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Dualidade(s)

Ontem nasceu em Portugal o primeiro bebé por inseminação pós-morte. O Hugo resulta de uma luta e activismo da sua mãe, Ângela, que nos e o inspirará, estou certo, vida fora. Desse activismo, e de um desejo partilhado com o seu marido que faleceu vítima de cancro aos 29 anos, e que deixou escrito que o desejava, mesmo quando a Lei ainda não o permitia.

Lei esta, agora com resultado concreto, cuja base, desafiante, não depende apenas das áreas da Medicina, Direito ou Ética. Envolve, também e necessariamente, a Psicologia e a consideração dos impactos psicológicos destes processos, naturalmente complexos, em todas as pessoas envolvidas. Isso mesmo referiu a Ordem dos Psicólogos Portugueses no contributo científico em fase de discussão da alteração à Lei (https://recursos.ordemdospsicologos.pt/files/artigos/parecer_sobre_projectos_de_lei_n___214_xiv__223_xiv__237_xiv_e_572_xiv.pdf) que o passou a possibilitar e que permitiu, entre outras alterações, que fosse nela incluído um ponto (Art. 22º; 7) que refere que “É assegurado, a quem o requerer, acompanhamento psicológico no quadro da tomada de decisão de realização de uma inseminação post mortem, bem como durante e após o respetivo procedimento.” Um contributo da ciência e da prática das psicólogas e psicólogos para, cremos, melhorar a Lei e reforçar a possibilidade de bem-estar de todas as pessoas envolvidas e a confiança da sociedade nestes processos.

Este nascimento acontece, curiosamente, quando estou a ler um pequeno livro cujo narrador é um bebé ainda no útero da sua mãe, no seu último trimestre de gravidez. A certa altura tem uma passagem impactante sobre a sua dúvida em se nascerá num “tempo bom” quando considera os desafios do tempo presente (de há menos de uma década) de um Reino Unido onde nascerá Vs. o tempo do bem-estar e de todos os indicadores que, retirando os desafios imensos que descreveu, tornariam sempre o melhor e, eventualmente, mais seguro momento para nascer e viver no contexto do UK.

Esta dualidade creio que nos acompanha também nestes exemplos. Esta possibilidade, oportunidade, mesmo num tempo desafiante. Esta, outras, outra.

Penso, por exemplo, o que pensaria G. Engel quando, após a publicação em 1977 de um artigo na Science propondo um “modelo biopsicossocial” que desafiasse “o modelo biomédico” que “não deixa espaço na sua conceptualização ao papel das dimensões sociais, psicológicas e comportamentais na doença”, veria passarem 23 anos até ao fim do século e milénio e mais 23 anos de novo século e milénio para as United Nations aprovarem, em 26 de Junho último, a primeira resolução sobre “saúde mental e suporte psicossocial” para o desenvolvimento sustentável e paz, assente na protecção direitos humanos.

46 anos passaram, é certo. Mas temos hoje aprovada por unanimidade (e bem sabemos o quão isso é relevante por difícil ao tratar direitos humanos no quadro dos países da ONU) uma resolução que o determina e nos convoca. A todas e todos, por todas e todos.

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APA 2023 | You belong here

“You belong here”. Este “pertences aqui” foi a impactante assinatura da Convenção da American Psychological Association de 2023. E o “pertences aqui” ganha particular relevância quando ali estamos, num país e numa associação com enormes complexidades, entre as e os que constroem e desenvolvem a nossa ciência (das/os jovens investigadoras/es às históricas referências) e que, dia-a-dia, um pouco por todo o Mundo, a advogam e praticam, por vezes em condições muito exigentes.

Pertences aqui. Pertencemos aqui. A uma ciência e profissão que tem a possibilidade mas, sobretudo, o dever de olhar o micro mas também o macro, de olhar o local, o nacional, o regional, o global. Uma ciência e profissão que deve integrar isso mais e mais nas suas práticas de investigação e intervenção, incorporando especificidades e, mesmo que muito mais difícil, aproximando a ciência das pessoas que pretende impactar na forma como a faz e a transfere para a sociedade civil, para decisoras/es e nas suas práticas, aumentando a sua eficácia e eficiência, o impacto e garantindo mais confiança das pessoas na ciência e nos profissionais.

Uma ciência e uma prática que deve prosseguir o multilateralismo. Uma ideia de construção conjunta a partir de uma base identitária de uma psicologia no quadro dos direitos humanos a contribuir para a possibilidade de autodeterminação de todas as pessoas. Algo para o qual procurei contribuir na sessão (e grupo de discussão) “Moving Forward a Global Perspective: Developing Effective Strategies” [Construindo uma Perspectiva Global: Desenvolver Estratégias Específicas], onde coordenei o grupo de trabalho em torno dos contributos da psicologia para a erradicação da pobreza, conjuntamente com a representação da USAID – Bureau for Humanitarian Assistanceque coordenou o grupo sobre a erradicação de terapias de reconversão sexual e oFernando de la Mora Salcedo das United Nations que coordenou o grupo dos contributos para a melhoria de acesso a serviços na área da saúde mental.

Uma ciência e uma prática que deve advogar pela saúde pública e pela protecção das pessoas. Num tempo de crescente obscurantismo e de desafios e questionamento à ciência, reforçar a sua ligação às pessoas, promover a confiança e a forma como “entrega” resultados positivos é fundamental. Também aqui, algo para o qual procurei contribuir na sessão “Is Psychotherapy a Separate Profession from Therapy Delivered by Psychologists?” [É a Psicoterapia uma profissão separada da Psicologia?] num quadro internacional, discussão a partir da realidade e dos contributos dos EUA discutidos pela Amanda Clinton, Ph.D., de Espanha pelo Manuel Berdullas (Consejo General de la Psicología de España) e de Portugal, por mim apresentados e reflectidos, com contributos fundamentais do David Dias Neto.

Isto, além dos diversos encontros/reuniões com associações congéneres e com boas e importantes, creio, perspectivas para o futuro, também para a psicologia em Portugal.

Pertences aqui. Pertencemos aqui.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia

O país precisa de mais saúde pública. A saúde pública precisa de mais psicologia. (Ao redor…; 26.07.2023)

Mas beneficiaria a saúde pública em Portugal de ter mais psicólogas/os nas suas equipas e de ter mais conhecimento e ciência psicológica no seu planeamento e na sua gestão e administração? Sim, estou certo de que sim. Tal qual estou certo de que a experiência da pandemia o demonstrou possível e os desafios do presente e futuro o exigem.

E beneficiaria, certamente, nos papéis mais tradicionalmente atribuídos a estes profissionais, na promoção da saúde mental, desde a promoção da literacia nesta área, à promoção do autocuidado e de respostas de prevenção e intervenção contingentes aos problemas, mas, também, na intervenção em situações de crise ou catástrofe.

Mas mais. Beneficiaria no contributo da psicologia, enquanto ciência comportamental, para o melhor desenho e maior efectividade das políticas públicas na área da saúde e no que aportaria aos processos de investigação e avaliação, por exemplo na percepção de risco, no risco comportamental ou custo-efectividade de intervenções. Beneficiaria no trabalho conjunto, multidisciplinar e de consultoria, junto de profissionais de saúde e na formação, activação, mobilização e possibilidade de promover educação psicológica deliberada relativa, por exemplo, à adesão a comportamentos pró-sociais e/ou manutenção de determinados comportamentos. No processo de transição digital, de integração de novas tecnologias e do trabalho com grandes números, fundamentais no domínio da saúde pública e que a psicologia pode apoiar, a par da capacitação dos consumidores de saúde e da melhoria dos processos de informação, comunicação e da eficácia de campanhas, por exemplo de prevenção do consumo de tabaco ou álcool.

Mas, considerando este papel e considerando a disponibilidade e motivação das psicólogas e dos psicólogos, parece justo perguntar porque são ainda tão escassos estes profissionais na área da saúde pública em Portugal? Tal qual parece justo responder que persistem barreiras históricas a esta maior integração que começam na compreensão do papel dos profissionais de psicologia e na sua incorporação na legislação que enquadra as equipas e a sua actividade. Obstáculos que se estendem a uma visão, embora em mutação, ainda pouco focada na promoção da saúde e prevenção da doença e que, ao invés, ainda tende a associar a saúde pública à doença, particularmente às doenças físicas, transmissíveis ou infecciosas, e a um modelo excessivamente, senão exclusivamente, biomédico, centrado, portanto, na/o médica/o, modelo para o qual são dirigidos os principais incentivos financeiros e recursos humanos.

Quebrar estas barreiras e ultrapassar estes obstáculos é algo fundamental para o país responder, também via saúde pública, ao desafio de acrescentar ao aumento da esperança média de vida da população, anos de vida com qualidade e cuidados de saúde mais humanizados e personalizados. Para tal é necessário que, paralelamente ao aumento de recursos humanos na saúde, decorrente das maiores necessidades presentes e futuras, se diversifique a gestão e constituição das equipas e as suas competências, melhorando as suas capacidades, a sua eficiência e uma visão mais biopsicossocial de pessoas e comunidades. É exactamente o preconizado pela Organização Mundial da Saúde que tem advogado, a partir do conceito “uma só saúde”, pelo reforço do papel das políticas ambientais e sociais na saúde (pública) e pelo aumento do investimento em abordagens multissectoriais e multidisciplinares de saúde pública. Nada mais importante. Nada mais essencial, também em Portugal.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, ao crescente reconhecimento da população e da sociedade civil do papel da psicologia e das psicólogas e psicólogos, deveria corresponder uma mais rápida e decisiva integração destes profissionais nas equipas de saúde pública, a par do reforço da própria saúde pública e das políticas de promoção da saúde e bem-estar no nosso país. Um e outro aspecto são fulcrais à promoção da sustentabilidade dos serviços públicos e a um país mais coeso e resiliente face às adversidades hoje existentes e que se prevêm para o futuro. Fulcrais, ainda, a mais solidariedade e ao caminho para transformações sociais essenciais ao reforço do acesso e da equidade de acesso à saúde e da possibilidade de bem-estar para todos.

 

Tiago Pereira

O país precisa de mais saúde pública. A saúde pública precisa de mais psicologia.

in Sábado (Ao redor…); 26.07.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-pais-precisa-de-mais-saude-publica-a-saude-publica-precisa-de-mais-psicologia

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

O país precisa de mais saúde pública. A saúde pública precisa de mais psicologia.

Penso ser inegável que a psicologia tem hoje mais “voz e participação na sociedade e que isso contribui para a diminuição do estigma, para o aumento da literacia e do conhecimento e para uma maior participação da ciência e das/os profissionais no debate público e em diferentes contextos, da educação à saúde, passando pela área social e comunitária, desporto e actividade física e, muito importante, das organizações. Em todas estas áreas, mas a ritmo diferente. Na saúde subsistem 2 áreas em que tarda a integração mais consistente da ciência e de mais psicólogas/os: os cuidados de saúde primários e a saúde pública.”

“O país precisa de mais saúde pública. A saúde pública precisa de mais psicologia”, 62º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) responde à questão: “Beneficiaria a saúde pública em Portugal de ter mais psicólogas/os nas suas equipas e de ter mais conhecimento e ciência psicológica no seu planeamento e na sua gestão e administração?”

“Sim, estou certo de que sim. Tal qual estou certo de que a experiência da pandemia o demonstrou possível e os desafios do presente e futuro o exigem”, respondo.

Faço-o afirmando que “a saúde pública tem e terá uma importância significativa, além da resposta a situações de crise, na melhoria dos indicadores de saúde do país (…) e na redução de desigualdades.”

Faço-o afirmando que os contributos das/os psicólogas/os e da psicologia, enquanto ciência comportamental, vão “além dos papéis mais tradicionalmente atribuídos na promoção da saúde mental (…) ou em situações de crise ou catástrofe”, podendo contribuir para o melhor desenho e efectividade das políticas, para melhores processos de investigação e avaliação, para o trabalho conjunto, multidisciplinar e de consultoria, formação, mobilização ou de educação psicológica deliberada, na transição digital, big data ou na capacitação de consumidores de saúde e melhoria de processos de comunicação.

Faço-o afirmando que “persistem barreiras históricas a esta maior integração que começam na compreensão do papel dos profissionais, na sua incorporação na legislação que enquadra as equipas e a sua actividade” e na (ainda) associação da “saúde pública à doença, particularmente às doenças físicas e a um modelo excessivamente, senão exclusivamente, biomédico, centrado, portanto, na/o médica/o, modelo para o qual são dirigidos os principais incentivos financeiros e recursos humanos.”

Mudar é fundamental sendo “necessário que, paralelamente ao aumento de recursos humanos, decorrente das maiores necessidades presentes e futuras, se diversifique a gestão e constituição das equipas e as suas competências, melhorando capacidades, eficiência e apontando a uma visão mais biopsicossocial de pessoas e comunidades como preconizado pela World Health Organization a partir do conceito “uma só saúde” e na advocacia pelo reforço do investimento em abordagens multissectoriais e multidisciplinares de saúde pública.”

“Nada mais essencial, também em Portugal.”

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

A falácia do apelo pelo natural, a desigualdade e a negação da ciência

“Eis-nos no Verão. Tempo propicio a pensarmos em nós, no nosso corpo e mente, na nossa saúde e bem-estar. Tempo propicio a associarmos o calor, por vezes extremo, a “bom tempo”. Os alimentos orgânicos ou biológicos a algo “mais saudável”. Tudo quanto é natural a algo “que faz bem”, é seguro e eficaz. Nada mais simples. Nada mais, sistematicamente, aprendido. Nada mais errado.”

“A falácia do apelo pelo natural, a desigualdade e a negação da ciência”, 61º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) trata a “falácia do apelo pelo natural” e dois riscos dela decorrentes:

  1. A potencial generalização da ideia de que os alimentos / produtos convencionais ou químicos são menos saudáveis ou prejudiciais, algo que poderá conduzir a que sejam menos consumidos / utilizados, penalizando particularmente as pessoas e famílias com maiores dificuldades económicas ou com menor acesso a estes produtos (por ex., também por viveram em zonas mais remotas);
  2. A associação entre o apelo pelo natural e a negação da ciência, muito expressa, por ex., na crescente desconfiança e recusa de terapêuticas químicas (antibióticos e medicação no geral, quimioterapia, …), de terapêuticas baseadas na evidência como a psicoterapia ou outras intervenções psicológicas ou na desconfiança e negação das vacinas, apesar de terem sido e serem algo absolutamente preponderante na melhoria global de bem-estar e qualidade de vida, no aumento da esperança média de vida e diminuição da mortalidade infantil ou na prevenção e erradicação de um conjunto de doenças nas últimas largas décadas.

“Estamos no terceiro ano, da terceira década do terceiro milénio e, num Mundo onde a ciência e conhecimento estão mais acessíveis que nunca, o espaço e o debate público é profundamente influenciado por teorias da conspiração, desinformação ou notícias falas e promessas acientíficas ou pseudocientíficas de resolução dos problemas, dos mais simples aos mais complexos. Como Steven Pinker refere, mesmo para problemas muito complexos e com muito sofrimento associado para pessoas, famílias e comunidades, “o problema é que as pessoas aceitem (e utilizem) as soluções encontradas para os problemas”, vencendo-se o obscurantismo, missão fundamental da sociedade hoje.”

Mais ainda, quando a “falácia do apelo pelo natural” gera um “significativo valor monetário e comercial, vivendo, portanto, dos desafios do presente e para o presente, mas impactando verdadeiramente o futuro de todas as pessoas, seja no fomento do discurso anticiência, seja no fomento da desconfiança, seja no fomento de discursos mais populistas, antipolítica e políticos.”

“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, passou a ser necessário “marchar” pelos factos, como assinalava recentemente um cartaz de um jovem numa manifestação por acções face à crise climática [“I can’t believe in marching for facts”]. Pelos factos, pela saúde pública e por acções contra a falácia do apelo pelo natural e contra a negação da ciência.”

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Pobreza e desigualdades (ECP2023)

Quando estou fora de Portugal, num país onde compreendo a língua, alargo a rotina de “olhar” as primeiras páginas dos principais jornais portugueses aos principais jornais do país onde estou. Assim o fiz na passada semana com os jornais do Reino Unido e, apesar do momento que vivemos, apesar dos problemas sociais e económicos que a Europa enfrenta e em semana de comemoração do 75º aniversário de um @NHS (SNS do UK) particularmente desafiado na sua sustentabilidade, não vi as palavras “pobreza” ou “desigualdades” nessas primeiras páginas, mesmo quando fundamentais nestas questões.

Continuamos a falar desproporcionalmente muito pouco de pobreza e de iniquidades face ao quanto são determinantes da saúde (incluindo saúde mental), da educação e do bem-estar. Fazêmo-lo porque enquanto sociedade, erradamente, tendemos a olhar estes problemas como problemas das pessoas que vivem em situação de pobreza ou em risco de pobreza e não como problemas de todas as pessoas, ao perigarem a coesão social e impactarem toda a sociedade. Fazêmo-lo enquanto sociedade e, também de certa forma, enquanto psicólogas/os, quando pensamos apenas estes problemas como parte do “problema”/”circunstância” de um/a cliente específica/o e não enquanto problemas macro, sempre e necessariamente presentes na sociedade.

Assim comecei a minha intervenção inicial no Main Stage Event “Poverty and inequalities and the impact of these on mental health” [Pobreza e iniquidades e seus impactos na saúde mental] do 18º Congresso Europeu de Psicologia, um interessante debate com Bridgette Ricketts, Philip Murphy e Germán Gutiérrez, presidente da IUPsyS, moderado pelo @Jon Sutton.

No dia seguinte, procurei aprofundar este tema no meu Keynote no congresso: “Multiple contributions of psychology to a “Full Stop to Poverty” – The role of psychological science, practice and professional associations” [“Múltiplos contributos para um “.Final à Pobreza” – O papel da ciência e da prática psicológica e das suas associações profissionais”]. Discuti-o na sua centralidade para a psicologia e nos contributos da ciência e da prática das/os psicólogas/os para a sua compreensão e erradicação, a par do papel particularmente importante das associações profissionais no estímulo a que isto possa acontecer.

A fechar, e a partir de uma questão da @Claudia Hammond que me acompanhou no Keynote, afirmei o quão poderá ser diferenciador ter 27.000 psicólogas/os em Portugal nos níveis mais micro (contextos de intervenção profissional) e cívicos (contextos de cidadania) a contribuírem para o aumento de literacia da população e sociedade sobre este tema, para a advocacia no mesmo e para (a necessidade de) intervenções baseadas na evidência e na transferência da ciência para as políticas locais, regionais e nacionais. Mais, o quão poderá ser transformador se aos 27.000 juntarmos, criando comunidade e mobilizando, centenas de milhares na Europa e no Mundo a contribuírem para um .Final à Pobreza.

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Uns óculos para pensarmos as profissões no futuro e a solidão e isolamento (Ao redor…; 17.06.2023)

Em 2007, quando a Apple lançou o primeiro iPhone, os 499 dólares que custava e os poucos serviços que disponibilizava deixaram as pessoas descrentes do seu potencial. Não há muito tempo, ouvi na primeira pessoa o CEO da Nokia à época explicar porque estavam certos de que a Apple cometera um erro e de que os clientes queriam telemóveis “pequenos, não grandes”, “baratos, não caros” e que para enviar/ler emails e ver/tirar fotografias “prefeririam outros dispositivos a um telemóvel”. Ouvi-o explicar e reflectir sobre o que aprendeu com esse “erro”, enquanto mostrava um gráfico com uma curva decrescente vertiginosa das vendas da Nokia após 2007.

Nós, enquanto seres humanos, somos no geral pouco eficazes a prever o futuro. Temos diversas características, desde logo emocionais e cognitivas, que assim o determinam. Em todo o caso, tendo a acompanhar o CEO da Apple quando, na recente apresentação do “Vision Pro”, referiu que, como os computadores pessoais e, mais tarde, os computadores portáteis, os computadores espaciais, conforme o definiu, representarão uma “nova era”. Permitem aceder ao “Mundo digital” sem ecrãs físicos e interagir com o computador sem dispositivos “extra-humanos” como teclados, ratos ou superfícies. Permitem, já hoje, pelo olhar, gestos e voz (talvez sem isso no futuro) realizar acções e interagir com o computador e as suas aplicações, imergindo totalmente o “Mundo digital” no real a partir apenas de uns óculos, logo sem barreiras físicas entre ambos, sobrepondo imagens do “Mundo digital” no que vemos do “Mundo real” diante de nós.

A diferença do dispositivo agora apresentado para outros óculos de realidade virtual e aumentada é, potencialmente, muito significativa e disruptiva, trazendo um conjunto de inovações, possibilitando a emergência de outras e acrescentando a novidade que permite que os olhos da pessoa não fiquem cobertos, permitindo interacções simultâneas com pessoas no “Mundo real” e pessoas no “Mundo digital”, visualizadas no mesmo espaço físico. A “The Economist” fez um trabalho sobre este novo computador, dizendo que, tal qual o iPhone evoluiu, o “Vision Pro” poderá não necessitar de muitos anos para deixar de ser “apenas” um dispositivo que permite ver fotografias em “dimensões reais”, realizar chamadas vídeo com “imagem à frente dos nossos olhos e não num dispositivo” ou ver filmes a “360º”. Para se transformar, como o IPhone se transformou, influenciando decisivamente o mercado de smartphones, e revolucionar a forma como se “projecta em Engenharia ou Arquitectura”, como se assistirá a espectáculos ou eventos desportivos ou como influenciará a Educação e a Saúde.

Recentemente visitei um conjunto de colegas psicólogas e psicólogos que trabalham em zonas insulares relativamente remotas do nosso país e, por essa via, com menor acesso ao contacto com profissionais das mesmas áreas de forma presencial, menor acesso a formação, supervisão e com maior sofrimento ético decorrente da impossibilidade deontológica de realizar determinadas intervenções pela relação prévia com a/o cliente, por intervenção com pessoas a ela/ele relacionadas/os ou por não ter formação ou experiência numa área específica. Acontece na psicologia, com algumas especificidades, como acontece num conjunto de outras áreas profissionais, desde logo da Saúde.

Creio, também por isso, ser fundamental que participemos com interesse nesta eventual “nova era”. Alguns dos problemas referidos podem beneficiar significativamente da tecnologia e dos dispositivos e aplicações que se desenvolverão a partir do “Vision Pro” e da democratização dos computadores espaciais. Se as reuniões, a formação e o treino e intervenção à distância, aprofundadas na pandemia, melhoraram consideravelmente o quadro antes existente, tudo tenderá a evoluir rapidamente para novas e potentes ferramentas e possibilidades que permitirão, através de experiências imersivas em tempo real cada vez mais simples e satisfatórias, o encontro de pessoas no “Mundo digital” a partir do seu “Mundo real”, potenciando a possibilidade de encontro, formação, treino e intervenção a partir de qualquer local, desde que exista acesso a uma internet segura e rápida e a um conjunto de dispositivos que o permitam e facilitem.

Mas uma “nova era” não se faz com um novo dispositivo apenas, mas com um conjunto de tecnologia que se pode a ele associar. O Fórum Económico Mundial disponibilizou recentemente um relatório que trata as “10 Tecnologias Emergentes de 2023” com maior impacto numa combinação de dimensões que inclui pessoas, planeta, prosperidade, indústria e equidade. Nestas, surge a inteligência artificial generativa e a sua utilização além da produção de textos, por exemplo em protocolos terapêuticos de saúde personalizados. Surgem as aplicações do metaverso à saúde mental e a forma como partilhar espaços virtuais e a exposição a ambientes digitais, se utilizados intencional e responsavelmente, podem promover a saúde mental e o bem-estar. Surge, ainda, a inteligência artificial e a aprendizagem automática ao serviço dos sistemas de saúde, melhorando a resposta em saúde pública pela integração de dados e o acesso de cidadãos a serviços de saúde pela melhor organização dos sistemas de saúde.

A conjugação do anterior pode representar uma verdadeira mudança na forma de formarmos (inicial e continuamente) profissionais de saúde, de treinarmos tarefas específicas, de realizarmos processos de articulação e intervisão interpares e, finalmente, de melhoria significativa da prestação de serviços (incluindo especializados), particularmente em contextos de difícil acesso e mais remotos. Na psicologia, juntar-se-á à evolução da utilização da realidade virtual e aumentada em intervenções psicológicas e psicoterapêuticas em diversas áreas (hoje já bastante testada e utilizada nas fobias), na complementaridade de intervenções (por exemplo, possibilitando experiências imersivas que potenciem a empatia e a experiência de situações específicas), na realização de avaliação psicológica ou na assistência por parte de tradutores/interpretes em processos de intervenção, apenas para dar alguns exemplos.

Pode, também, ter um positivo e verdadeiro impacto nos serviços públicos e, até, em fenómenos particularmente relevantes em Portugal como a solidão/isolamento, a perda de população e serviços no interior ou a emigração. Mas pode, também e noutro prisma, se não utilizados responsavelmente, representar um conjunto de riscos também na questão da solidão/isolamento, na estigmatização/marginalização, na desinformação, na cibercriminalidade e, no limite, nos fenómenos de Guerra e conflito entre países.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a Apple apenas “disparou o tiro de partida” com o “Vision Pro”, conforme termina o trabalho da “The Economist”. Corramos se queremos chegar à meta, sem ficar pelo caminho. Meta esta que deve, para o bem da Humanidade, atender às evidências da ciência psicológica e, na psicologia, a dimensões que o Fórum Económico Mundial destacou no relatório citado: por mais, mais próxima, personalizada e eficaz psicologia ao serviço das pessoas, do planeta, da prosperidade e da equidade.

 

Tiago Pereira

Uns óculos para pensarmos as profissões no futuro e a solidão e isolamento

in Sábado (Ao redor…); 27.06.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/uns-oculos-para-pensarmos-as-profissoes-no-futuro-e-a-solidao-e-isolamento

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European Congress of Psychology 2023

É. Vivemos uma “Era de Paradoxos”. Possivelmente o tempo histórico com mais recursos disponíveis, mas, ao mesmo tempo, desigualdades significativas, grandes (e graves) problemas de saúde mental na população e ameaças críticas à possibilidade de bem-estar de todas as pessoas.

Na próxima semana, com orgulho, mas, principalmente, com sentido de responsabilidade e missão serei um dos Keynote Speakers do 18th European Congress of Psychology (https://ecp2023.eu/scientific-programme/keynote-speakers/).

Responsabilidade e missão, pela temática fundamental da intervenção versar a pobreza e ser, desta forma, focada, destacada e reflectida no congresso a partir da comunicação que intitulei de “Multiple contributions of psychology to a “Full Stop to Poverty” – The role of psychological science, practice and professional associations” [“Múltiplos contributos para um “.Final à Pobreza” – O papel da ciência e da prática psicológica e das suas associações profissionais”] e que será moderada pela Claudia Hammond.

Responsabilidade e missão, também, porque permitirá apresentar um projecto que procura reunir um triângulo que creio virtuoso (ciência, prática, associação profissional), procurando um contributo mais assertivo e decisivo da psicologia, nas suas diversas áreas, públicos e contextos de intervenção, para o “combate à pobreza” e para a promoção da saúde, bem-estar e coesão social nesta “Era de Paradoxos”.

Responsabilidade e missão, ainda, porque reflicitirá uma visão para a profissão à escala nacional e global, enquanto ciência hub e prática transversal, capaz de positivamente influenciar outras ciências e práticas e, com elas, colaborar na prossecução da resposta a desafios societais de enorme complexidade, que necessitam de empenho e envolvimento conjunto do micro ao macro.

Responsabilidade e missão, finalmente, porque assentará numa visão do papel de uma associação pública profissional (Ordem dos Psicólogos Portugueses) activa e participativa, que procura estimular, suportar e afirmar o contributo das/os psicólogas/os para os que são os mais relevantes desafios do nosso país e Mundo, particularmente quando tão significativamente impactam a vida das pessoas. Quando condicionam (tão cruelmente), como a pobreza e a exclusão a ela associada o fazem, a dignidade, a saúde (incluindo a saúde mental), o bem-estar e a autodeterminação das pessoas, além da coesão social e prosperidade da sociedade e do Mundo.

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Junho, “bom tempo”…

Estamos a viver o Junho mais quente no Mundo desde que existem registos meteorológicos e o primeiro Junho em que ultrapassamos o importante 1,5º Celsius acima da temperatura média esperada.

Dados atrás de dados a confirmar as alterações climáticas decorrentes da crise climática que vivemos. Fenómenos atrás de fenómenos, novos ou “antigos” mais intensos e/ou frequentes, a confirmar o seu impacto na vida de comunidades e na saúde e bem-estar das pessoas.

O “bom tempo” – conforme o “narramos”, considerando que permite pelo aumento de temperatura, a quem dele gosta e pode usufruir, uma extensão do período típico de “Verão” para outros momentos do ano – tem múltiplas e perigosas consequências no presente e no futuro. Deixo dois grupos de exemplos, de duas entidades com trabalho e especial envolvimento nesta área:

a) O IPCC no seu sexto relatório de avaliação, publicado em Março deste ano, destaca os efeitos do aumento da temperatura e dos fenómenos de calor extremo no aumento da mortalidade e morbilidade (vejam-se os dados em Portugal), na maior propagação de doenças transmissíveis, na deslocação e migração força de comunidades e, entre um conjunto significativa de outros elementos, no aumento de problemas de saúde mental, incluindo questões de stresse e trauma face a eventos particularmente significativos;

b) O World Economic Forum publicou recentemente um trabalho sobre consequências menos óbvias que as anteriores, mas relevantes das alterações climáticas, que incluem o aumento até ao triplo dos incidentes aéreos relacionados com forte e inesperada turbulência; a perda significativa do peso médio de animais como as cabras e redução da diversidade de sexos de animais como os lagartos ou as tartarugas, com consequências no ecossistema; o aumento das erupções vulcânicas; mais tempestades e relâmpagos e a diminuição brusca de um grão que muito aprecio, o café.

Mais ou menos óbvias, as consequências são impactantes já no presente e sê-lo-ão, muito, no futuro. Este é um desafio, portanto, que a todas e todos convoca e convocará… Desafio enorme, e cujo envolvimento, nas diversas formas, pode, por si, ser promotor de bem-estar e de dimensões psicológicas como a confiança e a auto-estima.

Desafio enorme, mas possível e possível num quadro de melhoria do bem-estar global.

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Se uma parte relevante de nós se julga capaz de aterrar um avião comercial numa emergência apenas com o apoio da torre de controlo… (Ao redor…; 13.06.2023)

…porque haveria de considerar-se incapaz de realizar actos próprios de diferentes profissões e de escolher pessoas habilitadas, preparadas e competentes para junto de si realizarem determinados actos, sejam de índole jurídica, contabilística ou psicológica?

A “YouGov” é um grupo que se propõe recolher e disponibilizar dados que estimulem a reflectirmos como o “Mundo pensa”. Num seu recente estudo, uma em cada três das mais de 20.000 pessoas dos EUA que nele participaram referem sentirem-se “algo ou muito confiantes” em que conseguiriam aterrar um avião comercial, apenas com indicações da torre de controlo. Quase um em cada dois se considerarmos apenas os homens. Estes dados, numa tarefa de enormíssima complexidade e cuja probabilidade de sucesso é, de acordo com as/os especialistas, virtualmente 0, correspondem a um excelente exemplo de como o “Mundo pensa” e do excesso de confiança que pessoas, sem determinada competência e experiência para a realização de uma tarefa ou de um acto, têm sobre a sua capacidade de realizarem com sucesso essa tarefa ou acto. Trata-se do efeito descrito como “Dunning-Kruger”, fenómeno que, com maior ou menor consciência de cada um de nós, a todos impacta.

Felizmente, na grande maioria das situações, o seu impacto resume-se a discussões enviesadas, a impossibilidades como a grandíssima maioria das pessoas se considerar um/a condutor/a acima da média (algo estatisticamente impossível) ou a erros sem consequências graves. Porém, se pensarmos no pilotar de um avião comercial ou em possíveis exemplos das três áreas profissionais acima referidas, as consequências podem ser muito graves e impactar decisiva e significativamente os direitos, a segurança, a saúde ou até a vida de pessoas. Podem impactar o interesse público e o bem-comum.

Não se tratando de situações decididas por mais sorte ou azar, falamos de competência, incompetência e da capacidade de reconhecimento das mesmas por cada pessoa, em cada momento, face a cada situação. Falamos do quão potencialmente graves podem ser os seus efeitos quando patentes em pessoas “com poder”, formal ou não, sobre outras pessoas, sem (possibilidade de) controlo por pares, situações possíveis em actividades profissionais em que existe a percepção por parte de clientes de que estão perante um/a especialista na área em que procuram ajuda. Clientes estes, muitas vezes, em situação de vulnerabilidade a propósito do próprio pedido de ajuda e/ou de desequilíbrio de informação e conhecimento potencial face à pessoa que procuram.

A acrescentar complexidade à situação somemos à sobrevalorização das nossas competências o viés do optimismo, ou seja, a tendência também comum nos seres humanos para sobrestimarmos a possibilidade de vivenciarmos situações positivas no futuro. A eles, a “ditadura da autorreferenciação”, pela qual as pessoas tendem a generalizar as suas experiências, percepcionando-as como “a realidade” única. Ainda um momento e contexto onde o acesso à informação é simples e rápido e em que a exposição, por via por exemplo de séries ou filmes, às mais diversas situações nos permitem percepcionar como próximas, simples e com “finais felizes” determinadas circunstâncias complexas (quem nunca viu um filme de um potencial desastre aéreo de final feliz e herói/heroína improvável?). Tudo a reforçar a sobrevalorização das nossas competências particularmente em áreas que nos despertam interesse mas que não conhecemos com profundidade, a partir da formação, treino, experiência e realidade.

Com este quadro de referência, e mesmo considerando o aumento global da literacia das populações em áreas diversas, creio restar clara e compreensível a necessidade de organização e regulação profissional em áreas com impacto significativo nas pessoas e no interesse público. De um quadro comum base de necessidade de uma (“boa”) formação académica, complementada com treino, experiência e formação (específica) profissional, com compromisso e responsabilização com a excelência das práticas assentes num quadro ético e deontológico, numa atitude de desenvolvimento profissional contínuo, potenciados por processos de validação e melhoria conjunta entre colegas da mesma profissão e no quadro de equipas e trabalhos multidisciplinares.

Por tudo isto, e pelo seu reforço, devíamos mobilizar-nos enquanto sociedade, coesa. Acontece, porém, como aqui escrevi no início de Março (Generalização, disponibilidade e desconfiança – Alterações ao regime jurídico das Ordens Profissionais), que debates públicos assentes na disponibilidade restrita de informação, na generalização e na desconfiança são “limitados” e não permitem “promover solidariedade, respeito pelas especificidades” e “construir mais participadas e equilibradas respostas, logo soluções melhores que beneficiariam a sociedade e o interesse público”. Assim tem sido com o “debate” em curso das propostas de alteração aos estatutos das Ordens Profissionais, modelo em que o Estado delega, sob sua tutela e supervisão, competências e atribuições diversas a um conjunto de associações públicas profissionais por ele legitimadas.

O presente “debate” é caracterizado pela desconfiança e pela narrativa de “corporativismo” das Ordens, nada mais injusto para parte delas, cujos órgãos são muitas vezes pressionados nesse sentido pelos seus membros, mantendo, porém, o foco no contributo para mais equitativo acesso a melhores serviços dos seus profissionais pela população e no desenvolvimento da profissão com vista ao interesse público. Diminui-se, assim, o envolvimento cívico, a construção conjunta, e abre-se espaço para, à boleia de resultar num potencial crescimento económico, assistirmos a propostas de maior desregulação da actividade profissional em áreas que envolvem direitos fundamentais, desprotegendo a sociedade e as pessoas, particularmente as em situação de maior vulnerabilidade ou impossibilitadas de decisões totalmente informadas e em liberdade. Urge que nos questionemos se os valores em que assenta este “debate” são os adequados a mudanças com impacto no presente e no futuro e se, ainda que se concretizando os benefícios económicos estimados com a desproteção das pessoas, isso resultaria em aumento do seu bem-estar, fim último que creio que decisores e a sociedade prosseguem com o objectivo de crescimento económico.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a ideia feita do “declínio moral” das pessoas pode ser uma “ilusão” percebida como verdade ao longo dos últimos 70 anos (!), conforme um importante estudo recente demonstra. Cabe, pois, a quem nos governa, estimular a reflexão, a construção conjunta, projectar o futuro e decidir, procurando prevenir os enviesamentos e os efeitos do momento e do contexto que ajudam a explicar o comportamento e tomada de decisão de pessoas individuais. Cabe serem, também, responsivos à expectativa das pessoas de ter instituições de proximidade que reforçam a confiança mais empoderadas e uma sociedade civil mais forte e participativa no sentido do bem-comum. Confiemos mais. Co-construamos mais. A sociedade não se faz “num dia” e é imensamente perigoso o caminho de muito pôr em causa por uma vitória, num processo ou num “irritante”. Pirro, o Rei de Epicuro e da Macedónia, teria certamente algo a dizer sobre isso.

 

Tiago Pereira

Se uma parte relevante de nós se julga capaz de aterrar um avião comercial numa emergência apenas com o apoio da torre de controlo…

in Sábado (Ao redor…); 13.06.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/se-uma-parte-relevante-de-nos-se-julga-capaz-de-aterrar-um-aviao-comercial-numa-emergencia-apenas-com-o-apoio-da-torre-de-controlo