU-OSHA sublinham ao insistirem que um dos investimentos com maior retorno em produtividade, redução de absentismo, de abandono laboral e de erros/acidentes laborais é a prevenção/gestão de riscos psicossociais associados ao trabalho, nomeadamente o stresse, depressão e burnout [esgotamento].

É realizável e há profissionais preparadas/os e motivadas/os para participarem neste processo, conforme a DGS afirma no guia “Vigilância da saúde dos trabalhadores expostos a fatores de risco psicossocial no local de trabalho”, ao sugerir o fomentar de “processos de articulação e o trabalho integrado entre os diversos profissionais que integram os Serviços de SST/SO, nomeadamente médico do trabalho, enfermeiro do trabalho, técnico (superior) de segurança do trabalho, psicólogo do trabalho e outros profissionais (ex. assistentes sociais, ergonomistas, entre outros)”.

É realizável e há práticas já instituídas que o demonstram, com ganhos para todas as partes envolvidas, desde a organização a trabalhadoras/es, incluindo lideranças e a sociedade. Práticas que a OPP volta a reconhecer na 4ª edição do “Prémio Healthy Workplaces–Locais de Trabalho Saudáveis”, cujas inscrições (gratuitas) decorrem até 18.2 em maisprodutividade.org

Estando as organizações mais despertas para a centralidade destas questões, é fundamental que as estratégias que adoptem sejam integradas e suportadas em evidência e não baseadas em acções esporádicas e não cientificamente sustentadas. Acções que, contribuindo para maior produtividade e competitividade, permitem às pessoas e ao país mais desenvolvimento e prosperidade, maior sustentabilidade dos serviços públicos, coesão social e possibilidade de bem-estar para todas e todos.

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Psicologia

Legislativas 2022: A Psicologia a contribuir para soluções nos programas e no debate político (Ao redor…; Sábado; 28.01.2022)

Momentos extraordinários exigem medidas extraordinárias. Frase histórica, muito utilizada politicamente em diferentes momentos e países, voltou a ser bastante usual no contexto desta (extraordinária) pandemia, que implicou medidas extraordinárias. Aproprio-me dela e adapto-a para pretexto deste texto: momentos extraordinários exigem um texto diferente. Um texto que, a poucos dias das eleições Legislativas de 2022, procura proporcionar uma pequena reflexão sobre contributos da psicologia para soluções para os desafios das pessoas e da sociedade e de como os programas dos partidos e, principalmente, um debate político o reflectem.

Refiro-me ao debate entre oito dos nove partidos/grupos parlamentares representados na Assembleia da República no início da última legislatura, organizado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) e que, com moderação da jornalista Maria Flor Pedroso, juntou Anabela Castro (PAN), Carlos Silva Santos (CDU), Cecília Anacoreta Correia (CDS-PP), Isabel Mendes Lopes (LIVRE), Lina Lopes (PSD), Moisés Ferreira (BE), Paulo Marques (PS) e Vítor Mendonça (IL). Em representação dos seus partidos, discutiram o contributo científico da Ordem dos Psicólogos Portugueses (disponível no seu site) que, de forma contextualizada e quantificada, como no debate salientado, compilou um conjunto de propostas para as Legislativas 2022 no sentido da “tomada de decisão e do desenho de políticas públicas que promovam a saúde psicológica, factores de competitividade e resiliência, o bem-estar, o desenvolvimento das pessoas e do país e a coesão social”. Propostas de contributo para soluções para os problemas das pessoas e da sociedade. De contributo para acções que correspondam aos anseios e às expectativas das cidadãs e dos cidadãos.

Nos programas e neste debate, três constantes: a saliência, a relevância e a importância da saúde mental, hoje consensual na sociedade portuguesa, do “Presidente da República ao cidadão mais comum”; a importância das psicólogas e dos psicólogos nela, conforme resulta claro do seu empenho, dedicação e “trabalho ao longo da pandemia”; e a necessidade imperiosa e urgente de melhorar o acesso das pessoas aos seus serviços, em diversos contextos, ao longo de todo o ciclo de vida, de forma simples, rápida e próxima e não apenas no sentido da remediação de problemas, mas, particularmente, “da prevenção e da promoção de saúde e bem-estar”. Três constantes a que se soma inquietação que abriu o debate: a necessidade de, ao fim da pandemia que todas e todos esperamos e momento pelo qual ansiamos, não corresponda o fim desta saliência e relevância da saúde mental, porque fundamental para as pessoas sempre, mas também porque os tempos da “saúde sanitária” (da pandemia), são distintos dos mais distendidos tempos da crise económica e, particularmente, social que a acompanha e lhe sucede e, mais ainda, do tempo dos problemas de saúde psicológica (por ela agravados) e das perturbações das pessoas dela decorrentes (as novas e as que se aprofundaram).

Do debate (também disponível no site da OPP) partilho uma frase de cada um/a das/os participantes, reflexo, creio, do que atrás escrevo:

– “Hoje vemos as questões da doença mental tratadas no café, na casa dos portugueses, nas empresas e percebemos a importância que as pessoas lhes estão a dar (…) há hoje um largo consenso na sociedade sobre a importância da saúde mental, do Presidente da República ao cidadão comum”;

– “O acesso [efectivo] à saúde mental não é garantido em Portugal e a realidade que temos agrava o fosso entre ricos e pobres”;

– “As [vulnerabilidades relativas à carência de recursos] na saúde mental não começaram com a pandemia, existindo em todas as áreas da sociedade, desde a educação, à saúde ou à justiça. Nenhum partido pode esquecer esta área”;

– “Com a pandemia generalizou-se a importância que a saúde mental tem e agora é papel de todos nós garantir que aceleramos todo o investimento que tem que ser feito na saúde mental não só na parte de tratamento, mas também na parte de prevenção”;

– “O concurso de 40 psicólogos [para os cuidados de saúde primários] que desde 2018 corre e ainda não foi concluído… a saúde mental das pessoas não pode esperar quatro anos para ter respostas (…) pelo que é fundamental integrar psicólogos em todos os cuidados de saúde primários e estabelecer circuitos de referenciação”;

– “Esta ideia de Escola no seu conjunto merece até dos psicólogos uma outra leitura que é a leitura dos factores de risco psicossociais (…) ora, também é um território que os psicólogos da nova vaga dominam: a ideia da psicologia ligada ao mundo do trabalho e das relações das organizações”;

– “Nós temos uma população em Portugal das mais envelhecidas do Mundo e a tendência é para que se torne ainda mais envelhecida com a baixa natalidade e, portanto, os nossos cuidados de saúde, o nosso sistema de saúde tem que ser reorganizado para prestar cuidados à população que nós temos e que vamos ter (…) a camada de idosos que cresce na nossa sociedade tem que ter respostas e tem que ter os cuidados adequados na saúde mental (…) tendo que ser reforçados os recursos que possam prestar estes cuidados a nível domiciliário, nas IPSS ou onde se encontrar a população idosa”;

– “Os psicólogos, obviamente, têm que estudar o que causa a doença mental, têm que apoiar as pessoas que caem em doença mental mas também devem ter um dever e uma obrigação de alterarem o Mundo para que a pessoa não esteja em doença mental.”

Outras frases, que além das convergências nas necessidades assinalaram divergências nas formas de as colmatar, deambularam em torno dos contributos da psicologia e da ciência e da prática psicológica nas áreas da saúde, da educação, incluindo o ensino superior, do envelhecimento, da justiça, do trabalho e dos riscos psicossociais, da pobreza, exclusão e da solidão/isolamento, da promoção da literacia e redução do estigma ou da utilização da sua evidência no desenho das políticas públicas e na comunicação com as populações. Do papel da psicologia nos objectivos do desenvolvimento sustentável e da saúde mental como factor fundamental de desenvolvimento humano.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, como se disse ao longo do debate, uma “cascata de problemas necessita uma cascata de soluções” e as “pretensões e propostas da Ordem dos Psicólogos Portugueses correspondem ao que as famílias querem e ao que a sociedade precisa”. Que o país e que quem se propõe governá-lo, saiba as/os 25 mil psicólogas/os preparadas/os, empenhadas/os e motivadas/os para contribuir para comunidades, cidades e um país com mais bem-estar, equidade e de maior coesão social. Que o país e que quem se propõe governá-lo, assegure que as propostas e as medidas que apresenta se baseiam em informação credível, em evidência científica e num profundo conhecimento da forma como as pessoas sentem, pensam e se comportam, das suas motivações e do que impacta a sua tomada de decisão e dos factores que influenciam a construção da sua identidade. Que o país e as eleitoras e eleitores, conforme a moderadora Maria Flor Pedroso encerrou o debate, se mobilizem para votar porque “é preciso que todos votem e participem para que tenhamos uma sociedade democrática mais participada”, algo a que apenas poderemos aspirar se, quem vota, se sentir auto-eficaz. Se, quem vota, se sentir representada/o, envolvida/o, sentir que o seu voto “conta” e que apoia e possibilita a construção de soluções partilhadas para os seus problemas e de oportunidades para cumprir as suas expectativas e desejos. Votemos, pelo presente e pelo futuro.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 28.01.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/legislativas-2022-a-psicologia-a-contribuir-para-solucoes-nos-programas-e-no-debate-politico

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Geração COVID

Geração.

Um Amigo enviou-me um artigo: “Geração COVID – Como está a pandemia a afectar o cérebro (e comportamento) das crianças”. Bebés nascidos em pandemia com piores desempenhos na motricidade (fina) e em competências de comunicação. Crianças, na linguagem, funções executivas, desenvolvimento cognitivo e emocional. Efeitos do isolamento, do stress (também de cuidadoras/es), de menores oportunidades para brincar, das máscaras, fecho de Escolas e, particularmente, efeitos desiguais intensificados em contexto de vulnerabilidades económicas e sociais. “A magnitude é massiva”, milhões de bebés e crianças no Mundo. Centenas de milhar em Portugal.

Uma (outra) emergência de saúde pública que leva Deoni a defender a urgência de estimularmos cuidadoras/es formais e informais a brincar e amar as crianças. Uma (outra) emergência que implicou, implica e implicará permanente empenho para, de acordo com a melhor informação/recursos disponíveis, conciliarem-se medidas de saúde sanitárias com medidas de saúde psicológica.

Tenho-o defendido. Temo-lo, sempre, defendido.

Assim o fiz numa peça que partilho da SÓNIA BENTO (Sábado), sobre vacinação de crianças contra a COVID-19 e de situações de discriminação relatadas face a crianças (ainda) não vacinadas. Nela procuro lembrar as “múltiplas razões e realidades individuais e familiares, e não apenas o não querer, que justificam os números do processo de vacinação das crianças”, quando em Janeiro terão existido mais crianças infectadas/os (e/ou em isolamento) que em toda a pandemia, impossibilitando a sua vacinação. Quando existiram poucas oportunidades de vacinação de crianças, particularmente as mais pequenas (além da capacidade e da motivação, que deve ser estimulada, a oportunidade é fundamental ao comportamento). Lembro, ainda, que devemos “ter presente que a percentagem de crianças vacinadas em Portugal é significativa quando comparada com países que estão a recomendar/permitir a vacinação destas faixas etárias”, tal como noutras idades o que, com o comportamento das pessoas, tem permido que tenhamos sido um dos países da Europa com menores restrições nas últimas semanas (também nas Escolas) apesar da elevada incidência.

Finalmente aboredei “a compreensão das dúvidas e das incertezas” como garante da “confiança e facilitadores do estabelecimento de um diálogo esclarecedor”, sendo fundamental a empatia e a compreensão por oposição à estigmatização ou discriminação, ineficazes na promoção e estímulo à adesão a comportamentos.

Volto ao “Pai Motorista”: “Momento em que, compreendendo-se as restrições ainda necessárias, é fundamental um especial empenho e esforço para intencionalizarmos a promoção da possibilidade de relação como factor fundamental à saúde psicológica e bem-estar, presente e futuro”. Em Setembro passado, hoje e no futuro.

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Direito a Confiar

Invistamos… “Como um mineral precioso do tempo que vivemos, que (ainda) temos em Portugal e que escasseia e está em risco Mundo fora. Como um recurso que, porque base para parte significativa das concretizações que podem contribuir para mitigar e resolver problemas das pessoas, das organizações e das sociedades, pode ser diferenciador das nossas organizações e do nosso país, valorizando-as e valorizando-o hoje e para o futuro.”

Invistamos… “A partir das organizações enquanto estímulo e exemplo para o país e a partir de Portugal enquanto estímulo e exemplo para o Mundo. Para o Mundo e por um Mundo que continue a evoluir e a garantir maior possibilidade de bem-estar, de equidade e de paz para todas e todos.”

Invistamos… Na confiança. No direito a confiar. Preservemo-los, como recurso do país.

A convite da Rita Saldanha, a quem volto a agradecer a confiança, propus-me pensar, a partir da “Palavra do Ano de 2021 – Vacina”, sobre a confiança em artigo de opinião para a Líder – Ideias que fazem futuro. Artigo que intitulei de “Direito a Confiar” por oposição a uma ideia do “confiar” como dever, em si.

No artigo que agora partilho, parto do papel que a “capacidade de relação, de abstracção e de envolvimento em torno de ideias não claramente tangíveis como a amizade, o amor, o passado e o futuro ou a ideia de comunidade nos permitiram num caminho de evolução”, desde à centenas de milénios com as primeiras e primeiros homo sapiens à sociedade como hoje a conhecemos, com o que de bom e de menos bom tem. Como, tudo, “ciência, cultura, direitos humanos, futuro assenta nessa nossa capacidade de nos relacionarmos (e na capacidade sucessiva que temos de empatizar com outras e outros) e de abstração (e na capacidade sucessiva que temos de confiar)” e como são a empatia e a confiança “fundamentais à adopção de comportamentos pró-saúde e pró-sociais (…) garantes em período de crise e pilares da coesão social” e base, por exemplo, de processos complexos que respondem às necessidades das pessoas e das sociedades, como é exemplo o processo de vacinação contra a COVID-19 em Portugal.

Um recurso precioso… que “implica que métricas que procurem aferir valor e produtividade de organizações incluam a necessidade de avaliar e validar a “abstracção” confiança como garante de capacidade de resposta a problemas e desafios e como factor diferenciador e protector no presente e de futuro”.

Um recurso precioso… que implica, também, que “a cultura organizacional verdadeiramente assuma a confiança como valor maior a defender, estimular e disseminar, não apenas, mas também, a partir das suas lideranças”.

Um recurso precioso… que entenda “a confiança como um direito (de todas e todos) e não como dever (de alguns e algumas)”.

Um recurso precioso… essencial ao desenvolvimento de outros [além do dinheiro] poderosos “sistemas pluralistas de confiança mútua” como a ciência, a democracia, os direitos humanos e até a paz.