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Ao redor... (Revista Sábado)

Pareto, Penumbras e Prevenção – 3 “P” para Odemira (Revista Sábado; 18.05.2021)

Quem como eu nasceu na década de 1980 recorda as longas filas que nessa e na década seguinte se formavam no IC1 rumo ao Algarve. Recordo-as por abrirem os telejornais a cada quinzena do Verão. Recordo-as também, muito, por um ano e uma viagem em particular onde, após horas (que pareceram dias) em pára-arranca no IC1 e com uma fila imensa à nossa frente, viramos para onde mais ninguém pareceu virar, seguindo numa estrada sem carros rumo à costa Alentejana e a Sines, nosso destino. Quem, como eu, conheceu Sines na década de 1990, sabe possível num lugar de uma beleza e potencial difícil de definir, coexistirem problemas sociais e ambientais complexos e desafiantes. Nas últimas semanas, no pára-arranca de casos, o “país” virou para onde normalmente não vira e rumou à costa Alentejana e no concelho de Odemira, imediatamente abaixo do de Sines e três décadas depois, encontrou o que dele trago sempre comigo: uma beleza e um potencial difícil de definir que coexiste com problemas sociais e ambientais complexos e desafiantes.

 

Associo-me à feliz caracterização de João Ferrão a propósito da pandemia comportar quatro efeitos importantes que nos ajudam a pensar o território – revelador, expondo vulnerabilidades, debilidades e iniquidades a diversos níveis, por exemplo no emprego, habitação ou acesso a ferramentas digitais; acelerador, porque tornou abruptas tendências como a digitalização na educação ou no trabalho; desordenador, porque, ao precipitar a necessidade de mudanças comportamentais e sociais, provoca o questionamento de opções e modelos de funcionamento, nomeadamente nas formas de deslocação; (potencialmente) disruptor em sentido positivo, porque gerou comportamentos pró-sociais e acções proactivas dos cidadãos, particularmente quanto a grupos profissionais, a grupos mais vulneráveis ou a comunidades.

 

Se a pandemia trouxe estes efeitos ao território, semanas de números elevados de casos positivos por 100.000 habitantes e de decisões e debate, por vezes inflamado e raras vezes focado em soluções, trouxeram estes quatro efeitos à situação da população migrante que trabalha no perímetro de rega do Rio Mira, principalmente na faixa litoral do enorme concelho de Odemira. Revelou, acelerou, desordenou e, esperamos todas e todos, foi disruptivo, no sentido de provocar mudanças que respondam aos diferentes problemas, necessidades e expectativas que confluem por vezes em conflito naquela situação.

 

Esta confluência, a sua intensidade e as múltiplas consequências provoca aquilo que podemos denominar um problema social complexo. Tal como noutros problemas sociais complexos, esta situação não exige uma reposta, mas múltiplas respostas, ou o envolvimento de uma entidade ou organização, mas de múltiplas entidades e organizações. Tal como noutros problemas sociais complexos, não pode ser imediatamente resolvido porque implica acções estruturais e sustentadas no tempo. Também tal como noutros problemas sociais complexos, é fundamental que ao envolvimento das múltiplas entidades e organizações, se associe o da comunidade local e da comunidade científica com objectivos e propósito comuns, incluindo a ciência psicológica cujo conhecimento e evidência podem contribuir com 3 “P” para a mitigação desta situação.

 

“P” de Pareto. Já em 2014 o Pew Research Center nos seus estudos integrados nas “Tendências e Atitudes Globais” identificava que nos EUA e na Europa a preocupação com a desigualdade ultrapassava todas as outras. Como Antonhy Atkinson vem defendendo cumpre traduzir esta crescente preocupação em políticas que combatam a desigualdade, particularmente quando o “trabalho atípico” (conceito ainda insuficientemente abordado no debate público e onde o trabalho sazonal se destaca) ganha cada vez mais terreno também por um crescente número de empresas (negócios) tratar o encargo com trabalhadoras e trabalhadores como custo variável (accionando-os conforme as necessidades a cada momento). Em Odemira, à atipicidade de algum trabalho, juntam-se necessidades da comunidade (nomeadamente económicas) e a inexistência de condições estruturais para lhe responder, que se expressam nas carências de habitação, mas que vão muito além destas e que tocam diversos direitos humanos universais como a liberdade e o bem-estar físico e psicológico, a protecção social e fruição cultural, a liberdade de manifestação religiosa ou a segurança. Esta complexidade implica perseguir uma economia de bem-estar assente na eficiência de Pareto, ou seja visar a melhor alocação de recursos possível e um sistema que não permita que “uma das partes melhore” se tal implicar que “outra parte piore”. Tal depende de um projecto co-construido para o território, participado e partilhado, e de uma liderança visionária que faça do combate à desigualdade, da garantia da igualdade de oportunidades e da partilha de recursos elementos-chave na promoção dos direitos humanos e na prevenção de problemas nas áreas da educação, saúde ou criminalidade.

 

“P” de Penumbras. Apesar de, metaforicamente, associada à escassez e pobreza, o conceito de penumbra corresponde ao ponto de transição da luz para a sombra e é usado para descrever a sombra que resulta da intersecção de dois corpos, por exemplo num eclipse. O conceito de penumbra social tem sido recentemente muito estudado, significando o que resulta da intersecção de dois indivíduos ou grupos sociais diversos, nomeadamente nos impactos nas atitudes políticas ou nas questões de discriminação. Se sabíamos há muito que interacções pessoais, em certas situações e condições, podem ajudar a criar empatia e reduzir o preconceito (por exemplo termos amigas ou amigos emigrantes ou imigrantes), hoje há evidência mais robusta de que o crescimento de penumbras entre grupos (de interacções e das sombras delas resultantes) ao invés de pobreza cria riqueza, diminuindo preconceito e potenciando empatia. Em Odemira, as penumbras sociais não se devem limitar à população migrante, claro está central nesta situação, mas também utilizadas para mitigar preconceitos que possam, de forma semelhante, existir sobre as organizações e empresas do território, sobre a comunidade local, sobre quem visita ou investe no território. Reforçar o contacto, a convivência, a participação e comunicação no espaço público é essencial à construção de pontes por oposição a muros, à maior compreensão mútua e à definição de objectivos e propósitos comuns, mesmo em situações de elevada complexidade.

 

“P” de Prevenção. Pontes essenciais para que não nos desumanizemos pela criação e aprofundamento de um “nós” vs “elas/es” – sejam empresárias/os, arrendatárias/os, decisoras/es ou migrantes. Pontes que existindo devem ser permanentemente atravessadas, prevenindo-se a adaptação às condições existentes e ao nosso papel, quais seres humanos com forte capacidade de adaptação que somos. Prevenindo-se também a fadiga da compaixão e a dessensibilização, processo por vezes muito útil para lidar com o stresse e o desconforto, que deve nos problemas sociais complexos ser contrabalançado pelo activismo nas causas e pelo não aceitar permanente da situação, tornando-a saliente não apenas nos insucessos, mas nos e pelos sucessos que nos validam e levam mais pessoas e grupos a acreditarem e a mobilizarem-se. Prevenindo ainda a normalização daquilo que não é nem pode ser o esperado ou sequer o possível. Prevenindo, finalmente, a desresponsabilização e o “passa culpas” das diferentes partes, colocando o enfoque em soluções.

 

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, não haverá outra Odemira de tão ímpar, bela e desafiante, no seu vasto e diverso território. Mas há hoje, e haverá no futuro, um conjunto de problemas sociais complexos onde a ciência psicológica e as psicólogas e os psicólogos podem ter um decisivo contributo. Na condição de cidadãs e cidadãos, activando-se enquanto agentes de direitos humanos, advogando pela sua centralidade e universalidade. Como cientistas, estudando e reflectindo sobre os fenómenos. Promovendo literacia que permite aproximar pelo conhecimento e empatizar pelo reconhecimento. Testando soluções, escalando as de maior impacto. Como profissionais, trabalhando com pessoas, grupos e comunidades apoiando e suportando a mudança pela promoção de competências e de factores de resiliência pessoal e social. Mediando e facilitando a comunicação entre pessoas e grupos, intervindo nos acontecimentos de vida mais significativos e nas crises. Promovendo confiança… A confiança que tenho que Odemira (tão significativa para mim) caminhará na direcção certa e que no futuro poderá continuar a ser apontada, nesta como noutras questões, como exemplo… A seguir.

 

Tiago Pereira

in Revista Sábado

[18.05.2021]

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/pareto-penumbras-e-prevencao–3-p-para-odemira

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