
Seja por via do original – a pergunta que Baptista-Bastos fazia a quem entrevistava nas suas “Conversas secretas” – seja por via da personagem humorística nele inspirada e interpretada por Herman José, a pergunta “onde estava no 25 de Abril?” entrou no nosso imaginário e é hoje utilizada para diversas situações. Todavia, não creio provável, ainda que no futuro, que nos perguntemos “onde estava/s na transição digital?”, mas…
Não creio porque, desde logo, é um fenómeno claramente distinto do que representou e impactou o 25 de Abril para as pessoas e sociedade portuguesa. Mas também não nos lembraremos dele como nos recordamos de onde estávamos quando tivemos conhecimento dos acontecimentos relativos ao 11 de Setembro de 2001 ou quando decorria a final do Campeonato Europeu de Futebol de 2016. Não, porque ao contrário destes momentos, a transição digital não tem uma data e não se constitui como acontecimento significativo. É, antes, um processo, com poder transformador e que, queiramos ou não, será profundamente significativo na nossa vida presente e futura.
Um processo, em rigor, em curso há décadas, e que se projecta, exponencialmente, aquando de momentos de introdução e/ou generalização de novas tecnologias ou possibilidades, capazes de rapidamente transformarem processos de educação ou trabalho e a forma como vivemos em sociedade. São disso exemplo, a internet, os computadores pessoais, os smartphones, a realidade virtual ou, mais recentemente, a inteligência artificial generativa (por exemplo, o ChatGPT). Será disso exemplo a possibilidade, defendida por múltiplos especialistas, de atingirmos a “superinteligência artificial”, ou seja, um sistema não-humano ultrapassar a inteligência humana.
Apesar de ser um processo em curso, penso ser fundamental reflectirmos o momento actual como particularmente relevante neste percurso. Todas e todos intuímos que, com a evolução rápida da realidade virtual e, particularmente, da inteligência artificial generativa, existirão alterações profundas e visíveis no nosso dia-a-dia e que isso requererá da parte de cada pessoa, grupos e comunidades, a par do desenvolvimento de novas competências, a necessidade de uma rápida adaptação e de gestão dos impactos emocionais e no bem-estar desta transformação.
Até hoje, a transição digital, além da famosa “eliminação do papel”, trouxe-nos impactos positivos, mas, também, necessariamente desafios e impactos menos positivos, que permitem comunicarmos muito mais rapidamente e com menor custo, acedermos mais facilmente a informação e cultura, podermos preparar e prever viagens ou entregas ou podermos realizar acções de educação / formação ou mesmo intervenções terapêuticas à distância. Com este ponto de partida, perspectivemos os impactos do actual crescimento exponencial e do momento que vivemos ter uma característica estruturalmente diferente dos anteriores que o torna o crucial. Verdadeiramente, é a primeira vez que a tecnologia vem, de certa forma, apropriar-se, potenciar e generalizar partes de uma competência tipicamente humana, a cognição. O ChatGPT está para os processos cognitivos como a memória, a linguagem, o processamento de informação ou a criatividade como os primórdios dos motores de busca estão para a Google hoje ou como o primeiro Iphone está para as redes sociais hoje.
E, se esses primórdios, já significam resumos automáticos de reuniões segundos depois do seu fim ou produções de código ou texto com alguma complexidade, numa ferramenta gratuita e generalizada, podemos pensar (mesmo que não consigamos prever com acuidade) o que poderá ser a evolução destas ferramentas e o que permitirão. A forma como tenderão a contribuir para a substituição ou diminuição de necessidade de determinadas tarefas e uso de competências, mas, também, como nos ajudarão a descrever e prever fenómenos e como isso pode apoiar acções preventivas e prescritivas, permitindo, por exemplo na área da saúde, acções de prevenção e intervenção precoce e personalizada, algo que será relevantíssimo em áreas como o cancro ou nas doenças degenerativas.
Fazendo-o com a cognição humana, terá ainda muitas limitações a poder fazê-lo em dimensões mais emocionais, ainda que as impactando. Mas o que poderá acontecer com a utilização da computação quântica, algo previsível no futuro e que mudaria (mudará?) significativamente a capacidade de tratamento de dados e possibilitará maiores aproximações, inclusivamente, à reprodução da forma como o cérebro humano funciona? É este o contexto que levou a que um conjunto de personalidades relevantes na área, lideradas por Geoffrey Hinton, um psicólogo por vezes apelidado “pai da inteligência artificial”, publicasse um manifesto apelando a que “mitigar o risco de extinção (humana) devido à inteligência artificial deve ser uma prioridade global conjuntamente com outros riscos como as pandemias e a guerras nucleares”.
Efectivamente os desafios e riscos hoje existentes implicam desenvolvimentos suportados em dimensões éticas e sociais, alinhando a tecnologia com os valores da humanidade. Apenas orientações que o impliquem, em conjunto com o reforço do multilateralismo, poderão, com sucesso, contribuir para que estes riscos sejam mitigados e para que esta transformação contribua para o desenvolvimento e para a redução das iniquidades a uma escala global, com instrumentos e ferramentas globais.
Terminei o primeiro paragrafo deste texto com um mas… Mas, porque talvez nos devamos mesmo perguntar, a nós mesmo, “onde estamos na transição digital?”. Como estamos para ela preparadas e preparados, que competências temos e, eventualmente, precisamos desenvolver, como nela estamos a participar e a estamos a influenciar? Foi também este o mote das comemorações, a 4 de Setembro último, do Dia Nacional do Psicólogo, com uma conferência e um conjunto de acções em torno do “Factor Humano na Transição Digital”, reflectindo-se estes temas na profissão, mas, principalmente, com a sociedade, os contributos de uma ciência que, estudando o comportamento humano e o que o influencia, pode ser importantíssima às pessoas, às organizações, ao desenvolvimento das tecnologias e às políticas neste processo de transição digital.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, infelizmente de forma não equitativa, a inteligência artificial generativa disseminar-se-á rapidamente. Não sem riscos, não sem obstáculos, não sem medos, terá o potencial no futuro curto que se pode prever de nos tornar melhores estudantes e profissionais, nas mais diversas áreas, sendo nosso copiloto e ferramenta auxiliar aos processos de tomada de decisão e realização de tarefas, quando e se alinhada com as dimensões éticas e de segurança e com os valores do humanismo e dos direitos humanos. Este alinhamento, não apenas, mas também depende de cada um de nós e de onde estamos e queremos estar na transição digital.
Tiago Pereira
Onde estava na transição digital?
in Sábado (Ao redor…); 06.09.2023
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/onde-estava-na-transicao-digital