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COVID-19 Psicologia

Da esperança…

“Hoje é um dia de esperança na batalha contra a COVID”, disse Fernando Araújo no início da semana, aquando da desmontagem do Hospital de campanha, instalado no Centro Hospitalar Universitário de São João desde praticamente o início da pandemia.

Este é um momento que tem uma componente simbólica muito forte e importante. Porque o CHSJ teve, tem e certamente terá um papel relevantíssimo na resposta à pandemia (e ao que ainda viveremos das suas consequências directas e indirectas) e é, não raras vezes, visto como um barítono da resposta do SNS; porque o CHSJ ousou liderar alguns processos de forma visionária, como é exemplo a resposta que o seu serviço de psicologia, em boa hora criado e superiormente dirigido pelo Eduardo Carqueja, teve ao longo deste período; porque, finalmente, este “desmontar” corresponde a um movimento de adaptação que as pessoas, os serviços e a sociedade foram capazes de fazer face a este enorme desafio, muito apoiado na imunização significativa da população, cumprindo-se um dos principais propósitos do esforço colectivo dos últimos longos meses.

A esse dia sucede-se o dia hoje (1.9). Para algumas pessoas dia de fim de férias e para muitas famílias dia em que crianças/jovens retomam algumas actividades (ainda não curriculares) e preparam o novo ano lectivo. Diria, portanto, que toda esta semana é, simbolicamente, uma semana de esperança na batalha contra a COVID-19 e uma semana de regressos. Regressos esses que, sendo muito importantes na necessidade de conciliação de medidas de segurança sanitária com medidas de promoção e protecção da saúde psicológica e do bem-estar das pessoas, nos devem manter “alerta” para a necessidade de apoiarmos aquelas e aqueles de nós que possam neles sentir mais dificuldades, sejam elas por circunstâncias do seu contexto, da sua experiência ou até por vulnerabilidades prévias. Além deste apoio, creio fundamental mantermo-nos também “alerta” para recomendações que ainda existem, nomeadamente no que toca à necessidade de continuarmos a protegermo-nos também protegendo as outras e os outros, dando significado ao esforço e aos resultados que se obtiveram.

Sobre isto conversei com o Rui Gustavo para a peça “Máscara até quando” publicada no Expresso (20.8) que partilho e que abre com uma passagem sobre o “hindsight bias”: “Há um ano era difícil imaginar um mundo em que toda a gente usasse máscara. Agora, é difícil imaginar o mesmo mundo com pessoas a conviverem umas com as outras sem máscara”. Nela reflicto sobre o facto da acessibilidade, experiência e da possibilidade hoje existente do uso de máscara conduzir a que, mesmo quando não obrigatória, o seu uso com múltiplos fins possa persistir, durante algum tempo, junto de algumas pessoas, em algumas situações.

Adpatamo-nos às restrições. Adaptar-nos-emos ao seu levantamento. Num e noutro processo, alguns e algumas de nós com dificuldades que devem, sempre, ser validadas e apoiadas a bem do bem-comum e da possibilidade de bem-estar de todas e todos.

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COVID-19 Psicologia

Teorias da conspiração: uma perspetiva da psicologia

“Sabia que era errado mas era a única acção que poderia salvar o Mundo.”

A 13 de Agosto, o Observadornoticiou em Portugal um caso com cerca de 48 horas em que um homem (Mattew Taylor Coleman) terá confessado ao FBI ter assassinado os seus dois filhos (2 anos e 10 meses) por acreditar nas teorias da conspiração “QAnon” e “Illuminati” e no facto da mãe dos filhos lhes ter “passado ADN de serpente”.  Nesse exacto dia William Brady, psicólogo que liderou uma equipa da Universidade de Yale no estudo, publicava com a sua equipa na revista Science Advances mais um trabalho que confirma não apenas que os incentivos nas redes sociais mudaram o “tom” da nossa discussão e debate político e que os seus algoritmos intensificam a indignação moral, por serem desenhados para provocarem mais reacções quando esta se manifesta e, logo, por estas publicações serem mais rápida e amplamente disseminadas.

“As teorias da conspiração não são uma novidade no nosso Mundo. Aliás, parecem sempre ter existido”. Assim começa o artigo “Teorias da conspiração: uma perspectiva da psicologia” que partilho e que escrevi com o Miguel Ricou, publicado no final da semana passada no Público que procura responder a três perguntas que consideramos essenciais: Porque devemos estar hoje preocupados com as teorias da conspiração se sempre existiram?; Porque é tão importante compreender as bases do problema?; Para que mudanças que consideramos urgentes na sociedade este fenómeno pode concorrer?

O artigo reflecte sobre potenciais respostas a estas importantes perguntas em torno de um fenómeno que é hoje uma séria ameaça à saúde pública global e procura sustentar o porquê de enquanto sociedade termos “a responsabilidade de valorizar a diversidade e de sermos mais inclusivas e inclusivos e promotores de pontes entre as pessoas, diminuindo a sua marginalização e vulnerabilidade às teorias da conspiração e a outros fenómenos que impactam significativamente a sua possibilidade de bem-estar.”

Este artigo retoma uma “série” escrita pelo Miguel Ricou e por mim sobre questões que nos confrontam e desafiam na sociedade actual – “PandÉtica” (Expresso; 06.04.2020); “PanDemocracia” (Público; 16.04.2020); “PanResposta” (Observador, 23.04.2020); “PanMemória” (Observador; 11.05.2020); “PanLegitimidade” (Visão, 23.05.2020); “PanPopulismo” (Público, 30.06.2020) ; “PanConspirações” (Visão, 05.08.2020); “PanInformação” (Observador; 05.09.2020). Podem, caso vos interesse, encontrá-los na secção artigos deste meu Linkedin.

Ps. Convido-vos ainda, caso também seja do vosso interesse, a ver uma conversa entre mim e a psicóloga Gabriela Moita para um episódio da série “Impaciência do Coração” sobre informação e desinformação que passa na RTP2 próxima quarta-feira (25.08.2021) um pouco antes das 23h.

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Ao redor... (Revista Sábado) Psicologia

Eu julgo, tu julgas, ela/s e ele/s julga/m, nós julgamos

“São as pessoas a projectarem os seus medos. Querem a garantia de que sabem quem são as pessoas más e não são elas”.

Palavras de Amanda Knox, jovem Americana 2 vezes condenada e outras 2 vezes ilibada, a última das quais definitivamente, da participação no violento homicídio da sua companheira de casa em Perugia (Itália) em 2007. Muitas e muitos, volvidos 14 anos e depois de uma mediática investigação e de diversos tribunais, a julgam culpada (no mínimo corresponsável) deste crime, não porque existam provas ou sequer indícios nesse sentido, antes pela “inadaptação” do seu comportamento (assim sucessivamente descrito e caracterizado) na fase de investigação que se sucedeu ao crime e pela forma como reagiu a toda a pressão (psicológica) associada à situação e a que foi submetida.

“Eu julgo, tu julgas, ela/s e ele/s julga/m, nós julgamos”, 13º artigo da rubrica “Ao redor…” (Revista Sábado) procura pensar e reflectir sobre o porquê de todas e todos, assumindo conhecer a ou o outro ou outros e as diversas situações, tendermos a julgar. Isto quando existem na sociedade instrumentos (democráticos), normativos sociais e até autorregulatórios que o previnem, quando já todas e todos experimentados dúvida (ou até arrependimento) sobre um julgamento que fizemos, quando nos é tão difícil, como a investigação comprova, detectar mentiras e quando nos é tão desafiante julgar.

No entanto, o julgamento cumpre invariavelmente um papel. Preenche vazios, permite a expiação, a distribuição de culpas, a identificação e a formação de grupos. Também por isso diminui a confiança nos e nas outras e nas instituições da sociedade, polariza, entrincheira. “Devíamos, assim, ser humildes e abertos quando contactamos com desconhecidos e desconhecidas”, escrevo, quando “ao invés, muitas vezes somos certos da “verdade” sobre eles e elas e disponíveis para investir, apenas, na confirmação dessa “verdade”. Certos e preparados para conscientemente não interromper o impulso e… julgar.”

“Unjudge someone” (Não-julgues alguém) é o lema da Biblioteca Humana, projecto criado em 2000 visando a criação de espaços permanentes de conversação sobre a diversidade, baseados não em julgamentos impulsivos (automáticos) mas racionais (ponderados) após contacto com alguém que sabe, conhece ou vive a situação em apreço, permitindo a discussão de assuntos desafiantes e o colocar “à prova” os nossos estereótipos. Devemos promover estes contactos e diálogo na diversidade com relação, segurança e com confiança nas e nos outros, como forma de construirmos uma sociedade não baseada numa atitude permanente de julgamento, de trincheira e de estereótipos e preconceitos. Podemos fazê-lo investindo na promoção da saúde psicológica, da empatia, da abertura, da aceitação, da resolução não violenta de conflitos, da mediação e da negociação, afirmando a honestidade e a confiança por defeito como princípios humanos e valores humanistas também porque “o erro de não condenar (nas múltiplas aceções da palavra) quem o mereceria tem um valor (democrático e de direitos humanos) claramente distinto do de condenar quem não o mereceria.”

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Desafios da Psicologia Emergência Climática Psicologia

Dia da sobrecarga – 2021

A semana termina com a humanidade a já ter consumido a totalidade de recursos disponíveis no planeta para todo o ano. “Se tivéssemos necessidade de ser alertados da emergência climática e ecológica com que estamos confrontados, o dia da sobrecarga da terra encarrega-se disso” disse Susan Aitken, presidente da Câmara Municipal de Glasgow que regerá a COP26. Dia que, após chegar 3 semanas mais tarde em 2020, volta à sua preocupante e perigosa trajectória (29.12 1970; 04.11 1980; 11.10 1990; 23.9 2000; 7.8 2010; 29.07 2021). Em 2021 precisávamos de 1,7 planetas Terra para satisfazer as necessidades da população mundial, afirmou a ONG responsável pelo indicador que resulta do (des)equilíbrio entre a pegada ecológica da actividade humana e a “biocapacidade” do planeta.

Uma semana antes a TSF promoveu um Fórum (“O que devemos fazer perante as alteações climáticas? Agir é preciso.”) que, sucedâneo às graves inundações no Centro da Europa, nos confronta com o nosso papel na emergência climática. Já por aqui escrevi sobre isso no momento da organização com a APA de uma Summit que, sobre este tema, reuniu em Portugal organizações representativas de mais de 1 milhão de psicólogas e psicólogos de todo o Mundo.

Na minha participação no Fórum sublinhei a importância da literacia e saliência deste tema e da reflexão sobre os “incentivos” e “obstáculos” que se colocam à mudança, para que sobre uns e outros possamos agir, reduzindo os atritos para promover e facilitar as difíceis e exigentes mudanças – “tem que ser fácil reciclar, comprar produtos locais, movimentarmo-nos de bicicleta, utilizar menos plástico” e para isso devemos utilizar “incentivos, mobilizadores e normas sociais e até o papel que as crianças e jovens podem ter na mudança de comportamentos”.

Abordei também a forma como a saúde psicológica e identidade (social) condicionam a mudança e o impacto da crise climática na própria saúde psicológica, quer no que se refere às pessoas e comunidades que se confrontam com perdas, lutos e trauma resultantes de situações de catástrofe, quer da própria “eco-ansiedade”. Refiro, ainda, a necessidade e urgência de se trabalhar com as comunidades mais expostas a estes fenómenos, formas de organização e resposta a situações de crise e catástrofe, promovendo a resiliência individual e social.

Sabendo-se que “a informação pessoal, mais imediata, concreta e local é mais eficaz que as estatísticas globais (as cheias da Alemanha também são as do nosso Tejo; os incêndios dos EUA os nossos incêndios rurais)” devemos utilizá-la, promovendo um consumo mais consciente de recursos e o reforço da empatia com as comunidades que mais sofrem com esta grave crise, sempre tendo presente que devemos procurar mudanças com as pessoas e não contra as pessoas, pelo bem-estar e não contra o bem-estar. Mudanças para que precisemos apenas de 1 planeta, de 1 planeta com futuro.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Psicologia

O desafio da natalidade e o cogumelo português.

O “Super Mário Bros” chegou às consolas da Nintendo e ao imaginário da minha geração e das seguintes em 1985, 120 anos após a data da 1ª publicação de Alice no País das Maravilhas. O jogo partilharia com a história uma particularidade: num e noutro a protagonista e o protagonista crescem com cogumelos, quando chocam com eles (jogo) ou comem um dos seus lados (livro). Portugal também tem um cogumelo nas vividas palavras de Ana Fernandes, presidente da Ass. Portuguesa de Demografia, quando descreve as mudanças que espera na estrutura populacional com os dados do Censo 2021: “uma aproximação da pirâmide etária àquilo a que chamo a imagem do cogumelo da bomba atómica (…) em que a parte central e a base da pirâmide se encolhem acentuadamente e o topo aumenta”. Um cogumelo que, contrariamente aos do jogo e do livro, não nos faz crescer. Pelo contrário.

“O desafio da natalidade e o cogumelo português”, 11º artigo da rubrica “Ao redor…” (Revista Sábado) reflecte sobre as causas para a rápida transformação da pirâmide etária da população residente em Portugal, das francamente positivas (por ex., aumento da esperança média de vida) às negativas (efeito da crise socioeconómica da última década) passando por uma particularmente desafiante: a natalidade.

“No próximo ano passarão 40 anos consecutivos em que a fecundidade não permite a substituição de gerações em Portugal e 13 com saldo natural negativo”. O momento que vivemos, além de resultar em nova crise socioeconómica, pela sua imprevisibilidade, incerteza e insegurança associada, é propício a uma maior fixação no tempo presente e a um adiamento de decisões, impactando a natalidade.

“A Estratégia Portugal 2030, resultante do PRR, destaca a sustentabilidade demográfica, propondo-se “mitigar a perda populacional actual projectada para 2030, perseguindo a recuperação dos indicadores de natalidade e reforçando os saldos migratórios”. No artigo descrevo como fundamental que os fundos permitam não apenas “medidas públicas” (assim apelido) mas também medidas que apelido de “saúde psicológica e bem-estar”. Creches mas também literacia e competências parentais. Cidades “amigas das famílias” mas também apoio à fecundidade, procriação medicamente assistida e prevenção/intervenção na depressão pós-parto. Equilíbrio entre vida pessoal e profissional mas também promoção da igualdade de género e da integração e inclusão da população migrante.

Apoios cíclicos porque, em simultâneo, impactam na demografia na (in)sustentabilidade dos sistemas de saúde ou segurança social mas também na saúde psicológica e bem-estar das pessoas que aspiram a ser pai ou mãe não tendo oportunidade de se cumprirem e de encontrarem nesse papel um propósito e significado de vida, algo que por si pesa na (in)sustentabilidade dos sistemas.

Investir neste desafio, também pela ciência psicológica, é “libertar” o país via sua sustentabilidade, conforme objectivo do Super Mário. É viabilizar o cumprimento dos sonhos, conforme Alice procura.

 

 

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COVID-19 Psicologia Tomada de Decisão

A vacinação nas e nos jovens.

“Nós, os de então, já não somos os mesmos.” Verso do poema 20 do livro “20 poemas de amor e uma canção desesperada” escrito aos 20 anos por Pablo Neruda. No dia do seu nascimento (1904) evoco-o trazendo a memória da forma como olhava a irrequietude transformadora (em certa medida utópica) da juventude, o seu potencial e a sua complexidade.

“Nós, os de então, já não somos os mesmos”, não precisamos do mesmo, da mesma forma, no mesmo momento. Entendê-lo, aceitando-o, é fundamental para compreendermos a forma como nos comportamos, relacionamos e tomamos decisões em diferentes momentos. É fundamental para compreendermos que o que necessitamos (também na promoção da adesão a determinados comportamentos) se altera ao longo da nossa vida.

Sobre isto tenho procurado reflectir. Escrevi um artigo/ensaio intitulado “Pessoas que não cumprem medidas ou medidas (e comunicação) que não cumprem as pessoas?” e contribuo, sempre que possível, em diversos fóruns, junto de decisores, de colegas e profissionais de outras áreas, e da sociedade civil, também através da comunicação social.

No Sábado foi publicada a peça da @Mariana Caeiro da agência LUSA (aqui) sobre a vacinação na população mais jovem. Nela reforço que, sendo a hesitação da vacinação um desafio complexo (1 das 10 ameaças globais à saúde segundo a OMS já pré-pandemia), Portugal é um dos países com melhores indicadores a este nível, tendo um Plano Nacional de Vacinação de referência e com impacto significativo na saúde e bem-estar da população. Conforme o é o Plano de Vacinação contra a COVID-19, também com resultados relevantes e forte impacto na população.

Em todo o caso, noto que o plano é, na sua comunicação e logística, “desaproximado dos mais jovens”, por ter sido essencialmente desenhado para faixas etárias mais prioritárias, sugerindo que procuremos: 1) prevenir a sua complacência, lembrando benefícios para todas e todos do processo mas também os impactos no presente – por ex. os “custos” de um isolamento profilático no Verão e do que isso implica para esta faixa etária em termos de sofrimento psicológico; 2) promover a conveniência, aproximando a comunicação (clara,  personalizada e pensada também para redes sociais) e a logística dos espaços, saindo com segurança dos pavilhões e utilizando espaços associados ao seu bem-estar (de encontro, lazer e iniciativas), usando da experiência de sucesso das campanhas nas áreas das doenças sexualmente transmissíveis ou consumos; 3) promover a confiança no processo sendo essencial “não só que toda a gente seja vacinada, mas que toda a gente queira ser vacinada, confiando que isso é o melhor”.

Tudo, confiando (mais uma vez), nas autoridades e nos e nas jovens. “Empatizando ao invés de [embarcando] num discurso negativo”, em nada gerador de confiança (ainda outra vez), adesão às recomendações ou coesão.

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Democracia Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

A impaciência do coração…

Na sua autobiografia (“O mundo de ontem”), Stefan Zweig escreve, com uma simplicidade desconcertante face à complexidade da sua reflexão (e percurso), que os dias mais importantes da vida têm um brilho maior que os dias comuns. Assim sabemos ser. A 16 de Junho vivi um desses dias, daqueles que sabemos que, aconteça o que acontecer, será sempre dos mais importantes da minha vida e que nele conteve os dois polos: provavelmente o melhor e mais intenso que a vida nos pode trazer; mas também uma perda com significado e tudo quanto ela implica.

Os 2 acontecimentos que assim fazem o meu 16.06.2021, numa feliz coincidência, coexistiram e coexistirão na minha memória com a estreia do programa da RTP2 Impaciência do coração”, que contou com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Programa que começou a ser imaginado e construído há alguns anos (algo que reforça a feliz coincidência) e que tive oportunidade de acompanhar desde a ideia até vê-lo na televisão. Um programa onde uma sempre excelente Gabriela Moita conversa com psicólogas e psicólogos sobre comportamentos “sociais, afectivos e quotidianos” e que “pretende refletir e partilhar o saber disponível sobre diversas dimensões do comportamento e a sua relação com áreas de intervenção, como a saúde, a educação, o trabalho, entre outras”, conforme a sua apresentação. Um programa semanal que tratou em conversas com o David Dias Neto, Miguel Ricou e o Luís Fernandes a mudança, a relação corpo-mente e a justiça e o “desvio” nos primeiros episódios e que hoje trará a conversa com Constanca Paúl sobre envelhecimento (https://www.rtp.pt/play/p8960/impaciencia-do-coracao). Um programa que continuará com outros temas e que terá um episódio-conversa onde participei sobre informação e desinformação e seus impactos nas pessoas e na sociedade.

Beware of pity (“Cuidado com a pena que sentes”), publicado em Portugal como “Coração impaciente”, é um livro escrito por Zweig num ano que não esqueceria – 1939. Ano em que vivenciou os tais dois polos: casou com a sua esposa Charlotte com quem viveu e, literalmente, morreu anos mais tarde; ano em que viu eclodir a II Guerra Mundial, acontecimento importante no seu crescente desânimo e sofrimento pelo crescimento e expansão da intolerância e autoritarismo no Mundo, conforme escreveu já próximo do final da sua vida. Um ano com impacto numa vida que impactou a sociedade e a confrontou na sua reflexão. Estimo e espero que o “A impaciência do coração” seja um outro contributo, necessariamente distinto, para nos pensarmos, pensarmos o comportamento humano e reflectirmos sobre a nossa sociedade e os desafios que se lhe e nos colocam.

Ps. Um abraço ao Duarte Zoio, pessoa particularmente envolvida neste projecto e que acabou por ver a sua estreia já num novo projecto profissional. Que o programa também sirva o propósito de o fazer sentir o quanto contribuiu ao longo de anos para um melhor conhecimento e reconhecimento da Psicologia e das psicólogas e dos psicólogos na sociedade.

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Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Eu sinto.me – Programa online

As últimas décadas – e também as próximas, podemos imaginar – foram fortemente impactadas pelo desenvolvimento e generalização da world wide web (www), um sistema de documentos, em diversos formatos, interligados e executados na internet. Este sistema assemelha-se muito a um outro que nos influencia de forma ainda mais determinante há milhões de anos – o wood world web, rede subterrânea florestal onde árvores de diferentes espécies, interconectadas através de fungos e de bactérias, partilham recursos pelas suas raízes. O wood world web influencia-nos ao ponto de ser “raiz” da existência da sociedade como a que hoje conhecemos que, com os seus desafios societais complexos e iniquidades, se organiza também em torno da interconexão das pessoas e da partilha de recursos entre elas. Uma sociedade onde nos “contagiamos”, não apenas dos hoje tão falados vírus, mas também de comportamentos, de pensamentos ou cognições, de sentimentos ou emoções. Uma sociedade de relação.

Assim o é também com a saúde psicológica e com o bem-estar. Na Ordem dos Psicólogos Portugueses temos investido significativamente na promoção da literacia, saúde psicológica e do bem-estar, desenvolvendo e disseminando gratuitamente centenas de recursos baseados na ciência psicológica e e em diferentes formatos, partilhando-os com entidades a quem nos associamos e disponibilizando, desde o Dia Mundial da Saúde de 2021, o portal “eu sinto.me” (https://eusinto.me) que os reúne e disponibiliza de forma simples e acessível.

Na procura de complementar o portal e chegar, de forma mais próxima e com mais impacto a mais pessoas, lançamos recentemente o programa online “eu sinto.me” que em episódios mensais em vídeo, com psicólogas e psicólogos, outros profissionais e cidadãos ou cidadãs aborda temas específicos da saúde psicológica e bem-estar. Os 3 primeiros episódios – autocuidado e bem-estar (https://www.youtube.com/watch?v=XXzwipNKD1U&list=PL1EhLnDjTQMRBgbgn0y_smV1jrv_HRG4z&index=1), ansiedade (https://www.youtube.com/watch?v=GVMSWOkoVu0&list=PL1EhLnDjTQMRBgbgn0y_smV1jrv_HRG4z&index=2) e sono (a disponibilizar este mês) – formam nas temáticas um triângulo fulcral ao bem-estar e saúde psicológica situando-se no autocuidado, hábitos de vida e problemas e dificuldades comuns de saúde psicológica.

Partilho-o para que nos “contagiemos” na saúde psicológica e bem-estar, também assinalando a memória de alguém que perdemos esta semana (mas que muitas e muitos não esqueceremos) – António Coimbra de Matos. Alguém que, além de “inscrever” na sociedade como trazia inscrito na sua pessoa, a Galafura, aldeia onde nasceu, inscreveu na sociedade, por em si inscrito, o papel do humanismo, das relações e dos afectos na saúde mental, sendo uma figura incontornável na promoção da literacia e do conhecimento neste âmbito, em momentos em que o estigma associado à doença mental era ainda mais significativo e a sociedade mais fechada. Obrigado pelo que me deu. Obrigado pelo que nos deu e pelo que nos deixou.

 

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Psicologia

O valor da amizade…

17%. Menos de 1 em cada 5 portuguesas e portugueses respondem que se pode confiar à pergunta: “De uma forma geral, acha que se pode confiar na maioria das pessoas ou, pelo contrário, acha que todo o cuidado é pouco?”. Metade da percentagem relativa a Espanha e apenas entre um terço e um quarto da dos países normalmente apelidados de nórdicos, de acordo com o Estudo dos Valores Europeus 2017-2020 recentemente divulgado e cujo relatório sublinha que este dado revela “a convicção [das portuguesas e dos portugueses] de que o capital cívico da sociedade [portuguesa] é baixo” e se apresenta como um “obstáculo à cooperação”.

“O valor da amizade”, 10º artigo da rubrica “Ao redor…” (REVISTA SÁBADO) procura reflectir, neste tempo incerto que vivemos, sobre a confiança interpessoal e sobre o diálogo “nós – outras ou outros” enquanto poderosa e distintiva ferramenta e traço do ser humano, também pela sua dimensão simbólica. Viaja ao passado para lembrar a vantagem evolutiva que representou. Lembra no presente o seu papel “importantíssimo na possibilidade de bem-estar, no desenvolvimento de competências e da resiliência e na capacidade de nos adaptarmos à adversidade e aos acontecimentos de vida”. E pensa como no futuro será muito complexo para a inteligência artificial, mesmo aproximando-se da “cópia” das redes neuronais e do cérebro humano, “traduzir artificialmente o que resulta da interacção e comunicação (da linguagem e do simbólico) entre duas ou mais pessoas e essa apaixonante triangulação humana entre emoção, cognição e comportamento”.

O artigo procura pensar as relações e, particularmente, a amizade também em dois exemplos de forte actualidade – equilíbrio entre vida pessoal e profissional (contextos de trabalho como contextos por excelência de socialização na idade adulta) e polarização / tribalismo (criação de espaços de comunicação e confiança que como “campos electromagnéticos” potenciem órbitas, limitem o afastamento e previnam a polarização) – e defender a importância de “intencionalizarmos e ritualizarmos as relações e a amizade” para “pela relação e pela confiança das amigas e amigos, reforçarmos o diálogo entre nós e as outras e os outros, promovendo a empatia e exponenciando a nossa possibilidade de bem-estar e as redes de cooperação nas comunidades e na sociedade”.

Ps1. Um profundo e muito grato obrigado às minhas amigas e aos meus amigos;

Ps2. Porque chegamos a um número redondo de artigos na rúbrica “Ao redor…” convido-vos a ler ou reler os 9 anteriores na sua versão completa meu Lkd (secção artigos) ou aqui.

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Política Psicologia

Erasmo…

Há dias brincava com o meu filho e… “Rebenta a bolha”, disse-me. Há anos que não escutava esta expressão tão do meu (julgo que do de muitas e muitos) imaginário e que percorreu jogos e brincadeiras na minha infância. Utilizada em forma de “assim não”, interrompia jogos e brincadeiras quando uma regra não era cumprida ou algum facto inesperado acontecia no seu decorrer.

Hoje penso (julgo que muitas e muitos pensamos) noutras bolhas. As conjunturais, relacionadas com a pandemia que vivemos de turmas, de conjuntos de trabalhadoras e trabalhadores ou até de adeptos. As já mais estruturais que, muito potenciadas pelas redes sociais, novas tecnologias e seus algoritmos, nos agregam por crenças, gostos e opiniões e nos polarizam crescentemente. Polarizam, afastando-nos de outras e outros por terem outras crenças, gostos ou opiniões, gerando uma sociedade progressivamente menos assente na confiança, com menor oportunidade de relacionamento e partilha e até, de certa forma, tribalizada.

Também há dias foi apresentado o novo programa Erasmus +. Programa da União Europeia com 3 décadas que movimentou pela Europa já mais de 10 milhões de pessoas – um Portugal de Erasmus. Usa do nome do Teólogo, Filósofo e, essencialmente, Humanista Erasmo que nascido em Roterdão viajou por muitos países da Europa nos séculos XV e XVI, incluindo Portugal, onde este novo programa foi apresentado. Também há anos fui um dos 10 milhões de pessoas que do Erasmus beneficiou, podendo compreender o “poder” de contactar e de me relacionar com outras e outros com crenças, gostos, opiniões e experiências distintas. Podendo experimentar-me noutro contexto e beneficiar da riqueza da diversidade.

Muitas vezes, por muito me interessar, perguntam-me como pode a ciência psicológica informar e contribuir mais para políticas públicas? A investigação em Psicologia tem amplamente demonstrado o poder do que atrás refiro no respeito pela diferença, pelas liberdades e garantias de todas e todos. No tempo que vivemos, o programa Erasmus, como diversos estudos de impacto demonstram, é das políticas da União Europeia com maior impacto na construção de uma identidade Europeia e na promoção dos principais desígnios da União (“a dignidade humana, a igualdade e respeito pelos direitos humanos”), tão postos em causa nos últimos tempos. No tempo que vivemos, o programa Erasmus merece ser saudado e “utilizado” por quem tem essa oportunidade, também para que no futuro outras e outros possam vir a ter essa oportunidade e para que aspiremos a um país, a uma Europa e a um Mundo com menos bolhas.