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Temos (mesmo) de falar sobre pobreza e exclusão social (Observador; Mental)

Temos (mesmo) de falar sobre saúde mental. Foi este o título escolhido pelo Observador para a newsletter de apresentação da sua nova secção dedicada à Saúde Mental. E… Temos, mesmo.

Eu e você, sabemos, já o experimentámos. Quando não estamos bem, quando sentimos preocupação, angústia ou ansiedade, falar com alguém sobre o que se passa connosco pode ajudar-nos. Tal qual pode ajudar-nos ouvir alguém falar sobre como lidou com as suas situações, situações essas que muitas vezes nos são próximas. Ou aceder a informação de qualidade, cientificamente validada e ajustada aos nossos conhecimentos, experiências e necessidades para que possamos melhor reconhecer o que estamos a vivenciar, atribuir-lhe significado e promover mudanças. Para, por vezes com sucesso, desenvolvermos estratégias, incluindo de autocuidado, visando a adaptação a novas situações e a adversidades ou acontecimentos de vida negativos. Temos (mesmo), portanto, de falar sobre saúde mental.

Mas falar sobre saúde mental implica falar também sobre o que a influencia e, muitas vezes, determina. Da pandemia que vivemos, ao impacto das novas tecnologias na sociedade e na forma como aprendemos, trabalhamos ou nos relacionamos. Da crise climática e suas consequências, das migrações voluntárias ou forçadas, da guerra que persiste em demasiados territórios pelo Mundo e que voltou à Europa. Da precariedade e das crises socioeconómicas. Da pobreza e exclusão social.

Cresci numa aldeia que durante muito tempo via partir pessoas, demasiadas pessoas, e com elas, “partia” famílias, relações e a comunidade. Pessoas que, como o meu avô (e depois os meus dois tios), saiam da aldeia e depois do país a pé, boleia aqui, boleia ali, a caminho de diferentes cidades e países, no seu caso de uma Paris onde habitavam mais portuguesas e portugueses de que em qualquer cidade portuguesa. Partiam em busca de romper com uma pobreza destinada a si, à sua geração e às gerações seguintes. De romper com um ciclo de exclusão, por ela potenciado e aprofundado pela falta de liberdade de expressar e viver direitos. Os seus e, naquele caso, os da minha mãe e os meus futuros direitos. Eu sei o quanto a pobreza impacta a possibilidade de saúde, de bem-estar, de autodeterminação. Eu sei o quanto a pobreza e a exclusão limitam e obstaculizam a saúde mental. Eu sei e você sabe-o. Se queremos falar sobre saúde mental temos (mesmo) de falar sobre pobreza e exclusão social.

Sobre a pobreza e exclusão de há 60 anos. Sobre a de há 30 anos. Sobre a resultante da grave crise sócioeconómica de há cerca de uma década, onde tantas e tantos outros partiram, “partindo”, uma vez mais, famílias, relações e a comunidade. Sobre a de hoje e a de amanhã. Falar e não permitir que naturalizemos a pobreza e a exclusão, que a assumamos com uma inevitabilidade, como um destino.

Podemos, no entanto, perguntar-nos: todas as pessoas que vivem em situação de pobreza têm ou vão ter uma dificuldade de saúde mental ou mesmo desenvolver doença mental? Ou, todas as pessoas com doença mental vivem ou viveram em situação de pobreza e exclusão? Não. E não. Mas, não sendo uma inevitabilidade, há uma relação forte entre a vivência em situação de pobreza e exclusão e os problemas de saúde mental, principalmente o stresse, a ansiedade e a depressão. Relação forte e circular que, porque relevante, não podemos não considerar e que determina que investir na promoção da saúde e da saúde mental seja garantir um mais eficaz combate à pobreza e à exclusão e que diminuir a exposição a situações de pobreza e exclusão seja reduzir um dos principais factores de risco dos problemas de saúde mental.

Se este ciclo penaliza tantas pessoas que nele se encontram e, no fundo, toda a sociedade, é fundamental que o pensemos também nas suas dimensões políticas e sociais. Desde logo porque coloca em perigo a sustentabilidade de serviços, particularmente na área da saúde e da segurança social, além de limitar a possibilidade de desenvolvimento económico do país. Depois porque períodos de incerteza económica, nos últimos anos comuns, constituem uma ameaça à saúde psicológica das comunidades porque, a acrescer ao stresse, ansiedade e sofrimento psicológicos, os factores protectores da saúde mental tendem a enfraquecer enquanto factores de risco como o desemprego e precariedade, o endividamento ou a perda de estatuto socioeconómico podem aumentar consideravelmente.

Temos (mesmo) de falar sobre saúde mental. De pessoas, da vida dessas pessoas por trás dos impressionantes números. De acesso e de equidade e qualidade no acesso a literacia, recursos e serviços na área da saúde mental, certamente. Mas, se queremos falar de saúde mental, temos também de falar sobre como combater a pobreza e os seus ciclos geracionais e de como construir uma sociedade mais inclusiva e mais sensível à diversidade.

 

Tiago Pereira

Temos (mesmo) de falar sobre pobreza e exclusão social

Observador (Mental); 28.08.2023

https://observador.pt/opiniao/temos-mesmo-de-falar-sobre-pobreza-e-exclusao-social/

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Crise Climática

“Temos de atuar em conjunto, como uma família, para salvar a nossa única Terra e salvaguardar o nosso único futuro”. Disse-o António Guterres, na recente cimeira do G20, sublinhando “que estes países são responsáveis por 80% das emissões poluentes” e advogando por mais liderança “na luta contra as alterações climáticas e manutenção dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável”, definidos pelas United Nations na Agenda 2030.

Apesar desta posição, a cimeira terminou sem “consensos” a propósito da #criseclimática. Sobre isto conversei com a Luisa Schmidt (cujo histórico contributo para a maior literacia e compreensão destes temas muito saúdo), com moderação da Andreia Palmeirim e do Pedro Filipe Silva na 2ªF na CNN Portugal, conversa que partilho. Nela são-me pedidos dois contributos específicos.

O primeiro sobre #ecoansiedade. Fenómeno que enquadro numa preocupação crescente, particularmente da população jovem, em torno da possibilidade do colapso ambiental e do medo (crónico, por vezes) associado. Preocupação que resulta da conjugação da significativa valorização dos problemas associados à crise climática com a falta de recursos para mudar/lidar com a situação percepcionada, a que acresce a imprevisibilidade e insegurança associadas. Destaco, na intervenção, que da ecoansiedade pode resultar #distresse, ou seja, níveis de ansiedade/stresse bloqueadores e paralisantes, que podem conduzir a sentimentos de desesperança, à perda de bem-estar, a dificuldades de inclusão ou, até, a sintomatologia depressiva. Mas, também e por vezes, a níveis de #stresse activadores e mobilizadores para a acção e participação pública e social, resposta mais positiva e adaptativa à situação.

O segundo sobre como num quadro de cada vez maior incerteza relativamente ao clima e aos fenómenos climatéricos extremos nos podemos adaptar. Aqui (aproveitando para sublinhar que os contributos da ciência e da prática psicológica neste desafio vão além do seu importante papel na reparação, apoio e suporte emocional às populações após uma situação de catástrofe) sublinhei o papel da #psicologia na prevenção, mitigação e adaptação, apoiando e informando processos de desenho de políticas públicas, estímulo à alteração de comportamentos e preparação de planos individuais e comunitários para a vivência de situações climatéricas extremas, promovendo a #resiliência individual e colectiva e reforçando o sentido de agência e de controlo, tão importantes nestas situações e, por si, preventivos da ecoansiedade.

Portugal está e estará profundamente exposto a estes fenómenos. Dos incêndios rurais à subida do nível do mar, passando pelo stresse hídrico. Também por isso, conjugar planos multilaterais de médio e longo prazo com o que no presente cada pessoa pode fazer e o que o país pode determinar, é essencial. Acções próximas, concretas e avaliáveis. Disse-o e advogo-o porque “temos de atuar em conjunto, como uma família, para salvar a nossa única Terra e salvaguardar o nosso único futuro”.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia Tecnologia

Onde estava na transição digital?

Ricardo Araújo Pereira costuma afirmar que, mesmo quando se tem essa pretensão, um/a humorista “não consegue controlar totalmente o efeito do [seu] humor”. E o humor, como sabemos, tem um papel muito importante e diverso na sociedade. Porque nos diverte e faz sentir bem. Porque nos aproxima e permite sintonizar com outras e outros e começar/continuar conversas. Porque nos permite olhar, criticamente, o que nos rodeia. Em Portugal, como noutros países, diferentes gerações têm beneficiado do humor e, num certo momento da minha vida, o Herman José (e toda a sua equipa), particularmente no Herman Enciclopédia, marcaram-me muito. Entre tantas outras personagens recordo o “Artista Bastos”, personagem inspirada no Baptista-Bastos e que ajudou a projectar para os nossos dias a pergunta “Onde estava/s no 25 de Abril?”.

“Onde estava na transição digital”, 65º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) usa duma apropriação da pergunta ao processo de transição digital em curso, processo “com poder transformador e que, queiramos ou não, será profundamente significativo na nossa vida presente e futura”. Fi-lo, pois, “julgo ser fundamental reflectirmos o momento actual como particularmente relevante” (…) dado que com “a evolução rápida da realidade virtual e, particularmente, da inteligência artificial generativa, existirão alterações profundas e visíveis no nosso dia-a-dia” que “requererão da parte de cada pessoa, grupos e comunidades, a par do desenvolvimento de novas competências, a necessidade de uma rápida adaptação e de gestão dos impactos emocionais e no bem-estar desta transformação.”

Mas, não existindo apenas benefícios perspectivados desta transição em curso (também desafios e riscos que procuro, também, reflectir no artigo), devemos advogar e contribuir para “desenvolvimentos suportados em dimensões éticas e sociais, alinhando a tecnologia com os valores da humanidade. Apenas orientações que o impliquem, em conjunto com o reforço do multilateralismo, poderão, com sucesso, contribuir para que estes riscos sejam mitigados e para que esta transformação contribua para o desenvolvimento e para a redução das iniquidades a uma escala global, com instrumentos e ferramentas globais.”

“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, infelizmente de forma não equitativa, a inteligência artificial generativa disseminar-se-á rapidamente. Não sem riscos, não sem obstáculos, não sem medos, terá o potencial no futuro curto que se pode prever de nos tornar melhores estudantes e profissionais, nas mais diversas áreas, sendo nosso copiloto e ferramenta auxiliar aos processos de tomada de decisão e realização de tarefas, quando e se alinhada com as dimensões éticas e de segurança e com os valores do humanismo e dos direitos humanos. Este alinhamento, não apenas, mas também depende de cada um de nós e de onde estamos e queremos estar na transição digital.”

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‘Let’s raise this flame of great things that can be built’ (Entrevista; The Psychologist; July23)

‘Let’s raise this flame of great things that can be built’

We hear from Tiago Pereira, Executive Board Member of Ordem dos Psicólogos Portugueses [Portuguese Psychologists Association], and a keynote speaker at the European Congress of Psychology

What is your keynote going to be on?

Poverty, and the potential path to its eradication. ‘No poverty’ is the first of the 17 Sustainable Development Goals (SDG), a globally agreed 2030 agenda towards a healthy planet and peaceful and inclusive societies in the world.

Poverty, exclusion, and inequalities are old, present, and, unfortunately, future challenges of humankind. I will talk about poverty as a major contributor to the loss of dignity, health (including mental health), well-being, self-determination, and societies’ social cohesion.

These are important goals of psychology, and psychologists are guided by ethical principles of intervention. As a science and a profession we must address this major societal challenge, with huge impact on several other challenges and SDG.

At ECP, I’ll try to promote reflection on how, as psychologists, we can contribute to this challenge. There’s also a role for professional associations promoting and stimulating these contributions. I will be presenting the ‘.Final à Pobreza’ [Full stop to poverty: see tinyurl.com/bdeyv6dw], as a strategy of the Portuguese Psychologists Association targeting this purpose.

What has changed in the area of poverty and exclusion in recent years?

We have achieved an important decrease in poverty worldwide in the last decades. This confirms that through a collaborative effort, it is possible, just the same way we addressed objectives that seemed unattainable some decades ago and ended slavery, apartheid and some diseases.

However, the World Bank pointed out that Covid-19 was the ‘biggest setback to poverty reduction efforts since 1990’. The reduction in poverty and social exclusion has stopped in 2020. If we consider new geopolitical, economical and climate threats (such as the Russian aggression and war on Ukraine, new conflicts in Asia and Africa, the weakening of liberal democracies and United Nations, socio-economic uncertain and climate crisis), it is now expected that we will finish 2030 still with 7 per cent of the world’s population living in extreme poverty and high rates of poverty in the UK, Portugal, and other countries in Europe.

We’re in an era of paradoxes. More resources than ever and, at the same time, huge inequalities, mental health problems and major threats to the opportunity of well-being for all. This menace is reinforcing the need for psychology and psychologists to study social determinants of mental health and well-being and their impacts in effective interventions. We need to fulfil a role in this area, informing public policies and promoting social transformations that reinforce equity and the chance of well-being for all.

We’ve had big advances in psychological research, as an important hub of science, and a growing number of psychologists in the world (e.g. in Portugal, an increase of 67 per cent in the last decade). We now have plenty of data on causes and consequences of poverty. We must use that knowledge to inform practices and public policies in a better and more efficient manner.

How do we do that?

Globally, we must talk and discuss more about poverty and exclusion at different microlevels, in society and media. We must really set poverty eradication as a priority and collaborate at national and international level, with an interdisciplinary focus to achieve this goal.

But there’s more. We must promote literacy on poverty and its causes and impacts, for people at risk of poverty and for all society. This will have an important influence on discrimination, stigmatisation (and self-stigmatisation) and exclusion.

Also, regardless of the improvement of the last years, we still need to reinforce research on poverty and on the effect of interventions reducing it. We need to stimulate more reflection and training of psychologists in this area. We need more collaboration between psychologists acting in different areas and between psychologists and other professionals working in social, educational and health contexts, as well as with decision makers. And we must lobby for more equality in the access to evidence-based psychological support for vulnerable people, and to the factors behind the success of these interventions (e.g. see Improving Access to Psychological Therapies data about the inequal access to support for people from deprivation areas, or the impact of deprivation on the success of interventions).

Finally, we must have a more evidence-based design of public policies. This is even more important for poverty and exclusion, given the impact of some civil society prejudices and biases. We also need to evaluate the impacts and to follow the longitudinal effects of the policies.

What’s holding us back, either as psychologists or as a society?

We are facing interdependent, interconnected, and intersecting crises. This ‘polycrisis’ challenges the prioritising of poverty and inequalities. Psychologists, in some countries and societies, are lacking the capacity and the tools to influence civil society and public policies. We have to promote psychologists’ identity, and psychologists’ professional associations must work for this and contribute to people’s confidence levels in governments and public policies. We must lead, and assume roles as decision makers to take a more active position on social transformation.

 

So is it primarily a lack of evidence, or a lack of the networks and infrastructure required to put that evidence to work?

We need to strengthen research and have better data on poverty. But more than that, I feel that the greater need is of transferability and impact of evidence and data on the design of policies and on the literacy of civil society.

Today, we have plenty of information on consequences of living in poverty, organised in multiple layers. We know about scarcity mindset and its effects on stress or in reducing our cognitive resources to anticipate, plan and make good decisions. We have moved on from ideas of inherent incapability, lack of character or motivation, or personality problems of people living in poverty. Studies on the first 1000 days of life, beginning in the womb, confirm that this period is crucial for the development of brain structures. Disadvantages at day 0 deepen in the next two years for children exposed to poverty and exclusion contexts. We also have robust evidence on the cycles of poverty, and solid associations between mental health problems (anxiety, depression, and stress) and precarity, unemployment and poverty. This makes combatting poverty crucial when we want to promote mental health and the need to promote mental health if we want to interrupt cycles of poverty and eradicate it.

But as we know, changes in civil society, in decision makers and social transformation, is a never-ending process. To secure gains on these matters, we must have strong networks of professionals working in this area, empowered, with resources and with support from people, institutions, and the government.

Tell me about your work with the Portuguese Psychologists Associations; for example how you sought to help communities through Covid.

On 13 March 2020, some days after the first confirmed Covid-19 cases and some days before the first lockdown in Portugal, I was designated coordinator of the Covid-19 crisis cabinet of the Portuguese Psychologists Association. Although we are a recent organisation, created by law in 2008, our past contributions and relations with Portuguese decision makers and authorities allowed us to participate in the national effort. We undertook a central role on the response to pandemic in relation to the needful balance between protection of public health and protection of mental health and well-being, particularly for people and groups with specific vulnerabilities.

Five swift examples of that:

  • our part in the design of the algorithm, and training and supervision of the clinical and health psychologists supporting the establishment of the psychological counselling 24/7 telephone service of Portuguese NHS, totally free and confidential, that is still ongoing today in Portuguese and English languages and has had more than 200,000 attendances in the first three years of activity;
  • the strategy and creation of a behavioural science task force to work with government;
  • responsibilities on the training of more than 2000 psychologists as micro influencers to foster mobilisation and promote pro-health, pro-social behaviours, health literacy and to empower decision-making in their communities;
  • the elaboration of literacy documents and tools for different targets and of eusinto.me [I feel] website – an online information portal on psychological health and well-being;
  • the development and offer of resource and training for psychologists to boost their role addressing Covid-19 pandemic and its consequences on mental health and well-being of the communities.

What role do schools, and educational psychology, play in uniting communities for a sustainable world?

How can we connect communities for a sustainable world without schools? The young generations have a major role on the present and the future of sustainability. And, like former Portuguese Minister of Education said before, I don’t think that there is (real) school without educational psychologists and its contributions. Schools, today, must work as hubs for development and promotion of protective factors, not only for all children and adolescents (in particular, those living with personal or social vulnerabilities), but also for their families and communities. Psychologists are essential to that.

In addition to traditional roles in education (e.g. vocational development, inclusion and specific needs interventions), psychologists must focus on multilevel approaches, working with school direction and with all educational community, centred in human rights, sustainability, psychological well-being and socioemotional development, as well as in promoting community unity and support, positive parenting and equity and inclusion in all society.

Fortunately, I think Portugal have good examples on that and recent changes in the role of psychologist in schools, its models of intervention, and the important investment in these professionals (more than duplicate in public schools in last years), are evidence of this.

Have you been to Brighton? Do you think it’s a good base for this particular Congress and its themes?

I never went to Brighton in person before, but I have strong images and a narrative of Brighton… the songs, the books, the movies. Brighton, for me, is a quite different sea and beach from the ones in Portugal that I (and I think all world) love. But it is also where Nick Cave lived before the city became ‘both a more beautiful place to live, and a place where we [he and is family] can’t really continue to live’. I follow his career and life for long time now and I watched 20,000 Days On Earth, a documentary filmed in Brighton about 24 fictious hours in his life. In that, he said that ‘all of our days are numbered (…) sometimes this idea can be the smallest thing in the world, a little flame (…) if you can hold on to that flame great things can be constructed around it that are massive and powerful and world changing – all held up by the tinniest of ideas.’

When in Brighton, in the first days of July, I’ll have had almost 14,600 days in Earth. I’m motivated to make my small contribution to the world to ‘become both a more beautiful place to live, and a place where we really could continue to live’. For that, it is critical and possible to eradicate poverty and exclusion, and to use psychology’s contributions, in an interdisciplinary approach, to address other challenges that will shape our future and to unite communities for a more sustainable world.

Brighton, as a special, strong, and inclusive city, is the perfect places to unite psychologists in these challenging times. Let’s raise this flame of great things that can be built around it, things that are massive and powerful and world changing. To add another ‘s’ to sun, sand, and sea: social. Social psychology and transformation for a fairer world with opportunities of well-being and self-determination for all.

My hope is to see this happening in my 20,000th day on Earth and, who knows, getting back to Brighton.

Tiago Pereira

‘Let’s raise this flame of great things that can be built’

The Psychologist; July23

https://www.bps.org.uk/psychologist/lets-raise-flame-great-things-can-be-built

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30 meses ao redor, um pedido e um compromisso (Ao redor…; 21.08.2023)

No próximo dia 24 de Agosto passam 30 meses da data em que escrevi o primeiro artigo desta rubrica. Chamei-lhe “Nós e os nossos Mundos” e terminava com uma proposta: “Pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntas/os podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa.”

Nesse dia, sabia dos desafios complexos do país e do Mundo nesse momento e sabia, também, que estariam para vir outros, não menos complexos e não totalmente previsíveis. Estávamos a 24 de Fevereiro de 2021 e não previa que, exactamente um ano depois, se entrasse numa escalada da invasão pela Federação Russa da Ucrânia e se iniciasse uma Guerra na Europa. Ou que estaríamos hoje, enquanto nos debatemos com eventos climatéricos significativos resultantes, também, da crise climática, a discutir, como estamos a discutir, os impactos da inteligência artificial generativa, dos computadores espaciais e realidade virtual ou a preparamo-nos para pensar as transformações que podem advir com os futuros computadores quânticos.

É por isso, pensando no presente, mas sobretudo no futuro, que 63 artigos depois desse primeiro, aqui partilho um pedido e um compromisso.

Se há algo que parece unânime no debate público em Portugal, talvez no Mundo, é a necessidade de potenciar o crescimento económico. Ora, o pedido que partilho convosco é para que, enquanto sociedade, em Portugal e no Mundo, procuremos complementar este discurso e objectivo com a necessidade de promover, simultaneamente, a equidade e a segurança, incluindo psicológica, de pessoas e comunidades, como vectores fundamentais para, num quadro de direitos humanos, democracia e multilateralismo e de protecção do meio ambiente, contribuirmos para a possibilidade de bem-estar de pessoas e para a coesão social.

Tal como tem acontecido com a pobreza, particularmente com a pobreza extrema, também a nível global existiu nas últimas 3 décadas uma significativa redução das desigualdades globais entre países, manifesta em indicadores como a esperança média de vida, o acesso a alimentos e água potável, à educação ou à internet e outros meios de comunicação. Porém, existem neste percurso três questões que importa detalhar e que devem estimular reflexão e mobilizar enquanto sociedade.

Se a diferença entre os países classificados como economias mais desenvolvidas e menos desenvolvidas diminuiu nestes elementos, não o fez em todas as áreas. Dois exemplos em dimensões relevantes: a mortalidade infantil, que descendo em ambos os grupos de países, fê-lo muito mais intensamente nos países com economias mais desenvolvidas, aumentando a diferença e desigualdade. Também na poluição do ar a diferença aumentou nos últimos anos, muito devido ao crescimento das cidades, da população e da industrialização dos países apelidados de em desenvolvimento.

Este ponto, a par do acesso a espaços azuis e verdes, traz-nos à segunda importante questão. O facto de, além das iniquidades globais, existirem iniquidades nacionais. Em Portugal o ritmo de decréscimo tem sido relativamente baixo no que se refere aos rendimentos e permanecem desfasamentos significativos em elementos como a saúde, a educação, a habitação ou o acesso à recreação, à cultura ou ao desporto pelo nível de rendimentos, localização (por vezes dentro da mesma cidade) ou pertença comunitária. É, também por isso, que sendo possível como se tem demonstrado, importa acelerar e aprofundar a redução das desigualdades, algo fundamental à promoção da saúde pública, da capacidade de agência, controlo e previsibilidade das pessoas, logo do seu bem-estar e, portanto, do desenvolvimento da sociedade.

Finalmente, a redução das desigualdades está também positivamente associada a maior confiança nas outras pessoas, nas instituições, incluindo políticas, e na coesão social. É por isso que retrocessos nos últimos anos na redução da desigualdade em algumas áreas, particularmente na que se refere à vivência de liberdades de direitos e política e da vivência em democracias, periga estes elementos e nos deve fazer reflectir na forma como forças da sociedade civil e da política usam o medo, a instigação do ódio e a desinformação para procurar polarizar a sociedade, promover a desconfiança, romper contratos sociais e diminuir direitos. Como os usam para fragilizar a segurança, incluindo a segurança psicológica, de todas as pessoas numa sociedade.

O discurso de ódio e o desrespeito por condições diversas de vivência, incluindo práticas religiosas, pertença comunitária, condição de vivência no país ou orientação sexual, depois de terem diminuído significativamente nas últimas décadas, estão, nos últimos anos, em crescimento em alguns países e continentes no Mundo, incluindo na Europa. A ascensão das chamadas “democracias iliberais” e o retorno do autoritarismo em alguns países condicionam a segurança, incluindo a psicológica, e a igualdade, como fundamentos base das sociedades. Prevenir, portanto, a inversão de caminhos de maior segurança psicológica para todas as pessoas e comunidades, desde logo na Europa e em Portugal em concreto e generalizar esta necessidade Mundo fora, é fundamental à promoção do bem-estar das pessoas e da coesão social. Da possibilidade de respondermos à adversidade e a acontecimentos de vida negativos com suporte de outras pessoas e/ou com apoio comunitário ou social. Da possibilidade de errarmos e de, por isso, não sermos eternamente penalizados, particularmente se tivermos determinadas características ou condições face a outras pessoas, com outras características ou condições.

É este, assim, o meu pedido. Que à necessidade de crescimento económico, unânime no debate público, somemos a promoção da equidade e da segurança, incluindo psicológica, e que todas as pessoas, quaisquer que sejam os seus papéis e responsabilidades na sociedade, se envolvam e para isso contribuam. Se este é o meu pedido, o compromisso que partilho é que, enquanto este espaço e esta rubrica me for permitida, também aqui vou continuar a disponibilizar contributos, a partir de um olhar que procuro que seja informado pela ciência, para que este pedido seja tema e desígnio e de como é possível continuarmos e acelerarmos o caminho percorrido nestas áreas em Portugal e no Mundo.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a psicologia, enquanto ciência e profissão, tem, necessariamente, que procurar contribuir mais para informação e literacia da população sobre os impactos da desigualdade e da insegurança psicológica nas pessoas e sua possibilidade de bem-estar, nas comunidades e seu desenvolvimento e na sociedade e sua coesão social. Tem, também e necessariamente, que contribuir, conjuntamente com outras disciplinas, para promover situações e/ou transformações sociais que permitam e promovam os valores da equidade e da segurança, incluindo a segurança psicológica. Por isso, este meu pedido, a quem me lê e também à minha ciência e profissão. Por isso, este compromisso meu, como responsável desta rúbrica e enquanto psicólogo.

 

Tiago Pereira

30 meses ao redor, um pedido e um compromisso

in Sábado (Ao redor…); 21.08.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/30-meses-ao-redor-um-pedido-e-um-compromisso

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30 meses ao redor, um pedido e um compromisso

Hoje passam 30 meses da data em que escrevi o 1º artigo da rubrica “Ao redor”. Chamei-lhe “Nós e os nossos Mundos” e terminava com uma proposta: “Pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntas/os podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa.”

“Nesse dia, sabia dos desafios complexos do país e do Mundo nesse momento e sabia, também, que estariam para vir outros, não menos complexos e não totalmente previsíveis. Estávamos a 24 de Fevereiro de 2021 e não previa que, exactamente um ano depois, se entrasse numa escalada da invasão pela Federação Russa da Ucrânia e se iniciasse uma Guerra na Europa (…) É por isso, pensando no presente, mas sobretudo no futuro, que 63 artigos depois desse primeiro, aqui partilho um pedido e um compromisso.”

“30 meses ao redor, um pedido e um compromisso”, 64º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) parte do pedido de complementarmos o discurso sobre a necessidade de promovermos crescimento económico, “com a necessidade de promovermos, simultaneamente, a equidade e a segurança, incluindo psicológica, de pessoas e comunidades, como vectores fundamentais para, num quadro de direitos humanos, democracia e multilateralismo e de protecção do meio ambiente, contribuirmos para a possibilidade de bem-estar e para a coesão social.”

Afirma-o possível, como a redução significativa das desigualdades nas últimas 3 décadas demonstrou, mas desafiante, particularmente no que se refere a determinadas dimensões e a “iniquidades internas”, por ex. em Portugal, onde “o ritmo de decréscimo da desigualdade tem sido relativamente baixo no que se refere aos rendimentos e permanecem desfasamentos significativos na saúde, educação, habitação ou no acesso à recreação, cultura ou ao desporto pelo nível de rendimentos, localização (por vezes dentro da mesma cidade) ou pertença comunitária.”

Nele abordo ainda como “a ascensão das chamadas “democracias iliberais” e o retorno do autoritarismo em alguns países condicionam a segurança, incluindo a psicológica, e a igualdade, como fundamentos base das sociedades” essenciais “à promoção do bem-estar e da coesão social.”

Assumo, finalmente, o compromisso de, “enquanto este espaço e esta rubrica me for permitida, continuar a disponibilizar contributos, a partir de um olhar que procuro que seja informado pela ciência, para que este pedido seja tema e desígnio e de como é possível continuarmos e acelerarmos o caminho percorrido nestas áreas em Portugal e no Mundo.”

São particularmente significativos os “impactos da desigualdade e da insegurança psicológica nas pessoas e sua possibilidade de bem-estar, nas comunidades e seu desenvolvimento e na sociedade e sua coesão social” (…) “Por isso, este meu pedido, a quem me lê e também à minha ciência e profissão. Por isso, este meu compromisso, como responsável desta rúbrica e enquanto psicólogo.”

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A confiança, uma vez mais…

Quem por aqui me vai acompanhando sabe-me fascinado por pormenores e pelo simbólico. O não tangível que partilhamos e aquilo em que precisamos de acreditar, juntos, para que exista. Da democracia ao dinheiro passando pelas instituições, é o facto de acreditarmos (ou não) neles que os (des)legitima e lhes dá (ou não) valor.

Nesse acreditar, a confiança é essencial. Confiança que vai sendo desafiada, ora pela quebra dos mediadores formais no acesso à (des)informação na sociedade contemporânea, ora por pessoas, organizadas ou não, com fins políticos ou económicos.

Quem por aqui me vai acompanhando sabe também que julgo que a confiança (em nós, nas/os outras/os e nas instituições) é um valor essencial a promover e preservar porque influencia a nossa possibilidade de bem-estar e a coesão social. Sabe, ainda, que defendo que acompanhemos as tendências da confiança da população, como fonte de informação sobre os factores que as determinam e para a tomada de decisão informada.

Nesse sentido, numa equipa coordenada pelo Miguel Ricou e que envolveu na 1ª fase a Sílvia Marina, a Helena Patrícia Pereira e o Ricardo Picoli e depois o Hugo Rodrigues Fernandes, promovemos dois pequenos estudos acerca da confiança em grupos profissionais no período da pandemia por COVID-19. O 1º publicado em Março de 2021 [COVID-19 Pandemic: Effect on Confidence Levels of Portuguese Towards People of Different Professions]. O 2º há dias [Trends in trust of professional groups in Portugal during COVID-19].

Neles encontramos resultados que apontam para o aumento da confiança em grupos profissionais cuja actividade se baseia na ciência neste período, particularmente, em médicas/os, enfermeiras/ou e investigadoras/es, e uma tendência contrária em jornalistas e decisoras/es políticas/os, algo que, creio, merece reflexão.

“Em 1964 73% das/os Republicanas/os dizia confiar que o governo federal faria o melhor sempre ou quase sempre. Hoje esse número desceu para 9%. Podemos ver a mesma tendência para os media, as Escolas ou Universidades públicas ou as vacinas. Não podemos compreender o Partido Republicano hoje sem compreender o colapso total da confiança nas instituições”, dizem-nos a abrir uma conversa com Katharine Ham’s sobre a “rampa deslizante” para a desconfiança nos EUA.

Ouço-o e evoco o Cormac McCarthy que no seu “A Estrada” tratou a confiança máxima entre pai e filho num contexto de desconfiança máxima, num Mundo pós-apocalíptico, com a civilização e as suas bases em colapso. Nele escreveu: “Tu tens de carregar o fogo. | Eu não sei como. | Sim, sabes sim. | O fogo é real? | O fogo? Sim, é. | Onde está? Eu não sei onde está. | Sim, sabes. Está dentro de ti. Sempre esteve lá. Eu consigo vê-lo.”

A confiança está dentro de nós. Que a carreguemos e que façamos, juntos, por a ver e nela acreditar.

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Desenvolver perspectiva e construir esperança como antídoto para os desafios do presente e do futuro (Ao redor…; 09.08.2023)

“Não, acho que os tempos eram outros (…) Vivíamos em tempos sem medo do futuro. Com uma grande expectativa em relação ao que poderia vir do futuro.” Recentemente, num podcast, ouvi a Eurodeputada Marisa Matias dizê-lo, após explicar o seu dia-a-dia enquanto estudante universitária num momento em que, depois das aulas e durante cerca de dois anos, trabalhou entre as 22h e as 02h. “E tu pensavas quando estavas nesses trabalhos, nessas limpezas e a trabalhar à noite, que estavas numa espécie de ciclo fechado, que seria difícil sair dele? Ou seja, que estavas quase que fadada a uma vida que não sairia daquilo?”, havia perguntado o jornalista. “Sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E perspectiva.

Muito mudou nas décadas que passaram sobre o tempo em que a geração de 70 pensava o futuro quando adolescentes e jovens adultas/os. Muito. Mudaram as circunstâncias. Mudou a rapidez com que mudam as circunstâncias e como as mudanças nos impactam. Mudou a forma como acedemos e comunicamos as circunstâncias. Quando antes pensávamos e projetávamos e projetávamo-nos no futuro, hoje tendemos para o presente, como que soprados por ventos de incerteza. Hoje tendemos para o presente, como que estimulados por media e por redes sociais que reforçam a propensão humana de considerarmos mais o caso que a tendência, mais o negativo que o positivo.

Tudo a concorrer para que o medo emerja e se propague, gerando mais ansiedade e medo, dividindo-nos como sociedade, condicionando-nos e não nos permitindo florescer e desenvolver como indivíduos. Impelindo-nos para nos polarizarmos, como sociedade. Impelindo-nos para nos comportarmos, nos movermos, nos mobilizarmos mais pelo evitamento do que não queremos, do que não gostamos, do que não acreditamos, de quem não queremos que pela procura do que queremos, do que gostamos, do que acreditamos, de quem queremos. Para nos activarmos, pela oposição. Para, fundamentalmente, descrermos das outras e dos outros e da sociedade. Para desacreditarmos de nós. Para perdermos a perspectiva.

Mas, também no podcast, a Eurodeputada Marisa Matias conta-nos sobre o seu pai e sobre os quase dois anos em que este dormiu cada noite da sua semana em dois períodos. O imediatamente anterior ao despertador tocar para a ir buscar a Coimbra, onde estudava e trabalhava, às 02.30h de cada madrugada. O que sucedia à chegada de ambos e antecedia o despertador tocar, novamente, para mais um dia de trabalho seu e de estudo e trabalho dela. De uma ela, sua filha, “sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E esperança.

Uma esperança possível, naquele momento, dependente das circunstâncias, mas, também, do que e de quem nos rodeia. Não um desejo passivo. Não forças que ilegitimam as dúvidas, as dificuldades, a sobrecarga. Antes uma esperança enquanto energia que nos activa, pela agência. Antes uma esperança que nos devolve poder, controlo e motivação, porque nos dá um caminho. Uma esperança que previne que nos movamos pelo medo, de falhar (novamente), por exemplo. Uma esperança que previne que nos movamos pelo evitamento, de ousar tentar, para não falhar (novamente), por exemplo.

Uma esperança possível e que, também pela ciência que a estuda, sabemos que se desconstrói quando, perante a adversidade, a raiva ou a fúria bloqueiam objectivos perspectivados, resultando, sucessivamente, numa descrença que não nos permite ajustar objectivos, porque nos bloqueia os caminhos, e numa apatia que nos desmotiva e pode vencer. Mas, ao contrário, que se constrói, que se pode promover, ensinar, educar. Uma esperança que depende de identificarmos um caminho e de navegarmos através dele com sentido de agência e de controlo. Que vive de histórias significativas para nós e exemplos, que vão além da mera ocasião e são especialmente impactantes quando tratam processos de construção e vida longos no tempo e impacto. De como, ainda, vive do suporte social e de como a resistência colectiva promove a esperança colectiva. De como a esperança, individual e colectiva, nos pode activar, enquanto indivíduos e sociedade, e se sobrepor ao medo e ao evitamento.

A perspectiva e a esperança são antídotos poderosos para os impactos negativos dos complexos desafios do presente e do futuro. São veículos essenciais para navegar o Mundo actual e as suas circunstâncias, para a nossa adaptação e bem-estar. E, se forças existem que os desafiam, são também possíveis de ensinar, de educar, de desenvolver e, particularmente, de construir. Também pela ciência. Também com psicólogas e psicólogos, como motor junto de indivíduos e da sociedade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, precisamos de olhar e pensar mais as tendências e menos as manchetes. Mais as tendências dos dados que determinam o bem-estar e como têm ou não evoluído. Menos as manchetes dos media que nos dão o acontecimento, em cima do acontecimento, não raras vezes marcado pela negatividade. Mas, também, mais as nossas tendências e menos, apenas, o nosso dia-a-dia, não raras vezes marcado pela adversidade. Recuperar um “sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E desenvolver perspectiva, construindo esperança.

 

Tiago Pereira

Desenvolver perspectiva e construir esperança como antídoto para os desafios do presente e do futuro

in Sábado (Ao redor…); 09.08.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/desenvolver-perspectiva-e-construir-esperanca-como-antidoto-para-os-desafios-do-presente-e-do-futuro

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Dualidade(s)

Ontem nasceu em Portugal o primeiro bebé por inseminação pós-morte. O Hugo resulta de uma luta e activismo da sua mãe, Ângela, que nos e o inspirará, estou certo, vida fora. Desse activismo, e de um desejo partilhado com o seu marido que faleceu vítima de cancro aos 29 anos, e que deixou escrito que o desejava, mesmo quando a Lei ainda não o permitia.

Lei esta, agora com resultado concreto, cuja base, desafiante, não depende apenas das áreas da Medicina, Direito ou Ética. Envolve, também e necessariamente, a Psicologia e a consideração dos impactos psicológicos destes processos, naturalmente complexos, em todas as pessoas envolvidas. Isso mesmo referiu a Ordem dos Psicólogos Portugueses no contributo científico em fase de discussão da alteração à Lei (https://recursos.ordemdospsicologos.pt/files/artigos/parecer_sobre_projectos_de_lei_n___214_xiv__223_xiv__237_xiv_e_572_xiv.pdf) que o passou a possibilitar e que permitiu, entre outras alterações, que fosse nela incluído um ponto (Art. 22º; 7) que refere que “É assegurado, a quem o requerer, acompanhamento psicológico no quadro da tomada de decisão de realização de uma inseminação post mortem, bem como durante e após o respetivo procedimento.” Um contributo da ciência e da prática das psicólogas e psicólogos para, cremos, melhorar a Lei e reforçar a possibilidade de bem-estar de todas as pessoas envolvidas e a confiança da sociedade nestes processos.

Este nascimento acontece, curiosamente, quando estou a ler um pequeno livro cujo narrador é um bebé ainda no útero da sua mãe, no seu último trimestre de gravidez. A certa altura tem uma passagem impactante sobre a sua dúvida em se nascerá num “tempo bom” quando considera os desafios do tempo presente (de há menos de uma década) de um Reino Unido onde nascerá Vs. o tempo do bem-estar e de todos os indicadores que, retirando os desafios imensos que descreveu, tornariam sempre o melhor e, eventualmente, mais seguro momento para nascer e viver no contexto do UK.

Esta dualidade creio que nos acompanha também nestes exemplos. Esta possibilidade, oportunidade, mesmo num tempo desafiante. Esta, outras, outra.

Penso, por exemplo, o que pensaria G. Engel quando, após a publicação em 1977 de um artigo na Science propondo um “modelo biopsicossocial” que desafiasse “o modelo biomédico” que “não deixa espaço na sua conceptualização ao papel das dimensões sociais, psicológicas e comportamentais na doença”, veria passarem 23 anos até ao fim do século e milénio e mais 23 anos de novo século e milénio para as United Nations aprovarem, em 26 de Junho último, a primeira resolução sobre “saúde mental e suporte psicossocial” para o desenvolvimento sustentável e paz, assente na protecção direitos humanos.

46 anos passaram, é certo. Mas temos hoje aprovada por unanimidade (e bem sabemos o quão isso é relevante por difícil ao tratar direitos humanos no quadro dos países da ONU) uma resolução que o determina e nos convoca. A todas e todos, por todas e todos.

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Desenvolver perspectiva e construir esperança como antídoto para os desafios do presente e do futuro

“Não, acho que os tempos eram outros (…) Vivíamos em tempos sem medo do futuro. Com uma grande expectativa em relação ao que poderia vir do futuro.” Recentemente, num podcast, ouvi a Eurodeputada Marisa Matias dizê-lo”, após explicar um dia-a-dia particularmente exigente, como um momento da sua vida. “Sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E perspectiva.

“Desenvolver perspectiva e construir esperança como antídoto para os desafios do presente e do futuro”, 63º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) parte do quanto mudou desde “o tempo em que a geração de 70 pensava o futuro quando adolescentes e jovens adultas/os”.

O quanto “mudaram as circunstâncias, a rapidez com que mudam e como nos impactam. Mudou a forma como acedemos e comunicamos as circunstâncias.” (…) O quanto hoje “tendemos para o presente, como que estimulados por media e por redes sociais que reforçam a propensão humana de considerarmos mais o caso que a tendência, mais o negativo que o positivo.” (…) O quanto isto concorre “para que o medo emerja e se propague” (…) e nos impele “para nos comportarmos, nos movermos, nos mobilizarmos mais pelo evitamento do que não queremos, do que não gostamos, do que não acreditamos, de quem não queremos que pela procura do que queremos, do que gostamos, do que acreditamos, de quem queremos (…) Para, fundamentalmente, descrermos das outras e dos outros e da sociedade. Para desacreditarmos de nós. Para perdermos a perspectiva.”

Mas, também no podcast, conta-nos que o seu pai acordava todas as noites para, de madrugada, a ir buscar a Coimbra, podendo assim trabalhar à noite enquanto estudava (…) “Sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E esperança.

Uma esperança possível (…) não um desejo passivo. Não forças que ilegitimam as dúvidas, as dificuldades, a sobrecarga. Antes uma esperança enquanto energia que nos activa, pela agência (…) que previne que nos movamos pelo evitamento.

“Uma esperança possível e que, também pela ciência que a estuda, sabemos que se desconstrói quando, perante a adversidade, a raiva ou a fúria bloqueiam objectivos perspectivados (…) Mas, ao contrário, que se constrói, que se pode promover, ensinar, educar. Uma esperança que depende de identificarmos um caminho e de navegarmos através dele com sentido de agência e de controlo (…) Uma esperança, individual e colectiva, que nos pode activar, enquanto indivíduos e sociedade, e se sobrepor ao medo e ao evitamento.”

“A perspectiva e a esperança são antídotos poderosos para os impactos negativos dos complexos desafios do presente e do futuro. São veículos essenciais para navegar o Mundo actual e as suas circunstâncias, para a nossa adaptação e bem-estar. E, se forças existem que os desafiam, são também possíveis de ensinar, de educar, de desenvolver e, particularmente, de construir. Também pela ciência. Também com psicólogas e psicólogos, como motor junto de indivíduos e da sociedade.”