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Da não-complacência com o bullying…

…porque

“possível não significa provável”.

J. Steinberger foi uma das autoras do 6º relatório do IPCC. Tem-se destacado por um activismo muito próprio em torno da crise climática, porque, diz, o “nosso vocabulário revela-se insuficiente para descrever a perigosidade e urgência do nosso presente” e a mudança, sendo “possível não significa [que seja] provável”.

O seu exemplo e a importância que atribui às palavras, estimula a minha reflexão sobre áreas em que penso a distância de uma atitude “não-x” a uma atitude “anti-x” (aqui o escrevi sobre o racismo). Também nas práticas agressivas ou, mais especificamente, no bullying em crianças e jovens o podemos reflectir. Também aqui, o vocabulário que usamos não descreve normalmente a sua perigosidade e as mudanças que devem ainda acontecer, pese embora melhorias até 2019, não tornam esse possível em provável. Pelo contrário, os recentes encerramentos das Escolas e o seu impacto no desenvolvimento de competências sócio-emocionais, os perigos e desafios associados ao cyberbullying, os maiores problemas e dificuldades de saúde psicológica nas crianças/jovens e a hoje maior desigualdades e exclusão devem mobilizar-nos para uma atenção preventiva ao fenómeno e para a sua priorização ao nível da sociedade civil. Impelir-nos a atitudes “activas” face ao fenómeno e não “indiferentes”.

Isso procurei frisar no meu contributo que partilho no Bom Dia Portugal da RTP do passado dia 20.10, Dia de Combate ao Bullying. Sublinhando a importância das respostas concertadas ao nível de toda a Escola (não exclusivas das vítimas, agressoras/es e observadoras/es) e a criação de uma cultura de não-complacência (não aceitação) das práticas de bullying, que enquadrei nos seus 3 componentes-chave: repetição; desequilíbrio de forças e de poder; e intencionalidade clara de provocar sofrimento na(s) outra(s) ou outro(s). Procurei, também, assinalando sinais a que devemos estar atentas/os e frisando a importância da comunicação, aprofundar o papel das observadoras e observadores na atitude de não-complacência (actuando para não validar junto de quem agride a agressão e de quem é vítima a inexistência de apoio), das mães, pais e cuidadoras/es no geral (considerando sempre estes fenómenos e não atribuindo bondade aos mesmos – “fazem parte do desenvolvimento”).

Procurei, neste sentido, contribuir para uma reflexão de não minimização destas situações no presente e futuro das crianças e jovens, desincentivando posturas de inacção e estimulando atitudes preventivas e de construção de espaços de compreensão (embora sem aceitação) das práticas agressivas (para se actuar sobre causas), de empatia e de resolução de conflitos não violenta. Isso terá impacto hoje e amanhã em futuros papéis de vida destas crianças e jovens, nas suas relações de cuidado, de amizade, amorosas ou de trabalho.

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Air Summit 2021

“Cada vez que um avião [qualquer avião] passava sobre as suas cabeças, o general e os seus companheiros olhavam-no. Não podiam ajudar-se. Obsessivos. O meu tipo de pessoas.”

O último livro de Malcolm Gladwell (The Bomber Mafia) começa com uma nota do autor que termina com esta passagem. Relata um pós-jantar com David Galdfein (Ex-“Chief of Staff” da Força Aérea dos EUA) em que este convidou colegas para se juntaram a Malcolm na “Air House”, espaço próximo do Aeroporto que serve a região de Washington DC. Relata o fascínio, mas também a constante activação destas pessoas, quando “próximas” de aviões, quaisquer que fossem, e “ainda que de passageiros sem nada de potencialmente distinto.” Relata a tal obsessão, a meu ver melhor descrita se com aspas porque, neste caso, mais ligada à dimensão exclusiva desse comportamento (dessa activação) do que propriamente a um diagnóstico mais técnico (e logo mais complexo).

Na passada sexta-feira, estive em Ponte de Sor, na Air Summit 2021, encontro que reúne um conjunto de pessoas que pela sua profissão, área de negócio, hobby ou apenas fascínio, como Galdfein e as e os seus colegas, tende a olhar o céu quando escuta nele um som de um objecto que, antes ali não estaria, mas que as pessoas, desenvolvendo a ciência e ousando corajosamente muitas vezes experimentar, tornaram cada vez mais comum para cada vez mais fins. Que as pessoas tornaram “norma”, sendo por essa “norma” hoje definidas.

Com um “Flying for a new start” como tema, a Air Summit 2021 trouxe a “novidade” de ter um dia de conferências dedicado à saúde psicológica e uma mesa onde participei a convite da Elisabete Santos sobre “O impacto da pandemia na saúde psicológica: ultrapassar os desafios pessoais, profissionais e sociais” e onde estiveram, além da própria Elisabete, o Florentino Serranheira, o Osvaldo Santos e o Paulo Martins, mesa moderada pela jornalista Cristina Esteves.

No meu contributo procurei reflectir exactamente sobre como a forma como definimos a norma acaba por resultar na forma como a norma nos define e como, assim sendo, podemos tornar norma a importância da saúde psicológica e ela nos definir, mais do que hoje nos define a norma de olharmos (apenas) a doença mental ou quanto muito a sua ausência. Isso convida-nos, activa-nos, a olhar o quotidiano dessa forma e a construir uma sociedade e organizações que o considerem, permitindo mais oportunidades para todas e todos de promoção de saúde mental e com elas menos oportunidades de sofrimento para as pessoas (e seu entorno) e perdas para as organizações e sociedades, sob diversas formas. De como se tornar norma este tema, também numa Summit como esta, nos define hoje e definirá amanhã.
Como também disse, quem ainda voou quando se fumava nos aviões comerciais, dificilmente imaginaria que anos depois tal não fosse possível na exacta forma como hoje dificilmente imaginamos que se regresse a esse tempo. Assim poderá e deverá ser com a importância da saúde psicológica, também nesta área.

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“Não é um problema só para os outros.”

Araquibutirofobia, triscaidecafobia ou pogonofobia. Quaisquer fobias têm como base medos irracionais com impacto significativo no quotidiano e qualidade de vida das pessoas. Em todo o caso, existem fobias que provocam sofrimento a muitas pessoas e nos parecem, por menos comuns, ainda mais irracionais. Aos medos de que algo pastoso se cole ao céu da boca, do número correspondente ao dia de hoje (13) e de barbas (acima respectivamente nomeados), junto a optofobia, o medo irracional de abrir os olhos.

Quem sofre de optofobia, ou de qualquer outra fobia ou problemas de saúde mental, merece toda a atenção e cuidado da parte de cada pessoa e da sociedade. Merece que “abramos” os olhos a esta realidade e que reconheçamos o quão fundamental é hoje investirmos na promoção da saúde mental e apoiar as pessoas que hoje sofrem de problemas de saúde psicológica para recuperarmos o país e uma ideia de futuro das pessoas, famílias e comunidades baseadas numa real aspiração de bem-estar e cumprimento. O quão fundamental é, para que tal suceda, conseguirmos, enquanto sociedade, dar significado ao que as pessoas sentem, sublinhando que existem saídas possíveis e tratamento disponível para os seus problemas, bem como é possível prevenir este tipo de dificuldades.

Assim comecei um diálogo (que aqui partilho) no Dia Mundial da Saúde Mental na TVI24 que partiu da importante premissa que serão hoje, considerando a prevalência pré-pandemia e o agravamento potencial da mesma nos últimos dois anos, entre 2 a 3 milhões as pessoas em Portugal que necessitam de apoio psicológico urgente. Perguntou-me (Interpelou-me), bem, o José Gabriel Quaresma “como pode uma sociedade desenvolver-se de forma saudável quando não olha para estes problemas da sua população?” Perguntou-me (Interpelou-me), também bem, se, “dado que há décadas falamos destes temas”, eu acreditava mesmo “que estes problemas se podem resolver”.

Falamos de causas, de consequências da insuficiência das respostas, dos impactos da pandemia. Falamos de respostas possíveis. Falamos finalmente, optimista que sou, de que só se podem resolver, porque não há bem maior em que se possa investir (com retornos múltiplos) que não as pessoas, principal recurso do país; porque temos recursos disponíveis, preparados e motivados para tal; porque, como a Maria João Marques hoje afirma num importante e corajoso artigo no Público, este “não é um problema só para os outros”.

Não abramos os olhos só para a doença mental. Não tenhamos receio de o fazer com a saúde mental. Uma política humana e sustentável nesta área depende de não investirmos apenas na recuperação, aguardando mais e mais pessoas a necessitarem de ser recuperadas. Depende da conciliação da recuperação com a promoção da resiliência, prevenindo sofrimento e necessidade de recuperação no futuro, criando condições de bem-estar e, através dele, de equidade e coesão social.

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Desafios da Psicologia Psicologia

10.10.2021

Este Dia Mundial da Saúde Mental de 2021 tem uma dimensão pessoal muito significativa para mim. Como tantas e tantos, resultado não apenas da pandemia, tenho pessoas que me são muito importantes a sofrerem e a viverem “aprisionadas” a um presente que não lhes permite vislumbrar caminhos para um futuro de bem-estar. Em simultâneo partilho os meus dias com os meus filhos, um dos quais cuja idade ainda contamos em semanas, que nos “puxam” para nos projectarmos no futuro.

A saúde mental é um tema complexo e urgente. Tema maior pelo seu impacto em todas as dimensões, papéis e tempos de vida das pessoas. Quando confrontados com temas complexos tendemos para respostas rápidas e securizantes, normalmente encaixadas em pólos. Polarizamos. Face a este tema tende-se, porém, a “errar” num pólo: se de um lado temos a doença mental do outro não temos a ausência de doença mental, antes a saúde mental.

Disse-o ontem num debate com os Bastonários Rui Leão Martinho e Luis Menezes Leitão e com a minha colega Ana Rita Goes a convite da Secção Regional do Sul e Regiões Autónomas da Ordem dos Farmacêuticos. Entre a saúde mental – capacidade das pessoas se cumprirem, aspirarem a bem-estar e terem as competências e as condições e recursos internos e externos para lidarem e se adaptarem às situações e acontecimentos de vida – e a doença mental há todo um espaço onde muitas pessoas “deambulam” consoante o momento.

Além do reforço, qualificação e humanização das respostas para quem sofre com a doença mental – finalmente previsto no Plano de Recuperação e Resiliência(PRR) – há espaço de intervenção e mudança que possibilitaria que não tivéssemos chegado ao contexto da pandemia com tantas pessoas com vulnerabilidades. Espaço de prevenção e promoção da saúde psicológica e de resiliência social que toca 5 dos aspectos que justificam porque ainda estamos na cauda da OCDE em termos de indicadores de doença mental: a promoção alargada de competências sócio-emocionais, também nas pessoas adultas e nas e nos adultos mais velhos com níveis de escolaridade mais baixos; a promoção de literacia em saúde (psicológica) visando mais agenciamento sobre si e a procura de suporte e apoio quando necessário; o combate a todas as formas de exclusão e de pobreza com forte e cíclica associação aos problemas de saúde psicológica; a mitigação das situações de isolamento e solidão e a qualificação e integração das respostas de promoção do envelhecimento com bem-estar; o acesso e a equidade no acesso, em todas as fases e contextos de vida, próximo e contingente aos problemas, dos cuidados de saúde (primários), às escolas, universidades, locais de trabalho e instituições diversas da sociedade.

Infelizmente, o PRR nesta área é apenas plano de recuperação porque, grosso modo, ignora esta resiliência. Ignora o que nos prepararia para futuras crises, nos “puxaria” para nos projectarmos no futuro e aspirarmos ao bem-estar. Ignora que o pólo oposta da doença mental não é a sua ausência mas a saúde mental.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Psicologia

Hiperespecialização: Sim ou Não?

Vivemos tempos em que à complexidade crescente acrescentamos urgência. Tempos em que “a vida, exigente, quer a resposta certa ao mesmo tempo da pergunta difícil formulada” (Gonçalo M. Tavares).  Tempos de maior conhecimento e maior expectativa. De mais escolha, mais exigência. De novos desafios, exclusões e, até, de novas “pobrezas”. Tempos que me fazem questionar se hoje, Adam Smith, “pai da economia moderna”, continuaria a defender os benefícios na capacidade produtiva e progresso da ciência da divisão do trabalho, nomeadamente a sua segmentação e a especialização de trabalhadoras e trabalhadores nas áreas, tarefas ou actividades dela resultantes como o fez há 245 anos num Mundo tão diferente do actual.

“Hiperespecialização: Sim ou Não?”, 17º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) pensa os impactos do caminho da especialização até aos actuais processos próximos da hiperespecialização. Fá-lo descrevendo, exemplificando e distinguindo “ambientes acolhedores de aprendizagem”, onde a hiperespecialização parece produzir resultados, de “ambientes inóspitos de aprendizagem” onde tal não sucede. Ambientes inóspitos, comuns ao contexto de volatilidade e incerteza da sociedade presente e futura.

“A complexidade e urgência que vivemos pedem uma experiência que resulte de diversidade e não de uniformidade, de flexibilidade e não de rigidez, de versatilidade e não de constância. Pedem novas visões que resultem do aumento da possibilidade do simbólico e da abstracção e não da permanência única no concreto. Pedem novas respostas que resultem da expansão e não do entrincheiramento cognitivo. Pedem grupo e não apenas individualidade. Pedem mais prática, treino e experiência multidisciplinar precoce e ao longo da vida e não, em exclusivo, mais e maior hiperespecialização precoce e/ou ao longo da vida, como algum discurso vigente e algumas áreas da sociedade ainda favorecem.” Isto afirmo, destacando: a forma como o ensino superior não prioriza o conhecimento conceptual e transferível e a capacidade crítica; a pouca importância dada ao grupo nas organizações (com as condições certas, mais capaz e racional que as pessoas mais capazes e racionais que o constituem); a necessidade de “psicólogas e psicólogos cidadãos, capazes de, nos seus diversos papéis de vida, expandirem e amplificarem o seu contributo para uma maior possibilidade de autodeterminação e bem-estar de todas e todos, mais equidade e coesão social” e de uma prática assente numa “identidade definida e partilhada, antes da soma de conjuntos de psicólogos e psicólogas hiperespecializadas em áreas, por vezes hiperespecíficas, da psicologia”.

“A complexidade presente e futura determina que, não diabolizando os importantes processos de especialização, não sobrevalorizemos a hiperespecialização face à versatilidade e o talento individual face ao de grupos (…) Sendo bom para algumas pessoas, poucas, raramente o é para todas e para um bem-comum que exige flexibilidade, versatilidade, diversidade e grupo.”

 

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RTV Eslovénia

Quando há 15 anos iniciei a minha actividade profissional enquanto psicólogo, fi-lo num contexto de enorme vulnerabilidade, trabalhando com crianças e famílias expostas a dificuldades (por vezes enormes), à pobreza (por vezes extrema) e à exclusão. Contexto em que, a cada momento, algo de inesperado e de significativo acontecia e onde a previsibilidade, tão importante ao bem-estar, não abundava. Com regularidade procurava junto dessa comunidade educativa (mães, pais e outras e outros cuidadores, professoras e professores e outras e outros profissionais) advogar a importância de promovermos relações estáveis e de construir segurança pela relação e pela promoção de confiança. Com mães, pais e cuidadoras e cuidadores procurando trabalhar a necessidade de usar da verdade com as filhas e os filhos e que é ela e não o que se pretende ouvir no seu lugar que, por mais difícil no curto prazo, garante a confiança no presente e para o futuro.

Penso-o a propósito da minha participação e contributo numa reportagem da RTV Slovenija, que aqui partilho. A Eslovénia é, neste momento, o sétimo pior país da UE no registo de população totalmente vacinada (ainda abaixo de 50%), comparando negativamente com a média da UE (63%) e com Portugal (próximo dos 85%). Estes números, as dificuldades sentidas para promover maior taxa de vacinação na sua população e os números em Portugal, justificaram a reportagem assente na pergunta: O que justifica que Portugal apresente estes números e lidere num indicador tão relevante?

Creio que a resposta se situa em 3 áreas abordadas na peça: a) a nossa não complacência, pelo esforço e trabalho colocado pelas organizações, autoridades e pelas pessoas no reforço, não apenas de comportamentos pró-saúde na pandemia, mas também pró-sociais que permite que as pessoas assumam que o seu processo de vacinação visa a sua protecção face à doença mas também na protecção de outras pessoas; b) a conveniência, num esforço de todas e todos, desde a TF da Vacinação às Autarquias passando por outras Autoridades, com contributos das ciências comportamentais, para tornar o processo de vacinação simples, próximo e acessível às pessoas; c) finalmente a confiança… Confiança no SNS, no Plano Nacional de Vacinação e nas e nos profissionais de saúde, tudo elementos essenciais para a aceitação e promoção da vacinação e no esclarecimento das dúvidas legitimas de parte da população mais insegura face ao processo. Confiança que se constrói (ou se destrói) dia-a-dia e que existia em muito pelo papel que o SNS e o Plano Nacional de Vacinação têm tido nas últimas décadas na melhoria dos indicadores de saúde, bem-estar e coesão social do nosso país.

Porque, como em qualquer crise, a resposta tem que ser construída pré-crise. Porque, ainda nesta crise, devemos prepararmo-nos para a(s) próxima(s). Reforçar a confiança em nós, nas outras e nos outros e nas instituições é uma das formas de o fazermos e uma responsabilidade de todas e todos.

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Mafalda, hoje.

Uma menina, cara redonda e cabelo escuro com um laço, pergunta ao pai se é um bom pai, se é o melhor pai do Mundo. Há 57 anos, um jornal Argentino publicava as primeiras tiras (esta e outra em que parte um bico de um lápis enquanto desenha uma casa e desabafa que “estas coisas acontecem apenas neste país [Argentina]) de uma inquieta e inconformada Mafalda. Sabemos a história que se lhe seguiu, sendo hoje uma das figuras mais reconhecidas globalmente da Banda Desenhada e deixando-nos (Quino) muitas tiras que ainda nos “inquietam e “jogam” com o nosso inconformismo. Partilho uma que o faz comigo.

A reflexão sobre as “raízes” do que somos, quem somos e dos nossos problemas é algo muito importante e que creio que todas e todos fazemos quando à nossa volta temos alguém que nos é querido em sofrimento, particularmente quando este sofrimento é emocional, psicológico. Por múltiplas razões que vão da ainda baixa literacia em saúde psicológica (que leva ao não reconhecimento ou aceitação do problema e, depois, à assunção da impossibilidade de recuperação – “eu sou assim, sempre fui assim, sempre serei assim”) a determinantes sociais (isolamento, solidão, precariedade, exclusão, …), o importante não se torna urgente. E esta realidade, quando aliada, à ainda gritante falta de acessibilidade e equidade na acessibilidade a ajuda profissional continuada e de qualidade neste âmbito, contribui para a existência à nossa volta tantas pessoas (e famílias e amigas e amigos que as rodeiam) que, com a ajuda certa, no momento certo, não sofreriam o muito que hoje sofrem.

Esta realidade acaba por criar uma nova urgência nesta área, tamanha que é a prevalência hoje de situações de pessoas a necessitarem de apoio especializado que faz com que a discussão do importante – o que podemos e devemos fazer e investir a montante – se faça mas acabe por pouco produzir e por resultar em insuficientes respostas. Ocupamo-nos e ocupamos os nossos parcos recursos a reparar as fugas de gás, algumas fugas de gás. Procuramos pouco as suas raízes.

É neste contexto que o debate em torno da utilização de tecnologia e big data na área da saúde mental se vem fazendo numa parte pequena do Mundo e chegando a Portugal (parte pequena porque uma grande parte não pode ou ousa sequer discutir a saúde e a possibilidade de bem-estar das suas populações – não o esqueçamos nunca!), desde a Apple que com a Biogen e a UCLA está a procurar desenvolver um algoritmo que permita que os aparelhos que transportamos nos “diagnostiquem” aos biliões de dólares que Escolas, particularmente Americanas, investem hoje em softwares (Gaggle, …) que monitorizam as actividades online de jovens estudantes em busca de indicadores que possam aparentar sofrimento ou perigo (de fazerem mal a si próprios, por exemplo).

Oxalá a Mafalda venha a estar errada no seu perentório “como sempre: o urgente não deixa tempo para o importante”. Por estes dias, por aqui e nestes problemas em particular creio que (ainda) não está.

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Política Psicologia

As pessoas procuram ajuda, o problema é se a encontram.

“As pessoas procuram ajuda, o problema é se a encontram.” Na passada 6ªF participei na conferência “A Psicologia e a Administração Local – O que podem fazer as/os psicólogas/os pelo seu município?”, promovida pela DRMadeira da Ordem dos Psicólogos Portugueses integrada nas comemorações do Dia Nacional do Psicólogo.

À sua margem da conferência, em declarações à RTPMadeira discuti como no presente podemos perspetivar o futuro, referindo que mesmo confirmando-se (como todas e todos esperamos) a diminuição progressiva das restrições, “as muitas dificuldades não pesam só no presente e pesarão também para o futuro se estas pessoas não forem apoiadas” e que “há muito trabalho a fazer para recuperar as pessoas para termos um país de bem-estar e coesão social”. Abordei ainda a necessidade da intervenção “estar mais disponível e próxima” e a importância da literacia e reconhecimento da importância da saúde psicológica, alcançado por ser hoje mais “comum as pessoas falarem não apenas porque conhecem [situações] mas porque na comunicação social se fala da psicologia” resultando “num aumento de procura muito significativo”. Na mesma peça o Renato Gomes Carvalho havia abordado o aumento dos problemas de saúde psicológica, sublinhando, bem, que além do agravamento das situações de “ansiedade e depressão”, verificou-se um aumento da “impulsividade, reactividade, agressividade descontrolada e perturbações das dinâmicas familiares”. Falou ainda das autarquias enquanto contexto potencial de intervenção nestas áreas, pela promoção de “locais de trabalho mais saudáveis e produtivos, por exemplo através da avaliação dos riscos psicossociais” mas também do potencial alargamento do papel das e dos psicólogos nestes contextos, sublinhando a necessidade de se desenharem as políticas públicas com base no conhecimento e na evidência científica referindo que não podemos “aplicar uma medida para milhares de pessoas sem ter evidência científica e uma base sólida em termos técnicos e científicos para aplicá-la”.

Sobre a minha conferência propriamente dita e a reflexão sobre o papel e os contributos da psicologia para autarquias de bem-estar e coesão social, partilho dois textos que escrevi para a rubrica “Ao redor… (Sábado)” guardando uma palavra para a sessão de partilha, da tarde deste dia, com colegas de diferentes contextos sobre a vivência da pandemia. Momento de celebração da ciência e profissão, onde se validaram dificuldades pessoais e profissionais e se sentiu como fazemos a diferença na vida de tantas pessoas em contextos tão diferentes. Obrigado a todas e todos.

 

Autárquicas 2021 – Por um Portugal de ABC (05.05.21) | https://www.linkedin.com/pulse/autárquicas-2021-por-um-portugal-de-abc-tiago-pereira/

A feliz conjugação das Autárquicas 2021 com a infeliz crise COVID-19 (07.09.21)| https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-feliz-conjugacao-das-autarquicas-2021-com-a-infeliz-crise-covid-19

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Conjugação…

Qual a relação entre o facto do gás natural distribuído em Londres a partir de meio do século XX ter passado a ser mais limpo de monóxido de carbono; a aprovação de Leis restritivas do acesso a pesticidas tóxicos no Sri Lanka; e ter deixado de ser possível às e aos jovens militares Israelitas terem consigo armas de fogo fora do período laboral? A diminuição da taxa de suicídio no momento subsequente às mudanças naqueles três contextos. A conjugação, nos exemplos associada ao muito complexo desafio de saúde pública que é o suicídio (ver nota de fim), mas que se verifica noutros exemplos, das lojas em que somos “forçadas e forçados” a “visitar” na totalidade ainda que queiramos um único artigo e o possamos encontrar logo entrada (não raras vezes compramos algo mais) ao debate em torno da proibição de venda no interior das Escolas públicas de alguns produtos alimentares.

“A feliz conjugação das Autárquicas 2021 com a infeliz crise COVID-19”, 15º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) trata a conjugação, ou seja, a forma como “pequenas alterações no contexto podem provocar mudanças significativas nos comportamentos e na concretização de necessidades por nós sentidas, sejam elas mais ou menos conscientes” e a oportunidade que resulta do facto do momento actual conjugar a crise COVID-19 com as Autárquicas 2021, que já havia abordado nesta rubrica a 05.05.21.

É que, sendo “a aldeia, a vila e a cidade o resultado da expressão da existência e da relação humana e o micro do macro dos desafios societais, onde a pobreza ganha nome, onde as pessoas em situação sem abrigo não são apenas um número, onde a crise demográfica se expressa e se sente no dia-a-dia e onde a crise climática se concretiza em fenómenos adversos pontuais e permanentes”, o artigo discute a importância das autarquias verem os seus projectos mais informados pela ciência psicológica, as suas equipas reforçadas com psicólogas e psicólogos e a amplitude do seu papel aumentar em seis áreas nele discutidas, para em proximidade, relação e procurando a personalização das respostas, promoverem o bem-estar e a coesão social das populações.

Também porque “à crise COVID-19 suceder-se-ão novas crises resultantes de um Mundo de incerteza e volatilidade crescentes e de desafios societais complexos” e por Portugal ter já cerca de 25000 psicólogas e psicólogos “disponíveis, comprometidas e comprometidos, motivados e motivadas” que podem e querem “contribuir no presente para o futuro do país.”

 

Nota: A 10.09 assinala-se o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, desafio que a todas e todos convoca porque cada pessoa é agente na prevenção deste gravíssimo problema de saúde pública com forte impacto nas pessoas, famílias e comunidades. A este propósito, numa situação de crise, ligue 808242424 (Serviço de Aconselhamento Psicológico da Linha SNS24). Numa situação de emergência ligue 112 (INEM).

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Celebrar

Nigel Nicolson é um dos muitos escritores e escritoras que publicaram biografias ou outros textos em torno de uma das mais marcantes e mais complexas figuras da literatura mundial – Virginia Woolf. Filho de Vita Sackville-West, também ela escritora, contactou com Woolf a propósito da sua relação muito próxima com a sua mãe, de quem foi, além de amiga, amante. A certo momento Woolf disse a Nicolson que “nada acontece verdadeiramente até estar escrito”, momento que diz marcante na sua vida.

Penso esta frase numa perspectiva de “inscrição” muito explorada no trabalho e na reflexão de José Gil e no papel que a escrita (no sentido também da reflexão e da partilha) tem nos nossos acontecimentos e nas nossas práticas em vida. Penso-o também 48 horas depois do Dia Nacional do Psicólogo (04.09), ao reflectir sobre a importância da sua “inscrição” pela Assembleia da República em 2018 para celebrar o papel das já quase 25.000 psicólogas e psicólogos que dia-a-dia, com a sua ciência e a sua prática, contribuem para o bem-estar de pessoas e organizações e para a coesão social no nosso país. Penso-o final e curiosamente a propósito da fase de candidaturas para o Prémio Ano Profissional Júnior 2020 que a Ordem dos Psicólogos Portugueses atribui e cujas normas e formulário de candidatura se encontram disponíveis aqui.

Porque aos desafios que hoje vivemos se sucederão outros, alguns deles particularmente complexos; porque, mais do que nunca, necessitamos de todas e todos a construírem a ciência e a profissão e a trazerem inovação e proximidade às pessoas, à sua linguagem e aos seus acontecimentos de vida mais significativos; porque, precisamos de inscrever práticas para as reflectir e para que partilhadas possam informar, melhorando, outras e possam chegar a mais pessoas; e porque precisamos de celebrar o tanto de bom que dia-a-dia, psicólogas e psicólogos, fazem por vezes em condições particularmente difíceis e exigentes – estimulo todas e todos os colegas que preencham as condições de candidatura a fazerem-no e a todas e todos os outros a acompanharem os projectos candidatos e o projecto vencedor, numa celebração da nossa ciência, da nossa profissão e do contributo que cada uma e um de nós também deu ao que informou aqueles projectos e ao que permitiu o resultado dos mesmos, no benefício de pessoas, organizações e da nossa sociedade.

Construamos e celebremos, sempre, a psicologia. A bem de estar cada vez mais próxima, mais acessível e mais capaz de apoiar as pessoas, os grupos e a sociedade nos desafios societais complexos que enfrentaremos.