Vivemos um momento do Mundo que nos recorda a cada dia, não necessariamente pelos melhores motivos, que a história se pode repetir. Ou, pelo menos, conforme a frase que se atribui a Mark Twain, que a história, não se repetindo, rima. Penso várias vezes nesta frase quando me confronto com os mesmos problemas base em algumas sociedades ou organizações que se manifestam, depois, de formas diversas. Não, de facto não se repetem, rimam porém.
Senão vejamos. Pensemos em dois nomes: George Floyd e Rodney King. Ambos cidadãos norte americanos, brutalmente espancados por polícias numa situação banal das suas vidas (após conduzirem uma viatura). Ambas situações filmadas, partilhadas publicamente e desencadeadoras de impressionantes e, por vezes, violentas manifestações. Manifestações como as do movimento “Black Lives Matter” que, como a tantas outras pessoas, estou certo, muito me impactaram. Ou como os “Distúrbios de Los Angeles de 1992”, parte do meu imaginário, também documental, pós-absolvição em tribunal dos polícias envolvidos na agressão a Rodney King e que conduziram a mudanças significativas, incluindo um novo julgamento que resultou na condenação de dois dos polícias envolvidos e a uma frase profundamente impactante do advogado de King: “Finalmente conseguimos filmar o Monstro do Lago Ness.”
O racismo, portanto, numa das suas expressões. Mas outros exemplos poderia partilhar, de misoginia ou desigualdade de género, homofobia, desrespeito pelas diversas expressões e orientações sexuais, fundamentalismo religioso ou idadismo. Trago, no entanto, outro “monstro”. Por vezes invisível, mas perturbador, impactante, bloqueador, que rima entre tempos e equipas e organizações. A insegurança psicológica.
Falamos em baixos salários, e ainda bem. Em precariedade, e ainda bem. Falamos em desmotivação das equipas, e ainda bem. Em dificuldades de conciliação da vida pessoal, familiar e profissional, e ainda bem. Falamos de cansaço, de burnout, e ainda bem. De modelos de trabalho, e ainda bem. Não falamos, geralmente, da segurança psicológica enquanto elemento fundamental ao bem-estar no contexto de uma equipa ou organização, ao desenvolvimento, ao potencial humano e à produtividade.
Falamos muito pouco de como os nossos contextos, particularmente os de trabalho, são organizados no sentido de estimularem verdadeiramente a inclusão de todas as pessoas quando estão nos seus melhores, mas também nos seus menos bons, momentos. Falamos muito pouco da criação de ambientes seguros para trabalhadores e trabalhadoras expressarem e vivenciarem as suas ideias e a sua identidade, quer seja social, cultural, religiosa ou outra. Como os contextos promovem ou não promovem a possibilidade da pessoa, numa equipa ou numa organização, correr riscos interpessoais, criticar construtivamente, ter abertamente opiniões e assumir posições não maioritárias sem que a percepção da consequência destes actos resulte no seu evitamento ou numa penalização que acometa sofrimento ou outras consequências negativas.
No fundo, de como a segurança psicológica é fundamental à boa comunicação, importantíssima em contextos de e com diversidade. À coesão, fulcral à flexibilidade, honestidade e confiança, tão relevantes, por exemplo, aos modelos de trabalho híbrido e personalizados a cada trabalhador/a. À possibilidade de expressão emocional, de diferentes emoções, de podermos estar sem estar sempre bem, estar com as nossas vulnerabilidades, sentindo-nos apoiados, suportados e não ameaçados e julgados. Como é fundamental ao trabalho em equipa, à aprendizagem e desenvolvimento profissional de trabalhadoras/es e equipas. À boa tomada de decisão, à exploração de cenários, soluções e ao pensamento crítico. À investigação. À criatividade.
Como, ao contrário, a ausência de segurança psicológica obstaculiza o envolvimento, a relação, o auto e heterocuidado. Como promove a desresponsabilização individual e colectiva e a desconfiança.
A segurança psicológica, muitas vezes mais do que aquilo de que quotidianamente falamos e ouvimos ser discutido, é base e suporte de tudo isto e de todas e todos. É base de desenvolvimento, de prosperidade e de produtividade de equipas e organizações, porque empodera as pessoas, potenciando-as. Porque cria verdadeiros caminhos para mais e maior propósito sentimento de pertença e significado. Para maior possibilidade de bem-estar e saúde, incluindo mental, a partir do local de trabalho.
É por ser um elemento central hoje numa organização que julgo relevante sublinhar que a formação e desenvolvimento de lideranças de equipas e organizações deve atender à priorização, intencionalização e a competências, valores e comportamentos chave para a promoção da segurança psicológica. Deve, portanto, apoiar a criação de climas organizacionais inclusivos e positivos, onde cada pessoa possa ser validada e considerada no seu contributo, também por via de estilos de liderança mais suportivos ou participados, onde as emoções e o exemplo sejam parte. Ou, noutro prisma, pela forma como as orientações e processos de trabalho são organizados, co-construidos e partilhados ou como o próprio espaço físico de trabalho permite lugares de interacção e relação securizantes e, logo, pensados e desenhados com essa intenção.
Devemos, neste sentido, caminhar no sentido de mais organizações falarem sobre este tema, se comprometerem com a criação de locais de trabalho promotores da segurança psicológica e, mais importante, serem consequentes com esse compromisso. Prevenindo dessa forma que tenhamos, na vida real das organizações, adaptações de histórias ficcionais clássicas que nos habituamos a ver e rever em período de Natal.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, entramos em Dezembro e com Dezembro chega um imaginário de filmes, músicas, casas e ruas decoradas. Chegam momentos de encontro e reencontro que, infelizmente não para todas as pessoas, trazem conforto, afecto, carinho. Trazem segurança, incluindo psicológica. Que esta época nos inspire a um maior compromisso com a promoção da segurança psicológica nos diversos contextos, equipas e organizações. Que nos inspire a rimar a época ao longo do ano, projectando o conforto, afecto e carinho. Possibilitando mais bem-estar, florescimento e maior potencial de cada pessoa se cumprir com o apoio e suporte de todos nós.
Tiago Pereira
Sozinho na Organização: Segurança Psicológica, bem-estar e potencial humano
in Sábado (Ao redor…); 05.12.2023
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/sozinho-na-organizacao-seguranca-psicologica-bem-estar-e-potencial-humano