
Declaro que as palavras que em seguida partilho resultam do meu pensamento e da minha leitura da investigação da ciência comportamental sobre um tema muito complexo, multifactorial e que impacta significativamente a sociedade, a honestidade. Pretendendo, com elas, suscitar reflexão sobre algumas das suas dimensões. Asssinado: Tiago Pereira.
“Qual é o primeiro passo para curar e recuperar [as pessoas, para recuperar o país]?”, perguntaram-me num programa de rádio onde recentemente participei. Num segundo, o mais emergente em mim: “o primeiro passo é retomarmos uma dimensão de confiança em nós e nos outros”. Após, continuei: “recuperarmos a confiança em nós e isso nos ligar aos outros é muito importante para o futuro até porque isto não é algo novo (…) há uma crise de confiança [nas instituições, nas outras e nos outros] que se instalou já pré-pandemia e que pode ser preocupante”. Todas e todos, mais presentes, já passados ou até perspectivados, teríamos diferentes, mas múltiplos exemplos do que pode contribuir para esta crise de confiança, sejam situações mais ou menos específicas ou exemplos (casos) mais ou menos mediáticos.
Quando se vivem crises colectivas ou mesmo globais, a confiança, sempre importante, torna-se essencial e decisiva. É ela que previne o deslaçar das relações em sociedade, a desfragmentação e o potencial “passa culpas” entre grupos populacionais, quer seja pela sua pertença comunitária, etária, partidária ou sócioeconómica. Por isso, construir confiança nas instituições e nas autoridades e suas recomendações é essencial e, para que tal suceda, a verdade e a honestidade devem sempre nortear a comunicação com a população.
Creio que todas e todos temos presente que o nosso comportamento e tomada de decisão não são 100% racionais bastando, para tal, que reflictamos sobre o que comemos no sofá em alguns dias das últimas semanas para, imagino, identificarmos comportamentos menos racionais. Quando reflectimos sobre exemplos de irracionalidade em nós e em quem nos rodeia tendemos também a identificar outro tipo de comportamentos – comportamentos desonestos. Importa, porém, que tenhamos presente que a desonestidade não resulta sempre de irracionalidade.
Na realidade muitas e muitos de nós já fomos em alguma situação desonestos e nem por isso deixamos de nos considerar “boas pessoas”. Algo também explicado pelo “fudge factor” (numa tradução possível, mas incompleta – factor de correcção) descrito pela equipa do psicólogo Dan Ariely enquanto factor que permite beneficiarmos com a desonestidade enquanto simultaneamente nos consideramos pessoas honestas e que explica porque algumas e alguns de nós consideramos “aceitável” ver um filme ou um jogo utilizando um stream ilegal, viajar a 130km/hora numa autoestrada ou dizer que um prato estava delicioso quando nem bom estava. Dito de outra forma, explica o hiato máximo (e comportamento) possível através desse efeito de correcção para nos sentirmos bem connosco e beneficiarmos de algo não legal (ilegal) ou não honesto (desonesto). Esse hiato varia de pessoa para pessoa (“um stream ilegal nunca, quando muito um artigo científico”) e, na pessoa, de momento para momento (“130 normalmente… se atrasada 140 km/hora”) e de tema para tema (“a uma peça de roupa sugerida numa loja digo que não gosto quando não gosto mas num restaurante não consigo”). Esta variância e as racionalizações (razões que encontramos) que justificam os nossos comportamentos desonestos, fazem da desonestidade algo não meramente irracional. Antes um fenómeno subjectivo, multifactorial, complexo e com significativo impacto na confiança nas pessoas, na sociedade e na integridade das instituições.
Ao depender da realidade, experiência e motivações, ou seja, da subjectividade de cada pessoa, a honestidade expõe-se particularmente ao tal “fudge factor” e, compreendê-lo, oferece-nos pistas necessárias para prevenirmos a desonestidade, desde a pequena à grande que deslaça sociedades. Diferentes estudos têm invariavelmente apontado para um significativo número de pessoas (por vezes superior a 70%) que podem ter comportamentos desonestos considerando-os legítimos através do factor de correcção. Em todo o caso, grande parte destas pessoas têm comportamentos desonestos de pequena dimensão e é pequena a percentagem de pessoas que têm comportamentos desonestos de grande dimensão. Nos estudos “Matrix” da equipa de Dan Ariely, onde mais de 28.000 pessoas (em 40.000) têm um comportamento desonesto (mentem no número de respostas correctas que dão, valendo cada uma 1 dólar), apenas 20 pessoas demonstram “grande desonestidade” e 28.000 “pequena desonestidade”. O primeiro grupo “custa em desonestidade” 400 dólares (20 em média por pessoa). O segundo mais de 50.000 dólares (um pouco menos de 2 por pessoa). Este dado deve fazer-nos reflectir sobre a quase totalidade de energia e atenção que colocamos no primeiro grupo, deixando pouco espaço para se investir em favorecer, também do ponto de vista comportamental, o comportamento honesto, motivando-o e reforçando-o.
Mais isto é importante quando sabemos que a norma social é um dos principais impulsionadores do “fudge factor”. Se e quando existe a percepção de que “todas/os o fazem” e a atenção mediática é colocada no comportamento desonesto, salientando-o, mais que desincentivá-lo muitas vezes isso legitima-o. Tal como quando ao comportamento desonesto é associada a ideia de que este “não prejudica ninguém” ou é “justo pelo seu fim”, sendo essencial que as consequências indirectas da desonestidade sejam sempre consideradas. Além da possibilidade de contágio a outras/os, a desonestidade pode potenciar mais desonestidade na própria pessoa, pelo impacto na sua identidade e pela sua adaptação, nomeadamente a que resulta das reações emocionais a este tipo de comportamento, diminuindo sucessiva e progressivamente os processos cerebrais que provocam sensações de desconforto aquando do comportamento desonesto. Finalmente, tem-se investigado o papel da ambiguidade, da desmaterialização e da dimensão ética e moral na desonestidade, sendo hoje muito claro que processos mais despersonalizados e/ou ambíguos e com menos clareza oferecem mais espaço para a legitimação da desonestidade e, pelo contrário, que quando se associam os processos a dimensões morais da própria pessoa se promove o comportamento honesto.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o investimento na promoção da honestidade é e será amplamente mais eficaz, menos custoso e, pela confiança que produzirá e pelo impacto positivo na economia, fará mais pela sociedade e sua coesão do que o investimento exclusivo na também importante penalização da desonestidade, particularmente em Portugal onde, segundo o Eurobarómetro de Dezembro de 2019, 94% da população considerava a corrupção generalizada. Isto faz-se intencionalizando a utilização do conhecimento e da ciência, promovendo, salientando e reforçando o comportamento honesto. Isto faz-se, como continuei na resposta ao programa de rádio, recuperando as pessoas porque “as pessoas estarem bem do ponto de vista da saúde psicológica as ajuda a estar mais abertas, empáticas e disponíveis para os outros e isso, por si, reforçará a confiança e os laços”, também pelo contágio emocional que resulta de quando cuidamos de nós, cuidarmos das outras e dos outros, e pelo contágio comportamental que resulta de ao sermos honestos promovermos a honestidade.
Tiago Pereira
in Sábado (Ao redor…); 21.04.2021