
“Não há vestígios de mim no quarto onde a Meredith foi assinada (…) mas tentam encontrar a resposta nos meus olhos, quando a resposta está mesmo ali. Estão a olhar para mim. Porquê? Estes são os meus olhos. Eles não são provas objectivas.” Amanda Knox, jovem Americana duas vezes condenada e outras duas vezes ilibada, a última das quais definitivamente, da participação no violento homicídio da sua companheira de casa em Perugia (Itália) em 2007. Além dos quatro anos que esteve detida e dos oito anos de processo, ainda hoje muitas e muitos a julgam culpada (no mínimo corresponsável) deste crime, não porque existam provas ou sequer indícios nesse sentido, antes pela “inadaptação” do seu comportamento (assim sucessivamente descrito e caracterizado) na fase de investigação que se sucedeu ao crime e pela forma como reagiu a toda a pressão (psicológica) associada à situação e a que foi submetida.
Todas e todos julgamos. Todas e todos tendemos a crer, a supor, a formar juízo, normalmente valorativo, e até a sentenciar outras e outros, conheçamo-los ou não. Fazemo-lo para minimizar a incerteza que nos causa desconforto, particularmente quando estamos ou nos sentimos em situação de maior vulnerabilidade. Fazemo-lo porque assumimos conhecer o ou a outra e a situação, sendo-nos, portanto, possível compreender e expiar, distribuindo culpa e a afirmando a superioridade moral e de comportamento face às ou aos culpados (por vezes grupos). “São as pessoas a projectarem os seus medos. Querem a garantia de que sabem quem são as pessoas más e não são elas”, diz Amanda Knox. Algo tão comum que, em alguns círculos, é não apenas a norma mas identitário, funcionando o julgamento de outros e outras como parte de um todo em que quem o constitui, mais do que se identificar entre si, identifica-se nesse julgar, nesse combater, do e dos inimigos. Do ou dos inimigos, reais ou não, porque muitas vezes estes fenómenos resultam da utilização de desinformação ou mesmo da construção e proliferação de teorias da conspiração.
Isto, apesar da sociedade ter instrumentos democráticos que asseguram direitos às pessoas visadas ou mesmo investigadas, quando se trata de processos formais. Apesar de existirem normativos autorregulatórios sociais, das forças policiais ou de um conjunto de associações profissionais como a minha, cujo código deontológico, por exemplo, convoca os psicólogos e as psicólogas para uma atitude de “não julgamento” face a “outros colegas ou outros profissionais”. Isto, apesar de todos e todas já termos experienciado dúvida – se não mesmo arrependimento – após um julgamento de uma situação, pessoa ou grupo que mais tarde consideramos desadequado ou injusto. Isto, apesar de já todos e todas termos experienciado que detectar uma mentira, conforme inúmeros estudos têm demonstrado (ver, por exemplo, Paul Ekman ou Timothy Levine) nos é difícil (muito mais do que achamos). E isto, finalmente, quando, também ao contrário do que pode parecer, julgar é muito desafiante e difícil.
A conectividade, a velocidade e a globalidade que caracterizam o Mundo, hoje, fazem com que vivamos certamente as décadas em que mais pessoas contactam, por múltiplas razões, com pessoas de si diversas e para si desconhecidas. Viagens, de lazer ou de trabalho, organizações ou eventos multinacionais, redes sociais e outras tecnologias de contacto e conexão fizeram dos últimos 20 anos os 20 anos da história da humanidade em que mais nos relacionamos directamente com outras e outros nossos desconhecidos. Este facto explicará parte da colaboração nos fantásticos desenvolvimentos nos últimos anos nas áreas científica, desportiva ou artística para dar apenas três exemplos, que vivem da riqueza da diversidade e da complementaridade, mas também os mal-entendidos potenciais (não necessariamente problemáticos) quando contactamos com desconhecidos que, ao contrário do que intuitivamente poderíamos esperar (e do que achamos), até podem aumentar com mais contacto. Devíamos, assim, ser humildes e abertos quando contactamos com desconhecidos e desconhecidas. Ao invés, muitas vezes somos certos da “verdade” sobre eles e elas e disponíveis para investir, apenas, na confirmação dessa “verdade”. Certos e preparados para conscientemente não interromper o impulso e… julgar.
“Todas as pessoas julgam e por isso não estamos aqui para mudar a mente das pessoas e dizer que não julguem (…) antes para tornar a informação disponível em ambiente seguro para que possam tomar decisões, esperamos, mais informadas”. Palavras de Ronnin Abergel, fundador e Director da Humam Library (Biblioteca Humana) criada em 2000 com o lema “Unjudge someone” (Não-julgues alguém) e cujo objectivo último visa a criação de espaços permanentes de conversação sobre a diversidade, baseados não em julgamentos impulsivos (automáticos) mas racionais (ponderados) após contacto com alguém que sabe, conhece ou vive a situação em apreço, permitindo a discussão de assuntos desafiantes e o colocar “à prova” os nossos estereótipos. Um projecto cujo fim último é relevantíssimo para a coesão social, qualidade de vida e vida em sociedade de todas e todos e que usa da transposição da biblioteca (de livros para humana), do ditado popular “não julgues um livro pela capa” (de um livro para uma pessoa) e da arte enquanto veículo primordial para a compreensão, aceitação e para a ideia de não julgamento – “Don´t let me be misunderstood” (Não me deixes ser mal-entendida), cantava Nina Simone.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, devemos promover estes contactos e diálogo na diversidade com relação, segurança e com confiança nas e nos outros, como forma de construirmos uma sociedade não baseada numa atitude permanente de julgamento, de trincheira e de estereótipos e preconceitos. Aqui e ali, no Mundo ao redor, podemos, também pela promoção da saúde psicológica, da empatia, da abertura, da aceitação, da resolução não violenta de conflitos, da mediação e da negociação, afirmar a honestidade e a confiança por defeito como princípios humanos e valores humanistas, enfrentando os reveses de quando se comprova que assim não é, mas prevenindo os que resultam de uma atitude em que, por princípio, assim nunca é. Aqui e ali, no Mundo ao redor, ganhemos, desta forma, mais tempo e energia para nos (re)centrarmos no que controlamos, investindo em nós, no nosso autocuidado e na promoção de competências que nos permitam crescer e contribuir para um Mundo tendencialmente justo e seguro e enquanto espaço possível de bem-estar para todas e todos.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, reflictamos na situação vivida por Amanda Knox e nas suas palavras – “Há quem acredite na minha inocência. E há quem acredite na minha culpa. Não há meio termo. E, se sou culpada, isso significa que sou derradeira figura a temer. Porque não sou a óbvia. Mas, por outro lado, se sou inocente, isso significa que todos somos vulneráveis e esse é o pesadelo de todos” – buscando o efeito tranquilizador de sabermos que o erro de não condenar (nas múltiplas aceções da palavra) quem o mereceria tem um valor (democrático e de direitos humanos) claramente distinto do de condenar quem não o mereceria.
Tiago Pereira
in Sábado (Ao redor…); 10.08.2021
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/eu-julgo-tu-julgas-elas-e-eles-julgam-nos-julgamos



