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Desenvolver perspectiva e construir esperança como antídoto para os desafios do presente e do futuro (Ao redor…; 09.08.2023)

“Não, acho que os tempos eram outros (…) Vivíamos em tempos sem medo do futuro. Com uma grande expectativa em relação ao que poderia vir do futuro.” Recentemente, num podcast, ouvi a Eurodeputada Marisa Matias dizê-lo, após explicar o seu dia-a-dia enquanto estudante universitária num momento em que, depois das aulas e durante cerca de dois anos, trabalhou entre as 22h e as 02h. “E tu pensavas quando estavas nesses trabalhos, nessas limpezas e a trabalhar à noite, que estavas numa espécie de ciclo fechado, que seria difícil sair dele? Ou seja, que estavas quase que fadada a uma vida que não sairia daquilo?”, havia perguntado o jornalista. “Sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E perspectiva.

Muito mudou nas décadas que passaram sobre o tempo em que a geração de 70 pensava o futuro quando adolescentes e jovens adultas/os. Muito. Mudaram as circunstâncias. Mudou a rapidez com que mudam as circunstâncias e como as mudanças nos impactam. Mudou a forma como acedemos e comunicamos as circunstâncias. Quando antes pensávamos e projetávamos e projetávamo-nos no futuro, hoje tendemos para o presente, como que soprados por ventos de incerteza. Hoje tendemos para o presente, como que estimulados por media e por redes sociais que reforçam a propensão humana de considerarmos mais o caso que a tendência, mais o negativo que o positivo.

Tudo a concorrer para que o medo emerja e se propague, gerando mais ansiedade e medo, dividindo-nos como sociedade, condicionando-nos e não nos permitindo florescer e desenvolver como indivíduos. Impelindo-nos para nos polarizarmos, como sociedade. Impelindo-nos para nos comportarmos, nos movermos, nos mobilizarmos mais pelo evitamento do que não queremos, do que não gostamos, do que não acreditamos, de quem não queremos que pela procura do que queremos, do que gostamos, do que acreditamos, de quem queremos. Para nos activarmos, pela oposição. Para, fundamentalmente, descrermos das outras e dos outros e da sociedade. Para desacreditarmos de nós. Para perdermos a perspectiva.

Mas, também no podcast, a Eurodeputada Marisa Matias conta-nos sobre o seu pai e sobre os quase dois anos em que este dormiu cada noite da sua semana em dois períodos. O imediatamente anterior ao despertador tocar para a ir buscar a Coimbra, onde estudava e trabalhava, às 02.30h de cada madrugada. O que sucedia à chegada de ambos e antecedia o despertador tocar, novamente, para mais um dia de trabalho seu e de estudo e trabalho dela. De uma ela, sua filha, “sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E esperança.

Uma esperança possível, naquele momento, dependente das circunstâncias, mas, também, do que e de quem nos rodeia. Não um desejo passivo. Não forças que ilegitimam as dúvidas, as dificuldades, a sobrecarga. Antes uma esperança enquanto energia que nos activa, pela agência. Antes uma esperança que nos devolve poder, controlo e motivação, porque nos dá um caminho. Uma esperança que previne que nos movamos pelo medo, de falhar (novamente), por exemplo. Uma esperança que previne que nos movamos pelo evitamento, de ousar tentar, para não falhar (novamente), por exemplo.

Uma esperança possível e que, também pela ciência que a estuda, sabemos que se desconstrói quando, perante a adversidade, a raiva ou a fúria bloqueiam objectivos perspectivados, resultando, sucessivamente, numa descrença que não nos permite ajustar objectivos, porque nos bloqueia os caminhos, e numa apatia que nos desmotiva e pode vencer. Mas, ao contrário, que se constrói, que se pode promover, ensinar, educar. Uma esperança que depende de identificarmos um caminho e de navegarmos através dele com sentido de agência e de controlo. Que vive de histórias significativas para nós e exemplos, que vão além da mera ocasião e são especialmente impactantes quando tratam processos de construção e vida longos no tempo e impacto. De como, ainda, vive do suporte social e de como a resistência colectiva promove a esperança colectiva. De como a esperança, individual e colectiva, nos pode activar, enquanto indivíduos e sociedade, e se sobrepor ao medo e ao evitamento.

A perspectiva e a esperança são antídotos poderosos para os impactos negativos dos complexos desafios do presente e do futuro. São veículos essenciais para navegar o Mundo actual e as suas circunstâncias, para a nossa adaptação e bem-estar. E, se forças existem que os desafiam, são também possíveis de ensinar, de educar, de desenvolver e, particularmente, de construir. Também pela ciência. Também com psicólogas e psicólogos, como motor junto de indivíduos e da sociedade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, precisamos de olhar e pensar mais as tendências e menos as manchetes. Mais as tendências dos dados que determinam o bem-estar e como têm ou não evoluído. Menos as manchetes dos media que nos dão o acontecimento, em cima do acontecimento, não raras vezes marcado pela negatividade. Mas, também, mais as nossas tendências e menos, apenas, o nosso dia-a-dia, não raras vezes marcado pela adversidade. Recuperar um “sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E desenvolver perspectiva, construindo esperança.

 

Tiago Pereira

Desenvolver perspectiva e construir esperança como antídoto para os desafios do presente e do futuro

in Sábado (Ao redor…); 09.08.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/desenvolver-perspectiva-e-construir-esperanca-como-antidoto-para-os-desafios-do-presente-e-do-futuro

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Desenvolver perspectiva e construir esperança como antídoto para os desafios do presente e do futuro

“Não, acho que os tempos eram outros (…) Vivíamos em tempos sem medo do futuro. Com uma grande expectativa em relação ao que poderia vir do futuro.” Recentemente, num podcast, ouvi a Eurodeputada Marisa Matias dizê-lo”, após explicar um dia-a-dia particularmente exigente, como um momento da sua vida. “Sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E perspectiva.

“Desenvolver perspectiva e construir esperança como antídoto para os desafios do presente e do futuro”, 63º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) parte do quanto mudou desde “o tempo em que a geração de 70 pensava o futuro quando adolescentes e jovens adultas/os”.

O quanto “mudaram as circunstâncias, a rapidez com que mudam e como nos impactam. Mudou a forma como acedemos e comunicamos as circunstâncias.” (…) O quanto hoje “tendemos para o presente, como que estimulados por media e por redes sociais que reforçam a propensão humana de considerarmos mais o caso que a tendência, mais o negativo que o positivo.” (…) O quanto isto concorre “para que o medo emerja e se propague” (…) e nos impele “para nos comportarmos, nos movermos, nos mobilizarmos mais pelo evitamento do que não queremos, do que não gostamos, do que não acreditamos, de quem não queremos que pela procura do que queremos, do que gostamos, do que acreditamos, de quem queremos (…) Para, fundamentalmente, descrermos das outras e dos outros e da sociedade. Para desacreditarmos de nós. Para perdermos a perspectiva.”

Mas, também no podcast, conta-nos que o seu pai acordava todas as noites para, de madrugada, a ir buscar a Coimbra, podendo assim trabalhar à noite enquanto estudava (…) “Sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E esperança.

Uma esperança possível (…) não um desejo passivo. Não forças que ilegitimam as dúvidas, as dificuldades, a sobrecarga. Antes uma esperança enquanto energia que nos activa, pela agência (…) que previne que nos movamos pelo evitamento.

“Uma esperança possível e que, também pela ciência que a estuda, sabemos que se desconstrói quando, perante a adversidade, a raiva ou a fúria bloqueiam objectivos perspectivados (…) Mas, ao contrário, que se constrói, que se pode promover, ensinar, educar. Uma esperança que depende de identificarmos um caminho e de navegarmos através dele com sentido de agência e de controlo (…) Uma esperança, individual e colectiva, que nos pode activar, enquanto indivíduos e sociedade, e se sobrepor ao medo e ao evitamento.”

“A perspectiva e a esperança são antídotos poderosos para os impactos negativos dos complexos desafios do presente e do futuro. São veículos essenciais para navegar o Mundo actual e as suas circunstâncias, para a nossa adaptação e bem-estar. E, se forças existem que os desafiam, são também possíveis de ensinar, de educar, de desenvolver e, particularmente, de construir. Também pela ciência. Também com psicólogas e psicólogos, como motor junto de indivíduos e da sociedade.”

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O país precisa de mais saúde pública. A saúde pública precisa de mais psicologia. (Ao redor…; 26.07.2023)

Mas beneficiaria a saúde pública em Portugal de ter mais psicólogas/os nas suas equipas e de ter mais conhecimento e ciência psicológica no seu planeamento e na sua gestão e administração? Sim, estou certo de que sim. Tal qual estou certo de que a experiência da pandemia o demonstrou possível e os desafios do presente e futuro o exigem.

E beneficiaria, certamente, nos papéis mais tradicionalmente atribuídos a estes profissionais, na promoção da saúde mental, desde a promoção da literacia nesta área, à promoção do autocuidado e de respostas de prevenção e intervenção contingentes aos problemas, mas, também, na intervenção em situações de crise ou catástrofe.

Mas mais. Beneficiaria no contributo da psicologia, enquanto ciência comportamental, para o melhor desenho e maior efectividade das políticas públicas na área da saúde e no que aportaria aos processos de investigação e avaliação, por exemplo na percepção de risco, no risco comportamental ou custo-efectividade de intervenções. Beneficiaria no trabalho conjunto, multidisciplinar e de consultoria, junto de profissionais de saúde e na formação, activação, mobilização e possibilidade de promover educação psicológica deliberada relativa, por exemplo, à adesão a comportamentos pró-sociais e/ou manutenção de determinados comportamentos. No processo de transição digital, de integração de novas tecnologias e do trabalho com grandes números, fundamentais no domínio da saúde pública e que a psicologia pode apoiar, a par da capacitação dos consumidores de saúde e da melhoria dos processos de informação, comunicação e da eficácia de campanhas, por exemplo de prevenção do consumo de tabaco ou álcool.

Mas, considerando este papel e considerando a disponibilidade e motivação das psicólogas e dos psicólogos, parece justo perguntar porque são ainda tão escassos estes profissionais na área da saúde pública em Portugal? Tal qual parece justo responder que persistem barreiras históricas a esta maior integração que começam na compreensão do papel dos profissionais de psicologia e na sua incorporação na legislação que enquadra as equipas e a sua actividade. Obstáculos que se estendem a uma visão, embora em mutação, ainda pouco focada na promoção da saúde e prevenção da doença e que, ao invés, ainda tende a associar a saúde pública à doença, particularmente às doenças físicas, transmissíveis ou infecciosas, e a um modelo excessivamente, senão exclusivamente, biomédico, centrado, portanto, na/o médica/o, modelo para o qual são dirigidos os principais incentivos financeiros e recursos humanos.

Quebrar estas barreiras e ultrapassar estes obstáculos é algo fundamental para o país responder, também via saúde pública, ao desafio de acrescentar ao aumento da esperança média de vida da população, anos de vida com qualidade e cuidados de saúde mais humanizados e personalizados. Para tal é necessário que, paralelamente ao aumento de recursos humanos na saúde, decorrente das maiores necessidades presentes e futuras, se diversifique a gestão e constituição das equipas e as suas competências, melhorando as suas capacidades, a sua eficiência e uma visão mais biopsicossocial de pessoas e comunidades. É exactamente o preconizado pela Organização Mundial da Saúde que tem advogado, a partir do conceito “uma só saúde”, pelo reforço do papel das políticas ambientais e sociais na saúde (pública) e pelo aumento do investimento em abordagens multissectoriais e multidisciplinares de saúde pública. Nada mais importante. Nada mais essencial, também em Portugal.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, ao crescente reconhecimento da população e da sociedade civil do papel da psicologia e das psicólogas e psicólogos, deveria corresponder uma mais rápida e decisiva integração destes profissionais nas equipas de saúde pública, a par do reforço da própria saúde pública e das políticas de promoção da saúde e bem-estar no nosso país. Um e outro aspecto são fulcrais à promoção da sustentabilidade dos serviços públicos e a um país mais coeso e resiliente face às adversidades hoje existentes e que se prevêm para o futuro. Fulcrais, ainda, a mais solidariedade e ao caminho para transformações sociais essenciais ao reforço do acesso e da equidade de acesso à saúde e da possibilidade de bem-estar para todos.

 

Tiago Pereira

O país precisa de mais saúde pública. A saúde pública precisa de mais psicologia.

in Sábado (Ao redor…); 26.07.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-pais-precisa-de-mais-saude-publica-a-saude-publica-precisa-de-mais-psicologia

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O país precisa de mais saúde pública. A saúde pública precisa de mais psicologia.

Penso ser inegável que a psicologia tem hoje mais “voz e participação na sociedade e que isso contribui para a diminuição do estigma, para o aumento da literacia e do conhecimento e para uma maior participação da ciência e das/os profissionais no debate público e em diferentes contextos, da educação à saúde, passando pela área social e comunitária, desporto e actividade física e, muito importante, das organizações. Em todas estas áreas, mas a ritmo diferente. Na saúde subsistem 2 áreas em que tarda a integração mais consistente da ciência e de mais psicólogas/os: os cuidados de saúde primários e a saúde pública.”

“O país precisa de mais saúde pública. A saúde pública precisa de mais psicologia”, 62º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) responde à questão: “Beneficiaria a saúde pública em Portugal de ter mais psicólogas/os nas suas equipas e de ter mais conhecimento e ciência psicológica no seu planeamento e na sua gestão e administração?”

“Sim, estou certo de que sim. Tal qual estou certo de que a experiência da pandemia o demonstrou possível e os desafios do presente e futuro o exigem”, respondo.

Faço-o afirmando que “a saúde pública tem e terá uma importância significativa, além da resposta a situações de crise, na melhoria dos indicadores de saúde do país (…) e na redução de desigualdades.”

Faço-o afirmando que os contributos das/os psicólogas/os e da psicologia, enquanto ciência comportamental, vão “além dos papéis mais tradicionalmente atribuídos na promoção da saúde mental (…) ou em situações de crise ou catástrofe”, podendo contribuir para o melhor desenho e efectividade das políticas, para melhores processos de investigação e avaliação, para o trabalho conjunto, multidisciplinar e de consultoria, formação, mobilização ou de educação psicológica deliberada, na transição digital, big data ou na capacitação de consumidores de saúde e melhoria de processos de comunicação.

Faço-o afirmando que “persistem barreiras históricas a esta maior integração que começam na compreensão do papel dos profissionais, na sua incorporação na legislação que enquadra as equipas e a sua actividade” e na (ainda) associação da “saúde pública à doença, particularmente às doenças físicas e a um modelo excessivamente, senão exclusivamente, biomédico, centrado, portanto, na/o médica/o, modelo para o qual são dirigidos os principais incentivos financeiros e recursos humanos.”

Mudar é fundamental sendo “necessário que, paralelamente ao aumento de recursos humanos, decorrente das maiores necessidades presentes e futuras, se diversifique a gestão e constituição das equipas e as suas competências, melhorando capacidades, eficiência e apontando a uma visão mais biopsicossocial de pessoas e comunidades como preconizado pela World Health Organization a partir do conceito “uma só saúde” e na advocacia pelo reforço do investimento em abordagens multissectoriais e multidisciplinares de saúde pública.”

“Nada mais essencial, também em Portugal.”

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A falácia do apelo pelo natural, a desigualdade e a negação da ciência (Ao redor…; 11.07.2023)

Eis-nos no Verão. Tempo propicio a pensarmos em nós, no nosso corpo e mente, na nossa saúde e bem-estar. Tempo propicio a associarmos o calor, por vezes extremo, a “bom tempo”. Os alimentos orgânicos ou biológicos a algo “mais saudável”. Tudo quanto é natural a algo “que faz bem”, é seguro e eficaz. Nada mais simples. Nada mais, sistematicamente, aprendido. Nada mais errado.

Não, calor, por vezes extremo, não é “bom tempo”. Não, os alimentos orgânicos ou biológicos não são sempre “mais saudáveis” e seguros. Não, há alimentos naturais que “não fazem bem” e que podem, potencialmente, ser mais perigosos que outros, não biológicos ou orgânicos. Não, há produtos químicos ou sintéticos que são muito mais benéficos face a naturais na promoção da saúde e do bem-estar.

A complexidade desta questão reside no facto dos produtos naturais serem associados a algo “saudável” e “seguro” estando hoje, e na nossa sociedade, abundantemente disponíveis e intensa (por vezes, eficazmente) promovidos e “marketizados”. Podemos, hoje, sem grande dificuldade quando existe poder de compra, alimentarmo-nos todo o dia com produtos orgânicos ou naturais, considerando que desde 2019 mais de 60% dos novos produtos alimentares colocados no mercado mencionam ser “orgânicos”, “naturais” e/ou “sem aditivos”.

O viés pró-natural conjuntamente com o viés desta crescente disponibilidade, reforça a preferência pelo natural e, de certa forma, a “falácia do apelo pelo natural” que justifica, também, porque acabamos a aceitar pagar mais por estes produtos (face a convencionais) e porque inferimos benefícios para a saúde e bem-estar destas escolhas, alimentando todo o ciclo atrás descrito. No entanto, estas nossas escolhas não resultam, necessariamente, de recomendações oficiais e, como Alexandra Bento, Bastonária da Ordem dos Nutricionistas, recentemente afirmou “a evidência científica até à data não corrobora que o consumo de alimentos biológicos possa estar associado a menor incidência de doenças crónicas associadas ao estilo de vida”.

Esta “falácia do apelo pelo natural” tem dois riscos que importa ter presentes. O primeiro relativo a uma potencial generalização da ideia de que os alimentos / produtos convencionais ou químicos são menos saudáveis ou prejudiciais, algo que poderá conduzir a que sejam menos consumidos / utilizados, penalizando particularmente as pessoas e famílias com maiores dificuldades económicas ou com menor acesso a estes produtos (por exemplo, também por viveram em zonas mais remotas).

O segundo relacionado com a associação entre o apelo pelo natural e a negação da ciência, muito expressa, por exemplo, na crescente desconfiança e recusa de terapêuticas químicas (antibióticos e medicação no geral, quimioterapia, …), de terapêuticas baseadas na evidência como a psicoterapia ou outras intervenções psicológicas ou na desconfiança e negação das vacinas, apesar de terem sido e serem algo absolutamente preponderante na melhoria global de bem-estar e qualidade de vida, no aumento da esperança média de vida e diminuição da mortalidade infantil ou na prevenção e erradicação de um conjunto de doenças nas últimas largas décadas.

Mesmo na União Europeia (noutros países os dados são ainda mais significativos), e mesmo ainda em período pré-pandemia (na pandemia alguns destes problemas foram agudizados), mais de 1 em cada 3 cidadãos diziam que as vacinas poderiam “causar as doenças para as quais criam imunidade” e quase 1 em cada 3 “diminuir o sistema imunitário”, sendo a confiança na imunidade natural associada a ideias pró-naturalistas e um dos factores que mais contribuem para a hesitação na vacinação.

Estamos no terceiro ano, da terceira década do terceiro milénio e, num Mundo onde a ciência e conhecimento estão mais acessíveis que nunca, o espaço e o debate público é profundamente influenciado por teorias da conspiração, desinformação ou notícias falas e promessas acientíficas ou pseudocientíficas de resolução dos problemas, dos mais simples aos mais complexos. Como Steven Pinker refere, mesmo para problemas muito complexos e com muito sofrimento associado para pessoas, famílias e comunidades, “o problema é que as pessoas aceitem (e utilizem) as soluções encontradas para os problemas”, vencendo-se o obscurantismo, missão fundamental da sociedade hoje.

Missão fundamental, mas exigente, quando existe um valor monetário e comercial significativo associado a esta situação e cultura. Nos EUA, o sector da saúde mental foi no final de 2022 a área com maior investimento na saúde digital e, ao investimento, não correspondeu o desenvolvimento e a necessária utilização da ciência e da melhor evidência científica, algo particularmente notório na proliferação de “aplicações de saúde mental”, não baseadas em evidência científica. Aplicações que, não raras vezes, prometem soluções para problemas complexos como a ansiedade ou a depressão com apelativas, também por simples, “terapias naturais ou orgânicas” (falar com amigas/os, sair de casa, …), importantes certamente, mas nunca substitutas de intervenções convencionais baseadas na evidência como a intervenção psicológica ou psicofarmacológica, quando necessárias. Significativo valor monetário e comercial, portanto, que vive dos desafios do presente e para o presente, mas que impacta verdadeiramente o futuro de todas as pessoas, seja no fomento do discurso anticiência, seja no fomento da desconfiança, seja no fomento de discursos mais populistas, antipolítica e políticos. Todos, em todo o caso, têm em simultâneo e paralelo a colocação dos interesses pessoais de alguém, de algum movimento ou partido, de alguma empresa ou negócio, acima do bem-comum e uma não preocupação com as pessoas em situação de maior vulnerabilidade, com um futuro de confiança, de ciência e de coesão. Com um futuro mais potencialmente promotor e possibilitador de bem-estar para todos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, passou a ser necessário “marchar” pelos factos, como assinalava recentemente um cartaz de um jovem numa manifestação por acções face à crise climática [“I can’t believe in marching for facts”]. Pelos factos, pela saúde pública e por acções contra a falácia do apelo pelo natural e contra a negação da ciência.

 

Tiago Pereira

A falácia do apelo pelo natural, a desigualdade e a negação da ciência

in Sábado (Ao redor…); 11.07.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-falacia-do-apelo-pelo-natural-a-desigualdade-e-a-negacao-da-ciencia

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A falácia do apelo pelo natural, a desigualdade e a negação da ciência

“Eis-nos no Verão. Tempo propicio a pensarmos em nós, no nosso corpo e mente, na nossa saúde e bem-estar. Tempo propicio a associarmos o calor, por vezes extremo, a “bom tempo”. Os alimentos orgânicos ou biológicos a algo “mais saudável”. Tudo quanto é natural a algo “que faz bem”, é seguro e eficaz. Nada mais simples. Nada mais, sistematicamente, aprendido. Nada mais errado.”

“A falácia do apelo pelo natural, a desigualdade e a negação da ciência”, 61º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) trata a “falácia do apelo pelo natural” e dois riscos dela decorrentes:

  1. A potencial generalização da ideia de que os alimentos / produtos convencionais ou químicos são menos saudáveis ou prejudiciais, algo que poderá conduzir a que sejam menos consumidos / utilizados, penalizando particularmente as pessoas e famílias com maiores dificuldades económicas ou com menor acesso a estes produtos (por ex., também por viveram em zonas mais remotas);
  2. A associação entre o apelo pelo natural e a negação da ciência, muito expressa, por ex., na crescente desconfiança e recusa de terapêuticas químicas (antibióticos e medicação no geral, quimioterapia, …), de terapêuticas baseadas na evidência como a psicoterapia ou outras intervenções psicológicas ou na desconfiança e negação das vacinas, apesar de terem sido e serem algo absolutamente preponderante na melhoria global de bem-estar e qualidade de vida, no aumento da esperança média de vida e diminuição da mortalidade infantil ou na prevenção e erradicação de um conjunto de doenças nas últimas largas décadas.

“Estamos no terceiro ano, da terceira década do terceiro milénio e, num Mundo onde a ciência e conhecimento estão mais acessíveis que nunca, o espaço e o debate público é profundamente influenciado por teorias da conspiração, desinformação ou notícias falas e promessas acientíficas ou pseudocientíficas de resolução dos problemas, dos mais simples aos mais complexos. Como Steven Pinker refere, mesmo para problemas muito complexos e com muito sofrimento associado para pessoas, famílias e comunidades, “o problema é que as pessoas aceitem (e utilizem) as soluções encontradas para os problemas”, vencendo-se o obscurantismo, missão fundamental da sociedade hoje.”

Mais ainda, quando a “falácia do apelo pelo natural” gera um “significativo valor monetário e comercial, vivendo, portanto, dos desafios do presente e para o presente, mas impactando verdadeiramente o futuro de todas as pessoas, seja no fomento do discurso anticiência, seja no fomento da desconfiança, seja no fomento de discursos mais populistas, antipolítica e políticos.”

“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, passou a ser necessário “marchar” pelos factos, como assinalava recentemente um cartaz de um jovem numa manifestação por acções face à crise climática [“I can’t believe in marching for facts”]. Pelos factos, pela saúde pública e por acções contra a falácia do apelo pelo natural e contra a negação da ciência.”

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Uns óculos para pensarmos as profissões no futuro e a solidão e isolamento (Ao redor…; 17.06.2023)

Em 2007, quando a Apple lançou o primeiro iPhone, os 499 dólares que custava e os poucos serviços que disponibilizava deixaram as pessoas descrentes do seu potencial. Não há muito tempo, ouvi na primeira pessoa o CEO da Nokia à época explicar porque estavam certos de que a Apple cometera um erro e de que os clientes queriam telemóveis “pequenos, não grandes”, “baratos, não caros” e que para enviar/ler emails e ver/tirar fotografias “prefeririam outros dispositivos a um telemóvel”. Ouvi-o explicar e reflectir sobre o que aprendeu com esse “erro”, enquanto mostrava um gráfico com uma curva decrescente vertiginosa das vendas da Nokia após 2007.

Nós, enquanto seres humanos, somos no geral pouco eficazes a prever o futuro. Temos diversas características, desde logo emocionais e cognitivas, que assim o determinam. Em todo o caso, tendo a acompanhar o CEO da Apple quando, na recente apresentação do “Vision Pro”, referiu que, como os computadores pessoais e, mais tarde, os computadores portáteis, os computadores espaciais, conforme o definiu, representarão uma “nova era”. Permitem aceder ao “Mundo digital” sem ecrãs físicos e interagir com o computador sem dispositivos “extra-humanos” como teclados, ratos ou superfícies. Permitem, já hoje, pelo olhar, gestos e voz (talvez sem isso no futuro) realizar acções e interagir com o computador e as suas aplicações, imergindo totalmente o “Mundo digital” no real a partir apenas de uns óculos, logo sem barreiras físicas entre ambos, sobrepondo imagens do “Mundo digital” no que vemos do “Mundo real” diante de nós.

A diferença do dispositivo agora apresentado para outros óculos de realidade virtual e aumentada é, potencialmente, muito significativa e disruptiva, trazendo um conjunto de inovações, possibilitando a emergência de outras e acrescentando a novidade que permite que os olhos da pessoa não fiquem cobertos, permitindo interacções simultâneas com pessoas no “Mundo real” e pessoas no “Mundo digital”, visualizadas no mesmo espaço físico. A “The Economist” fez um trabalho sobre este novo computador, dizendo que, tal qual o iPhone evoluiu, o “Vision Pro” poderá não necessitar de muitos anos para deixar de ser “apenas” um dispositivo que permite ver fotografias em “dimensões reais”, realizar chamadas vídeo com “imagem à frente dos nossos olhos e não num dispositivo” ou ver filmes a “360º”. Para se transformar, como o IPhone se transformou, influenciando decisivamente o mercado de smartphones, e revolucionar a forma como se “projecta em Engenharia ou Arquitectura”, como se assistirá a espectáculos ou eventos desportivos ou como influenciará a Educação e a Saúde.

Recentemente visitei um conjunto de colegas psicólogas e psicólogos que trabalham em zonas insulares relativamente remotas do nosso país e, por essa via, com menor acesso ao contacto com profissionais das mesmas áreas de forma presencial, menor acesso a formação, supervisão e com maior sofrimento ético decorrente da impossibilidade deontológica de realizar determinadas intervenções pela relação prévia com a/o cliente, por intervenção com pessoas a ela/ele relacionadas/os ou por não ter formação ou experiência numa área específica. Acontece na psicologia, com algumas especificidades, como acontece num conjunto de outras áreas profissionais, desde logo da Saúde.

Creio, também por isso, ser fundamental que participemos com interesse nesta eventual “nova era”. Alguns dos problemas referidos podem beneficiar significativamente da tecnologia e dos dispositivos e aplicações que se desenvolverão a partir do “Vision Pro” e da democratização dos computadores espaciais. Se as reuniões, a formação e o treino e intervenção à distância, aprofundadas na pandemia, melhoraram consideravelmente o quadro antes existente, tudo tenderá a evoluir rapidamente para novas e potentes ferramentas e possibilidades que permitirão, através de experiências imersivas em tempo real cada vez mais simples e satisfatórias, o encontro de pessoas no “Mundo digital” a partir do seu “Mundo real”, potenciando a possibilidade de encontro, formação, treino e intervenção a partir de qualquer local, desde que exista acesso a uma internet segura e rápida e a um conjunto de dispositivos que o permitam e facilitem.

Mas uma “nova era” não se faz com um novo dispositivo apenas, mas com um conjunto de tecnologia que se pode a ele associar. O Fórum Económico Mundial disponibilizou recentemente um relatório que trata as “10 Tecnologias Emergentes de 2023” com maior impacto numa combinação de dimensões que inclui pessoas, planeta, prosperidade, indústria e equidade. Nestas, surge a inteligência artificial generativa e a sua utilização além da produção de textos, por exemplo em protocolos terapêuticos de saúde personalizados. Surgem as aplicações do metaverso à saúde mental e a forma como partilhar espaços virtuais e a exposição a ambientes digitais, se utilizados intencional e responsavelmente, podem promover a saúde mental e o bem-estar. Surge, ainda, a inteligência artificial e a aprendizagem automática ao serviço dos sistemas de saúde, melhorando a resposta em saúde pública pela integração de dados e o acesso de cidadãos a serviços de saúde pela melhor organização dos sistemas de saúde.

A conjugação do anterior pode representar uma verdadeira mudança na forma de formarmos (inicial e continuamente) profissionais de saúde, de treinarmos tarefas específicas, de realizarmos processos de articulação e intervisão interpares e, finalmente, de melhoria significativa da prestação de serviços (incluindo especializados), particularmente em contextos de difícil acesso e mais remotos. Na psicologia, juntar-se-á à evolução da utilização da realidade virtual e aumentada em intervenções psicológicas e psicoterapêuticas em diversas áreas (hoje já bastante testada e utilizada nas fobias), na complementaridade de intervenções (por exemplo, possibilitando experiências imersivas que potenciem a empatia e a experiência de situações específicas), na realização de avaliação psicológica ou na assistência por parte de tradutores/interpretes em processos de intervenção, apenas para dar alguns exemplos.

Pode, também, ter um positivo e verdadeiro impacto nos serviços públicos e, até, em fenómenos particularmente relevantes em Portugal como a solidão/isolamento, a perda de população e serviços no interior ou a emigração. Mas pode, também e noutro prisma, se não utilizados responsavelmente, representar um conjunto de riscos também na questão da solidão/isolamento, na estigmatização/marginalização, na desinformação, na cibercriminalidade e, no limite, nos fenómenos de Guerra e conflito entre países.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a Apple apenas “disparou o tiro de partida” com o “Vision Pro”, conforme termina o trabalho da “The Economist”. Corramos se queremos chegar à meta, sem ficar pelo caminho. Meta esta que deve, para o bem da Humanidade, atender às evidências da ciência psicológica e, na psicologia, a dimensões que o Fórum Económico Mundial destacou no relatório citado: por mais, mais próxima, personalizada e eficaz psicologia ao serviço das pessoas, do planeta, da prosperidade e da equidade.

 

Tiago Pereira

Uns óculos para pensarmos as profissões no futuro e a solidão e isolamento

in Sábado (Ao redor…); 27.06.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/uns-oculos-para-pensarmos-as-profissoes-no-futuro-e-a-solidao-e-isolamento

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Ao redor... (Revista Sábado) COVID-19

Ecrãs e redes sociais…

“Aceitam que estamos perante um problema? Aceitam o desafio de mudarmos e partilharmos o Mundo ao redor com os ecrãs de forma mais equilibrada?” Assim termina o texto que começa numa “varinha mágica de investigação” de Adam Alter: “…Quando um bebé nascer, alguém de forma aleatória, coloca uma etiqueta na testa que determinará a sua condição nos seus primeiros, digamos, 50 anos de vida. Baseado na cor da etiqueta organizaremos os bebés através de diferentes condições de exposição a ecrãs e redes sociais e acompanharemos o seu progresso e comportamento ao longo da vida.”

“De pequenino é que se torce o ecrãzinho”, 58º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre o impacto da exposição a ecrãs e redes sociais, trazendo a muito negativa comparação de “resultados de provas de aferição de 2º ano entre crianças sem (2019) e com (2022) dois anos de pandemia COVID-19” em Português e, especificamente, na Oralidade. Traz, também, estudos que “demonstram aumentos progressivos e significativos, com a prevalência a duplicar no UK ou a quadriplicar, se considerarmos apenas a depressão, em França”, aumentos “com início entre os anos 2010 e 2012, momento em que, entre outras mudanças, se generalizaram os smartphones, a utilização de redes sociais e recursos tipo “Like” e “Retweet”.

“Os ecrãs e as redes sociais, pela sua aditividade, pelo “negócio” envolvido e com o “impulso” que resultou do isolamento em períodos da pandemia, estão a pressionar a substituição de interacções presenciais pela socialização em ambiente digital. Alterações que, particularmente se precoces e/ou excessivas, tenderão a reproduzir-se mais intensamente mais tarde e que têm e terão impactos no bem-estar, na conexão com outras e outros, nos processos de aprendizagem (social), no desenvolvimento cerebral, cognitivo e motor, no feedback e resposta emocional e comportamental face a situações quotidianas e, até, nas dimensões da actividade física e do sono.”

“Atendendo a que esta é uma área onde a regulação dos meios/plataformas não tem sido intensa e eficaz, o papel das e dos cuidadores adultos é absolutamente preponderante. Mas (…) quem cumpre as recomendações da OMS de que crianças até aos 2 anos não estejam expostas a ecrãs (televisão, computador, tablets e telemóvel) e que entre os 2 e os 4 anos a exposição seja pelo menor tempo possível e com supervisão, indicando como tempo máximo uma hora diária?”

“Sabemos que poucas pessoas e porquê. “…É muito mais simples quando se conjuga com a necessidade de trabalhar, realizar tarefas domésticas, fazer uma refeição ou, simplesmente, mantermos bebés e crianças sentadas e minimamente sossegadas (…) Muito mais simples hoje, mas muito mais difícil amanhã. Como com alguns alimentos, é assim com os vídeos online, com os jogos online e, mais cedo ou mais tarde, com as redes sociais.”

“Quando a pressão social concorre para incumprirmos recomendações algo está errado e precisa, rapidamente, mudar.”

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O desemprego como factor de risco da saúde mental e do bem-estar (Ao redor…; 02.05.2023)

Há 10 anos, o Instituto Nacional de Estatística publicava os dados consolidados do (des)emprego em Portugal no primeiro trimestre desse ano de 2013. “Novo máximo histórico”, destacava-se, com o aumento para 17,7% de população (mais de 950.000 pessoas) em situação de desemprego, a diminuição em 70.000 pessoas da população activa e em 100.000 do número de pessoas empregadas, apenas num trimestre, resultante, também, do saldo migratório e das pessoas que haviam desistido de procurar emprego. Mais, eram já 10,4% as pessoas em situação de desemprego de longa duração (560.000 pessoas há mais de um ano), 42,1% as e os jovens até 24 anos e 21,3% entre os 25 e os 34 anos. Mais de um em cada cinco jovens em média do meu grupo etário. Não sendo um destes jovens, tinha-os no grupo de amigos e nas pessoas mais próximas e vi alguns deles partirem para fora do país, uns cumprindo uma vontade, outros uma inevitabilidade. Uns voltando depois, outros não mais voltando até hoje.

Tínhamos nesse momento um plano nacional de saúde mental (PNSM) para o período 2007-2016, com implementação paupérrima, sem recursos, quer a nível da sua coordenação, quer, particularmente, de reforço dos serviços/unidades de saúde para a sua implementação. Durante estes anos, nada se alterou no seu desenho e na sua não-implementação, mesmo tendo-se assistido a uma grave crise socioeconómica. Como exemplo, nesse período, verificou-se apenas um aumento no número de médicas/os psiquiatras (particularmente em internato), mas uma diminuição do número total de outros profissionais integrados nas equipas de saúde mental (psicologia, enfermagem, serviço social, entre outras), algo nos antípodas das melhores práticas e recomendações internacionais, do próprio PNSM e paradigmático do não investimento na prevenção da doença e na promoção da saúde mental.

É certo que temos vivido de desafio em desafio e, talvez por isso, tenhamos menos oportunidade de reflectir sobre as consequências de cada um no presente e futuro das pessoas, comunidades e país. Importa, no entanto, que tenhamos presente que o trabalho e o emprego de qualidade e com valores ajustados à pessoa – ao garantirem uma estrutura do quotidiano e tempo das pessoas adultas; um contexto e prática fundamental à identidade; ao conferirem propósito e significado; e ao permitirem uma importante interacção e conexão social – são fundamentais à nossa saúde mental, bem-estar e qualidade de vida. Que tenhamos presente que a ausência de um emprego de qualidade e com valores ajustados à pessoa são factores de risco de saúde mental e bem-estar. E que a transição para uma situação de desemprego e, particularmente, a vivência em situação de desemprego por um período longo pode ser uma fonte expressiva de stresse e ansiedade e, até, um evento potencialmente traumático.

Particularmente o desemprego de longa duração porque, como noutros eventos adversos significativos, a nossa resposta psicológica aos eventos tem diversas fases e, quando não adaptativa, tende a avançar do “choque” inicial e de uma fase ainda caracterizada por algum optimismo, para uma fase mais pessimista, já marcada pelo sofrimento psicológico, ou mais fatalista, com falta de entusiasmo e esperança no futuro. Com estas, a quebra de autoestima, as alterações ao autoconceito e as dúvidas nas próprias capacidades, junto com a percepção de falta de controlo sobre a vida e o futuro e a desesperança e, ainda, com uma sensação de não contributo para a família e para a comunidade, formam um triângulo que condiciona as possibilidades de bem-estar e periga a saúde mental. Determina ou influencia mesmo, em diversas situações, a emergência de sintomatologia ou até de quadros depressivos e ansiosos, situações de consumo de substâncias ou de stresse pós-traumático e risco acrescido de suicídio.

Como noutros fenómenos complexos e multideterminados, porém, não existem inevitabilidades ou unidireccionalidades. Naturalmente, nem todas as pessoas em situação de desemprego ou de desemprego de longa duração, desenvolvem doença mental, apesar das dificuldades que sentiram nesta área e da quebra de bem-estar. Mas, que quem tem problemas de saúde mental resultantes de vivenciar uma situação desta natureza, tem também mais dificuldade em sair dela. E, quando ao desemprego se associa a dificuldade/incerteza económica, existirá pior prognóstico de recuperação (na área da depressão os estudos indicam que pessoas com dificuldades financeiras têm cerca de 4 vezes maior probabilidade de continuarem nessa situação 18 meses depois).

Tudo isto nos impele a olhar responsavelmente as políticas públicas de emprego como fulcrais e preponderantes em diversas áreas da vida. Da procura do estímulo à possibilidade da garantia de empregos de qualidade, com valores ajustados às pessoas e correspondente ao combate à precariedade, apresentado como objectivo da Agenda do Trabalho Digno e das alterações ao Código do Trabalho em vigor desde 1 de Maio último. À necessidade de apoio e suporte, também emocional e psicológico, aquando da transição de uma situação de emprego para desemprego. Finalmente, à necessidade de complementar medidas de estímulo à procura activa de emprego de pessoas em situação de desemprego (especialmente de longa duração), com acções informadas pela ciência psicológica, nomeadamente de promoção de saúde mental e intervenção nas dimensões motivacionais, cognitivas e socioemocionais, algo cuja evidência demonstra aumentar significativamente a eficácia dos programas e das medidas de emprego.

Os números com que iniciei este artigo melhoraram nesta década e, felizmente, hoje são distintos. Apesar disso, é ainda notório o forte impacto desta realidade nas pessoas e famílias, ajudando a explicar, também com a precariedade e a pobreza/exclusão, problemas significativos do país como a natalidade, a dimensão e qualificação da população activa ou a produtividade. Sabemo-lo porque conhecemos, certamente, famílias que se “destruturaram” neste período, casais que se separaram sem se divorciarem e que adiaram ou mesmo não cumpriram desejos de (re)viver a maternidade/paternidade. Jovens que não puderam investir na sua formação e especialização. Adultos e pessoas mais velhas que não tiveram iguais oportunidade de autocuidado, de desenvolvimento e motivação para aumentarem as suas qualificações. Sabemos, sentimos, em diversos papéis tudo isto, mas… Pouco, muito pouco, falávamos em 2013 de saúde mental. Menos, ainda menos, investimos em saúde mental.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, temos de fazer do dia 1 de Maio momento de celebração de quem trabalha e de aspiração para quem, momentaneamente e contra a sua vontade, não se encontra a trabalhar. Temos de falar sobre emprego, desestigmatizar a situação de desemprego e prevenir a autoculpabilização das pessoas por essa sua situação. Temos de promover a saúde mental, o bem-estar e a qualidade de vida, também trazendo mais ciência à reflexão sobre as causas e efeitos do desemprego e estimulando/informando abordagens baseadas na evidência para a promoção de emprego de qualidade e com valores ajustados para todas as pessoas.

 

Tiago Pereira

O desemprego como factor de risco da saúde mental e do bem-estar

in Sábado (Ao redor…); 02.05.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-desemprego-como-factor-de-risco-da-saude-mental-e-do-bem-estar

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O desemprego como factor de risco da saúde mental e do bem-estar

“Novo máximo histórico”. Há 10 anos, o INE publicava dados do (des)emprego no final do 1º trimestre de 2013 destacando o aumento para 17,7% da taxa de desemprego, 42,1% nas e nos jovens até 24 anos e 21,3% entre os 25 e os 34 anos. “Não sendo um destes jovens, tinha-os no grupo de amigos e nas pessoas mais próximas e vi alguns deles partirem para fora do país, uns cumprindo uma vontade, outros uma inevitabilidade. Tínhamos nesse momento um plano nacional de saúde mental (2007-2016) que não se alterou no desenho e na sua não-implementação, mesmo tendo-se assistido a uma grave crise socioeconómica.”

“O desemprego como factor de risco da saúde mental e do bem-estar”, 57º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) trata a importância do emprego de qualidade e com valores ajustados à pessoa considerando que garantem: “uma estrutura do quotidiano e tempo das pessoas adultas; um contexto e prática fundamental à identidade; propósito e significado; e uma importante interacção e conexão social.” Trata, ainda, como “a transição para uma situação de desemprego e, particularmente, a vivência em situação de desemprego por um período longo pode ser uma fonte expressiva de stresse e ansiedade e, até, um evento potencialmente traumático.”

“A quebra de autoestima, as alterações ao autoconceito e as dúvidas nas próprias capacidades, junto com a percepção de falta de controlo sobre a vida e o futuro e a desesperança e, ainda, com uma sensação de não contributo para a família e para a comunidade, formam um triângulo que condiciona as possibilidades de bem-estar e periga a saúde mental. Determina ou influencia mesmo, em diversas situações, a emergência de sintomatologia ou até de quadros depressivos e ansiosos, situações de consumo de substâncias ou de stresse pós-traumático e risco acrescido de suicídio.”

“Tudo isto nos impele a olhar responsavelmente as políticas públicas (…) Da procura do estímulo à possibilidade da garantia de empregos de qualidade e combate à precariedade (…) À necessidade de apoio e suporte, também emocional e psicológico, aquando da transição de uma situação de emprego para desemprego (…) Ainda de complementar medidas de estímulo à procura activa de emprego de pessoas em situação de desemprego (especialmente de longa duração), com acções informadas pela ciência psicológica, nomeadamente de promoção de saúde mental e intervenção nas dimensões motivacionais, cognitivas e socioemocionais, algo cuja evidência demonstra aumentar significativamente a eficácia dos programas de emprego.”

“Temos de falar sobre emprego, desestigmatizar a situação de desemprego e prevenir a autoculpabilização das pessoas por essa sua situação. Temos de promover a saúde mental, o bem-estar e a qualidade de vida, também trazendo mais ciência à reflexão sobre as causas e efeitos do desemprego e estimulando/informando abordagens baseadas na evidência para a promoção de emprego de qualidade e com valores ajustados para todas as pessoas.”