Há 339 anos, Tiago, um jovem nascido no Portugal do meio do século XVII, deslocou-se ao local do seu novo trabalho no Campo de Santa Clara em Lisboa. Participaria nesse 1682 do reinício da construção da Igreja de Santa Engrácia. Seria impossível a Tiago prever como seria a vida em Lisboa e no Mundo em 2021, como seria improvável prever que a obra em cuja construção participava apenas terminasse e fosse inaugurada em 1966, quase 400 anos depois do seu início (1568), já como Santa Engrácia – Panteão Nacional.
Tal como aquele Tiago, não tenho pretensões de imaginar como será a vida em Portugal ou no Mundo em 2360, quais serão os desafios da sociedade na segunda metade do século XXIV ou sequer como será a sociedade. Não tenho, portanto, quaisquer pretensões a escrever-vos sobre o que seria uma potencial COP365 (considerando que haveria uma a cada ano e que não sucederia algo como em 2020), antes a reflectir sobre como, transformar cada COP num projecto de cada dia de cada ano, é o que mais nos pode projectar para uma acção climática urgente e proteger de uma dinâmica tipo obra de Santa Engrácia, conforme popularmente definimos o que consideramos que vai demorar muito tempo ou nunca chegar a ser concluído.
Senti-o profundamente em Glasgow na passada semana. Ali estive, na pequena equipa que representou a Global Psychology Alliance na COP26, aliança de 70 associações de psicologia e de psicólogas/os dos cinco continentes criada na sequência da “International Summit on Psychology and Global Health: A Leader in Climate Action” (Novembro de 2019, Lisboa). Senti que – a par da profunda onda de preocupação, particularmente significativa quando cara a cara se ouve e sente a história e as histórias de pessoas e comunidades já hoje fortemente impactadas pelas alterações climáticas resultantes da acção humana – cresce uma onda de reconhecimento do problema e das suas consequências e da necessidade e formas de acção para a mudança. Senti que a decepção face aos (pequenos) passos e compromissos políticos assumidos resulta da esperança das (grandes) acções que se querem construídas e implementadas já hoje. Senti que o desencanto pela ausência de figuras de vulto resulta da crescente percepção da crise climática como veículo de outras crises, um desafio societal complexo que, também simbolicamente, tem que valer mais que qualquer outro problema estrutural ou conjuntural que justifique a não presença de figuras cimeiras de executivos, como aconteceu com diversos países, incluindo o nosso, numa curiosa e inquietante interpretação do programa de governo que, apesar de apresentar como primeiro de quatro desafios estratégicos “combater as alterações climáticas”, não resulta na priorização para comparência e intervenção do nosso primeiro-ministro em Glasgow.
A crise climática, além de interrelacionada, teve, tem e terá um papel cada vez mais central noutras crises como a pobreza e exclusão, a desigualdade, a demografia e as migrações, ou o trabalho e bem-estar, algo que acrescenta complexidade a um problema já muito complexo e risco para a coesão social, para a confiança nas pessoas e instituições, para a democracia conforme a conhecemos, e para a paz. É que, como tão bem reflecte Daniel Innerarity, a não resposta aos problemas complexos é uma oportunidade para o crescimento dos populismos, não porque respondam aos problemas, antes porque se substituem à necessidade de resposta, instigando ódios, dúvidas e crescendo na e com a insegurança e a incerteza através de propostas simplistas, salvíficas e não raras vezes pseudocientíficas. Um caminho que já vimos percorrido no passado e do qual temos sinais recentes que nos devem mobilizar para fazermos deste momento ponto de inflexão em favor das pessoas e do planeta.
Há tempo, pela transformação da vontade em mobilização e compromisso, de substituir a inacção, que aprofundará o problema existente, por uma acção firme que produzirá resultados muito positivos, com impacto na mitigação da crise climática e, pelo efeito atrás descrito, noutras crises e desafios societais complexos. Tal depende de contribuirmos, cada pessoa, comunidade e país, para uma visão partilhada do problema, assente na empatia com as e os outros, e para uma visão mais cooperativa das soluções, assente na equidade e compaixão. Depende, também, de melhorarmos os processos negociais, abandonando proclamações a 20, 30 ou 50 anos que pouco contributo aportam (imaginemo-nos em 1971 a traçar metas sobre a implementação da rede 5G no Mundo ou de redução de emissões para 2021), concentrando-nos, antes, em acções imediatas, próximas, concretas e avaliáveis e procurando aprofundar os NDC (contribuições nacionalmente determinadas) de cada país e o estabelecimento de compromissos a cada ano, um dos principais ganhos da declaração final da COP26. Depende, portanto, de lideranças globais, inspiradoras e com visão. Do crescimento do consumo e da utilização de recursos consciente, por oposição ao proibicionismo, da estimulação e motivação da mudança de comportamentos por oposição à sua obstaculização e de transformações sociais. Do desenvolvimento tecnológico e da inovação pelo bem-comum. Depende, finalmente, de usarmos mais do conhecimento sobre o comportamento humano e sobre os processos de tomada de decisão na definição de políticas e na comunicação, na promoção de literacia e na prevenção, mitigação e adaptação às mudanças necessárias e aos impactos das cada vez mais frequentes e intensas catástrofes, já não passíveis de serem chamadas naturais por também comprovadamente resultarem da acção humana.
Bem sei e sabemos que Glasgow, nos últimos dias, está longe de representar a totalidade da população. Ali se concentraram activistas, membros de organizações não governamentais, cientistas e investigadoras/es, jornalistas e decisoras/es com trabalho, interesse ou responsabilidade nesta área. Era, nesse sentido, uma Glasgow com viés, mas por todas e todos sentida como uma Glasgow diferente de uma Madrid em 2019 (COP25) também com viés, ou de Katowice (COP24), Bonn (COP23), Marraquexe (COP22) ou mesmo Paris (21) onde se conseguiu um acordo importantíssimo. Como, apesar de tudo, creio que sentiremos diferentes as próximas COP, já a do próximo ano em Sharm el-Sheikh, apesar da polémica envolta na escolha do Egipto para a sua organização, e depois na previsivelmente não menos polémica COP28 nos Emiratos Árabes Unidos. Viés à parte, assiste-se a uma onda de mudança que tende a envolver mais e mais pessoas, não apenas porque já fortemente impactadas (cada vez mais) pela crise climática, mas porque cada vez mais despertas e cada vez mais envolvidas num processo e estímulo à mudança, com a energia de novas e zangadas (como Obama definiu), mas principalmente mobilizadas, gerações a pressionar decisoras/es e empresas.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, não contra, mas com as pessoas, envolvidas em acções com propósito e significado para as suas realidades e necessidades, aproveitemos esta onda de mobilização para fazer a COP e a mudança 365 dias por ano, na nossa rua, no nosso país, no nosso Mundo. Aproveitemos esta onda de mobilização para a mudança e seremos recompensadas e recompensados com inovação, com novas formas de vivência, relacionamento e trabalho, com novas formas de interacção com os lugares e territórios, com novas oportunidades de emprego, de bem-estar e de equidade. Com o reforço da confiança nas pessoas e nas instituições, protegendo a paz e a democracia e globalizando o mote da recente Lei de Bases do Clima Portuguesa: o uso sustentável dos recursos naturais do planeta por um clima estável enquanto património comum da humanidade.
Tiago Pereira
in Sábado (Ao redor…); 17.11.2021
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/cop365