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Presidência da República

9 de Março de 2021. Marcelo Rebelo de Sousa toma posse para o segundo mandato enquanto Presidente da República. No seu discurso, perante um país há um ano em pandemia, refere ser uma das suas prioridades a reconstrução “da vida das pessoas”. Diz ser “tudo ou quase tudo – emprego, rendimentos, empresas, mas também saúde mental, laços sociais, vivências e sonhos. É mais, muito mais do que recuperar.”

Ontem passou um mês sobre uma sua audiência a uma comitiva que integrei da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Nela abordamos esta “reconstrução maior que uma recuperação”. Sentimos interesse na profissão e nas/os profissionais, mas, também, o reconhecimento do seu rápido crescimento e impacto crescente. Falamos do seu papel e contributo e dos desafios da sua prática em diferentes contextos, da educação à saúde, passando pela área social, comunitária e do trabalho. Reflectimos sobre melhorias no acesso a serviços de psicólogas/os em diferentes áreas e por diversos tipos de prestadores e da participação dos profissionais em equipas multidisciplinares. Reforçamos a necessidade de aprofundar e acelerar este caminho, particularmente no SNS e na área social, junto das pessoas em situação de maior vulnerabilidade.

Discutimos, ainda, a presidência portuguesa da Federación Iberoamericana de Asociaciones de Psicología (FIAP) e os seus temas em torno do contributo da psicologia nas questões da pobreza e exclusão social, temas também fundamentais do VI Congresso da OPP/XIII Congresso IberoAmericano de Psicologia que decorrerá em Lisboa (SET 2024) e que conta com o seu Alto Patrocínio (informações/inscrições: https://congresso.ordemdospsicologos.pt).

“Só haverá, porém, verdadeira reconstrução se a pobreza se reduzir, os focos de carência alimentar extrema desaparecerem, as desigualdades se esbaterem, a exclusão diminuir, a clivagem entre gerações e entre territórios for superada”, dissera também na tomada de posse. Sabe o Sr. Presidente que o país pode contar, nestes e noutros desígnios, com o contributo das psicólogas e psicólogos e da sua associação pública profissional, tal como sabemos que o Sr. Presidente o reconhece e valoriza.

Simbolicamente, horas depois, receberíamos a proposta do Governo de revisão do Estatuto da OPP. Proposta que teve tanto de surpreendente como de inaceitável e que, a cumprir-se, representaria um retrocesso na protecção dos cidadãos, do interesse público e no acesso a serviços de psicologia de qualidade, pela desregulação da profissão e fim das suas especialidades profissionais.

Um conjunto de acções, a par da forte mobilização de psicólogas/os e não apenas, permitiram que se acordassem alterações que esperamos ver “formalmente” espelhadas na proposta final aprovada (e confirmada) em Conselho de Ministros, que muito em breve conheceremos. Resta, depois, trabalhar junto da Assembleia da República com o propósito último de podermos prosseguir o nosso papel e (importante) contributo enquanto profissão fundamental ao país e às pessoas.

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Se uma parte relevante de nós se julga capaz de aterrar um avião comercial numa emergência apenas com o apoio da torre de controlo…

“Se uma parte relevante de nós se julga capaz de aterrar um avião comercial numa emergência apenas com o apoio da torre de controlo…

…porque haveria de considerar-se incapaz de realizar actos próprios de diferentes profissões e de escolher pessoas habilitadas, preparadas e competentes para junto de si realizarem determinados actos, sejam de índole jurídica, contabilística ou psicológica?”

A primeira frase deste texto, título do 59º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado), resulta de um recente estudo da “YouGov”, onde “1 em cada 3 das mais de 20.000 pessoas dos EUA que nele participaram referem sentirem-se “algo ou muito confiantes” em que conseguiriam aterrar um avião comercial, apenas com indicações da torre de controlo (quase 1 em cada 2 se considerarmos apenas os homens)”.

Exemplo que, “numa tarefa de enormíssima complexidade e cuja probabilidade de sucesso é, de acordo com as/os especialistas, virtualmente 0”, demonstra “o excesso de confiança que pessoas, sem determinada competência e experiência para a realização de uma tarefa têm sobre a sua capacidade de a realizarem com sucesso.”

“Somemos à sobrevalorização das nossas competências o viés do optimismo” (…), a “ditadura da autorreferenciação”, (…) um momento e contexto onde o acesso à informação é simples e rápido” e onde existe uma enorme possibilidade de percepcionarmos como próximas e com “finais felizes” situações complexas.

Assim, mesmo considerando o aumento global da literacia, creio “compreensível a necessidade de organização e regulação profissional em áreas com impacto significativo nas pessoas e no interesse público. De um quadro comum base de necessidade de uma (“boa”) formação académica, complementada com treino, experiência e formação (específica) profissional, com compromisso e responsabilização com a excelência das práticas assentes num quadro ético e deontológico, numa atitude de desenvolvimento profissional contínuo, potenciados por processos de validação e melhoria conjunta entre colegas da mesma profissão e no quadro de equipas e trabalhos multidisciplinares.”

A desconfiança e a narrativa de “corporativismo” tem marcado o debate em torno das Ordens Profissionais, “nada mais injusto para parte delas, cujos órgãos são muitas vezes pressionados nesse sentido pelos seus membros, mantendo, porém, o foco no contributo para mais equitativo acesso a melhores serviços dos seus profissionais pela população e no desenvolvimento da profissão com vista ao interesse público”. Diminui-se, assim, “o envolvimento cívico, a construção conjunta, e abre-se espaço para (…) assistirmos a propostas de maior desregulação da actividade profissional em áreas que envolvem direitos fundamentais, desprotegendo a sociedade e as pessoas, particularmente as em situação de maior vulnerabilidade ou impossibilitadas de decisões totalmente informadas e em liberdade.” 

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Habitação, crise, saúde e bem-estar

No início de 2023, uma sondagem do ICS/ISCTE para o Expresso, mostrava que 92% das e dos jovens entre os 18 e 35 anos concordava ou concordava totalmente que existe uma crise de habitação em Portugal. 9 em cada 10 jovens.

“Crise habitacional, baixos salários e o futuro incerto – Há problemas muito significativos na saúde mental dos jovens”, foi exactamente o destaque escolhido pela CNN Portugal para divulgar o seu trabalho sobre o tema e a sua relação com a saúde (incluindo a saúde mental) e bem-estar das pessoas. Trabalho que partiu de uma entrevista comigo, realizada pelo José Gabriel Quaresma no passado Sábado.

Nela foco questões associadas à “quebra” de importantes factores protectores da saúde mental (segurança, previsibilidade e controlo) decorrente da instabilidade e/ou precariedade habitacional e do stresse e ansiedade financeira de muitas pessoas e famílias. Foco as consequências, no presente e para o futuro, na saúde (física e mental) e bem-estar e o sofrimento psicológico associado a estas questões. Também, as desigualdades e iniquidades que resultam das diferentes condições habitacionais entre diferentes pessoas, agravadas pelo facto de no contexto da pandemia e pós-pandemia (por ex., com o aumento do teletrabalho) as pessoas passarem/trabalharem mais tempo nas suas cadas. Ainda, a forma como a instabilidade habitacional obstaculiza melhores adaptações a processos de transição, seja numa situação de um nascimento/crescimento da família, num divórcio ou noutras. Termino advogando por mais apoios a programas que facilitem o acesso a uma primeira habitação pela população mais jovem, que facilitem processos de transição e adaptação a diferentes circunstâncias de vida e de suporte à reparação e melhoria de condições das habitações.

Mas, a mesma sondagem indica que na restante população são cerca de 90% as pessoas que concordam (ou concordam totalmente) com a existência de uma crise de habitação, dados que apontam a uma generalização desta percepção/sentimento. “Crise na habitação provoca maior procura por psicólogos”, foi mesmo o destaque escolhido pelo Novo Semanário (Edição 20.05.23) e pelo Jornal Económico para publicarem a entrevista do João Santos Costa comigo sobre o mesmo tema e sobre a sua relação com outras “crises” como a demográfica, de fixação/vinculação de trabalhadoras/es, da solidão/isolamento ou da saúde mental da população mais jovem.

Nesse trabalho, afirmo que “estarmos a discutir [a Habitação] é algo muito importante”. Talvez termos estado porque, apesar de tão significativa preocupação com o tema e do seu forte impacto nas pessoas e na sociedade, o debate tem vindo a perder intensidade. Oxalá tal não suceda, também, com a acção e priorização desta área. E oxalá a ciência (e prática) psicológica e os seus contributos possam ser consideradas e suportar esta acção.

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A lã e a neve…

Ferreira de Castro viveu apenas dois meses após o 25 de Abril de 1974. A sua biografia informa, destacando, a sua participação no célebre primeiro 1º de Maio pós-25 de Abril e retenho-me nesse momento, quando o penso a partir do livro “A Lã e a Neve”, que publicou quase 30 anos antes desse dia e que, felizmente, foi recentemente reeditado pela Cavalo de Ferro.

“…Nos olhos do qual ele adivinhava, também, uma nuvem de tristeza.” Uma nuvem de tristeza, mas não apenas, percorre o livro que trata, ficcionada, mas não totalmente, a pobreza de Portugal no período próximo da II Guerra Mundial. Uma pobreza entre a Serra da Estrela (Manteigas, em particular) e a Covilhã. Uma pobreza a partir de um trabalho permanente, constante, entre a pastorícia, as casas, o campo e as fábricas, particularmente as tecelagens, da região. Uma pobreza que coarta a dignidade, que impacta a saúde e a saúde mental, que impossibilita uma ideia mínima de bem-estar, de (auto)cuidado. Uma pobreza que se reproduz, cíclica e socialmente, e que acompanha o desamparo de tudo e de todas as pessoas que, ao mínimo “abalo” ou acontecimento imprevisto, pessoal ou social, treme. Uma pobreza, nuvem de tristeza. Permanente.

80 anos depois, aquela região é bem diferente. O país, a Europa, o Mundo, são bem diferentes. Apesar disso, e com formas de expressão e dimensão (felizmente) distintas, a pobreza e os seus impactos permanece na vida de muitas pessoas e famílias. De demasiadas. Isso mesmo e os contributos da ciência e da prática de psicólogas e psicólogos na minimização dos seus impactos e no combate às diversas formas de pobreza, discutiremos ali bem perto, na Guarda, na próxima sexta-feira (25.5).

O VI Encontro Luso-Espanhol de Psicologia, organização conjunta entre a Ordem dos Psicólogos Portugueses e o Consejo General de la Psicología de España centrar-se-á em dois temas principais, preocupações sociais significativas: a deficiência e a pobreza. Na área da pobreza, além de uma “Oficina Transformadora” a cargo do Alexandre Teixeira com a experiência do projecto “Cais Recicla”, terá uma mesa por mim moderada com a Isabel Soares (referência importantíssima no trabalho no nosso país nestas áreas e pessoa e profissional que muito admiro) e a Laura Vallejo Slocker e o Pedro Rafael Altungy Labrador, importantes referências do trabalho nestas dimensões em Espanha. Mais informações e inscrições, aqui.

Jorge Amado disse sobre Ferreira de Castro que “com a arma da literatura ajudou a transformar o Mundo (…) [Foi] coveiro de um Mundo caduco, de um tempo podre, parteiro de um Mundo novo, de um tempo alegre e livre”.  Que este Encontro e que os debates que dele decorram seja (mais) um contributo e, particularmente, estímulo a que com a “arma da psicologia” ajudemos “a transformar o Mundo”, pela possibilidade de um “tempo alegre e livre”, para todas e para todos.

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1, 2, 3, 4, 6 e… 7

1, 2, 3, 4, 6 e… 7. Ou, quando a aleatoriedade de um jogo nos desafia.

Esta sequência incompleta foi a chave do 37º concurso de 2023 do Totoloto, uma de 24.789.492 combinações possíveis. Quase sequência que, embora tão possível como qualquer outra chave, gerou surpresa e questionamento. Como nela faltou esse número, partilho 5 reflexões sobre o tema a propósito de uma peça e explicador da @Cristina Nascimento e do @Pedro Mesquita (@Radio Renascença), para as quais contribui.

  1. Percebemos como mais (ou menos) prováveis determinados acontecimentos ou eventos do que realmente são por via dos nossos, humanos, vieses cognitivos. Ou seja, pela nossa tendência para interpretarmos o mundo, tomarmos decisões e/ou nos comportarmos de forma irracional em consequências de erros no processamento de informação;
  2. É por isso natural que uma chave assim nos desafie, como dizia. Que automaticamente foque a nossa atenção, que seja “notícia” e suscite conversas e debates.
  3. O que deixa de ser natural, digamos racional, é que, quando depois reflectimos sobre ela, não concluamos sobre a sua igual possibilidade face a outras e, antes, desconfiemos dela. São diversos os motivos que podem a isto conduzir, mais ou menos conscientes ou intencionais, entre eles a susceptibilidade das pessoas à dúvida, a insegurança e ambiguidade ou a dificuldade em “lidar” com cenários de incerteza e, consequente, necessidade de controlo.
  4. Os ambientes digitais, onde o comportamento se altera e emoções como a raiva, a zanga ou o ódio são “dominantes”, é particularmente propicio e incrementa este tipo de situação de dúvida. Também, muito, porque facilita a resolução de ambiguidades por via de vieses de atribuição e confirmação, ao suscitar que as pessoas comuniquem a sua visão como a certa/verdadeira e ao ligar pessoas que “acreditam no mesmo”, o que neste caso permitiu a emergência e reforço de exemplos/comentários relativos, por exemplo, a eventuais investigações em curso ou ao célebre momento em que saiu um número não possível (0), para suscitar dúvidas sobre o jogo.
  5. Tudo isto seria não tão importante quanto é se se cingisse a esta chave do Totoloto. Infelizmente, não é assim. Nos 4 pontos anteriores estão pistas importantes para percebermos a desconfiança e as teorias da conspiração. Da origem da COVID-19, aos objectivos das vacinas. Dos “Pizzagte” ou “QAnon”, à “Grande Substituição” ou ao suposto “peso” para a Segurança Social da população imigrante em Portugal. Tudo a lembrar-nos a importância de reflectirmos sobre como interpretamos o Mundo e tomamos decisões… Sobre os efeitos das redes sociais e novas tecnologias e a justificar a necessidade de reforçarmos a confiança e a literacia digital e em ciência de toda a população.
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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Política

O desemprego como factor de risco da saúde mental e do bem-estar (Ao redor…; 02.05.2023)

Há 10 anos, o Instituto Nacional de Estatística publicava os dados consolidados do (des)emprego em Portugal no primeiro trimestre desse ano de 2013. “Novo máximo histórico”, destacava-se, com o aumento para 17,7% de população (mais de 950.000 pessoas) em situação de desemprego, a diminuição em 70.000 pessoas da população activa e em 100.000 do número de pessoas empregadas, apenas num trimestre, resultante, também, do saldo migratório e das pessoas que haviam desistido de procurar emprego. Mais, eram já 10,4% as pessoas em situação de desemprego de longa duração (560.000 pessoas há mais de um ano), 42,1% as e os jovens até 24 anos e 21,3% entre os 25 e os 34 anos. Mais de um em cada cinco jovens em média do meu grupo etário. Não sendo um destes jovens, tinha-os no grupo de amigos e nas pessoas mais próximas e vi alguns deles partirem para fora do país, uns cumprindo uma vontade, outros uma inevitabilidade. Uns voltando depois, outros não mais voltando até hoje.

Tínhamos nesse momento um plano nacional de saúde mental (PNSM) para o período 2007-2016, com implementação paupérrima, sem recursos, quer a nível da sua coordenação, quer, particularmente, de reforço dos serviços/unidades de saúde para a sua implementação. Durante estes anos, nada se alterou no seu desenho e na sua não-implementação, mesmo tendo-se assistido a uma grave crise socioeconómica. Como exemplo, nesse período, verificou-se apenas um aumento no número de médicas/os psiquiatras (particularmente em internato), mas uma diminuição do número total de outros profissionais integrados nas equipas de saúde mental (psicologia, enfermagem, serviço social, entre outras), algo nos antípodas das melhores práticas e recomendações internacionais, do próprio PNSM e paradigmático do não investimento na prevenção da doença e na promoção da saúde mental.

É certo que temos vivido de desafio em desafio e, talvez por isso, tenhamos menos oportunidade de reflectir sobre as consequências de cada um no presente e futuro das pessoas, comunidades e país. Importa, no entanto, que tenhamos presente que o trabalho e o emprego de qualidade e com valores ajustados à pessoa – ao garantirem uma estrutura do quotidiano e tempo das pessoas adultas; um contexto e prática fundamental à identidade; ao conferirem propósito e significado; e ao permitirem uma importante interacção e conexão social – são fundamentais à nossa saúde mental, bem-estar e qualidade de vida. Que tenhamos presente que a ausência de um emprego de qualidade e com valores ajustados à pessoa são factores de risco de saúde mental e bem-estar. E que a transição para uma situação de desemprego e, particularmente, a vivência em situação de desemprego por um período longo pode ser uma fonte expressiva de stresse e ansiedade e, até, um evento potencialmente traumático.

Particularmente o desemprego de longa duração porque, como noutros eventos adversos significativos, a nossa resposta psicológica aos eventos tem diversas fases e, quando não adaptativa, tende a avançar do “choque” inicial e de uma fase ainda caracterizada por algum optimismo, para uma fase mais pessimista, já marcada pelo sofrimento psicológico, ou mais fatalista, com falta de entusiasmo e esperança no futuro. Com estas, a quebra de autoestima, as alterações ao autoconceito e as dúvidas nas próprias capacidades, junto com a percepção de falta de controlo sobre a vida e o futuro e a desesperança e, ainda, com uma sensação de não contributo para a família e para a comunidade, formam um triângulo que condiciona as possibilidades de bem-estar e periga a saúde mental. Determina ou influencia mesmo, em diversas situações, a emergência de sintomatologia ou até de quadros depressivos e ansiosos, situações de consumo de substâncias ou de stresse pós-traumático e risco acrescido de suicídio.

Como noutros fenómenos complexos e multideterminados, porém, não existem inevitabilidades ou unidireccionalidades. Naturalmente, nem todas as pessoas em situação de desemprego ou de desemprego de longa duração, desenvolvem doença mental, apesar das dificuldades que sentiram nesta área e da quebra de bem-estar. Mas, que quem tem problemas de saúde mental resultantes de vivenciar uma situação desta natureza, tem também mais dificuldade em sair dela. E, quando ao desemprego se associa a dificuldade/incerteza económica, existirá pior prognóstico de recuperação (na área da depressão os estudos indicam que pessoas com dificuldades financeiras têm cerca de 4 vezes maior probabilidade de continuarem nessa situação 18 meses depois).

Tudo isto nos impele a olhar responsavelmente as políticas públicas de emprego como fulcrais e preponderantes em diversas áreas da vida. Da procura do estímulo à possibilidade da garantia de empregos de qualidade, com valores ajustados às pessoas e correspondente ao combate à precariedade, apresentado como objectivo da Agenda do Trabalho Digno e das alterações ao Código do Trabalho em vigor desde 1 de Maio último. À necessidade de apoio e suporte, também emocional e psicológico, aquando da transição de uma situação de emprego para desemprego. Finalmente, à necessidade de complementar medidas de estímulo à procura activa de emprego de pessoas em situação de desemprego (especialmente de longa duração), com acções informadas pela ciência psicológica, nomeadamente de promoção de saúde mental e intervenção nas dimensões motivacionais, cognitivas e socioemocionais, algo cuja evidência demonstra aumentar significativamente a eficácia dos programas e das medidas de emprego.

Os números com que iniciei este artigo melhoraram nesta década e, felizmente, hoje são distintos. Apesar disso, é ainda notório o forte impacto desta realidade nas pessoas e famílias, ajudando a explicar, também com a precariedade e a pobreza/exclusão, problemas significativos do país como a natalidade, a dimensão e qualificação da população activa ou a produtividade. Sabemo-lo porque conhecemos, certamente, famílias que se “destruturaram” neste período, casais que se separaram sem se divorciarem e que adiaram ou mesmo não cumpriram desejos de (re)viver a maternidade/paternidade. Jovens que não puderam investir na sua formação e especialização. Adultos e pessoas mais velhas que não tiveram iguais oportunidade de autocuidado, de desenvolvimento e motivação para aumentarem as suas qualificações. Sabemos, sentimos, em diversos papéis tudo isto, mas… Pouco, muito pouco, falávamos em 2013 de saúde mental. Menos, ainda menos, investimos em saúde mental.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, temos de fazer do dia 1 de Maio momento de celebração de quem trabalha e de aspiração para quem, momentaneamente e contra a sua vontade, não se encontra a trabalhar. Temos de falar sobre emprego, desestigmatizar a situação de desemprego e prevenir a autoculpabilização das pessoas por essa sua situação. Temos de promover a saúde mental, o bem-estar e a qualidade de vida, também trazendo mais ciência à reflexão sobre as causas e efeitos do desemprego e estimulando/informando abordagens baseadas na evidência para a promoção de emprego de qualidade e com valores ajustados para todas as pessoas.

 

Tiago Pereira

O desemprego como factor de risco da saúde mental e do bem-estar

in Sábado (Ao redor…); 02.05.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-desemprego-como-factor-de-risco-da-saude-mental-e-do-bem-estar

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A arte…

Uma das passadeiras que mais vezes atravessei nos últimos anos fica próxima da minha casa e tem uma particularidade. Não sendo propriamente insegura (as velocidades são habitualmente baixas), quando a atravesso no sentido da minha casa é frequente os veículos não pararem para eu passar, algo que não sucede quando a atravesso no outro sentido. Quem de quem me lê sabe onde moro, sabe também porque é que isto acontece e porque é simples não ficar “incomodado” com esta situação quando, nos conseguindo colocar no lugar da/o outra/o, percebemos o estímulo de chegados a uma vila, olharmos um monumento impactante e bonito, que nos capta a atenção e desfoca, até, da tal passadeira e de quem a pretende utilizar.

Mas, se este colocar-nos no lugar da e do outro, compreendermos, aceitarmos e, talvez até, sorrirmos ao que o justifica, pode ser simples numa situação como esta, sabemos que não o é para todas as pessoas e, particularmente, todas as situações. A abertura às outras pessoas, o fascínio com elas, a curiosidade e o genuíno interesse pelo que é diverso de nós, são elementos preponderantes a uma melhor compreensão e intuição acerca do que nos rodeia e, de certa forma, também de nós próprios, de como nos comportamos, pensamos ou sentimos.

São contributos fundamentais para mais e melhor literacia. Para mais relação, aceitação e/ou impulso para a mudança ou transformação. São factores protectores da saúde mental, factores onde a arte assume um papel preponderante, nas suas múltiplas formas de expressão. Tratando o real ou ficcionando, o passado, o presente ou imaginando futuros.

Penso-o a poucas horas de participar na abertura da 7ª edição do Festival MENTAL (https://mental.pt) que faz da arte, e do cinema em particular, veículo para a promoção da literacia em saúde mental. Festival que tive o privilégio de conhecer ainda apenas como ideia, pela mão da Ana Pinto-Coelho, e que vi acontecer e crescer, ano após ano.

Penso-o a pensar nos “Sete Palmos de Terra”, série que acompanhou e profundamente me marcou no meu percurso de estudante universitário e que do 1º ao último episódio, me fez olhar as outras pessoas, as suas condições e particularidades, enquadrar comportamentos, emoções e tomadas de decisão e manter presente o refrão da música da sequência com que termina: “Sê meu amigo | Segura-me, envolve-me | Revela-me | Eu sou pequena/o e preciso | Aquece-me | Respira-me.” Penso-o a pensar no “olhei à minha volta e comecei a reparar melhor nas outras Mulheres”, com que Maria Lamas, minha conterrânea e “nome” da minha Escola Secundária, abre “As mulheres do meu país”, crónica do ser Mulher em Portugal nos anos 40.

Exemplos de como a arte (sempre a arte) nos permite pensarmo-nos, individual e colectivamente, olhar a outra e o outro com curiosidade e interesse e mobilizar as necessárias transformações individuais e colectivas para vencermos medos, a escuridão do desconhecido ou o sofrimento. Para podermos ser e sermos mais pessoa.

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…permitiu que a maioria dos países voltassem à vida conforme a conhecíamos antes da COVID-19…

“…Vimos assistindo à diminuição da mortalidade e à diminuição da pressão sobre os sistemas de saúde (…) esta tendência permitiu que a maioria dos países voltassem à vida conforme a conhecíamos antes da COVID-19”. Este excerto, da comunicação com que Tedros Adhanom Ghebreyesus informou do termo da emergência global de saúde resultante da COVID-19, fala em “vida conforme a conhecíamos”, mas…

Conforme o passado pode repetir-se, poderá repetir-se num contexto diverso. Portanto, “a vida conforme a conhecíamos”, mas num contexto diverso. A vida conforme a conhecíamos, mas, neste caso, com maior desigualdade, desde logo nas crianças e jovens com menores recursos, mais impactadas com as perdas resultantes das alterações nos contextos educativos e familiares resultantes da pandemia. Ou no aumento de sofrimento psicológico e aprofundamento de problemas de saúde mental, particularmente na população mais jovem. Ou, ainda, o facto de hoje a saúde mental ser um tema de enorme relevância e premência na sociedade.

Exemplos que se conjugam numa pressão significativa para garantir suporte e promover recursos (internos e externos) e competências fundamentais ao desenvolvimento, adaptação e bem-estar de adolescentes e jovens… Nas Escolas e comunidades. No Ensino Superior. Exemplos que, nos últimos anos, receberam dois importantes e significativos estímulos, para um caminho de reforço das políticas públicas neste âmbito e do seu foco em dimensões que toquem, também e complementarmente a outros apoios, a prevenção e a promoção da saúde mental e bem-estar para todas as pessoas.

Falo das segundas edições de dois programas que vi e vimos nascer e que contam com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses, junto destas populações: Cuida-te +, promovido pelo IPDJ IP, com o empenho de uma equipa com referência na Natacha Torres da Silva, e dinamizado com a Aventura Social – Associação e através de uma equipa de psicólogas/os júnior distribuídos por todo o país: https://ipdj.gov.pt/o-programa; FLAD/OPP – Saúde Mental no Ensino Superior, promovido pela FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, com o empenho de uma equipa com referência na Liliana Valpaços: https://www.flad.pt/candidaturas-abertas-programa-flad-opp-saude-mental-no-ensino-superior-2023/

Também sobre estes desafios, no programa Corpo Clínico (Canal S+), discuti com a Ana Rita Sobral e a Lara Guedes de Pinho, sob moderação do Marco António, potenciais acções no programa que aqui partilho. Tudo, também porque, como aqui refiro, a situação ainda poderá piorar antes de melhorar, considerando que a saúde mental da população mais nova está pior hoje face há alguns anos.

É importante, é urgente, respondermos a este ciclo que penalizará, individual e colectivamente, o presente e o futuro do nosso país e das suas pessoas e famílias.

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36,9º

Para quem não conhece, este é o lindíssimo Fluviário de Mora. Um aquário público que, conforme a sua apresentação, se dedica “aos ecossistemas de água doce” e “privilegia o conhecimento da sua diversidade, importância e relação com a humanidade”. Um equipamento educativo único em Portugal, também porque edificado numa vila de pouco mais de 2.200 habitantes, sede de um Município Alentejano com cerca de 4.100 habitantes.

Podia ter sido pelo Fluviário mas Mora foi notícia há dias por outro motivo. Foi na sua estação meteorológica que, a 27 de Abril, foi batido um recorde com 78 anos. 36,9 graus Celsius em Portugal em Abril. Lá, mas podia ter sido batido nesse dia na Amareleja, Alcácer do Sal, Neves/Corvo, Alvalade/Sado ou em Portel, cidades/zonas com mais de 36º nesse dia, valor do anterior recorde (registado a 20 de Abril de 1945 em Alijó).

Isto em Portugal e dias antes das Nações Unidas alertarem para algo a que continuamos a prestar pouca atenção: a necessidade de nos prepararmos e adaptarmos, particularmente pelas características do nosso país, para o “novo pico no aquecimento global” que estamos a viver, para “os recordes de temperatura” que serão batidos e para um novo “El Niño” (aquecimento significativo das águas do Pacífico), cujas consequências, múltiplas e também muito significativas, se esperam sentir mais intensamente em 2024.

Por cá, além das temperaturas, terminamos Março (e o Inverno) com 48% do território em seca e com os distritos de Setúbal e Beja em seca severa. No final de Abril a área ardida em 2023 estava já acima da média para este período e o presidente do IPMA afirmava, há dias, que, não sendo uma “situação dramática”, “a probabilidade de precipitação daqui até ao Verão é baixa e que, portanto, vamos ter tensão em muitas áreas – no ambiente, no abastecimento, nas barragens, nos fogos.” Que temos que “ver as coisas com serenidade, mas com antecipação.”

Nada mais correcto. Sem alarmismo, com antecipação mas… com convicção, compromisso, envolvimento de todas as pessoas e com ciência… Ciência que não apenas a importante meteorologia. Ciência comportamental que nos ajude a compreender e (lá está) antecipar os impactos de medidas, de campanhas de comunicação e de estímulos e incentivos a mudanças no comportamento, informando a tomada de decisão e as políticas (públicas) nesta área. Ciência que deve ajudar a que reflictamos, informadamente, sobre como pensamos e narramos este “problema”.

Quando confrontado com outro problema, António Costa, na terça-feira e em Braga, respondeu assim a uma jornalista que lhe perguntou pelo facto de João Galamba não ter agenda nesse dia: “Amanhã já terá. Ontem foi ontem, hoje é um novo dia. Olhe para o céu, está tão bonito. Adeus”. O céu, sim… Mas, e os 32 graus que lá fariam a um 3 de Maio? Mas, e o quanto esta realidade periga os ecossistemas, a sua diversidade, importância e relação com a humanidade?

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O desemprego como factor de risco da saúde mental e do bem-estar

“Novo máximo histórico”. Há 10 anos, o INE publicava dados do (des)emprego no final do 1º trimestre de 2013 destacando o aumento para 17,7% da taxa de desemprego, 42,1% nas e nos jovens até 24 anos e 21,3% entre os 25 e os 34 anos. “Não sendo um destes jovens, tinha-os no grupo de amigos e nas pessoas mais próximas e vi alguns deles partirem para fora do país, uns cumprindo uma vontade, outros uma inevitabilidade. Tínhamos nesse momento um plano nacional de saúde mental (2007-2016) que não se alterou no desenho e na sua não-implementação, mesmo tendo-se assistido a uma grave crise socioeconómica.”

“O desemprego como factor de risco da saúde mental e do bem-estar”, 57º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) trata a importância do emprego de qualidade e com valores ajustados à pessoa considerando que garantem: “uma estrutura do quotidiano e tempo das pessoas adultas; um contexto e prática fundamental à identidade; propósito e significado; e uma importante interacção e conexão social.” Trata, ainda, como “a transição para uma situação de desemprego e, particularmente, a vivência em situação de desemprego por um período longo pode ser uma fonte expressiva de stresse e ansiedade e, até, um evento potencialmente traumático.”

“A quebra de autoestima, as alterações ao autoconceito e as dúvidas nas próprias capacidades, junto com a percepção de falta de controlo sobre a vida e o futuro e a desesperança e, ainda, com uma sensação de não contributo para a família e para a comunidade, formam um triângulo que condiciona as possibilidades de bem-estar e periga a saúde mental. Determina ou influencia mesmo, em diversas situações, a emergência de sintomatologia ou até de quadros depressivos e ansiosos, situações de consumo de substâncias ou de stresse pós-traumático e risco acrescido de suicídio.”

“Tudo isto nos impele a olhar responsavelmente as políticas públicas (…) Da procura do estímulo à possibilidade da garantia de empregos de qualidade e combate à precariedade (…) À necessidade de apoio e suporte, também emocional e psicológico, aquando da transição de uma situação de emprego para desemprego (…) Ainda de complementar medidas de estímulo à procura activa de emprego de pessoas em situação de desemprego (especialmente de longa duração), com acções informadas pela ciência psicológica, nomeadamente de promoção de saúde mental e intervenção nas dimensões motivacionais, cognitivas e socioemocionais, algo cuja evidência demonstra aumentar significativamente a eficácia dos programas de emprego.”

“Temos de falar sobre emprego, desestigmatizar a situação de desemprego e prevenir a autoculpabilização das pessoas por essa sua situação. Temos de promover a saúde mental, o bem-estar e a qualidade de vida, também trazendo mais ciência à reflexão sobre as causas e efeitos do desemprego e estimulando/informando abordagens baseadas na evidência para a promoção de emprego de qualidade e com valores ajustados para todas as pessoas.”