
Em 20 anos desembarcaram cerca de 400.000 migrantes em Lampedusa, ilha Italiana com 20 km quadrados e menos de 7000 habitantes. Assim começa o documentário “Fogo no Mar” de Gianfranco Rosi (2016), assinalando as muitas pessoas que em condições de enorme vulnerabilidade, chegam à ilha depois da travessia do Mediterrâneo (estreito da Sicília). A essas somam-se as cerca de 15.000 que se estima terem nele perdido a vida, mais de 2 pessoas em média a cada dia daqueles 20 anos.
O documentário, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2016, continua com uma imagem de uma cozinha e de uma mulher que poderia ser cada uma de nós ou nossa familiar. Prepara um refogado com os tomates de que conhecemos a cor, o sabor e o cheiro. Ouve uma rádio local de que conhecemos os programas e os sons. A diferença nem está na segunda notícia do noticiário daquele Domingo (o anúncio de cortes na eletricidade na ilha), apenas na língua e na notícia que o abre: mais um barco naufragado com 250 pessoas, mais 204 pessoas “salvas” mas mais 34 corpos recuperados, entre os quais mulheres e crianças, e 12 ainda por recuperar. “Pobres almas”, diz para si a mulher, sozinha na cozinha.
Em Agosto de 2019 todas e todos olhamos as águas de Lampedusa quando nesse Agosto acompanhamos as sucessivas recusas de Matteo Salvini, então Ministro do Interior Italiano, aos pedidos de acostagem do navio “Open Arms” com 147 migrantes resgatadas e resgatados do mar a bordo. Pensamos certamente nas pessoas a bordo e na complexidade da situação. Ouvimos Salvini defender a sua posição voltando à “alma” (“Não me pagam para ser uma boa alma…”) e focando sempre a associação a questões securitárias (“…mas para defender a segurança (…) confirmo, tenho a obsessão pela segurança dos cidadãos”).
Ao contrário da relação que Salvini pretende estabelecer, se há algo que une as diferentes pessoas que arriscam a travessia do Mediterrâneo procurando chegar à Europa, não é certamente o potencial para o crime e para colocar em causa a segurança do continente, antes a escassez. A escassez económica, é certo. Mas, muito e muitas vezes, associada à escassez de liberdade de opinião/religião/orientação sexual. À escassez de paz, inclusão ou de qualquer outro direito universal. À escassez de poder ser-se pessoa, de ter as necessidades mais básicas preenchidas, de se viver com espaço e potencial para se cumprir e aspirar a qualidade e bem-estar.
É a escassez que as une, como é a escassez que une as pessoas que vivem em situação de pobreza e não qualquer marcador genético ou traço de personalidade consoante há décadas era comummente considerado. Numa célebre entrevista no final de 1978, Margaret Thatcher defendeu a “inexistência de pobreza primária no Reino Unido (e nos países ocidentais)” assegurando que os problemas que restavam a este nível resultavam da incapacidade de “gastar o dinheiro”, “gerir orçamentos” e, principalmente, dos “realmente complexos defeitos de personalidade” das pessoas nesta situação. Esta posição reflecte a “individualização” de um problema social sistémico e complexo, além de acentuar que a pobreza resulta de falhas de competências das pessoas, nomeadamente da falta de auto-controlo e de capacidade de planeamento e tomada de decisão. Mais de 40 anos passaram e, embora com matizes, esta é uma posição ainda frequente no debate político e público sobre as questões da pobreza o que redunda numa dupla penalização das pessoas que vivem esta situação – às suas impactantes consequências acresce que se estão em situação de pobreza será por sua responsabilidade, por sua culpa.
Uma posição cientificamente muito pouco sustentada. Particularmente nas últimas duas décadas a evidência científica disponível, muita proveniente da ciência psicológica, demonstra de forma cada vez mais sólida o contrário. Ou seja, ao invés da pobreza resultar de faltas de capacidade de uma determinada pessoa é a falta de capacidade que resulta da situação de pobreza. É a escassez associada à situação de pobreza que impele a pessoa a viver em exclusivo o momento presente, condicionando o bem-estar e qualidade de vida. É a escassez associada à situação de pobreza que, ocupando a “largura de banda cognitiva” disponível da pessoa (tal como quando demasiadas pessoas acedem à mesma banda larga de internet e a sua capacidade, fiabilidade e velocidade diminui), condiciona significativamente a sua capacidade cognitiva e o controlo executivo, impactando a tomada de decisão e de planeamento. Além destas constatações, a ciência tem ainda demonstrado a forte e cíclica associação entre pobreza e exclusão e a ausência de saúde psicológica, considerando que as situações de exclusão e pobreza são geradoras de ansiedade, stresse e depressão e que as pessoas com níveis mais elevados destes problemas e dificuldades de saúde psicológica estão mais vulneráveis e por isso mais expostas a situações de precariedade, pobreza e exclusão.
Exclusão também retratada no “Balada de um Batráquio” filme também vencedor do Urso de Ouro (mas das curtas-metragens) desse Festival de Berlim de 2016, realizado pela portuguesa Leonor Teles. Curta que começa com uma lenda sobre um “sapo que não foi convidado para a festa porque era feio” e que nos confronta com mal-entendidos e discriminação dissimulada, mas nem por isso menos ostensiva e normalizada, sobre a comunidade cigana a partir de uma superstição feita barro distribuído por montras e portas país fora – os desconcertantes sapos verdes que não mais pretendem que assinalar quem é e não é bem-vinda e bem-vindo. Onde na pobreza surgia a justificação do “traço de personalidade”, nesta exclusão é o “traço físico” e uma pertença comunitária que a define, desaproximando e, conforme a evidência científica tem demonstrado, reforçando o ciclo atrás exposto e polarizando grupos, gerando mais ciclos de exclusão, de dificuldades de convivência e da ausência de espaço para a criação das importantes penumbras sociais.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a escassez persiste e é, não raras vezes, complementada e exponenciada por fenómenos de exclusão sobre quem com ela sofre. No momento de imprevisibilidade global que ainda vivemos pela pandemia, com o aprofundamento das desigualdades dele resultante e com o crescimento do risco potencial global de pobreza, é fundamental responder ao mais básico do mais básico das necessidades dos seres humanos, promovendo-se nas instituições e sociedade civil a confiança nas pessoas e promovendo a sua capacidade, autonomização e inclusão, interrompendo os acantonamentos e os ciclos de reprodução da escassez, exclusão e dos problemas e dificuldades de saúde psicológica. Hoje, fixos no presente que estamos também pela incerteza, é tempo de se preparar o futuro. Um futuro com mais ciência, com maior compreensão, com mais empatia e convivência. Um futuro com mais oportunidade de bem-estar e de qualidade de vida para todas e todos. Um futuro com mais coesão social e equidade. Um futuro com menos pobreza, exclusão e escassez.
Tiago Pereira
in Sábado (Ao redor…); 27.07.2021
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/balada-da-escassez