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Ao redor... (Revista Sábado) COVID-19 Educação

Crescer-19 (Ao redor; Sábado; 01.06.2021)

“Ao contrário do Dia da Criança, que se comemora em dias distintos de país para país, em qualquer lugar do Mundo onde exista uma criança colocam-se desafios ao seu desenvolvimento e bem-estar hoje, devido à pandemia, mais complexos. Desafios que merecem, que exigem, um “Crescer-19”.

“Crescer-19”, 8º artigo da rubrica “Ao redor…” (Revista Sábado) resulta de um “tens de escrever sobre a urgência nas Escolas (…) vi uma crise de ansiedade como nunca havia visto” dito por uma psicóloga amiga com muitos anos de Escola(s). Por ela e depois por outra, e outra e outro psicólogo confirmando “a urgência nas Escolas” e as Escolas como lugar micro de uma realidade macro da sociedade. Como o “são sempre” e como o senti nos anos da crise sócioeconómica da última década” que, dia-a-dia, entrava na (minha) Escola e impactava as crianças e jovens com quem trabalhava.

No artigo discuto os impactos da pandemia nas crianças e jovens, particularmente nas com maiores vulnerabilidades; a importância da literacia em saúde psicológica e das competências sócio-emocionais; o papel da promoção, do desenvolvimento e do bem-estar e afirmo a necessidade de nos mobilizarmos para um “Crescer-19”… Uma “mudança verdadeira e impactante através de uma agenda de prevenção e do desenvolvimento interministerial e transversal, relacionando várias áreas e contextos, nomeadamente articulando mais eficaz e eficientemente a acção e os recursos da educação com a saúde, trabalho e segurança social ou desporto e juventude, prolongando e projectando o conjunto de acções além dos tradicionais anos e ciclos lectivos e para os múltiplos contextos de vida das crianças e jovens”.

Um investimento fundamental para “um futuro com crianças, jovens e adultas e adultos com mais possibilidade de se cumprirem, de floresceram e expressarem o seu potencial, com mais saúde psicológica, com maior capacidade de adaptação e resiliência e com maior potencial de bem-estar.”

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Ao redor... (Revista Sábado)

Pareto, Penumbras e Prevenção – 3 “P” para Odemira (Revista Sábado; 18.05.2021)

Quem como eu nasceu na década de 1980 recorda as longas filas que nessa e na década seguinte se formavam no IC1 rumo ao Algarve. Recordo-as por abrirem os telejornais a cada quinzena do Verão. Recordo-as também, muito, por um ano e uma viagem em particular onde, após horas (que pareceram dias) em pára-arranca no IC1 e com uma fila imensa à nossa frente, viramos para onde mais ninguém pareceu virar, seguindo numa estrada sem carros rumo à costa Alentejana e a Sines, nosso destino. Quem, como eu, conheceu Sines na década de 1990, sabe possível num lugar de uma beleza e potencial difícil de definir, coexistirem problemas sociais e ambientais complexos e desafiantes. Nas últimas semanas, no pára-arranca de casos, o “país” virou para onde normalmente não vira e rumou à costa Alentejana e no concelho de Odemira, imediatamente abaixo do de Sines e três décadas depois, encontrou o que dele trago sempre comigo: uma beleza e um potencial difícil de definir que coexiste com problemas sociais e ambientais complexos e desafiantes.

 

Associo-me à feliz caracterização de João Ferrão a propósito da pandemia comportar quatro efeitos importantes que nos ajudam a pensar o território – revelador, expondo vulnerabilidades, debilidades e iniquidades a diversos níveis, por exemplo no emprego, habitação ou acesso a ferramentas digitais; acelerador, porque tornou abruptas tendências como a digitalização na educação ou no trabalho; desordenador, porque, ao precipitar a necessidade de mudanças comportamentais e sociais, provoca o questionamento de opções e modelos de funcionamento, nomeadamente nas formas de deslocação; (potencialmente) disruptor em sentido positivo, porque gerou comportamentos pró-sociais e acções proactivas dos cidadãos, particularmente quanto a grupos profissionais, a grupos mais vulneráveis ou a comunidades.

 

Se a pandemia trouxe estes efeitos ao território, semanas de números elevados de casos positivos por 100.000 habitantes e de decisões e debate, por vezes inflamado e raras vezes focado em soluções, trouxeram estes quatro efeitos à situação da população migrante que trabalha no perímetro de rega do Rio Mira, principalmente na faixa litoral do enorme concelho de Odemira. Revelou, acelerou, desordenou e, esperamos todas e todos, foi disruptivo, no sentido de provocar mudanças que respondam aos diferentes problemas, necessidades e expectativas que confluem por vezes em conflito naquela situação.

 

Esta confluência, a sua intensidade e as múltiplas consequências provoca aquilo que podemos denominar um problema social complexo. Tal como noutros problemas sociais complexos, esta situação não exige uma reposta, mas múltiplas respostas, ou o envolvimento de uma entidade ou organização, mas de múltiplas entidades e organizações. Tal como noutros problemas sociais complexos, não pode ser imediatamente resolvido porque implica acções estruturais e sustentadas no tempo. Também tal como noutros problemas sociais complexos, é fundamental que ao envolvimento das múltiplas entidades e organizações, se associe o da comunidade local e da comunidade científica com objectivos e propósito comuns, incluindo a ciência psicológica cujo conhecimento e evidência podem contribuir com 3 “P” para a mitigação desta situação.

 

“P” de Pareto. Já em 2014 o Pew Research Center nos seus estudos integrados nas “Tendências e Atitudes Globais” identificava que nos EUA e na Europa a preocupação com a desigualdade ultrapassava todas as outras. Como Antonhy Atkinson vem defendendo cumpre traduzir esta crescente preocupação em políticas que combatam a desigualdade, particularmente quando o “trabalho atípico” (conceito ainda insuficientemente abordado no debate público e onde o trabalho sazonal se destaca) ganha cada vez mais terreno também por um crescente número de empresas (negócios) tratar o encargo com trabalhadoras e trabalhadores como custo variável (accionando-os conforme as necessidades a cada momento). Em Odemira, à atipicidade de algum trabalho, juntam-se necessidades da comunidade (nomeadamente económicas) e a inexistência de condições estruturais para lhe responder, que se expressam nas carências de habitação, mas que vão muito além destas e que tocam diversos direitos humanos universais como a liberdade e o bem-estar físico e psicológico, a protecção social e fruição cultural, a liberdade de manifestação religiosa ou a segurança. Esta complexidade implica perseguir uma economia de bem-estar assente na eficiência de Pareto, ou seja visar a melhor alocação de recursos possível e um sistema que não permita que “uma das partes melhore” se tal implicar que “outra parte piore”. Tal depende de um projecto co-construido para o território, participado e partilhado, e de uma liderança visionária que faça do combate à desigualdade, da garantia da igualdade de oportunidades e da partilha de recursos elementos-chave na promoção dos direitos humanos e na prevenção de problemas nas áreas da educação, saúde ou criminalidade.

 

“P” de Penumbras. Apesar de, metaforicamente, associada à escassez e pobreza, o conceito de penumbra corresponde ao ponto de transição da luz para a sombra e é usado para descrever a sombra que resulta da intersecção de dois corpos, por exemplo num eclipse. O conceito de penumbra social tem sido recentemente muito estudado, significando o que resulta da intersecção de dois indivíduos ou grupos sociais diversos, nomeadamente nos impactos nas atitudes políticas ou nas questões de discriminação. Se sabíamos há muito que interacções pessoais, em certas situações e condições, podem ajudar a criar empatia e reduzir o preconceito (por exemplo termos amigas ou amigos emigrantes ou imigrantes), hoje há evidência mais robusta de que o crescimento de penumbras entre grupos (de interacções e das sombras delas resultantes) ao invés de pobreza cria riqueza, diminuindo preconceito e potenciando empatia. Em Odemira, as penumbras sociais não se devem limitar à população migrante, claro está central nesta situação, mas também utilizadas para mitigar preconceitos que possam, de forma semelhante, existir sobre as organizações e empresas do território, sobre a comunidade local, sobre quem visita ou investe no território. Reforçar o contacto, a convivência, a participação e comunicação no espaço público é essencial à construção de pontes por oposição a muros, à maior compreensão mútua e à definição de objectivos e propósitos comuns, mesmo em situações de elevada complexidade.

 

“P” de Prevenção. Pontes essenciais para que não nos desumanizemos pela criação e aprofundamento de um “nós” vs “elas/es” – sejam empresárias/os, arrendatárias/os, decisoras/es ou migrantes. Pontes que existindo devem ser permanentemente atravessadas, prevenindo-se a adaptação às condições existentes e ao nosso papel, quais seres humanos com forte capacidade de adaptação que somos. Prevenindo-se também a fadiga da compaixão e a dessensibilização, processo por vezes muito útil para lidar com o stresse e o desconforto, que deve nos problemas sociais complexos ser contrabalançado pelo activismo nas causas e pelo não aceitar permanente da situação, tornando-a saliente não apenas nos insucessos, mas nos e pelos sucessos que nos validam e levam mais pessoas e grupos a acreditarem e a mobilizarem-se. Prevenindo ainda a normalização daquilo que não é nem pode ser o esperado ou sequer o possível. Prevenindo, finalmente, a desresponsabilização e o “passa culpas” das diferentes partes, colocando o enfoque em soluções.

 

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, não haverá outra Odemira de tão ímpar, bela e desafiante, no seu vasto e diverso território. Mas há hoje, e haverá no futuro, um conjunto de problemas sociais complexos onde a ciência psicológica e as psicólogas e os psicólogos podem ter um decisivo contributo. Na condição de cidadãs e cidadãos, activando-se enquanto agentes de direitos humanos, advogando pela sua centralidade e universalidade. Como cientistas, estudando e reflectindo sobre os fenómenos. Promovendo literacia que permite aproximar pelo conhecimento e empatizar pelo reconhecimento. Testando soluções, escalando as de maior impacto. Como profissionais, trabalhando com pessoas, grupos e comunidades apoiando e suportando a mudança pela promoção de competências e de factores de resiliência pessoal e social. Mediando e facilitando a comunicação entre pessoas e grupos, intervindo nos acontecimentos de vida mais significativos e nas crises. Promovendo confiança… A confiança que tenho que Odemira (tão significativa para mim) caminhará na direcção certa e que no futuro poderá continuar a ser apontada, nesta como noutras questões, como exemplo… A seguir.

 

Tiago Pereira

in Revista Sábado

[18.05.2021]

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/pareto-penumbras-e-prevencao–3-p-para-odemira

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Ao redor... (Revista Sábado)

Autárquicas 2021 – Por um Portugal de ABC (Ao Redor; Sábado; 05.05.2021)

De repente olhamos pela janela e as ruas estavam vazias. A televisão, os telemóveis, os jornais e as revistas mostravam-nos incessantemente imagens de ruas outrora repletas, agora desertas. Os lugares, as cidades em pausa. O impensável concretizava-se às mãos de um vírus e de uma pandemia que nos obriga a repensar e a recuperar. Que nos permite uma, até aqui improvável, rápida mudança que pode concretizar-se já a partir deste 2021.

Com o avançar do ano juntaremos à melhoria da situação sanitária do país – com maior imunização e melhor adaptação das pessoas e da sociedade à (con)vivência com o vírus – o provável início da implementação do plano de recuperação e resiliência, o resultado no Mundo da eleição de Biden (e da derrota de Trump) e a construção, debate e sufrágio dos programas para as autarquias, pela relevante coincidência de 2021 ser ano de eleições autárquicas em Portugal. Creio que a importância destas eleições no momento que vivemos é ainda insuficientemente saliente no debate público, algo desalinhado com o seu papel no repensar e no recuperar a que estamos obrigados e na mudança que daí pode e deve resultar.

O desafio que enfrentamos, também porque expõe mais claramente as vulnerabilidades, as iniquidades e a forma como intrinsecamente se relacionam, reforça a importância da proximidade e a pertinência da adaptação e “personalização” das respostas/medidas em crises às características, necessidades e aspirações das pessoas, grupos e comunidades. Reforça também a importância da intervenção precoce ao surgimento dos problemas e do investimento em agendas de futuro, com resultados a médio e longo prazo. Já a pausa a que fomos forçados permite-nos reiniciar e, ao reiniciar, voltar ao mais básico do que queremos das cidades e dos territórios – a possibilidade de fruição dos mesmos por todas e todos que os habitam ou visitam. Permite-nos, sem tabus, aspirar a um Portugal de ABC – Autarquias de Bem-estar e Coesão social.

As equipas candidatas nas próximas eleições autárquicas têm assim um papel importante no presente e futuro do país e que será tão mais consubstanciado quanto intencionalizem e promovam, com sucesso, a mobilização das populações para participarem neste processo eleitoral. Esta participação deve decorrer, não apenas da possibilidade de serem candidatas ou da participação eleitoral propriamente dita, mas também do envolvimento activo no desenho dos projectos para as autarquias, possibilitando a identificação nos mesmos das expectativas e aspirações das pessoas e promovendo o envolvimento colaborativo futuro para sua concretização. Mais, as equipas candidatas devem potenciar uma dimensão interdisciplinar neste processo, recorrendo a contributos de diversas áreas científicas que apoiem, operacionalizem e complementem o processo de participação atrás referido, entre as quais a ciência psicológica.

A cidade e o território são os espaços micro onde se espalham a realidade macro. É neles que as necessidades, das mais básicas até as que nos permitem cumprirmo-nos integralmente, devem ser preenchidas. É neles que a pandemia ganha nome das pessoas que afecta e a quem impacta. Que a pobreza se expressa. Que a iniquidade se concretiza. Que existem pessoas em abandono escolar, em situação de desemprego ou em situação sem-abrigo. Que se vê e vive a exclusão. Que a crise climática resulta em períodos de seca e alterações ambientais, em inundações ou incêndios florestais de grandes dimensões. É neles que o bem-estar ganha forma e a coesão pode ser impulsionada.

Há muito definida enquanto estado completo de bem-estar, a saúde é absolutamente essencial por ser transversal a estas necessidades e pelo impacto que tem na coesão social, particularmente num país onde o seu Serviço Nacional de Saúde é ainda um dos principais factores de inclusão e de produção de riqueza. Neste sentido, é fundamental que os projectos para as autarquias assentem numa visão de promoção da saúde das populações e prevenção da doença, numa perspectiva em que a saúde não se limite à dimensão física, integrando a dimensão psicológica, condição essencial à saúde física e garante da possibilidade de fruição e da capacidade de adaptação e resiliência (pessoal e comunitária) à adversidade e aos desafios societais e da cidade, presentes e de futuro.

O papel da ciência psicológica não se esgota nas dimensões directas da saúde. Para o bem-estar e coesão social, questões como a educação e a forma como aprendemos e aprenderemos no futuro, a habitação, a mobilidade, a demografia, as instituições e suas lideranças, o ambiente, o emprego e a forma como trabalhamos e trabalharemos, a conciliação de papéis sociais das pessoas (vida pessoal-profissional, por exemplos) e dos territórios (relação turismo-habitação, por exemplo), a cultura, a confiança, a capacidade de resposta a crises, a equidade e inclusão ou o desporto são cruciais e áreas onde as autarquias assumem preponderância e onde contributos da ciência psicológica são fundamentais.

Através dela podem compreender-se melhor as motivações que conduzem a vivências significativas dos e nos lugares. Podem facilitar-se os processos de mudança necessários à adaptação das populações a territórios em rápida transformação. Pode promover-se a inclusão de todas e todos, garantindo não apenas que as pessoas são ouvidas aquando dos processos de tomada de decisão, mas que têm a informação e desenvolvem as capacidades e a motivação necessárias à mudança e a uma cidadania activa e plena.

As psicólogas e os psicólogos podem contribuir localmente para o que o país, como um todo, terá que fazer, não deixando “ninguém para trás” e não permitindo que autarquias com menos recursos, densidade populacional ou com desafios específicos sejam preteridas neste processo, penalizando populações já de si penalizadas pelos mesmos factores e prevenindo a lógica de “super-autarquias” que, com mais recursos possam desenvolver projectos que captem mais pessoas e recursos, aprofundando o fosso e reforçando iniquidades neste âmbito.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é tempo de repensarmos as cidades e os territórios envolvendo os cidadãos e de os recuperarmos pela recuperação das pessoas. É tempo de construirmos projectos que lhes permitam florescer para que as pessoas com eles e neles floresçam. Assim se prevenirá o efeito negativo da “urbanidade” e de condições específicas do território na saúde mental e no bem-estar das pessoas. Assim se promoverá, em proximidade e na e pela relação, a sustentabilidade e a resiliência pessoal e comunitária para os desafios e crises que nos esperam e que as autarquias esperam. Assim, com um Portugal de ABC, aproximar-nos-emos de um país de bem-estar e coesão social.

https://www.linkedin.com/pulse/aut%25C3%25A1rquicas-2021-por-um-portugal-de-abc-tiago-pereira

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Psicologia

Honestidade

Declaro que as palavras que em seguida partilho resultam do meu pensamento e da minha leitura da investigação da ciência comportamental sobre um tema muito complexo, multifactorial e que impacta significativamente a sociedade, a honestidade. Pretendendo, com elas, suscitar reflexão sobre algumas das suas dimensões. Asssinado: Tiago Pereira.

“Qual é o primeiro passo para curar e recuperar [as pessoas, para recuperar o país]?”, perguntaram-me num programa de rádio onde recentemente participei. Num segundo, o mais emergente em mim: “o primeiro passo é retomarmos uma dimensão de confiança em nós e nos outros”. Após, continuei: “recuperarmos a confiança em nós e isso nos ligar aos outros é muito importante para o futuro até porque isto não é algo novo (…) há uma crise de confiança [nas instituições, nas outras e nos outros] que se instalou já pré-pandemia e que pode ser preocupante”.  Todas e todos, mais presentes, já passados ou até perspectivados, teríamos diferentes, mas múltiplos exemplos do que pode contribuir para esta crise de confiança, sejam situações mais ou menos específicas ou exemplos (casos) mais ou menos mediáticos.

Quando se vivem crises colectivas ou mesmo globais, a confiança, sempre importante, torna-se essencial e decisiva. É ela que previne o deslaçar das relações em sociedade, a desfragmentação e o potencial “passa culpas” entre grupos populacionais, quer seja pela sua pertença comunitária, etária, partidária ou sócioeconómica. Por isso, construir confiança nas instituições e nas autoridades e suas recomendações é essencial e, para que tal suceda, a verdade e a honestidade devem sempre nortear a comunicação com a população.

 

Creio que todas e todos temos presente que o nosso comportamento e tomada de decisão não são 100% racionais bastando, para tal, que reflictamos sobre o que comemos no sofá em alguns dias das últimas semanas para, imagino, identificarmos comportamentos menos racionais. Quando reflectimos sobre exemplos de irracionalidade em nós e em quem nos rodeia tendemos também a identificar outro tipo de comportamentos – comportamentos desonestos. Importa, porém, que tenhamos presente que a desonestidade não resulta sempre de irracionalidade.

Na realidade muitas e muitos de nós já fomos em alguma situação desonestos e nem por isso deixamos de nos considerar “boas pessoas”. Algo também explicado pelo “fudge factor” (numa tradução possível, mas incompleta – factor de correcção) descrito pela equipa do psicólogo Dan Ariely enquanto factor que permite beneficiarmos com a desonestidade enquanto simultaneamente nos consideramos pessoas honestas e que explica porque algumas e alguns de nós consideramos “aceitável” ver um filme ou um jogo utilizando um stream ilegal, viajar a 130km/hora numa autoestrada ou dizer que um prato estava delicioso quando nem bom estava. Dito de outra forma, explica o hiato máximo (e comportamento) possível através desse efeito de correcção para nos sentirmos bem connosco e beneficiarmos de algo não legal (ilegal) ou não honesto (desonesto). Esse hiato varia de pessoa para pessoa (“um stream ilegal nunca, quando muito um artigo científico”) e, na pessoa, de momento para momento (“130 normalmente… se atrasada 140 km/hora”) e de tema para tema (“a uma peça de roupa sugerida numa loja digo que não gosto quando não gosto mas num restaurante não consigo”). Esta variância e as racionalizações (razões que encontramos) que justificam os nossos comportamentos desonestos, fazem da desonestidade algo não meramente irracional. Antes um fenómeno subjectivo, multifactorial, complexo e com significativo impacto na confiança nas pessoas, na sociedade e na integridade das instituições.

Ao depender da realidade, experiência e motivações, ou seja, da subjectividade de cada pessoa, a honestidade expõe-se particularmente ao tal “fudge factor” e, compreendê-lo, oferece-nos pistas necessárias para prevenirmos a desonestidade, desde a pequena à grande que deslaça sociedades. Diferentes estudos têm invariavelmente apontado para um significativo número de pessoas (por vezes superior a 70%) que podem ter comportamentos desonestos considerando-os legítimos através do factor de correcção. Em todo o caso, grande parte destas pessoas têm comportamentos desonestos de pequena dimensão e é pequena a percentagem de pessoas que têm comportamentos desonestos de grande dimensão. Nos estudos “Matrix” da equipa de Dan Ariely, onde mais de 28.000 pessoas (em 40.000) têm um comportamento desonesto (mentem no número de respostas correctas que dão, valendo cada uma 1 dólar), apenas 20 pessoas demonstram “grande desonestidade” e 28.000 “pequena desonestidade”. O primeiro grupo “custa em desonestidade” 400 dólares (20 em média por pessoa). O segundo mais de 50.000 dólares (um pouco menos de 2 por pessoa). Este dado deve fazer-nos reflectir sobre a quase totalidade de energia e atenção que colocamos no primeiro grupo, deixando pouco espaço para se investir em favorecer, também do ponto de vista comportamental, o comportamento honesto, motivando-o e reforçando-o.

Mais isto é importante quando sabemos que a norma social é um dos principais impulsionadores do “fudge factor”. Se e quando existe a percepção de que “todas/os o fazem” e a atenção mediática é colocada no comportamento desonesto, salientando-o, mais que desincentivá-lo muitas vezes isso legitima-o. Tal como quando ao comportamento desonesto é associada a ideia de que este “não prejudica ninguém” ou é “justo pelo seu fim”, sendo essencial que as consequências indirectas da desonestidade sejam sempre consideradas. Além da possibilidade de contágio a outras/os, a desonestidade pode potenciar mais desonestidade na própria pessoa, pelo impacto na sua identidade e pela sua adaptação, nomeadamente a que resulta das reações emocionais a este tipo de comportamento, diminuindo sucessiva e progressivamente os processos cerebrais que provocam sensações de desconforto aquando do comportamento desonesto. Finalmente, tem-se investigado o papel da ambiguidade, da desmaterialização e da dimensão ética e moral na desonestidade, sendo hoje muito claro que processos mais despersonalizados e/ou ambíguos e com menos clareza oferecem mais espaço para a legitimação da desonestidade e, pelo contrário, que quando se associam os processos a dimensões morais da própria pessoa se promove o comportamento honesto.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o investimento na promoção da honestidade é e será amplamente mais eficaz, menos custoso e, pela confiança que produzirá e pelo impacto positivo na economia, fará mais pela sociedade e sua coesão do que o investimento exclusivo na também importante penalização da desonestidade, particularmente em Portugal onde, segundo o Eurobarómetro de Dezembro de 2019, 94% da população considerava a corrupção generalizada. Isto faz-se intencionalizando a utilização do conhecimento e da ciência, promovendo, salientando e reforçando o comportamento honesto. Isto faz-se, como continuei na resposta ao programa de rádio, recuperando as pessoas porque “as pessoas estarem bem do ponto de vista da saúde psicológica as ajuda a estar mais abertas, empáticas e disponíveis para os outros e isso, por si, reforçará a confiança e os laços”, também pelo contágio emocional que resulta de quando cuidamos de nós, cuidarmos das outras e dos outros, e pelo contágio comportamental que resulta de ao sermos honestos promovermos a honestidade.

 

Tiago Pereira
in Sábado (Ao redor…); 21.04.2021
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/honestidade
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Ao redor... (Revista Sábado)

Demasiado(s) polarizados, todos iguais (Sábado; Ao redor…; 06.04.2021)

TC. Leio e faço a associação automática a Tribunal Constitucional. Não foi sempre assim. Sou de uma geração marcada pela emergência da internet e por uma progressiva facilidade de acesso à informação e comunicação

Vivi a chegada do mIRC a Portugal (onde tc correspondia a teclas), alguns anos depois da sua criação em 1995. Em 1995 tinha 12 anos e, a propósito da comemoração dos 50 anos do fim da 2ª Guerra Mundial, era lançada a campanha “todos diferentes, todos iguais”. Esta campanha, de prevenção do racismo e xenofobia, foi muito impactante para mim tal qual foi o desenvolvimento da internet, para mim e para toda a sociedade. Nesse momento, a perspectiva da diversidade como riqueza ajudou-me a pensar-me no Mundo e na minha relação comigo e com as outras e os outros. A pensar a diversidade de percursos, experiências e crenças como factor de questionamento e desenvolvimento.

Era outro o tempo e foi com deslumbramento que 2 anos depois fui a Londres, única vez até 2004 que, com excepção de cidades fronteiriças, saí de Portugal. No ano seguinte “devorei” a Expo98 onde fui várias vezes no comboio que de perto da minha aldeia me levava e trazia desse outro Mundo que era uma Lisboa efervescente. Mais tarde a Universidade, aqui, e depois em Itália onde o Erasmus me deu finalmente Mundo, permitindo-me conhecer o país, viajar por países vizinhos e sentir-me no centro da Europa. Quatro momentos essenciais de contacto com a diversidade que muito me transformaram e que, com perda também (a transformação nunca resulta apenas em ganho), muito contribuíram para o que e quem hoje sou. Quatro momentos que partilham o tempo de transformação da forma como comunicamos em sociedade, nomeadamente com a generalização dos telemóveis e SMS, da internet, email e messenger e das redes sociais.

Em 2004, enquanto estudava Psicologia em Turim, nascia o Facebook e o país onde vivia discutia a “Lei Gasparri” e a reforma do sistema audiovisual à medida da possibilidade da sua posse (controlo?) pelo grupo ligado ao primeiro-ministro, Sílvio Berlusconi. O Erasmus deu-me Mundo, dizia. Mundo, no momento da emergência de um dos grandes impulsionadores das redes sociais do início do século XXI – o Facebook; e de um dos grandes impulsionadores do populismo nas democracias do início do século XXI – Berlusconi.

Nesse ano passavam 9 anos do “todos diferentes, todos iguais”, tantos quantos nos levariam a 2013. Em Portugal saíamos “atrasados” da grave crise sócioeconómica que marcou a minha geração. Na Europa assistíamos com espanto ao início do que viria a ser a grave crise migratória com milhares de pessoas a arriscarem a vida no Mediterrâneo por um novo modo de vida. O Mundo, já movido pelas redes sociais, inquietava-se com as relevações de espionagem feitas por E. Snowden mas via nascer a Cambridge Analytica, empresa de comercialização de perfis de personalidade maioritariamente traçados via Facebook para mais eficaz personalização de mensagens com fins políticos.

O “choque” do triângulo populismo – crise sócioeconómica – crise migratória com o triângulo internet – redes sociais – Cambridge Analytica ajuda a explicar como chegamos ao fim de 2016 com Trump presidente dos EUA e com o Reino Unido, pós-referendo “Brexit”, a debater como sair da UE. No fundo, a compreender como viajamos do “todos diferentes, todos iguais” a um “demasiado(s) polarizados, todos iguais”.

Sentimos e conhecemos disso diversos exemplos. Permitam-me um. Segundo o Pew Research Centre nos EUA em 2018 eram 45% as/os Democratas e 35% as/os Republicanas/os que ficariam “desagradadas/os” se as suas filhas ou filhos se unissem com alguém do outro partido, valor que tem crescido sistematicamente e que era em 1960 4% (subiu 11 vezes nas pessoas do Partido Democrata e 9 do Republicano).

Realidades complexas, como a polarização, têm invariavelmente determinantes múltiplos. Ainda assim, destaco 4 determinantes suas e da forma como hoje nos relacionamos em sociedade: 1) efeito “bolha” que agrupa das redes sociais que, pela heurística da disponibilidade, validam todas as opiniões, estereótipos e crenças e, pelo viés da confirmação, as reforçam e extremam, também pela oposição a outras, diferentes; 2) a urgência e velocidade das redes sociais, autoestradas de partilha de informação mas também de desinformação que, por ”super propagadoras/es” e/ou pelo punch emocional associado às emoções negativas em que normalmente assenta (medo, raiva ou ódio), se propaga até 6 vezes mais rápido que a informação; 3) a busca da atenção mediática com introdução de belicismo no debate público e transformação dos adversários em inimigos; 4) a “pós-verdade” e a diluição de mediadores (jornalistas ou profissionais de saúde) a que assistimos que, pela anulação da democrática diferença entre facto e opinião, nos conduz à disfuncionalidade – “se não podemos concordar no que é verdade, nos factos básicos sobre os quais a política assenta, não podemos ter uma democracia funcional.” (T. Friedman)

Pensar a sociedade e as instituições implica reflectirmos no que aqui nos trouxe, prevenindo respostas simplistas (mais polarizadoras). Implica empatizar com “o outro lado”, prevenindo o “erro Hillary” (expressão minha) e a consideração que “do outro lado” estão “deploráveis”. Assim não é, e por assim não ser, há razões para se nos envolvermos acreditarmos num futuro melhor.

Senão vejamos, hoje e por recentes acontecimentos no Mundo, temos muito maior consciência da polarização e dos seus efeitos na sociedade. A internet e as redes sociais são ferramentas que, com outra auto-regulação e regulação legal, poderão ser poderosas no apelo à participação e cidadania e na promoção da mudança e equidade. Há hoje maior reconhecimento do papel das competências sócioemocionais, sendo desejável (e possível) investir na sua promoção, particularmente em áreas como a capacidade empática e o pensamento crítico. Também da importância da literacia científica e nos media e da necessidade de inoculação, pelo maior reconhecimento (como se de vacinação falássemos), da desinformação e fake news e da utilização de fact checking. Finalmente, há hoje e haverá no futuro mais atenção e investimento na saúde psicológica e na promoção da regulação emocional e capacidade de resiliência, fulcrais na prevenção da necessidade de procura de controlo e valorização nas “bolhas”, muitas vezes pelo confronto com outras “bolhas”.

Porque, aqui e ali, no Mundo ao redor, existe hoje maior polarização, importa que reforcemos a conexão com as outras e os outros, validando o que sentem e pensam. Importa que construamos pontes e não apenas “atiraremos factos” (alguém deixará de ser “terraplanista” pelos factos?), dialogando sobre os obstáculos que se colocam à mudança.

A ciência psicológica pode ajudar na compreensão do fenómeno, mas também na sua prevenção e mitigação. Algo urgente também num Portugal que, felizmente, ainda não sofre o que outros países já sofrem com este fenómeno que, como o mIRC, aqui chega com alguns anos de atraso. Atraso que nos dá a oportunidade de – antes de sofrermos mais por “demasiado(s) polarizados” e pelo reforço da confiança nas pessoas, comunidades e instituições – regressarmos ao original, belo e significativo “todos diferentes, todos iguais”.

 

Tiago Pereira

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/demasiados-polarizados-todos-iguais

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“Demasiado(s) polarizados, todos iguais” (Ao redor, Sábado, 06.04.2021)

“Demasiado(s) polarizados, todos iguais”, 4º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) que trata o tempo que vivemos.

“Oh Luís, vê lá como é que fico. Assim fica melhor ou fica melhor assim?” J. Sócrates, então 1º ministro demissionário, preparava-se para comunicar ao país o pedido de assistência financeira e, em directo (sem saber), tentava cuidar a melhor forma de o fazer. Hoje passam 10 anos deste momento em que vivíamos uma grave crise socioeconómica, era anunciado algo com significativo impacto nos anos subsequentes e seria esta inesperada situação e o vídeo que proporcionou, a “trend” da noite nas redes sociais.

No artigo reflicto sobre como a forma de acesso, criação e partilha de informação e comunicação se transformou, como isso explica, em parte, a polarização da sociedade e como a podemos prevenir e mitigar.

Como “o “choque” dos triângulos populismo-crise sócioeconómica-crise migratória / internet-redes sociais-Cambridge Analytica ajuda a explicar como chegamos ao fim de 2016 com Trump presidente dos EUA e com o UK, pós-referendo Brexit, a debater como sair da UE (…) a compreender como viajamos do “todos diferentes, todos iguais” a um “demasiado(s) polarizados, todos iguais”, e como poderemos regressarmos ao original, belo e significativo “todos diferentes, todos iguais”.

Aqui…

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É uma casa! (para as ciências comportamentais) (Ao redor; Sábado; 23.03.2021)

Passava das 23 horas da quarta-feira dia 10 de Outubro de 2018 quando, junto a uma das casas do projecto “É uma casa”, se acordou a reunião da segunda-feira seguinte em que se concretizaria e operacionalizaria uma proposta apresentada pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) ao Secretário de Estado Adjunto e da Saúde (SEAS) para a criação de um programa nacional que, a partir dos contributos das ciências comportamentais, pudesse estudar, monitorizar e testar propostas para a melhoria das políticas públicas de saúde em Portugal.

O SEAS associou-se nesse dia à OPP numa visita à “Crescer” para assinalar o dia Mundial da Saúde Mental e a relevância e custo-efectividade de políticas públicas de promoção da intervenção comunitária de proximidade junto da população com maiores vulnerabilidades neste âmbito. Nesse final de tarde e noite, conhecemos 3 projectos da Associação com o director executivo (Américo Nave) e diferentes técnicas/os da sua empenhada equipa, parte das/os quais psicólogas/os: “É uma rua” que acompanha em proximidade pessoas que consomem substâncias lícitas e ilícitas e que se encontram em situações de extrema vulnerabilidade; “Marhaba” que promove a inclusão social e comunitária de população refugiada através da gastronomia; “É uma casa”, projecto de housing first que promove a inclusão de pessoas em situação sem abrigo, contribuindo para a erradicação das situações crónicas de sem abrigo.

“Só uma casa o permite”. Foi depois de visitarmos uma das então 34 casas deste projecto – onde havíamos ouvido que “ao início, não conseguia dormir deitado na cama do meu novo quarto” e a explicação “viva” que “quase 14 anos de rua são quase 14 anos de necessidade de vigilância constante e de impossibilidade de segurança” – que se acordou a reunião da segunda-feira seguinte. Acontece que – como também quase 14 anos antes quando a OPP esteve a dias de ser criada e tal só aconteceu 3 anos depois (2008) pela dissolução da Assembleia da República (2005) – na manhã desse domingo (14.10.2018) foi anunciada uma remodelação no Governo e a substituição do então Ministro da Saúde. Com a sua saída, saiu o SEAS e, também neste tema ficávamos a dias de algo que, curiosamente, também apenas 3 anos depois aconteceria pela insistentemente proposta e apenas recentemente constituída (Despacho 3027/2021) task force de ciências comportamentais aplicada ao contexto da pandemia de COVID-19. Conforme nos fora dito, “só uma casa o permite”.

É certo que daquele Outubro ao actual Março não distam apenas 850 dias. Naquele Outubro, mesmo quem tivesse visto o hoje mediático vídeo de 2015 de Bil Gates (“O próximo surto – Não estamos preparados”), não preveria que vivêssemos hoje há mais de um ano numa pandemia com impactos múltiplos e significativos (incluindo já mais de 2.700.000 mortes no Mundo e mais de 16.700 em Portugal) na qual o comportamento das pessoas assume um papel fundamental. Hoje é mais claro, para decisoras/es e não apenas, a importância de estudar e compreender quais os factores que influenciam a tomada de decisão e o comportamento das pessoas e quão relevante para apoiar a tomada de decisão e o desenho de políticas podem ser indicadores desta natureza, bem como testar as melhores abordagens que favoreçam, facilitem e removam obstáculos da população à adopção de comportamentos que vão muito além da hoje indispensável correcta utilização da máscara ou da toma da vacina de inoculação do vírus que provoca a COVID-19. O SEAS reconhecia-a já em 2018 e talvez isso ajude a compreender porque o Centro Hospitalar de São João, a cujo conselho de administração hoje preside, seja apontado como exemplo na resposta à pandemia em Portugal, tenha um Serviço (autónomo) de Psicologia – superiormente coordenado pelo Eduardo Carqueja e exemplo na resposta aos utentes e profissionais (incluindo os de saúde) nesta grave crise – ou desenvolva hoje um inovador projecto piloto que permite a existência em permanência de um/a psicóloga/o no Serviço de Urgência, tão importante na estabilização emocional e comunicação com utentes e cuidadoras/es nos episódios de urgência.

A visão da importância das ciências comportamentais era já então (2018) partilhada por um conjunto de actores da sociedade civil. A OPP tinha constituído um think tank com psicólogas/os e outros profissionais para reflectir sobre as possibilidades da sua utilização em diferentes contextos e desafios da sociedade portuguesa e organizou já em 2019, com a Fundação Calouste Gulbenkian e com a Secretaria de Estado da Modernização Administrativa, um workshop para dirigentes de diferentes áreas da administração pública sobre benefícios e formas de utilização deste conhecimento. Alguns exemplos em Portugal de uma realidade que crescia e percorria o Mundo, desde a equipa que trabalhou a partir de 2009 na administração Obama, às equipas da Comissão Europeia e Banco Mundial, passando pela Behavioral Insights (BI) Team, inicialmente ligada ao governo britânico, a cuja equipa pertence o António Silva que connosco dinamizou esse workshop e que havia conhecido em 2017 na Sede desta equipa em Londres. A BI Team era (é ainda) um dos principais exemplos da utilização deste conhecimento em colaborações com governos e administrações em áreas como a Educação, Emprego ou Saúde e países como a Austrália, Canadá ou UK mas também em projectos de prevenção da corrupção na Colômbia, Nigéria ou Tanzânia ou de promoção da credibilidade das eleições no Bangladesh, apenas para dar alguns exemplos concretos de milhares de intervenções desta equipa Mundo fora que em 10 anos estimam, pela promoção da eficácia nas políticas públicas, impactos de cerca de 6 mil milhões de libras (“6 unicórnios”). Intervenções normalmente simples, cientificamente sólidas, testadas antes de escaladas, que contribuíram no Reino Unido para a redução de consumos de energia, prevenção do insucesso escolar ou das faltas a consultas agendadas, três exemplos claros de áreas em que em Portugal poderíamos melhorar significativamente com pequenos e muito custo-efectivos investimentos a partir da experiência e conhecimento das ciências comportamentais.

Conhecimento que – quando utilizado no melhor interesse e, portanto, quando promotor da autodeterminação das pessoas e comunidades (for good) e não sob a forma de “engenharia social”, conforme por vezes se pretende utilizar – é uma poderosa e muito estudada ferramenta para melhorar o envolvimento dos cidadãos e a qualidade das políticas públicas. A criação em Portugal desta task force e a nomeação de uma equipa competente e motivada (que bem conheço e a quem desejo felicidades) para disponibilizar este conhecimento de forma planeada e organizada aos decisores é, a par do aumento da importância da literacia em saúde psicológica, do reforço das/os psicólogas/os nas Escolas e da criação do Serviço de Aconselhamento Psicológico na Linha SNS24, uma excelente notícia neste ano tão carregado de desafios e dificuldades. Uma boa notícia no presente e para futuro porque “é uma casa” para as ciências comportamentais. Uma casa, segura, sustentável, sem retrocesso… Porque, aqui e ali, no Mundo ao redor, existem hoje e no futuro desafios societais complexos onde o comportamento é essencial. Para lhes responderemos necessitaremos de decisoras/es mais informados pelas ciências comportamentais, particularmente a ciência psicológica, e de políticas (públicas) eficientes, eficazes e responsivas às pessoas, geradoras de confiança e promotoras da equidade, bem-estar e da coesão social.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 23.03.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/e-uma-casa-para-as-ciencias-comportamentais

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É uma casa…

“É uma casa! (para as ciências comportamentais)”, 3º artigo da rubrica “Ao redor…” (Revista Sábado) onde, saudando a criação e equipa da task force de ciências comportamentais, penso a parte da sua história que me e à Ordem dos Psicólogos Portugueses envolve a partir de uma marcante visita à CRESCER (com o Americo Nave), incluindo a uma casa do “É uma casa!” no Dia da Saúde Mental em 2018.

Diante dessa casa, ao final dessa noite, acordamos com o então Secretário de Estado Adjunto e da Saúde uma reunião na 2ªF seguinte para operacionalização de um programa nacional que, pelo contributo das ciências comportamentais, pudesse estudar, monitorizar e testar propostas de melhoria das políticas públicas de saúde. Uma remodelação governamental nesse Domingo atrasou 3 anos esta criação, agora concretizada em contexto da pandemia.

Uma viagem desde o meu encontro com o Antonio Silva em 2017 na sede da The Behavioural Insights Team, projectando um futuro de “desafios societais complexos onde o comportamento é essencial [e em que] necessitaremos de decisoras/es mais informados pelas ciências comportamentais, particularmente a ciência psicológica, e de políticas (públicas) eficientes, eficazes e responsivas às pessoas, geradoras de confiança e promotoras de equidade, bem-estar e coesão social.”

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