…porque
“possível não significa provável”.
J. Steinberger foi uma das autoras do 6º relatório do IPCC. Tem-se destacado por um activismo muito próprio em torno da crise climática, porque, diz, o “nosso vocabulário revela-se insuficiente para descrever a perigosidade e urgência do nosso presente” e a mudança, sendo “possível não significa [que seja] provável”.
O seu exemplo e a importância que atribui às palavras, estimula a minha reflexão sobre áreas em que penso a distância de uma atitude “não-x” a uma atitude “anti-x” (aqui o escrevi sobre o racismo). Também nas práticas agressivas ou, mais especificamente, no bullying em crianças e jovens o podemos reflectir. Também aqui, o vocabulário que usamos não descreve normalmente a sua perigosidade e as mudanças que devem ainda acontecer, pese embora melhorias até 2019, não tornam esse possível em provável. Pelo contrário, os recentes encerramentos das Escolas e o seu impacto no desenvolvimento de competências sócio-emocionais, os perigos e desafios associados ao cyberbullying, os maiores problemas e dificuldades de saúde psicológica nas crianças/jovens e a hoje maior desigualdades e exclusão devem mobilizar-nos para uma atenção preventiva ao fenómeno e para a sua priorização ao nível da sociedade civil. Impelir-nos a atitudes “activas” face ao fenómeno e não “indiferentes”.
Isso procurei frisar no meu contributo que partilho no Bom Dia Portugal da RTP do passado dia 20.10, Dia de Combate ao Bullying. Sublinhando a importância das respostas concertadas ao nível de toda a Escola (não exclusivas das vítimas, agressoras/es e observadoras/es) e a criação de uma cultura de não-complacência (não aceitação) das práticas de bullying, que enquadrei nos seus 3 componentes-chave: repetição; desequilíbrio de forças e de poder; e intencionalidade clara de provocar sofrimento na(s) outra(s) ou outro(s). Procurei, também, assinalando sinais a que devemos estar atentas/os e frisando a importância da comunicação, aprofundar o papel das observadoras e observadores na atitude de não-complacência (actuando para não validar junto de quem agride a agressão e de quem é vítima a inexistência de apoio), das mães, pais e cuidadoras/es no geral (considerando sempre estes fenómenos e não atribuindo bondade aos mesmos – “fazem parte do desenvolvimento”).
Procurei, neste sentido, contribuir para uma reflexão de não minimização destas situações no presente e futuro das crianças e jovens, desincentivando posturas de inacção e estimulando atitudes preventivas e de construção de espaços de compreensão (embora sem aceitação) das práticas agressivas (para se actuar sobre causas), de empatia e de resolução de conflitos não violenta. Isso terá impacto hoje e amanhã em futuros papéis de vida destas crianças e jovens, nas suas relações de cuidado, de amizade, amorosas ou de trabalho.
Na passada sexta-feira, estive em Ponte de Sor, na Air Summit 2021, encontro que reúne um conjunto de pessoas que pela sua profissão, área de negócio, hobby ou apenas fascínio, como Galdfein e as e os seus colegas, tende a olhar o céu quando escuta nele um som de um objecto que, antes ali não estaria, mas que as pessoas, desenvolvendo a ciência e ousando corajosamente muitas vezes experimentar, tornaram cada vez mais comum para cada vez mais fins. Que as pessoas tornaram “norma”, sendo por essa “norma” hoje definidas.

Penso esta frase numa perspectiva de “inscrição” muito explorada no trabalho e na reflexão de José Gil e no papel que a escrita (no sentido também da reflexão e da partilha) tem nos nossos acontecimentos e nas nossas práticas em vida. Penso-o também 48 horas depois do Dia Nacional do Psicólogo (04.09), ao reflectir sobre a importância da sua “inscrição” pela Assembleia da República em 2018 para celebrar o papel das já quase 25.000 psicólogas e psicólogos que dia-a-dia, com a sua ciência e a sua prática, contribuem para o bem-estar de pessoas e organizações e para a coesão social no nosso país. Penso-o final e curiosamente a propósito da fase de candidaturas para o Prémio Ano Profissional Júnior 2020 que a 