Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Psicologia

Eu julgo, tu julgas, ela/s e ele/s julga/m, nós julgamos

“São as pessoas a projectarem os seus medos. Querem a garantia de que sabem quem são as pessoas más e não são elas”.

Palavras de Amanda Knox, jovem Americana 2 vezes condenada e outras 2 vezes ilibada, a última das quais definitivamente, da participação no violento homicídio da sua companheira de casa em Perugia (Itália) em 2007. Muitas e muitos, volvidos 14 anos e depois de uma mediática investigação e de diversos tribunais, a julgam culpada (no mínimo corresponsável) deste crime, não porque existam provas ou sequer indícios nesse sentido, antes pela “inadaptação” do seu comportamento (assim sucessivamente descrito e caracterizado) na fase de investigação que se sucedeu ao crime e pela forma como reagiu a toda a pressão (psicológica) associada à situação e a que foi submetida.

“Eu julgo, tu julgas, ela/s e ele/s julga/m, nós julgamos”, 13º artigo da rubrica “Ao redor…” (Revista Sábado) procura pensar e reflectir sobre o porquê de todas e todos, assumindo conhecer a ou o outro ou outros e as diversas situações, tendermos a julgar. Isto quando existem na sociedade instrumentos (democráticos), normativos sociais e até autorregulatórios que o previnem, quando já todas e todos experimentados dúvida (ou até arrependimento) sobre um julgamento que fizemos, quando nos é tão difícil, como a investigação comprova, detectar mentiras e quando nos é tão desafiante julgar.

No entanto, o julgamento cumpre invariavelmente um papel. Preenche vazios, permite a expiação, a distribuição de culpas, a identificação e a formação de grupos. Também por isso diminui a confiança nos e nas outras e nas instituições da sociedade, polariza, entrincheira. “Devíamos, assim, ser humildes e abertos quando contactamos com desconhecidos e desconhecidas”, escrevo, quando “ao invés, muitas vezes somos certos da “verdade” sobre eles e elas e disponíveis para investir, apenas, na confirmação dessa “verdade”. Certos e preparados para conscientemente não interromper o impulso e… julgar.”

“Unjudge someone” (Não-julgues alguém) é o lema da Biblioteca Humana, projecto criado em 2000 visando a criação de espaços permanentes de conversação sobre a diversidade, baseados não em julgamentos impulsivos (automáticos) mas racionais (ponderados) após contacto com alguém que sabe, conhece ou vive a situação em apreço, permitindo a discussão de assuntos desafiantes e o colocar “à prova” os nossos estereótipos. Devemos promover estes contactos e diálogo na diversidade com relação, segurança e com confiança nas e nos outros, como forma de construirmos uma sociedade não baseada numa atitude permanente de julgamento, de trincheira e de estereótipos e preconceitos. Podemos fazê-lo investindo na promoção da saúde psicológica, da empatia, da abertura, da aceitação, da resolução não violenta de conflitos, da mediação e da negociação, afirmando a honestidade e a confiança por defeito como princípios humanos e valores humanistas também porque “o erro de não condenar (nas múltiplas aceções da palavra) quem o mereceria tem um valor (democrático e de direitos humanos) claramente distinto do de condenar quem não o mereceria.”

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *