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Ao redor... (Revista Sábado) Política Psicologia

Confiar, confiar…

. Permanecer membro da União Europeia ____

. Sair da União Europeia ____

Todo o processo associado ao referendo que resultou no apelidado “Brexit” é, a meu ver, merecedor de atenção e reflexão ao concentrar em si e concretizar três fenómenos com forte impacto na nossa sociedade: 1) a simplificação, normalmente polarizada, de questões complexas, algo que se observa nas “simples” opções de resposta no referendo face à questão complexa relativa à relação do UK com a UE; 2) o julgamento, normalmente polarizador, que pessoas com uma posição assumem face a pessoas com outra posição, assumindo-se como as boas (face as más), as sensíveis (face às insensíveis) ou as morais (face às imorais); 3) o aproveitamento, normalmente alheio ao bem-comum, da incerteza e destas polarizações de pessoas com o fim único de se garantirem recompensas imediatas para si ou, quando muito, para o seu grupo (políticas, ideológicas ou outras), sem pensar nos impactos negativos desse aproveitamento nas instituições ou na sociedade a médio e longo prazo.

“Pessoas, ciência, políticas, instituições – Confiança”, 21º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) procura discutir a crise de confiança que trespassa várias áreas da sociedade, desde as suas instituições, às políticas, à ciência e às pessoas e como, a velocidade e a forma de acesso e disseminação de (des)informação, a par da crescente polarização da e na sociedade, forçam uma forte e circular associação destas crises de confiança. Uma associação que “gera maior fragmentação na sociedade, pelo foco e reforço sistemático do que funciona menos bem (face ao que funciona bem), dos problemas (por oposição às soluções), da irracionalidade e obscurantismo (por oposição à racionalidade e factualidade) e de posturas de confronto (por oposição às de cooperação) e de estigmatização (por oposição à compreensão, empatia e compaixão).”

Em qualquer momento, mas particularmente em momentos de complexidade e incerteza, o confronto com as “nossas vulnerabilidades, enquanto pessoas, comunidades e país, deve sobressaltar-nos para nos envolvermos nas diferentes dimensões da sociedade, para nos mobilizarmos e para desenvolvermos relação e confiança, com pessoas, com a ciência, as políticas e as instituições”, enquanto “melhor garante e “escudo” em períodos em que grandes desafios societais se nos afiguram como “balas” contra o bem-estar, a equidade e a coesão social.”

Cumpre-nos promover e manter “consenso social consentâneo com a necessária mitigação do impacto potencial na confiança de pessoas que usaram, usam e usarão de quaisquer poderes para diminuir outras pessoas, da pseudociência ou do obscurantismo, do ataque, desconsideração e utilização de políticas e/ou da fragilização das instituições para se afirmarem.

Cumpre-nos, “contra os canhões”, além de “marchar, marchar”, confiar, confiar.

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COVID-19 Psicologia Tomada de Decisão

“Não podemos estigmatizar os que têm dúvidas legítimas sobre as vacinas”

Alfa, Beta, Gama, Delta e, agora, Ómicron. As 5 variantes mais relevantes do vírus responsável pela pandemia que vivemos e que, pelos seus múltiplos e significativos impactos, resulta(rá) numa divisão do tempo de um Mundo pré-pandemia (antes da COVID-19), em pandemia e pós-pandemia. Variantes que confirmam, apesar de longos meses de medidas de saúde pública restritivas e de desenvolvimentos da ciência, o contexto de imprevisibilidade e de incerteza que vivemos. Ontem o Director-Geral da OMS citou Albert Camus (“A Peste”) na abertura da Assembleia Mundial da Saúde: “as pragas e as guerras continuam a surpreender-nos”. Assim era em 1947, é-o hoje e sê-lo-á no futuro.

A este propósito, em entrevista à Sábado, afirmei a necessidade da adopção de uma “postura conciliadora” com pessoas e grupos que hoje se manifestam na Europa a propósito da nova “onda” de restrições decidida por autoridades de diversos países. “Não podemos estigmatizar os que têm dúvidas legítimas sobre as vacinas”, disse, sintetizando a necessidade dessa postura conciliadora quando existem hoje muitas pessoas “que reconhecem o perigo da pandemia e até se vacinaram, mas que chegaram a um estado de saturação pandémico que as leva a demonstrarem a sua indignação” e que não “se tratam [apenas] de negacionistas”.

Na peça foco quatro aspectos que julgo essenciais na compreensão de imagens de protestos que há meses consideraríamos improváveis: a fadiga pandémica e a exaustação das restrições; a vulnerabilidade emocional e a maior irritabilidade, irascibilidade e dificuldade de autorregulação das pessoas; a baixa percepção de risco; e o aproveitamento por pessoas e grupos com objectivos políticos/ideológicos da desconfiança.

Procuro, também, reforçar a importância de investirmos na (boa) comunicação, protegendo a confiança e a coesão social, desde logo comunicação personalizada e próxima junto de quem tem dúvidas (legitimas) sobre as vacinas (e outras medidas), “não alienando ou estigmatizando essas dúvidas, sob pena de contribuirmos para maior polarização e menor adopção de comportamentos pró-saúde e pró-sociais”.

Finalmente, abordo o papel das normas sociais e da observação do comportamento das outras pessoas na tomada de decisão e os riscos que se correm de, a médio e longo prazo, termos mais dificuldades na promoção da responsabilidade, vacinação e adopção de comportamentos de protecção pelas pessoas se optarmos por medidas como a vacinação obrigatória ou o vedar sem alternativa dos locais públicos às e aos não-vacinados, por oposição a medidas que procurem, empatizando e promovendo a conexão com estas pessoas, perceber as suas motivações e estimular a mudança voluntária, tendo presente que num contexto de incerteza como o que vivemos, as medidas devem considerar o presente mas também o futuro e, nesse sentido, a procura do reforço da confiança e da coesão social, principais garantes da compreensão e aceitação da necessidade de mudança quando nos deparamos com novos factos ou desafios.

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Ao redor... (Revista Sábado) Emergência Climática Psicologia

COP365 (Ao redor…; Sábado; 17.11.2021)

Há 339 anos, Tiago, um jovem nascido no Portugal do meio do século XVII, deslocou-se ao local do seu novo trabalho no Campo de Santa Clara em Lisboa. Participaria nesse 1682 do reinício da construção da Igreja de Santa Engrácia. Seria impossível a Tiago prever como seria a vida em Lisboa e no Mundo em 2021, como seria improvável prever que a obra em cuja construção participava apenas terminasse e fosse inaugurada em 1966, quase 400 anos depois do seu início (1568), já como Santa Engrácia – Panteão Nacional.

Tal como aquele Tiago, não tenho pretensões de imaginar como será a vida em Portugal ou no Mundo em 2360, quais serão os desafios da sociedade na segunda metade do século XXIV ou sequer como será a sociedade. Não tenho, portanto, quaisquer pretensões a escrever-vos sobre o que seria uma potencial COP365 (considerando que haveria uma a cada ano e que não sucederia algo como em 2020), antes a reflectir sobre como, transformar cada COP num projecto de cada dia de cada ano, é o que mais nos pode projectar para uma acção climática urgente e proteger de uma dinâmica tipo obra de Santa Engrácia, conforme popularmente definimos o que consideramos que vai demorar muito tempo ou nunca chegar a ser concluído.

Senti-o profundamente em Glasgow na passada semana. Ali estive, na pequena equipa que representou a Global Psychology Alliance na COP26, aliança de 70 associações de psicologia e de psicólogas/os dos cinco continentes criada na sequência da “International Summit on Psychology and Global Health: A Leader in Climate Action” (Novembro de 2019, Lisboa). Senti que – a par da profunda onda de preocupação, particularmente significativa quando cara a cara se ouve e sente a história e as histórias de pessoas e comunidades já hoje fortemente impactadas pelas alterações climáticas resultantes da acção humana – cresce uma onda de reconhecimento do problema e das suas consequências e da necessidade e formas de acção para a mudança. Senti que a decepção face aos (pequenos) passos e compromissos políticos assumidos resulta da esperança das (grandes) acções que se querem construídas e implementadas já hoje. Senti que o desencanto pela ausência de figuras de vulto resulta da crescente percepção da crise climática como veículo de outras crises, um desafio societal complexo que, também simbolicamente, tem que valer mais que qualquer outro problema estrutural ou conjuntural que justifique a não presença de figuras cimeiras de executivos, como aconteceu com diversos países, incluindo o nosso, numa curiosa e inquietante interpretação do programa de governo que, apesar de apresentar como primeiro de quatro desafios estratégicos “combater as alterações climáticas”, não resulta na priorização para comparência e intervenção do nosso primeiro-ministro em Glasgow.

A crise climática, além de interrelacionada, teve, tem e terá um papel cada vez mais central noutras crises como a pobreza e exclusão, a desigualdade, a demografia e as migrações, ou o trabalho e bem-estar, algo que acrescenta complexidade a um problema já muito complexo e risco para a coesão social, para a confiança nas pessoas e instituições, para a democracia conforme a conhecemos, e para a paz. É que, como tão bem reflecte Daniel Innerarity, a não resposta aos problemas complexos é uma oportunidade para o crescimento dos populismos, não porque respondam aos problemas, antes porque se substituem à necessidade de resposta, instigando ódios, dúvidas e crescendo na e com a insegurança e a incerteza através de propostas simplistas, salvíficas e não raras vezes pseudocientíficas. Um caminho que já vimos percorrido no passado e do qual temos sinais recentes que nos devem mobilizar para fazermos deste momento ponto de inflexão em favor das pessoas e do planeta.

Há tempo, pela transformação da vontade em mobilização e compromisso, de substituir a inacção, que aprofundará o problema existente, por uma acção firme que produzirá resultados muito positivos, com impacto na mitigação da crise climática e, pelo efeito atrás descrito, noutras crises e desafios societais complexos. Tal depende de contribuirmos, cada pessoa, comunidade e país, para uma visão partilhada do problema, assente na empatia com as e os outros, e para uma visão mais cooperativa das soluções, assente na equidade e compaixão. Depende, também, de melhorarmos os processos negociais, abandonando proclamações a 20, 30 ou 50 anos que pouco contributo aportam (imaginemo-nos em 1971 a traçar metas sobre a implementação da rede 5G no Mundo ou de redução de emissões para 2021), concentrando-nos, antes, em acções imediatas, próximas, concretas e avaliáveis e procurando aprofundar os NDC (contribuições nacionalmente determinadas) de cada país e o estabelecimento de compromissos a cada ano, um dos principais ganhos da declaração final da COP26. Depende, portanto, de lideranças globais, inspiradoras e com visão. Do crescimento do consumo e da utilização de recursos consciente, por oposição ao proibicionismo, da estimulação e motivação da mudança de comportamentos por oposição à sua obstaculização e de transformações sociais. Do desenvolvimento tecnológico e da inovação pelo bem-comum. Depende, finalmente, de usarmos mais do conhecimento sobre o comportamento humano e sobre os processos de tomada de decisão na definição de políticas e na comunicação, na promoção de literacia e na prevenção, mitigação e adaptação às mudanças necessárias e aos impactos das cada vez mais frequentes e intensas catástrofes, já não passíveis de serem chamadas naturais por também comprovadamente resultarem da acção humana.

Bem sei e sabemos que Glasgow, nos últimos dias, está longe de representar a totalidade da população. Ali se concentraram activistas, membros de organizações não governamentais, cientistas e investigadoras/es, jornalistas e decisoras/es com trabalho, interesse ou responsabilidade nesta área. Era, nesse sentido, uma Glasgow com viés, mas por todas e todos sentida como uma Glasgow diferente de uma Madrid em 2019 (COP25) também com viés, ou de Katowice (COP24), Bonn (COP23), Marraquexe (COP22) ou mesmo Paris (21) onde se conseguiu um acordo importantíssimo. Como, apesar de tudo, creio que sentiremos diferentes as próximas COP, já a do próximo ano em Sharm el-Sheikh, apesar da polémica envolta na escolha do Egipto para a sua organização, e depois na previsivelmente não menos polémica COP28 nos Emiratos Árabes Unidos. Viés à parte, assiste-se a uma onda de mudança que tende a envolver mais e mais pessoas, não apenas porque já fortemente impactadas (cada vez mais) pela crise climática, mas porque cada vez mais despertas e cada vez mais envolvidas num processo e estímulo à mudança, com a energia de novas e zangadas (como Obama definiu), mas principalmente mobilizadas, gerações a pressionar decisoras/es e empresas.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, não contra, mas com as pessoas, envolvidas em acções com propósito e significado para as suas realidades e necessidades, aproveitemos esta onda de mobilização para fazer a COP e a mudança 365 dias por ano, na nossa rua, no nosso país, no nosso Mundo. Aproveitemos esta onda de mobilização para a mudança e seremos recompensadas e recompensados com inovação, com novas formas de vivência, relacionamento e trabalho, com novas formas de interacção com os lugares e territórios, com novas oportunidades de emprego, de bem-estar e de equidade. Com o reforço da confiança nas pessoas e nas instituições, protegendo a paz e a democracia e globalizando o mote da recente Lei de Bases do Clima Portuguesa: o uso sustentável dos recursos naturais do planeta por um clima estável enquanto património comum da humanidade.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 17.11.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/cop365

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Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

54 anos das cheias de 1967 e impacto da pandemia nas/os bombeiras/os e outros agentes de protecção civil

“Foi a maior catástrofe do país depois do terramoto de 1755.” Esta noite (e madrugada) passam 54 anos das cheias de 1967. Nessa noite, em alguns concelhos da “Grande Lisboa”, a chuva atingiu 170L/m2/hora (entre as 19h e as 00h a precipitação correspondeu a 1/5 do que choveu em todo o ano de 1967) dizimando aldeias nas zonas mais pobres e “abandonadas” (20.000 casas totalmente destruídas), provocando centenas de mortes (462 “oficiais” embora se estimem 700) e muito sofrimento nas famílias e comunidades. Apesar da onda de apoio (particularmente do movimento estudantil face a um regime “inoperante” que, essencialmente, procurou “esconder” a dimensão da tragédia e as suas causas – a pobreza (extrema) e as condições de vida das populações), o sofrimento estendeu-se a quem naquele e nos dias seguintes procuraram ajudar as “suas pessoas”, aldeias e comunidades com recursos limitados, nomeadamente bombeiras e bombeiros e outros agentes de protecção civil. “Quando vim para baixo a ponte já tinha sido levada pela água e o quartel estava cheio de mortos. Foram 63 só no 1º dia. Passaram-me todos pelas mãos antes de serem levados para o Inst. Medicina Legal”, contava em 2017 à Renascença o à época bombeiro de Odivelas Abílio Silva. Descrição que nos convida a pensar nestas pessoas e profissionais, no seu papel e condições, na incerteza perante e nos impactos do seu trabalho no seu bem-estar.

Coincidentemente, hoje passam 50 dias de uma conversa que aqui partilho no Porto Canal (06.10) a propósito do documento produzido conjuntamente entre a ANEPC (um cumprimento especial ao Bruno Vaz por todo o empenho) e a Ordem dos Psicólogos Portugueses – “Os bombeiros e a saúde psicológica em tempos de pandemia”. Nela reflecti sobre o impacto da pandemia (e o prolongamento desse impacto), mas não apenas, nas e nos profissionais de primeira linha, particularmente bombeiras e bombeiros e outros agentes de protecção civil, em muito devido ao contacto permanente com situações de perda, luto e sofrimento, stresse, a necessidade de mudança de rotinas, protocolos e equipamentos e com a incerteza. Também sobre a importância da literacia, auto-cuidado e conciliação das dimensões pessoais e profissionais com propósito nestas e nestes profissionais ou a necessidade de reforço das redes de apoio entre pares e da ajuda profissional, quando necessária, contingente aos problemas e dificuldades.

As cheias de 1967 impactaram, além das comunidades afectadas, a consciência colectiva, estimulando tensão de mudança na sociedade. De certa forma, espero que as catástrofes/crises dos últimos anos nos impelem a uma reflexão tendente à valorização e apoio às pessoas que, com dificuldade, se dedicam a ajudar outras nestes momentos. Isso e a reflectirmos sobre o que, enquanto pessoas, comunidades e sociedade, podemos fazer para as prevenir, mitigar e vivermos com maior (potencial de) bem-estar para todas e todos.

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Futuro da Psicologia Psicologia

Eagle, Cuida-te +

Eagle. Recentemente a IBM apresentou um novo processador que supera largamente a capacidade dos hoje utilizados por revolucionar o actual sistema binário (0 ou 1) ao acrescentar a possibilidade de sobreposição de estados (0 e 1). Um artigo da revista Science afirma que um problema hoje complexíssimo de criação de números aleatórios cujo melhor computador hoje disponível demoraria cerca de 600 milhões de anos a resolver, poderá sê-lo, com este processador, em 3 minutos. Se a IBM conseguir adaptá-lo a computadores (e dispositivos) como hoje os conhecemos, entraremos na era da computação quântica e abrir-se-á espaço para “desenvolvimentos quânticos” em materiais de construção, tratamento de dados, medicação e outras terapêuticas, transportes, ensino ou inteligência artificial. Um “salto quântico” em potência, apelidado de Eagle (Águia) pela IBM.

Pensei em revoluções, grandes e não tão grandes, e em saltos (quânticos), quando reflectia nas palavras que diria no Kick Off das/os 19 Psicólogas/os Júnior agora afectas/os ao Cuida-te + do IPDJ, resultado de duas parcerias deste instituto público uma com a Ordem dos Psicólogos Portugueses e com a Aventura Social – Associação. Na sessão de ontem – onde estivem a Natacha Torres da Silva, pessoa (e colega) que muito se dedicou a tornar possível este projecto, a Margarida Gaspar de Matos e Tania Gaspar, pessoas (e colegas) que muito estão empenhadas em criar condições para que o projecto possa ser bem sucedido (e avaliados os impactos), além das/os 19 psicólogas/os júnior e orientadoras/es e responsáveis do IPDJ/Aventura Social – procurei discutir sobre porque este projecto e a forma como será concretizado representa esse salto:

1) Pelo significado do IPDJ, no quadro da administração pública (sendo exemplo), investir em anos profissionais júnior permitindo que o primeiro emprego em psicologia destas/es 19 psicólogas/os no quadro do Cuida-te+;

2) Pela abordagem compreensiva, não exclusivamente reactiva e remediativa, antes apostando na prevenção e promoção e centradaa no desenvolvimento das/os jovens e comunidades;

3) pela contingência ao momento que vivemos e aos fortes e amplos impactos (directos e indirectos) da COVID-19 no passado próximo, presente e futuro das/os jovens;

4) pela preparação do que viveremos, tempos em que a incerteza será mais constante e que a complexidade requererá competências sócio-emocionais e resiliência, empatia e compaixão, criatividade, confiança e coesão social em muito dependentes da saúde psicológica e bem-estar individual e societal.

“Não me preocupa que a inteligência artificial permita que os computadores pensem como os humanos. Preocupa-me que as pessoas pensem como os computadores, sem valores ou compaixão, sem se preocuparem com as consequências”, disse Tim Cook, CEO da Apple, num célebre discurso em 2017.

Eu, optimista que julgo ser, penso que assim não será. Eu, realista que também julgo ser, penso que com projectos como este estaremos mais perto que assim não seja.

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Desafios da Psicologia Emergência Climática Futuro da Psicologia Psicologia

Cidades Verdes…

A partir de hoje contaremos 6 semanas até mudarmos de ano e chegarmos a 2022. Terminarmos (mais) um ano de muitas semanas com fortes restrições e limitações à nossa espontaneidade, à nossa forma de interagir e nos relacionarmos com o espaço e com as outras e os outros e de um significativo sofrimento para um grande número de pessoas. Mas terminaremos um ano em que, mais uma vez, resistimos e demos prova de confiança nas instituições e de coesão que, entre outros, nos permite ser líderes mundiais no importantíssimo processo de vacinação relativo à COVID-19. Terminaremos um ano em que, mais uma vez, se aprofunda e generaliza o reconhecimento da importância de promover a literacia em saúde (psicológica), a prevenção e a saúde psicológica como forma de enquanto indivíduos e sociedade estarmos mais preparados para nos adaptarmos às mudanças necessárias e respondermos à incerteza. Um ano de reconhecimento e sensibilização para a necessidade de melhorarmos a qualidade de vida e bem-estar das pessoas.

Comportando ainda incerteza, 2022 trará, apesar de tudo, um novo momento societal que coabitará na Europa com o “Ano Europeu das Cidades Verdes” que prevê a mobilização da Europa para a criação de espaços urbanos mais verdes visando benefícios “não apenas ambientais, mas relativos à saúde, cultura e educação” e, logo, com forte impacto no bem-estar.

No final da semana passada, a convite da APPP-FN, participei na conferência “Cidades Verdes – Mais saudáveis, mais sustentáveis” do projecto “Green Cities Europe” e discuti os importantes contributos da psicologia (ciência e prática) para cidades de bem-estar, sustentabilidade e coesão social. Procurei reflectir a partir da definição de Calvino (“as cidades como os sonhos são feitas de desejos e medos”) o binómio entre querer mudar mas receá-lo e a cidade como micro (o local, a pessoa) do macro (o global, a sociedade), onde os desafios societais complexos da exclusão, pobreza ou população em situação sem abrigo são os problemas da Rita, da Joana ou do António.

Onde a poluição do ar, o ruído, a temperatura e o os estilos de vida de quem as habita impactam em indicadores de saúde, retiram anos de vida saudável e provocam mortes prematuras.

Onde, contributos da psicologia, sob a forma de 1) evidências científicas e promoção da literacia; 2) informação de políticas públicas de saúde e de sustentabilidade; 3) promoção da mudança e da adaptação com bem-estar; e 4) unidades de ciências comportamentais que apoiem intervenções efectivas e com resultados, podem concorrer para a mitigação e prevenção destes problemas.

Onde, finalmente, a construção de cidades verdes, com contributo da psicologia, pode ser essencial à prevenção, promoção de saúde (psicológica) e bem-estar, biodiversidade e de importantes determinantes sociais e comportamentais da sustentabilidade e da coesão social, como são a resiliência, a conciliação da vida pessoal/profissional e autocuidado, a intergeracionalidade e a inclusão.

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Ao redor... (Revista Sábado) Emergência Climática Psicologia

COP365

Nos últimos dias notícias abordaram a possibilidade de um “confinamento total” da cidade de Deli e um número de mortes em 2019 de cerca de 6mil em Portugal e 307mil na UE. Motivo? O mesmo e – por estes dias, por associar “mortes” e “confinamentos” – contraintuitivo: poluição atmosférica.

Sem pretensão de pensar o Mundo, a sociedade e os seus desafios daqui a 339 anos (numa potencial COP365), o que hoje sabemos, sentimos e o que nos rodeia deve impelir-nos a transformar cada COP num projecto de cada dia de cada ano.

“COP365”, 20º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa a necessidade de abandonarmos “proclamações a 20, 30 ou 50 anos que pouco contributo aportam” e de nos concentrarmos “em acções imediatas, próximas, concretas e avaliáveis”, aprofundando os NDC (contribuições nacionalmente determinadas) de cada país e o estabelecimento de compromissos a cada ano, um dos principais ganhos da declaração final da COP26. Também sobre como “há tempo, pela transformação da vontade em mobilização e compromisso, de substituir a inacção, que aprofundará o problema existente, por uma acção firme que produzirá resultados muito positivos, com impacto na mitigação da crise climática” (e noutras crises/desafios societais) e de como isso depende “de contribuirmos, cada pessoa, comunidade e país, para uma visão partilhada do problema, assente na empatia com as e os outros, e para uma visão mais cooperativa das soluções, assente na equidade e compaixão”.

Como depende “do crescimento do consumo e da utilização de recursos consciente, por oposição ao proibicionismo, da estimulação e motivação da mudança de comportamentos por oposição à sua obstaculização e de transformações sociais”. Ou “do desenvolvimento tecnológico e da inovação pelo bem-comum e de usarmos mais do conhecimento sobre o comportamento humano e sobre os processos de tomada de decisão na definição de políticas e na comunicação, na promoção de literacia e na prevenção, mitigação e adaptação às mudanças necessárias e aos impactos das cada vez mais frequentes e intensas catástrofes, já não passíveis de serem chamadas naturais por também comprovadamente resultarem da acção humana”.

Em Glasgow “senti que – a par da profunda onda de preocupação, particularmente significativa quando cara a cara se ouve e sente a história e as histórias de pessoas e comunidades já hoje fortemente impactadas pelas alterações climáticas – cresce uma onda de reconhecimento do problema, suas consequências e da necessidade e formas de acção para a mudança” e que aproveitar esta onda resultará numa recompensa em inovação, novas formas de vivência, relacionamento, trabalho e interacção com os territórios, novas oportunidades de emprego, bem-estar e de equidade”. Garantiremos (mais) confiança, coesão e paz. Protegeremos a democracia e contribuiremos para globalizar o mote da recente Lei de Bases do Clima Portuguesa: o uso sustentável dos recursos naturais do planeta por um clima estável enquanto património comum da humanidade.

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Reversibilidade – Psicologia e Crise Climática

“Aquela música faz-me sentir…”

Estou certo que por vezes associa uma música (banda; tipo de música) a um estado emocional. Ouvimo-la e… Ou sentimos e ouvimo-la? Com alguma simplicidade, podemos enquadrar nesta questão a reversibilidade enquanto possibilidade de olhar dois polos opostos: ouvimos aquela música e ela faz-nos sentir tranquilas e tranquilos ou estamos tranquilas e tranquilos e procuramos aquela música? A reversibilidade, num Mundo de questões complexas, é, enquanto competência e no seu simbólico, algo fundamental que deve ser preservado e estimulado numa perspectiva de procura de (mais) caminhos, contributos e soluções ao invés de afunilarmos em visões únicas e sem alternativa.

Por estes dias, e pelo que tem também sido a minha reflexão sobre a questão da crise climática, tenho pensado bastante na reversibilidade. E, de certa forma, por ela comecei (e continuei) uma participação que partilho no programa Esta Manhã da TVI onde conversei com Iva Domingues sobre psicologia e crise climática. 

É que – sendo a psicologia a ciência que estuda o comportamento (causas,  consequências, mudança) e tomada de decisão e a profissão que, ao longo de todo o ciclo e nos diversos contextos de vida, procura promover a autodeterminação de todas e todos e garantir mais oportunidade de bem-estar, equidade e coesão social – quando me perguntam como está ligada à crise climática o meu pensamento vai no sentido de responder como poderia a psicologia não estar ligada a uma crise como a climática se: 1) para a compreendermos e explicarmos precisamos de compreender como as pessoas se comportam e tomam decisões? 2) para a prevenirmos e mitigarmos te(re)mos que mudar a forma como viajamos, comemos, produzimos, consumimos, partilhamos, trabalhamos ou utilizamos os recursos à nossa volta? 3) para nos adaptarmos ao futuro e às mudanças precisa(re)mos de desenvolver resiliência nas pessoas e comunidades, responder à incerteza, à ansiedade, às iniquidades e outros desafios (como as migrações) que trará? 4) precisa(re)mos da intervenção das psicólogas e dos psicólogos no apoio psicológico e suporte emocional às pessoas vítimas de catástrofes mais frequentes e intensas nas próximas décadas? 5) o seu conhecimento é fundamental ao desenho de políticas públicas neste âmbito, à acção na percepção de risco e à comunicação com pessoas e comunidades?

Mais, reversibilidade para não cairmos em inevitabilidades que redundam em inacção e para, apelando à urgência da mudança, não esquecermos os (ainda que ténues) sinais positivos à nossa volta (como dela se falar às 07.50h na TVI). Para não fazer a mudança contra as pessoas, mas com as pessoas. Para lembrarmos que na mudança não há apenas perda de qualidade de vida e que ela pode (co)existir com bem-estar.

A crise climática é um problema social complexo que precisa de uma resposta social, motivada pelas pessoas e comunidades. Uma resposta que não pode deixar ninguém para trás para ser bem-sucedida. Que só pode ser bem-sucedida.

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Política Psicologia Tomada de Decisão

Personalização e compromisso – Dos partidos às políticas

Allerweltspartei. Previsivelmente, poucas e poucos conheceremos esta palavra. Original alemão do mais vulgar em inglês catch-all party, significa (tradução minha) partido (político) “onde todas e todos cabem”. Partido “de massas”. Conceito sempre problematizado, explanado por Kircheimer em 1966 para descrever partidos que, por serem de largo espectro e menos ideológicos, procuravam atrair o maior número possível de pessoas. Partidos actualmente, embora a ritmos diferentes, em perda e quebra um pouco por toda a Europa face a partidos políticos que, mais individualizados e singularizados, se centram em causas e se dirigem a grupos específicos de pessoas, originando maior fragmentação política.

“Personalização e compromisso – Dos partidos às políticas”, 19º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) reflecte sobre esta fragmentação a partir de dois fenómenos que nela considero essenciais: a forma como hoje se produz, dissemina e se contacta com informação e, nesse sentido, com desinformação; a enorme disponibilidade de dados e de algoritmos e ferramentas de tratamento de dados, que, cada vez com mais eficácia e menor custo, preparam e personalizam a informação para cada pessoa e grupo de pessoas. Procura, também, reflectir sobre o impacto destes fenómenos na maior volatilidade das votações; quebra de confiança; e na emergência de lideranças providenciais, salvíficas, populistas e de perfil mais autoritário.

Procura, depois, olhar a “outra face da moeda” e a possibilidade destes fenómenos, se utilizados com outro fim (bem-comum), produzirem efeitos também significativos mas na melhoria da qualidade de vida das pessoas, na sua possibilidade de bem-estar e na coesão social, nomeadamente se utilizados para uma maior personalização das políticas públicas, tornando-as mais contingentes, baseadas nas singularidades das pessoas e, por isso, mais eficientes e eficazes – abordo, com propostas, o exemplo das políticas de emprego estagnadas há décadas no seu modelo. Discuto, ainda, a importância de uma atitude de compromisso entre partidos, pela construção de espaços de entendimento centrados na abertura, na empatia com as pessoas e as e os adversários e no desenvolvimento de competências que permitam entregar e receber melhor críticas construtivas capazes de influenciar o comportamento, a tomada de decisão e as negociações.

Fecho apelando a que a um certo colocar em causa dos Allerweltspartei corresponda um colocar em causa das Allerweltspolitik, políticas catch all. Porque, se o pluralismo e a diversidade das pessoas e das sociedades ameaçam os partidos de massas, o pluralismo e diversidade das pessoas invalidam políticas de massas. Precisamos, de transformar e personalizar as políticas. Personalizar com criatividade, persistência e compromisso. Compromisso entre políticas públicas e pessoas. Entre partidos políticos e pessoas. Entre políticas públicas. Entre partidos. Pela confiança e pelo bem comum, defesas últimas das consequências da fragmentação e polarização das pessoas e sociedades.

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Será o ser humano o principal inimigo do nosso planeta? (Podcast; Ouvi Dizer; ANEP)

“(R)Estabelecer confiança”. R é o símbolo matemático relativo aos números reais. António Guterres sabe-o, conforme sabe quão real é a urgência da crise climática que vivemos e quão fulcral é o (r)estabelecimento da confiança a que apelou no G20 que antecedeu a COP26. Restabelecimento que assume depender “de enfrentarmos as principais causas da desconfiança – injustiças, iniquidades e divisão geopolítica”.

A COP é a Conferência das Partes da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança Climática resultante da ECO-92. A COP1 aconteceu em Berlim (1995) e, depois do Protocolo de Quioto (COP3) e do Acordo de Paris (COP21), a 26ª, adiada de 2020 para 2021, decorre em Glasgow. É momento de discussão dos ténues sinais positivos pós-1992 mas, principalmente, de como poderemos globalmente caminhar o longo e difícil caminho de preservação do planeta, com mudanças que possam em simultâneo promover o bem-estar e o combate às injustiças, iniquidades e divisões geopolíticas, amplificadas com a crise climática. Momento de construir uma resposta enérgica, global, positiva e confiável que não deixe ninguém para trás.

Creio feliz o termo partes. Países parte de um todo, o Mundo. Contributos de cada área científica e sociedade civil parte de um todo, a necessidade de decisões informadas pela ciência e encorajadas por uma ideia comum de futuro do Mundo. Partes das quais faz parte a ciência e a prática psicológica. Ciência que estuda a tomada de decisão, o comportamento e as suas causas e consequências. Profissão que – ao longo de todo o ciclo de vida e nos diversos contextos de vida – procura promover a autodeterminação de todas e todos e garantir mais oportunidade de bem-estar, equidade e de coesão social. Ciência e profissão que deve assumir papel central de contributo nesta crise.

Sobre este (nosso) papel e sobre esta (nossa) responsabilidade, conversei com a Adriana Soeiro Rosa e a Beatriz Sanguedo para o Podcast da ANEP “Ouvi Dizer” partindo do mote “Será o ser humano o principal inimigo do nosso planeta?” Conversa que partilho e onde discuti a forma como a psicologia contribui para a explicação e compreensão do fenómeno, para a sua prevenção e mitigação e para o apoio à preparação e adaptação das pessoas. Discuti, ainda, a relação entre a crise climática e a saúde psicológica (das questões associadas à incerteza e à ansiedade a este propósito até à importância das intervenções pós-catástrofes) e o nosso funcionamento, nomeadamente o papel dos enviesamentos na tomada de decisão. Também, o papel da percepção de risco, da comunicação e dos contributos da ciência psicológica no desenho de políticas públicas e implementação de projectos neste âmbito.

Se os seres humanos podem ser o principal inimigo podem, também, ser os principais protectores do nosso planeta. Unindo-se e actuando em Glasgow, em Sharm El Sheikh em 2022, a cada dia e em cada lugar hoje e no futuro. Unindo-se e actuando, não deixando ninguém para trás e promovendo bem-estar de todas e todos.