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“Não podemos estigmatizar os que têm dúvidas legítimas sobre as vacinas”

Alfa, Beta, Gama, Delta e, agora, Ómicron. As 5 variantes mais relevantes do vírus responsável pela pandemia que vivemos e que, pelos seus múltiplos e significativos impactos, resulta(rá) numa divisão do tempo de um Mundo pré-pandemia (antes da COVID-19), em pandemia e pós-pandemia. Variantes que confirmam, apesar de longos meses de medidas de saúde pública restritivas e de desenvolvimentos da ciência, o contexto de imprevisibilidade e de incerteza que vivemos. Ontem o Director-Geral da OMS citou Albert Camus (“A Peste”) na abertura da Assembleia Mundial da Saúde: “as pragas e as guerras continuam a surpreender-nos”. Assim era em 1947, é-o hoje e sê-lo-á no futuro.

A este propósito, em entrevista à Sábado, afirmei a necessidade da adopção de uma “postura conciliadora” com pessoas e grupos que hoje se manifestam na Europa a propósito da nova “onda” de restrições decidida por autoridades de diversos países. “Não podemos estigmatizar os que têm dúvidas legítimas sobre as vacinas”, disse, sintetizando a necessidade dessa postura conciliadora quando existem hoje muitas pessoas “que reconhecem o perigo da pandemia e até se vacinaram, mas que chegaram a um estado de saturação pandémico que as leva a demonstrarem a sua indignação” e que não “se tratam [apenas] de negacionistas”.

Na peça foco quatro aspectos que julgo essenciais na compreensão de imagens de protestos que há meses consideraríamos improváveis: a fadiga pandémica e a exaustação das restrições; a vulnerabilidade emocional e a maior irritabilidade, irascibilidade e dificuldade de autorregulação das pessoas; a baixa percepção de risco; e o aproveitamento por pessoas e grupos com objectivos políticos/ideológicos da desconfiança.

Procuro, também, reforçar a importância de investirmos na (boa) comunicação, protegendo a confiança e a coesão social, desde logo comunicação personalizada e próxima junto de quem tem dúvidas (legitimas) sobre as vacinas (e outras medidas), “não alienando ou estigmatizando essas dúvidas, sob pena de contribuirmos para maior polarização e menor adopção de comportamentos pró-saúde e pró-sociais”.

Finalmente, abordo o papel das normas sociais e da observação do comportamento das outras pessoas na tomada de decisão e os riscos que se correm de, a médio e longo prazo, termos mais dificuldades na promoção da responsabilidade, vacinação e adopção de comportamentos de protecção pelas pessoas se optarmos por medidas como a vacinação obrigatória ou o vedar sem alternativa dos locais públicos às e aos não-vacinados, por oposição a medidas que procurem, empatizando e promovendo a conexão com estas pessoas, perceber as suas motivações e estimular a mudança voluntária, tendo presente que num contexto de incerteza como o que vivemos, as medidas devem considerar o presente mas também o futuro e, nesse sentido, a procura do reforço da confiança e da coesão social, principais garantes da compreensão e aceitação da necessidade de mudança quando nos deparamos com novos factos ou desafios.

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