Categories
COVID-19 Psicologia

RTV Eslovénia

Quando há 15 anos iniciei a minha actividade profissional enquanto psicólogo, fi-lo num contexto de enorme vulnerabilidade, trabalhando com crianças e famílias expostas a dificuldades (por vezes enormes), à pobreza (por vezes extrema) e à exclusão. Contexto em que, a cada momento, algo de inesperado e de significativo acontecia e onde a previsibilidade, tão importante ao bem-estar, não abundava. Com regularidade procurava junto dessa comunidade educativa (mães, pais e outras e outros cuidadores, professoras e professores e outras e outros profissionais) advogar a importância de promovermos relações estáveis e de construir segurança pela relação e pela promoção de confiança. Com mães, pais e cuidadoras e cuidadores procurando trabalhar a necessidade de usar da verdade com as filhas e os filhos e que é ela e não o que se pretende ouvir no seu lugar que, por mais difícil no curto prazo, garante a confiança no presente e para o futuro.

Penso-o a propósito da minha participação e contributo numa reportagem da RTV Slovenija, que aqui partilho. A Eslovénia é, neste momento, o sétimo pior país da UE no registo de população totalmente vacinada (ainda abaixo de 50%), comparando negativamente com a média da UE (63%) e com Portugal (próximo dos 85%). Estes números, as dificuldades sentidas para promover maior taxa de vacinação na sua população e os números em Portugal, justificaram a reportagem assente na pergunta: O que justifica que Portugal apresente estes números e lidere num indicador tão relevante?

Creio que a resposta se situa em 3 áreas abordadas na peça: a) a nossa não complacência, pelo esforço e trabalho colocado pelas organizações, autoridades e pelas pessoas no reforço, não apenas de comportamentos pró-saúde na pandemia, mas também pró-sociais que permite que as pessoas assumam que o seu processo de vacinação visa a sua protecção face à doença mas também na protecção de outras pessoas; b) a conveniência, num esforço de todas e todos, desde a TF da Vacinação às Autarquias passando por outras Autoridades, com contributos das ciências comportamentais, para tornar o processo de vacinação simples, próximo e acessível às pessoas; c) finalmente a confiança… Confiança no SNS, no Plano Nacional de Vacinação e nas e nos profissionais de saúde, tudo elementos essenciais para a aceitação e promoção da vacinação e no esclarecimento das dúvidas legitimas de parte da população mais insegura face ao processo. Confiança que se constrói (ou se destrói) dia-a-dia e que existia em muito pelo papel que o SNS e o Plano Nacional de Vacinação têm tido nas últimas décadas na melhoria dos indicadores de saúde, bem-estar e coesão social do nosso país.

Porque, como em qualquer crise, a resposta tem que ser construída pré-crise. Porque, ainda nesta crise, devemos prepararmo-nos para a(s) próxima(s). Reforçar a confiança em nós, nas outras e nos outros e nas instituições é uma das formas de o fazermos e uma responsabilidade de todas e todos.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *