
TC. Leio e faço a associação automática a Tribunal Constitucional. Não foi sempre assim. Sou de uma geração marcada pela emergência da internet e por uma progressiva facilidade de acesso à informação e comunicação
Vivi a chegada do mIRC a Portugal (onde tc correspondia a teclas), alguns anos depois da sua criação em 1995. Em 1995 tinha 12 anos e, a propósito da comemoração dos 50 anos do fim da 2ª Guerra Mundial, era lançada a campanha “todos diferentes, todos iguais”. Esta campanha, de prevenção do racismo e xenofobia, foi muito impactante para mim tal qual foi o desenvolvimento da internet, para mim e para toda a sociedade. Nesse momento, a perspectiva da diversidade como riqueza ajudou-me a pensar-me no Mundo e na minha relação comigo e com as outras e os outros. A pensar a diversidade de percursos, experiências e crenças como factor de questionamento e desenvolvimento.
Era outro o tempo e foi com deslumbramento que 2 anos depois fui a Londres, única vez até 2004 que, com excepção de cidades fronteiriças, saí de Portugal. No ano seguinte “devorei” a Expo98 onde fui várias vezes no comboio que de perto da minha aldeia me levava e trazia desse outro Mundo que era uma Lisboa efervescente. Mais tarde a Universidade, aqui, e depois em Itália onde o Erasmus me deu finalmente Mundo, permitindo-me conhecer o país, viajar por países vizinhos e sentir-me no centro da Europa. Quatro momentos essenciais de contacto com a diversidade que muito me transformaram e que, com perda também (a transformação nunca resulta apenas em ganho), muito contribuíram para o que e quem hoje sou. Quatro momentos que partilham o tempo de transformação da forma como comunicamos em sociedade, nomeadamente com a generalização dos telemóveis e SMS, da internet, email e messenger e das redes sociais.
Em 2004, enquanto estudava Psicologia em Turim, nascia o Facebook e o país onde vivia discutia a “Lei Gasparri” e a reforma do sistema audiovisual à medida da possibilidade da sua posse (controlo?) pelo grupo ligado ao primeiro-ministro, Sílvio Berlusconi. O Erasmus deu-me Mundo, dizia. Mundo, no momento da emergência de um dos grandes impulsionadores das redes sociais do início do século XXI – o Facebook; e de um dos grandes impulsionadores do populismo nas democracias do início do século XXI – Berlusconi.
Nesse ano passavam 9 anos do “todos diferentes, todos iguais”, tantos quantos nos levariam a 2013. Em Portugal saíamos “atrasados” da grave crise sócioeconómica que marcou a minha geração. Na Europa assistíamos com espanto ao início do que viria a ser a grave crise migratória com milhares de pessoas a arriscarem a vida no Mediterrâneo por um novo modo de vida. O Mundo, já movido pelas redes sociais, inquietava-se com as relevações de espionagem feitas por E. Snowden mas via nascer a Cambridge Analytica, empresa de comercialização de perfis de personalidade maioritariamente traçados via Facebook para mais eficaz personalização de mensagens com fins políticos.
O “choque” do triângulo populismo – crise sócioeconómica – crise migratória com o triângulo internet – redes sociais – Cambridge Analytica ajuda a explicar como chegamos ao fim de 2016 com Trump presidente dos EUA e com o Reino Unido, pós-referendo “Brexit”, a debater como sair da UE. No fundo, a compreender como viajamos do “todos diferentes, todos iguais” a um “demasiado(s) polarizados, todos iguais”.
Sentimos e conhecemos disso diversos exemplos. Permitam-me um. Segundo o Pew Research Centre nos EUA em 2018 eram 45% as/os Democratas e 35% as/os Republicanas/os que ficariam “desagradadas/os” se as suas filhas ou filhos se unissem com alguém do outro partido, valor que tem crescido sistematicamente e que era em 1960 4% (subiu 11 vezes nas pessoas do Partido Democrata e 9 do Republicano).
Realidades complexas, como a polarização, têm invariavelmente determinantes múltiplos. Ainda assim, destaco 4 determinantes suas e da forma como hoje nos relacionamos em sociedade: 1) efeito “bolha” que agrupa das redes sociais que, pela heurística da disponibilidade, validam todas as opiniões, estereótipos e crenças e, pelo viés da confirmação, as reforçam e extremam, também pela oposição a outras, diferentes; 2) a urgência e velocidade das redes sociais, autoestradas de partilha de informação mas também de desinformação que, por ”super propagadoras/es” e/ou pelo punch emocional associado às emoções negativas em que normalmente assenta (medo, raiva ou ódio), se propaga até 6 vezes mais rápido que a informação; 3) a busca da atenção mediática com introdução de belicismo no debate público e transformação dos adversários em inimigos; 4) a “pós-verdade” e a diluição de mediadores (jornalistas ou profissionais de saúde) a que assistimos que, pela anulação da democrática diferença entre facto e opinião, nos conduz à disfuncionalidade – “se não podemos concordar no que é verdade, nos factos básicos sobre os quais a política assenta, não podemos ter uma democracia funcional.” (T. Friedman)
Pensar a sociedade e as instituições implica reflectirmos no que aqui nos trouxe, prevenindo respostas simplistas (mais polarizadoras). Implica empatizar com “o outro lado”, prevenindo o “erro Hillary” (expressão minha) e a consideração que “do outro lado” estão “deploráveis”. Assim não é, e por assim não ser, há razões para se nos envolvermos acreditarmos num futuro melhor.
Senão vejamos, hoje e por recentes acontecimentos no Mundo, temos muito maior consciência da polarização e dos seus efeitos na sociedade. A internet e as redes sociais são ferramentas que, com outra auto-regulação e regulação legal, poderão ser poderosas no apelo à participação e cidadania e na promoção da mudança e equidade. Há hoje maior reconhecimento do papel das competências sócioemocionais, sendo desejável (e possível) investir na sua promoção, particularmente em áreas como a capacidade empática e o pensamento crítico. Também da importância da literacia científica e nos media e da necessidade de inoculação, pelo maior reconhecimento (como se de vacinação falássemos), da desinformação e fake news e da utilização de fact checking. Finalmente, há hoje e haverá no futuro mais atenção e investimento na saúde psicológica e na promoção da regulação emocional e capacidade de resiliência, fulcrais na prevenção da necessidade de procura de controlo e valorização nas “bolhas”, muitas vezes pelo confronto com outras “bolhas”.
Porque, aqui e ali, no Mundo ao redor, existe hoje maior polarização, importa que reforcemos a conexão com as outras e os outros, validando o que sentem e pensam. Importa que construamos pontes e não apenas “atiraremos factos” (alguém deixará de ser “terraplanista” pelos factos?), dialogando sobre os obstáculos que se colocam à mudança.
A ciência psicológica pode ajudar na compreensão do fenómeno, mas também na sua prevenção e mitigação. Algo urgente também num Portugal que, felizmente, ainda não sofre o que outros países já sofrem com este fenómeno que, como o mIRC, aqui chega com alguns anos de atraso. Atraso que nos dá a oportunidade de – antes de sofrermos mais por “demasiado(s) polarizados” e pelo reforço da confiança nas pessoas, comunidades e instituições – regressarmos ao original, belo e significativo “todos diferentes, todos iguais”.
Tiago Pereira
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/demasiados-polarizados-todos-iguais