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O desafio da natalidade e o cogumelo português.

O “Super Mário Bros” chegou às consolas da Nintendo e ao imaginário da minha geração e das seguintes em 1985, 120 anos após a data da 1ª publicação de Alice no País das Maravilhas. O jogo partilharia com a história uma particularidade: num e noutro a protagonista e o protagonista crescem com cogumelos, quando chocam com eles (jogo) ou comem um dos seus lados (livro). Portugal também tem um cogumelo nas vividas palavras de Ana Fernandes, presidente da Ass. Portuguesa de Demografia, quando descreve as mudanças que espera na estrutura populacional com os dados do Censo 2021: “uma aproximação da pirâmide etária àquilo a que chamo a imagem do cogumelo da bomba atómica (…) em que a parte central e a base da pirâmide se encolhem acentuadamente e o topo aumenta”. Um cogumelo que, contrariamente aos do jogo e do livro, não nos faz crescer. Pelo contrário.

“O desafio da natalidade e o cogumelo português”, 11º artigo da rubrica “Ao redor…” (Revista Sábado) reflecte sobre as causas para a rápida transformação da pirâmide etária da população residente em Portugal, das francamente positivas (por ex., aumento da esperança média de vida) às negativas (efeito da crise socioeconómica da última década) passando por uma particularmente desafiante: a natalidade.

“No próximo ano passarão 40 anos consecutivos em que a fecundidade não permite a substituição de gerações em Portugal e 13 com saldo natural negativo”. O momento que vivemos, além de resultar em nova crise socioeconómica, pela sua imprevisibilidade, incerteza e insegurança associada, é propício a uma maior fixação no tempo presente e a um adiamento de decisões, impactando a natalidade.

“A Estratégia Portugal 2030, resultante do PRR, destaca a sustentabilidade demográfica, propondo-se “mitigar a perda populacional actual projectada para 2030, perseguindo a recuperação dos indicadores de natalidade e reforçando os saldos migratórios”. No artigo descrevo como fundamental que os fundos permitam não apenas “medidas públicas” (assim apelido) mas também medidas que apelido de “saúde psicológica e bem-estar”. Creches mas também literacia e competências parentais. Cidades “amigas das famílias” mas também apoio à fecundidade, procriação medicamente assistida e prevenção/intervenção na depressão pós-parto. Equilíbrio entre vida pessoal e profissional mas também promoção da igualdade de género e da integração e inclusão da população migrante.

Apoios cíclicos porque, em simultâneo, impactam na demografia na (in)sustentabilidade dos sistemas de saúde ou segurança social mas também na saúde psicológica e bem-estar das pessoas que aspiram a ser pai ou mãe não tendo oportunidade de se cumprirem e de encontrarem nesse papel um propósito e significado de vida, algo que por si pesa na (in)sustentabilidade dos sistemas.

Investir neste desafio, também pela ciência psicológica, é “libertar” o país via sua sustentabilidade, conforme objectivo do Super Mário. É viabilizar o cumprimento dos sonhos, conforme Alice procura.

 

 

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