
Este Dia Mundial da Saúde Mental de 2021 tem uma dimensão pessoal muito significativa para mim. Como tantas e tantos, resultado não apenas da pandemia, tenho pessoas que me são muito importantes a sofrerem e a viverem “aprisionadas” a um presente que não lhes permite vislumbrar caminhos para um futuro de bem-estar. Em simultâneo partilho os meus dias com os meus filhos, um dos quais cuja idade ainda contamos em semanas, que nos “puxam” para nos projectarmos no futuro.
A saúde mental é um tema complexo e urgente. Tema maior pelo seu impacto em todas as dimensões, papéis e tempos de vida das pessoas. Quando confrontados com temas complexos tendemos para respostas rápidas e securizantes, normalmente encaixadas em pólos. Polarizamos. Face a este tema tende-se, porém, a “errar” num pólo: se de um lado temos a doença mental do outro não temos a ausência de doença mental, antes a saúde mental.
Disse-o ontem num debate com os Bastonários Rui Leão Martinho e Luis Menezes Leitão e com a minha colega Ana Rita Goes a convite da Secção Regional do Sul e Regiões Autónomas da Ordem dos Farmacêuticos. Entre a saúde mental – capacidade das pessoas se cumprirem, aspirarem a bem-estar e terem as competências e as condições e recursos internos e externos para lidarem e se adaptarem às situações e acontecimentos de vida – e a doença mental há todo um espaço onde muitas pessoas “deambulam” consoante o momento.
Além do reforço, qualificação e humanização das respostas para quem sofre com a doença mental – finalmente previsto no Plano de Recuperação e Resiliência(PRR) – há espaço de intervenção e mudança que possibilitaria que não tivéssemos chegado ao contexto da pandemia com tantas pessoas com vulnerabilidades. Espaço de prevenção e promoção da saúde psicológica e de resiliência social que toca 5 dos aspectos que justificam porque ainda estamos na cauda da OCDE em termos de indicadores de doença mental: a promoção alargada de competências sócio-emocionais, também nas pessoas adultas e nas e nos adultos mais velhos com níveis de escolaridade mais baixos; a promoção de literacia em saúde (psicológica) visando mais agenciamento sobre si e a procura de suporte e apoio quando necessário; o combate a todas as formas de exclusão e de pobreza com forte e cíclica associação aos problemas de saúde psicológica; a mitigação das situações de isolamento e solidão e a qualificação e integração das respostas de promoção do envelhecimento com bem-estar; o acesso e a equidade no acesso, em todas as fases e contextos de vida, próximo e contingente aos problemas, dos cuidados de saúde (primários), às escolas, universidades, locais de trabalho e instituições diversas da sociedade.
Infelizmente, o PRR nesta área é apenas plano de recuperação porque, grosso modo, ignora esta resiliência. Ignora o que nos prepararia para futuras crises, nos “puxaria” para nos projectarmos no futuro e aspirarmos ao bem-estar. Ignora que o pólo oposta da doença mental não é a sua ausência mas a saúde mental.