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COVID-19 Psicologia

Se eu não cuidar de mim…

Quem cuidará?

Parte de nós recordará o anúncio de 1993 de uma nova marca de lacticínios cujo slogan – “se eu não gostar de mim, quem gostará?” – procurava “explorar” a importância de fazermos “boas escolhas”, promovermos a autoconfiança e o cuidado de nós.

Este cuidar de nós – autocuidado – refere-se ao conjunto de actividades que, regularmente, escolhemos fazer e que nos ajudam a manter ou melhorar o bem-estar e saúde, incluindo a saúde psicológica. Sendo sempre importante, o autocuidado ganha especial relevância em momentos de maior vulnerabilidade e de crise, sejam eles de crise individual (quando nos confrontamos com acontecimentos de vida significativos que requerem processos adaptativos como uma situação de desemprego, um acidente ou doença ou a perda de alguém próximo) ou de crise colectiva e/ou de saúde pública, como a crise sócioeconómica que Portugal viveu na última década e a pandemia que nos últimos meses nos confronta e desafia e que nos conduziu a uma segunda crise socioeconómica em poucos anos.

Quando a 11 de Março de 2020 a Organização Mundial de Saúde declarou a doença COVID-19 como uma pandemia, apesar de ser um fenómeno novo, pautado por muitas incertezas e ainda pouco estudado, começamos a ter consciência através dos países primeiro atingidos da necessidade de transformações e adaptações significativas ao nosso estilo de vida, dos impactos na saúde (física, mas também psicológica) e das consequências sócioeconómicas do que viveríamos. Com o passar dos meses, e pese embora alguns sinais positivos (como uma vacina desenvolvida em tempo recorde), a incerteza subsiste e junta-se a uma enorme fadiga e cansaço das pessoas, o que contribui para níveis de sofrimento psicológico significativo na população e para o agravamento de dificuldades e problemas que vão desde sinais de ansiedade, agitação, irritabilidade ou tristeza até perturbações de ansiedade, depressão e stress pós-traumático. Algo que de inesperado talvez tenha apenas a dimensão, pois seria de esperar um aumento do número de pessoas com dificuldades e problemas – particularmente pessoas mais expostas aos impactos da pandemia (jovens, mulheres, profissionais de saúde ou dos Estabelecimentos Residenciais para Pessoas Idosas) ou em situação de maior vulnerabilidade (pessoas com vínculos de trabalho precários ou população migrante) – e um agravamento das perturbações já existentes.

Tendo em consideração este cenário, desde cedo procuramos na Ordem dos Psicólogos Portugueses advogar pelo aumento de recursos e pela redução de iniquidades e melhoria de acesso da população a serviços de Psicologia já claramente insuficiente pré-pandemia (via Unidades de Saúde, mas também da Educação, Serviços da Comunidade ou Locais de Trabalho). Mas procuramos também contribuir para o aumento da literacia em saúde e em saúde psicológica e para a promoção do autocuidado e da resiliência da população. Estes três aspectos podem ser complementares e são a base de uma resposta adaptativa a este(s) desafio(s) – porque assentam na promoção do conhecimento e do autoconhecimento na área da saúde psicológica, na melhoria da capacidade de identificação de sinais de alerta e no desenvolvimento de competências que nos permitam mobilizar os recursos necessários (pelo autocuidado) e/ou ajuda (quer seja junto de amigas/os ou familiares ou profissional).

Quem já olhou as normas de segurança de um avião pode ter estranhado que, em caso de necessidade de colocação das máscaras de oxigénio (despressurização), sejamos orientados para começarmos por colocar as máscaras em nós e não nas crianças não autónomas ao nosso cuidado. É contra-intuitivo mas racionalmente com sentido. Como António Damásio refere não somos “máquinas de pensar que sentem” mas “máquinas de sentir que pensam” e, por isso, precisamos de intencionalizar esse acto (começarmos por nós) para estarmos em condições de poder ajudar os outros, sob pena do automatismo ser centrarmo-nos inicialmente nas crianças com prejuízo para todas/os. Na pandemia, o mesmo se passa com os profissionais de saúde, treinados e preparados para o foco na necessidade da/o outra/o (e não em si) e que precisam de estar bem (também através do autocuidado) para poderem ajudar as/os outras/os. O mesmo se passa com cada um/a de nós, que em momentos de maior preocupação e até de sobrecarga, teremos que, talvez contra-intuitivamente, intencionalizar a criação de espaço e tempo para cuidarmos de nós e para fazermos escolhas e actividades saudáveis (na alimentação, hábitos de sono e actividade física, por exemplo) e prazerosas (em actividades que nos descontraiam e nos façam sentir bem, tranquilas/os e capazes), além de redobrarmos esforços para equilibrarmos as nossas diversas dimensões e papéis de vida (pessoal, familiar, profissional) e reforçarmos o contacto com outras/os.

Mas, se o autocuidado é importante para todas/os, atingimo-lo de formas e através de actividades, dinâmicas e tempos diferentes (por vezes até em nós em diferentes momentos da nossa vida) e, particularmente, ele não é e está igualmente acessível a todas/os. A adopção de um determinado comportamento depende da informação (por exemplo do conhecimento que temos sobre a importância do mesmo), mas também da motivação e da capacidade (das oportunidades que temos para o adoptar ou dos obstáculos que se colocam à sua adopção). Violentamente, a desigualdade atinge diversos aspectos da nossa vida e até determina que diferentes pessoas tenham informações desiguais sobre o que é o autocuidado e a importância de adoptar comportamentos de autocuidado. A motivação para o autocuidado também pode estar dependente de condições desiguais (da nossa casa, do tempo disponível, das relações nas quais nos podemos apoiar ou dos objectos materiais) que temos para que os comportamentos de autocuidado se tornem regulares e regularmente deles beneficiarmos.

É também por isso que o autocuidado, sendo importante, não pode ser a resposta, em exclusivo, para todas as dificuldades e problemas relacionados com o bem-estar e a saúde psicológica. Não o é porque é apenas uma componente (importante) de um conjunto de respostas e acções necessárias para manter e promover a saúde psicológica e o bem-estar. Além de não o ser, deixa muitas pessoas “para trás”, sendo nosso dever sublinhá-lo, prevenindo que à exigente situação de dificuldade e de sofrimento das pessoas possa acrescer uma injusta e potencialmente culpabilizante responsabilização (individual) pelas dificuldades e obstáculos que se lhe colocam na adopção de comportamentos e estratégicas de autocuidado.

Um pouco ao contrário do que o tal slogan preconiza, o direito a ser gostados ou cuidados não pode advir de um dever de gostarmos ou cuidarmos de nós. Aliás, gostarmos e cuidarmos (mais) de nós deve antes ser um direito e um direito que respeite as circunstâncias de cada pessoa. A marca do anúncio (Matinal) pode nisso ser um pronuncio – como a cada dia há um novo período “matinal”, tornemos actividades e estratégias de autocuidado rotinas de cada dia. Primeiro intencionalizando-as, agendando-as ou pedindo ajuda para as cumprirmos se necessário, para depois se automatizarem e naturalizarem na nossa vida, tornando-se parte e rotina. Se assim for não resolveremos todos os problemas e dificuldades, mas estaremos, a cada dia, um pouco menos vulneráveis e um pouco mais resilientes e sentir-nos-emos melhor e mais disponíveis para as/os outras/os, ajudando-as/os por essa via a estarem também um pouco melhor e mais disponíveis para nós.

Cuidar de nós é cuidarmos de todas/os porque se há algo que esta pandemia também nos demostrou é que existimos na e pela relação connosco, com as/os outras/os e com o que nos rodeia.

 

Tiago Pereira

in Revista Avenidas Novas (Março/Abril; 2021)

https://www.jf-avenidasnovas.pt/wp-content/uploads/Revista-Avenidas-Novas-Autocuidado.pdf

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Comportamento Psicologia

Honestidade e… Uma conversa/convite.

“Honestidade”, 5º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) resulta “do meu pensamento e leitura da investigação da ciência comportamental sobre um tema muito complexo, multifactorial e que impacta significativamente a sociedade, a honestidade.”

Pretende reflectir sobre algumas das suas dimensões, nomeadamente a sua relação com a confiança e a coesão e com a (ir)racionalidade e a forma como entre diferentes pessoas (ou na mesma pessoa diferentes temas/tempos) a desonestidade pode ser racionalizada.

Explora o “fudge factor” descrito pela equipa do psicólogo D. Ariely – com quem eu e o Francisco Miranda Rodrigues temos uma conversa/convite em aberto (adiado pela pandemia quem sabe para 2022) – como o que permite beneficiar com a desonestidade enquanto simultaneamente nos consideramos honestos e cuja compreensão dá-nos “pistas para prevenir a desonestidade, desde a pequena à grande que deslaça sociedades”.

Prevenção “mais eficaz e menos custosa” e que pode ser promovida se: intencionalizada “a utilização do conhecimento e da ciência, facilitando, salientando e reforçando o comportamento honesto”; com mais saúde psicológica e, logo, com pessoas mais abertas, empáticas e disponíveis para as/os outras/os.

Artigo aqui

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COVID-19 Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Era o que faltava… (Rádio Comercial; 15.04.2021)

Falar ajuda. Não resolve ou soluciona tudo. Mas ajuda, muito.

Conversar com alguém, particularmente quando mais preocupadas/os ou ansiosas/os, pode ajudar-nos a compreender melhor o que (e porque o) sentimos e ser bastante organizador.

Na 5ªF fi-lo a convite da Rádio Comercial com a Ana Delgado Martins e o Rui Maria Pêgo, dois excelentes conversadores, no “Era o que faltava”. Uma das muitas conversas que, “ao baralhar e voltar a dar”, cumprem esse propósito, permitindo a quem ouve rever-se (ou não) na/o convidada/o, descobrindo mais de si.

Conversa que versou o propósito; a produtividade e bem-estar; a vulnerabilidade e diversidade; o luto; a recuperação das pessoas e da confiança em nós, nas/os outras/os e nas instituições, também pela promoção da saúde psicológica; a adolescência e o idadismo; a adaptação, o retomar e a reparação; a literacia, auto-cuidado e a ajuda profissional; a “positividade tóxica” e culpa; a desinformação, polarização e conspiração; a pobreza e o que podemos fazer por um país com mais bem-estar, equidade e coesão social.

Convido-vos a ouvir aqui tal como convido a ver o vídeo “Falar Ajuda” da Ordem dos Psicólogos Portugueses aqui.

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Psicologia

13.4.21

O meu 13 de Abril pós-2013 (esse 13.4.13) é e será sempre especial. Pela imensa felicidade do dia e do dia que se lhe seguiu. Pelo sentimento de pertença que me trouxe.

8 anos volvidos, no e nos momentos que vivemos, é mais desafiante e recorda-nos onde estamos, o que somos e para onde caminhamos. Chega, curiosamente, um dia após a publicação do artigo “Se eu não cuidar de mim…” centrado na importância do autocuidado, sempre e particularmente quando nos confrontamos com momentos de maior vulnerabilidade e/ou crise.

Nele evoco A. Damásio quando lembra que somos “máquinas de sentir que pensam” e que, por isso, devemos intencionalizar o autocuidado. Afirmo que este “não é e está igualmente acessível a todas/os” sendo fulcral “que à exigente situação de dificuldade e de sofrimento das pessoas” não acresça a “injusta e potencialmente culpabilizante responsabilização (individual) pelos obstáculos que se lhe colocam na adopção de comportamentos e estratégicas de autocuidado”. Termino-o reforçando que “cuidar de nós é cuidarmos de todas/os” porque “existimos na e pela relação connosco, com as/os outras/os e com o que nos rodeia”.

Cuida de ti todos os dias. Ao fazê-lo, cuidas de mim. Sempre.

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Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Elas/es sentem-se, vós, nós, ela/e, tu, eu sinto-me…

Elas/es sentem-se, vós, nós, ela/e, tu, eu sinto-me… Quantas vezes no último ano conjugamos o verbo sentir?

Ano de diversas (por vezes violentas) transformações na vida das pessoas e da sociedade. Parte delas com sofrimento. Parte delas confrontando-nos com a importância de aspectos (por vezes pouco valorizados) como um abraço, a possibilidade de uma visita ou a segurança de um emprego… Com a impossibilidade de saúde sem saúde psicológica, literacia e bem-estar.

Ano em que, ao coordenar o gabinete de crise COVID-19, participei, no contributo cívico de promoção da literacia em saúde e em saúde psicológica da OPP. Investimento já pré-pandemia, amplamente reforçado agora com o contributo voluntário de centenas de psicólogas/os (que orgulho sinto nos inúmeros contactos que recebi a disponibilizarem-se) e que é agora projectado e ampliado com o https://eusinto.me.

Portal que “vi” em ideia, depois em papel, agora… Portal que reúne 500 recursos gratuitos, baseados na ciência psicológica, para pessoas (todas as idades), psicólogas/os e outros profissionais de saúde, decisores e media sobre saúde psicológica e bem-estar. Projecto que reúne trabalho de tantas/os, desenvolvido com empenho e compromisso da equipa OPP e que nos responsabiliza nesta área para futuro.

Obrigado a todas/os.

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Ao redor... (Revista Sábado) Política Psicologia

“Demasiado(s) polarizados, todos iguais” (Ao redor, Sábado, 06.04.2021)

“Demasiado(s) polarizados, todos iguais”, 4º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) que trata o tempo que vivemos.

“Oh Luís, vê lá como é que fico. Assim fica melhor ou fica melhor assim?” J. Sócrates, então 1º ministro demissionário, preparava-se para comunicar ao país o pedido de assistência financeira e, em directo (sem saber), tentava cuidar a melhor forma de o fazer. Hoje passam 10 anos deste momento em que vivíamos uma grave crise socioeconómica, era anunciado algo com significativo impacto nos anos subsequentes e seria esta inesperada situação e o vídeo que proporcionou, a “trend” da noite nas redes sociais.

No artigo reflicto sobre como a forma de acesso, criação e partilha de informação e comunicação se transformou, como isso explica, em parte, a polarização da sociedade e como a podemos prevenir e mitigar.

Como “o “choque” dos triângulos populismo-crise sócioeconómica-crise migratória / internet-redes sociais-Cambridge Analytica ajuda a explicar como chegamos ao fim de 2016 com Trump presidente dos EUA e com o UK, pós-referendo Brexit, a debater como sair da UE (…) a compreender como viajamos do “todos diferentes, todos iguais” a um “demasiado(s) polarizados, todos iguais”, e como poderemos regressarmos ao original, belo e significativo “todos diferentes, todos iguais”.

Aqui…

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Ao redor... (Revista Sábado) Política Psicologia Tomada de Decisão

É uma casa! (para as ciências comportamentais) (Ao redor; Sábado; 23.03.2021)

Passava das 23 horas da quarta-feira dia 10 de Outubro de 2018 quando, junto a uma das casas do projecto “É uma casa”, se acordou a reunião da segunda-feira seguinte em que se concretizaria e operacionalizaria uma proposta apresentada pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) ao Secretário de Estado Adjunto e da Saúde (SEAS) para a criação de um programa nacional que, a partir dos contributos das ciências comportamentais, pudesse estudar, monitorizar e testar propostas para a melhoria das políticas públicas de saúde em Portugal.

O SEAS associou-se nesse dia à OPP numa visita à “Crescer” para assinalar o dia Mundial da Saúde Mental e a relevância e custo-efectividade de políticas públicas de promoção da intervenção comunitária de proximidade junto da população com maiores vulnerabilidades neste âmbito. Nesse final de tarde e noite, conhecemos 3 projectos da Associação com o director executivo (Américo Nave) e diferentes técnicas/os da sua empenhada equipa, parte das/os quais psicólogas/os: “É uma rua” que acompanha em proximidade pessoas que consomem substâncias lícitas e ilícitas e que se encontram em situações de extrema vulnerabilidade; “Marhaba” que promove a inclusão social e comunitária de população refugiada através da gastronomia; “É uma casa”, projecto de housing first que promove a inclusão de pessoas em situação sem abrigo, contribuindo para a erradicação das situações crónicas de sem abrigo.

“Só uma casa o permite”. Foi depois de visitarmos uma das então 34 casas deste projecto – onde havíamos ouvido que “ao início, não conseguia dormir deitado na cama do meu novo quarto” e a explicação “viva” que “quase 14 anos de rua são quase 14 anos de necessidade de vigilância constante e de impossibilidade de segurança” – que se acordou a reunião da segunda-feira seguinte. Acontece que – como também quase 14 anos antes quando a OPP esteve a dias de ser criada e tal só aconteceu 3 anos depois (2008) pela dissolução da Assembleia da República (2005) – na manhã desse domingo (14.10.2018) foi anunciada uma remodelação no Governo e a substituição do então Ministro da Saúde. Com a sua saída, saiu o SEAS e, também neste tema ficávamos a dias de algo que, curiosamente, também apenas 3 anos depois aconteceria pela insistentemente proposta e apenas recentemente constituída (Despacho 3027/2021) task force de ciências comportamentais aplicada ao contexto da pandemia de COVID-19. Conforme nos fora dito, “só uma casa o permite”.

É certo que daquele Outubro ao actual Março não distam apenas 850 dias. Naquele Outubro, mesmo quem tivesse visto o hoje mediático vídeo de 2015 de Bil Gates (“O próximo surto – Não estamos preparados”), não preveria que vivêssemos hoje há mais de um ano numa pandemia com impactos múltiplos e significativos (incluindo já mais de 2.700.000 mortes no Mundo e mais de 16.700 em Portugal) na qual o comportamento das pessoas assume um papel fundamental. Hoje é mais claro, para decisoras/es e não apenas, a importância de estudar e compreender quais os factores que influenciam a tomada de decisão e o comportamento das pessoas e quão relevante para apoiar a tomada de decisão e o desenho de políticas podem ser indicadores desta natureza, bem como testar as melhores abordagens que favoreçam, facilitem e removam obstáculos da população à adopção de comportamentos que vão muito além da hoje indispensável correcta utilização da máscara ou da toma da vacina de inoculação do vírus que provoca a COVID-19. O SEAS reconhecia-a já em 2018 e talvez isso ajude a compreender porque o Centro Hospitalar de São João, a cujo conselho de administração hoje preside, seja apontado como exemplo na resposta à pandemia em Portugal, tenha um Serviço (autónomo) de Psicologia – superiormente coordenado pelo Eduardo Carqueja e exemplo na resposta aos utentes e profissionais (incluindo os de saúde) nesta grave crise – ou desenvolva hoje um inovador projecto piloto que permite a existência em permanência de um/a psicóloga/o no Serviço de Urgência, tão importante na estabilização emocional e comunicação com utentes e cuidadoras/es nos episódios de urgência.

A visão da importância das ciências comportamentais era já então (2018) partilhada por um conjunto de actores da sociedade civil. A OPP tinha constituído um think tank com psicólogas/os e outros profissionais para reflectir sobre as possibilidades da sua utilização em diferentes contextos e desafios da sociedade portuguesa e organizou já em 2019, com a Fundação Calouste Gulbenkian e com a Secretaria de Estado da Modernização Administrativa, um workshop para dirigentes de diferentes áreas da administração pública sobre benefícios e formas de utilização deste conhecimento. Alguns exemplos em Portugal de uma realidade que crescia e percorria o Mundo, desde a equipa que trabalhou a partir de 2009 na administração Obama, às equipas da Comissão Europeia e Banco Mundial, passando pela Behavioral Insights (BI) Team, inicialmente ligada ao governo britânico, a cuja equipa pertence o António Silva que connosco dinamizou esse workshop e que havia conhecido em 2017 na Sede desta equipa em Londres. A BI Team era (é ainda) um dos principais exemplos da utilização deste conhecimento em colaborações com governos e administrações em áreas como a Educação, Emprego ou Saúde e países como a Austrália, Canadá ou UK mas também em projectos de prevenção da corrupção na Colômbia, Nigéria ou Tanzânia ou de promoção da credibilidade das eleições no Bangladesh, apenas para dar alguns exemplos concretos de milhares de intervenções desta equipa Mundo fora que em 10 anos estimam, pela promoção da eficácia nas políticas públicas, impactos de cerca de 6 mil milhões de libras (“6 unicórnios”). Intervenções normalmente simples, cientificamente sólidas, testadas antes de escaladas, que contribuíram no Reino Unido para a redução de consumos de energia, prevenção do insucesso escolar ou das faltas a consultas agendadas, três exemplos claros de áreas em que em Portugal poderíamos melhorar significativamente com pequenos e muito custo-efectivos investimentos a partir da experiência e conhecimento das ciências comportamentais.

Conhecimento que – quando utilizado no melhor interesse e, portanto, quando promotor da autodeterminação das pessoas e comunidades (for good) e não sob a forma de “engenharia social”, conforme por vezes se pretende utilizar – é uma poderosa e muito estudada ferramenta para melhorar o envolvimento dos cidadãos e a qualidade das políticas públicas. A criação em Portugal desta task force e a nomeação de uma equipa competente e motivada (que bem conheço e a quem desejo felicidades) para disponibilizar este conhecimento de forma planeada e organizada aos decisores é, a par do aumento da importância da literacia em saúde psicológica, do reforço das/os psicólogas/os nas Escolas e da criação do Serviço de Aconselhamento Psicológico na Linha SNS24, uma excelente notícia neste ano tão carregado de desafios e dificuldades. Uma boa notícia no presente e para futuro porque “é uma casa” para as ciências comportamentais. Uma casa, segura, sustentável, sem retrocesso… Porque, aqui e ali, no Mundo ao redor, existem hoje e no futuro desafios societais complexos onde o comportamento é essencial. Para lhes responderemos necessitaremos de decisoras/es mais informados pelas ciências comportamentais, particularmente a ciência psicológica, e de políticas (públicas) eficientes, eficazes e responsivas às pessoas, geradoras de confiança e promotoras da equidade, bem-estar e da coesão social.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 23.03.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/e-uma-casa-para-as-ciencias-comportamentais

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Ao redor... (Revista Sábado) Psicologia

É uma casa…

“É uma casa! (para as ciências comportamentais)”, 3º artigo da rubrica “Ao redor…” (Revista Sábado) onde, saudando a criação e equipa da task force de ciências comportamentais, penso a parte da sua história que me e à Ordem dos Psicólogos Portugueses envolve a partir de uma marcante visita à CRESCER (com o Americo Nave), incluindo a uma casa do “É uma casa!” no Dia da Saúde Mental em 2018.

Diante dessa casa, ao final dessa noite, acordamos com o então Secretário de Estado Adjunto e da Saúde uma reunião na 2ªF seguinte para operacionalização de um programa nacional que, pelo contributo das ciências comportamentais, pudesse estudar, monitorizar e testar propostas de melhoria das políticas públicas de saúde. Uma remodelação governamental nesse Domingo atrasou 3 anos esta criação, agora concretizada em contexto da pandemia.

Uma viagem desde o meu encontro com o Antonio Silva em 2017 na sede da The Behavioural Insights Team, projectando um futuro de “desafios societais complexos onde o comportamento é essencial [e em que] necessitaremos de decisoras/es mais informados pelas ciências comportamentais, particularmente a ciência psicológica, e de políticas (públicas) eficientes, eficazes e responsivas às pessoas, geradoras de confiança e promotoras de equidade, bem-estar e coesão social.”

Aqui…

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COVID-19 Psicologia

Opinião Pública

“Não podemos continuar a sugerir que a vacina nos protege apenas a nós próprios [quem toma]. A vacina é uma protecção para nós e para todas as outras pessoas. Todas/os temos um papel neste processo de vacinação e no de construção da confiança”.

A 19.3 na SIC-N com a Marta Atalaya e o Joao Julio Cerqueira, refectimos sobre o impacto da suspensão provisória da vacina da AstraZeneca na confiança.

A confiança é apenas 1 de 3 dimensões responsáveis pela hesitação na vacinação, uma das 10 maiores ameaças à saúde global apontadas pela OMS em 2019 (pré-COVID-19). Na frase que transcrevo referia-me à complacência, outra das 3 dimensões, a par da conveniência e, portanto, da necessidade de investirmos em “tornar o processo de vacinação mais próximo das pessoas, facilitando-o e retirando obstáculos à toma da vacina”.

Recordemos – celebremos e reforcemos – que Portugal é um dos países no Mundo com menor hesitação e com um plano de vacinação mais generalizado e com melhores resultados. Recordemos também que a informação disponível, por si só, não explica e prevê o comportamento.

Comuniquemos cada vez melhor com as pessoas, tendo presente que à fadiga da pandemia se associa “fadiga de incerteza e de imprevisibilidade”, conectando-nos, validando dúvidas e procurando responder aos anseios.

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Desafios da Psicologia Psicologia

Página 2… 1 ano de pandemia…

“Eu, como a Sandra imagina, gostava muito de lhe dizer que sim que se resolveria mas, na verdade, não se resolverá com todas as pessoas”. Assim inicio a resposta final à jornalista Sandra Sousa do Página 2 (RTP).

Nele reflectimos sobre a hesitação no processo de vacinação e na importância de prevenir a complacência (reforçando o papel da vacina não apenas na protecção da pessoa mas também nos outros) e de promover a conveniência e confiança no processo, atendendo a que a mesma informação impacta de forma diversa grupos populacionais distintos, devendo validar-se e melhorar a comunicação com pessoas que têm dúvidas (legitimas) no processo.

Reflectimos, também, sobre a confirmação de que a pandemia conduziu a que mais pessoas sintam sofrimento psicológico, particularmente as mais expostas às suas consequências, com maiores vulnerabilidades prévias ou determinantes sociais específicos (como as mulheres mais sobrecarregadas) e que quem já tinha problemas de saúde psicológica os viu agravados.

Falamos ainda da importância da comunicação validante, da previsibilidade e controlo… De recuperarmos as pessoas e do papel que a literacia em saúde psicológica, o serviço de aconselhamento psicológico (SNS24) e a recente task force das ciências comportamentais podem nisso desempenhar.

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