“Domingo decorrem as Eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira (…) Num contexto de crise(s) permanente(s), de imprevisibilidade, incerteza e transições diversas, do clima ao digital; num Mundo pautado pela “quebra” de mediadores e da confiança, pela crescente polarização, tensão geopolítica e enfraquecimento das democracias, julgo fundamental, neste início de ciclo de eleições, pensarmos a representatividade e a abstenção eleitoral.”
“As vozes ausentes: abstenção eleitoral, remédios e efeitos secundários”, 66º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) centra-se no aumento consistente da abstenção nas últimas décadas, “fenómeno com impacto profundo na sociedade” e na “necessidade de compreendermos o que o justifica se, com eficácia, quisermos co-construir e co-dinamizar acções necessárias à inversão deste caminho.”
“Compreendermos que abstermo-nos ou não resulta, não apenas da favorabilidade da data das eleições ou da facilidade de acesso às mesas de voto, embora estas a influenciem, mas também da conjugação de um conjunto de crenças, sentimentos e de atitudes com factores socioeconómicos (…) Factores que, por um lado, reforçam o status quo e os grupos e características maioritárias das eleitas e eleitos, bem como a parte da população que, tendencialmente, mais beneficia das opções e políticas resultantes das eleições. Por outro, perpetuam a carência de representatividade que resulta desta desproporção, do desincentivo que dela decorre e do facto das pessoas que se sentem menos empoderadas, tenderem a sentir-se, simultaneamente, menos confiantes, menosprezarem as suas capacidades e, também por isso, participarem e envolverem-se menos.”
No artigo concluo “pela necessidade de três acções: investigar, em permanência, as causas e consequências da abstenção, considerando a sua importância e a necessidade da sua compreensão; usar do conhecimento científico para promover acções e incitativas de prevenção da abstenção e de promoção da participação eleitoral (dando exemplos concretos e avaliáveis); promover o envolvimento e participação nos processos eleitorais de pessoas/comunidades sub-representadas (prevenindo o risco de se aumentar as iniquidades de participação eleitoral com estas acções, reforçando-a em grupos populacionais que já hoje mais votam e não noutros, acentuando fossos de participação e representação entre grupos e cidadãos).
Proteger e reforçar a democracia “depende de, mobilizando o conhecimento e investindo com esse objectivo, invertermos o crescimento da abstenção e aumentarmos a representação e os sentimentos de pertença de todos os cidadãos, independentemente das suas condições. Depende de promovermos o empoderamento das pessoas, o seu envolvimento cívico e a sua literacia política. Depende de melhorarmos as instituições e as suas respostas para todas e todos. Depende de tudo isto, todos os dias, todos os anos.”