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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Política

Eu julgo, tu julgas, ela/s e ele/s julga/m, nós julgamos (Ao redor…; Sábado; 10.08.2021)

“Não há vestígios de mim no quarto onde a Meredith foi assinada (…) mas tentam encontrar a resposta nos meus olhos, quando a resposta está mesmo ali. Estão a olhar para mim. Porquê? Estes são os meus olhos. Eles não são provas objectivas.” Amanda Knox, jovem Americana duas vezes condenada e outras duas vezes ilibada, a última das quais definitivamente, da participação no violento homicídio da sua companheira de casa em Perugia (Itália) em 2007. Além dos quatro anos que esteve detida e dos oito anos de processo, ainda hoje muitas e muitos a julgam culpada (no mínimo corresponsável) deste crime, não porque existam provas ou sequer indícios nesse sentido, antes pela “inadaptação” do seu comportamento (assim sucessivamente descrito e caracterizado) na fase de investigação que se sucedeu ao crime e pela forma como reagiu a toda a pressão (psicológica) associada à situação e a que foi submetida.

Todas e todos julgamos. Todas e todos tendemos a crer, a supor, a formar juízo, normalmente valorativo, e até a sentenciar outras e outros, conheçamo-los ou não. Fazemo-lo para minimizar a incerteza que nos causa desconforto, particularmente quando estamos ou nos sentimos em situação de maior vulnerabilidade. Fazemo-lo porque assumimos conhecer o ou a outra e a situação, sendo-nos, portanto, possível compreender e expiar, distribuindo culpa e a afirmando a superioridade moral e de comportamento face às ou aos culpados (por vezes grupos). “São as pessoas a projectarem os seus medos. Querem a garantia de que sabem quem são as pessoas más e não são elas”, diz Amanda Knox. Algo tão comum que, em alguns círculos, é não apenas a norma mas identitário, funcionando o julgamento de outros e outras como parte de um todo em que quem o constitui, mais do que se identificar entre si, identifica-se nesse julgar, nesse combater, do e dos inimigos. Do ou dos inimigos, reais ou não, porque muitas vezes estes fenómenos resultam da utilização de desinformação ou mesmo da construção e proliferação de teorias da conspiração.

Isto, apesar da sociedade ter instrumentos democráticos que asseguram direitos às pessoas visadas ou mesmo investigadas, quando se trata de processos formais. Apesar de existirem normativos autorregulatórios sociais, das forças policiais ou de um conjunto de associações profissionais como a minha, cujo código deontológico, por exemplo, convoca os psicólogos e as psicólogas para uma atitude de “não julgamento” face a “outros colegas ou outros profissionais”. Isto, apesar de todos e todas já termos experienciado dúvida – se não mesmo arrependimento – após um julgamento de uma situação, pessoa ou grupo que mais tarde consideramos desadequado ou injusto. Isto, apesar de já todos e todas termos experienciado que detectar uma mentira, conforme inúmeros estudos têm demonstrado (ver, por exemplo, Paul Ekman ou Timothy Levine) nos é difícil (muito mais do que achamos). E isto, finalmente, quando, também ao contrário do que pode parecer, julgar é muito desafiante e difícil.

A conectividade, a velocidade e a globalidade que caracterizam o Mundo, hoje, fazem com que vivamos certamente as décadas em que mais pessoas contactam, por múltiplas razões, com pessoas de si diversas e para si desconhecidas. Viagens, de lazer ou de trabalho, organizações ou eventos multinacionais, redes sociais e outras tecnologias de contacto e conexão fizeram dos últimos 20 anos os 20 anos da história da humanidade em que mais nos relacionamos directamente com outras e outros nossos desconhecidos. Este facto explicará parte da colaboração nos fantásticos desenvolvimentos nos últimos anos nas áreas científica, desportiva ou artística para dar apenas três exemplos, que vivem da riqueza da diversidade e da complementaridade, mas também os mal-entendidos potenciais (não necessariamente problemáticos) quando contactamos com desconhecidos que, ao contrário do que intuitivamente poderíamos esperar (e do que achamos), até podem aumentar com mais contacto. Devíamos, assim, ser humildes e abertos quando contactamos com desconhecidos e desconhecidas. Ao invés, muitas vezes somos certos da “verdade” sobre eles e elas e disponíveis para investir, apenas, na confirmação dessa “verdade”. Certos e preparados para conscientemente não interromper o impulso e… julgar.

“Todas as pessoas julgam e por isso não estamos aqui para mudar a mente das pessoas e dizer que não julguem (…) antes para tornar a informação disponível em ambiente seguro para que possam tomar decisões, esperamos, mais informadas”. Palavras de Ronnin Abergel, fundador e Director da Humam Library (Biblioteca Humana) criada em 2000 com o lema “Unjudge someone” (Não-julgues alguém) e cujo objectivo último visa a criação de espaços permanentes de conversação sobre a diversidade, baseados não em julgamentos impulsivos (automáticos) mas racionais (ponderados) após contacto com alguém que sabe, conhece ou vive a situação em apreço, permitindo a discussão de assuntos desafiantes e o colocar “à prova” os nossos estereótipos. Um projecto cujo fim último é relevantíssimo para a coesão social, qualidade de vida e vida em sociedade de todas e todos e que usa da transposição da biblioteca (de livros para humana), do ditado popular “não julgues um livro pela capa” (de um livro para uma pessoa) e da arte enquanto veículo primordial para a compreensão, aceitação e para a ideia de não julgamento – “Don´t let me be misunderstood” (Não me deixes ser mal-entendida), cantava Nina Simone.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, devemos promover estes contactos e diálogo na diversidade com relação, segurança e com confiança nas e nos outros, como forma de construirmos uma sociedade não baseada numa atitude permanente de julgamento, de trincheira e de estereótipos e preconceitos. Aqui e ali, no Mundo ao redor, podemos, também pela promoção da saúde psicológica, da empatia, da abertura, da aceitação, da resolução não violenta de conflitos, da mediação e da negociação, afirmar a honestidade e a confiança por defeito como princípios humanos e valores humanistas, enfrentando os reveses de quando se comprova que assim não é, mas prevenindo os que resultam de uma atitude em que, por princípio, assim nunca é. Aqui e ali, no Mundo ao redor, ganhemos, desta forma, mais tempo e energia para nos (re)centrarmos no que controlamos, investindo em nós, no nosso autocuidado e na promoção de competências que nos permitam crescer e contribuir para um Mundo tendencialmente justo e seguro e enquanto espaço possível de bem-estar para todas e todos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, reflictamos na situação vivida por Amanda Knox e nas suas palavras – “Há quem acredite na minha inocência. E há quem acredite na minha culpa. Não há meio termo. E, se sou culpada, isso significa que sou derradeira figura a temer. Porque não sou a óbvia. Mas, por outro lado, se sou inocente, isso significa que todos somos vulneráveis e esse é o pesadelo de todos” – buscando o efeito tranquilizador de sabermos que o erro de não condenar (nas múltiplas aceções da palavra) quem o mereceria tem um valor (democrático e de direitos humanos) claramente distinto do de condenar quem não o mereceria.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 10.08.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/eu-julgo-tu-julgas-elas-e-eles-julgam-nos-julgamos

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Ao redor... (Revista Sábado) Psicologia

Eu julgo, tu julgas, ela/s e ele/s julga/m, nós julgamos

“São as pessoas a projectarem os seus medos. Querem a garantia de que sabem quem são as pessoas más e não são elas”.

Palavras de Amanda Knox, jovem Americana 2 vezes condenada e outras 2 vezes ilibada, a última das quais definitivamente, da participação no violento homicídio da sua companheira de casa em Perugia (Itália) em 2007. Muitas e muitos, volvidos 14 anos e depois de uma mediática investigação e de diversos tribunais, a julgam culpada (no mínimo corresponsável) deste crime, não porque existam provas ou sequer indícios nesse sentido, antes pela “inadaptação” do seu comportamento (assim sucessivamente descrito e caracterizado) na fase de investigação que se sucedeu ao crime e pela forma como reagiu a toda a pressão (psicológica) associada à situação e a que foi submetida.

“Eu julgo, tu julgas, ela/s e ele/s julga/m, nós julgamos”, 13º artigo da rubrica “Ao redor…” (Revista Sábado) procura pensar e reflectir sobre o porquê de todas e todos, assumindo conhecer a ou o outro ou outros e as diversas situações, tendermos a julgar. Isto quando existem na sociedade instrumentos (democráticos), normativos sociais e até autorregulatórios que o previnem, quando já todas e todos experimentados dúvida (ou até arrependimento) sobre um julgamento que fizemos, quando nos é tão difícil, como a investigação comprova, detectar mentiras e quando nos é tão desafiante julgar.

No entanto, o julgamento cumpre invariavelmente um papel. Preenche vazios, permite a expiação, a distribuição de culpas, a identificação e a formação de grupos. Também por isso diminui a confiança nos e nas outras e nas instituições da sociedade, polariza, entrincheira. “Devíamos, assim, ser humildes e abertos quando contactamos com desconhecidos e desconhecidas”, escrevo, quando “ao invés, muitas vezes somos certos da “verdade” sobre eles e elas e disponíveis para investir, apenas, na confirmação dessa “verdade”. Certos e preparados para conscientemente não interromper o impulso e… julgar.”

“Unjudge someone” (Não-julgues alguém) é o lema da Biblioteca Humana, projecto criado em 2000 visando a criação de espaços permanentes de conversação sobre a diversidade, baseados não em julgamentos impulsivos (automáticos) mas racionais (ponderados) após contacto com alguém que sabe, conhece ou vive a situação em apreço, permitindo a discussão de assuntos desafiantes e o colocar “à prova” os nossos estereótipos. Devemos promover estes contactos e diálogo na diversidade com relação, segurança e com confiança nas e nos outros, como forma de construirmos uma sociedade não baseada numa atitude permanente de julgamento, de trincheira e de estereótipos e preconceitos. Podemos fazê-lo investindo na promoção da saúde psicológica, da empatia, da abertura, da aceitação, da resolução não violenta de conflitos, da mediação e da negociação, afirmando a honestidade e a confiança por defeito como princípios humanos e valores humanistas também porque “o erro de não condenar (nas múltiplas aceções da palavra) quem o mereceria tem um valor (democrático e de direitos humanos) claramente distinto do de condenar quem não o mereceria.”

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia

Balda da Escassez (Ao redor…; Sábado; 27.07.2021)

Em 20 anos desembarcaram cerca de 400.000 migrantes em Lampedusa, ilha Italiana com 20 km quadrados e menos de 7000 habitantes. Assim começa o documentário “Fogo no Mar” de Gianfranco Rosi (2016), assinalando as muitas pessoas que em condições de enorme vulnerabilidade, chegam à ilha depois da travessia do Mediterrâneo (estreito da Sicília). A essas somam-se as cerca de 15.000 que se estima terem nele perdido a vida, mais de 2 pessoas em média a cada dia daqueles 20 anos.

O documentário, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2016, continua com uma imagem de uma cozinha e de uma mulher que poderia ser cada uma de nós ou nossa familiar. Prepara um refogado com os tomates de que conhecemos a cor, o sabor e o cheiro. Ouve uma rádio local de que conhecemos os programas e os sons. A diferença nem está na segunda notícia do noticiário daquele Domingo (o anúncio de cortes na eletricidade na ilha), apenas na língua e na notícia que o abre: mais um barco naufragado com 250 pessoas, mais 204 pessoas “salvas” mas mais 34 corpos recuperados, entre os quais mulheres e crianças, e 12 ainda por recuperar. “Pobres almas”, diz para si a mulher, sozinha na cozinha.

Em Agosto de 2019 todas e todos olhamos as águas de Lampedusa quando nesse Agosto acompanhamos as sucessivas recusas de Matteo Salvini, então Ministro do Interior Italiano, aos pedidos de acostagem do navio “Open Arms” com 147 migrantes resgatadas e resgatados do mar a bordo. Pensamos certamente nas pessoas a bordo e na complexidade da situação. Ouvimos Salvini defender a sua posição voltando à “alma” (“Não me pagam para ser uma boa alma…”) e focando sempre a associação a questões securitárias (“…mas para defender a segurança (…) confirmo, tenho a obsessão pela segurança dos cidadãos”).

Ao contrário da relação que Salvini pretende estabelecer, se há algo que une as diferentes pessoas que arriscam a travessia do Mediterrâneo procurando chegar à Europa, não é certamente o potencial para o crime e para colocar em causa a segurança do continente, antes a escassez. A escassez económica, é certo. Mas, muito e muitas vezes, associada à escassez de liberdade de opinião/religião/orientação sexual. À escassez de paz, inclusão ou de qualquer outro direito universal. À escassez de poder ser-se pessoa, de ter as necessidades mais básicas preenchidas, de se viver com espaço e potencial para se cumprir e aspirar a qualidade e bem-estar.

É a escassez que as une, como é a escassez que une as pessoas que vivem em situação de pobreza e não qualquer marcador genético ou traço de personalidade consoante há décadas era comummente considerado. Numa célebre entrevista no final de 1978, Margaret Thatcher defendeu a “inexistência de pobreza primária no Reino Unido (e nos países ocidentais)” assegurando que os problemas que restavam a este nível resultavam da incapacidade de “gastar o dinheiro”, “gerir orçamentos” e, principalmente, dos “realmente complexos defeitos de personalidade” das pessoas nesta situação. Esta posição reflecte a “individualização” de um problema social sistémico e complexo, além de acentuar que a pobreza resulta de falhas de competências das pessoas, nomeadamente da falta de auto-controlo e de capacidade de planeamento e tomada de decisão. Mais de 40 anos passaram e, embora com matizes, esta é uma posição ainda frequente no debate político e público sobre as questões da pobreza o que redunda numa dupla penalização das pessoas que vivem esta situação – às suas impactantes consequências acresce que se estão em situação de pobreza será por sua responsabilidade, por sua culpa.

Uma posição cientificamente muito pouco sustentada. Particularmente nas últimas duas décadas a evidência científica disponível, muita proveniente da ciência psicológica, demonstra de forma cada vez mais sólida o contrário. Ou seja, ao invés da pobreza resultar de faltas de capacidade de uma determinada pessoa é a falta de capacidade que resulta da situação de pobreza. É a escassez associada à situação de pobreza que impele a pessoa a viver em exclusivo o momento presente, condicionando o bem-estar e qualidade de vida. É a escassez associada à situação de pobreza que, ocupando a “largura de banda cognitiva” disponível da pessoa (tal como quando demasiadas pessoas acedem à mesma banda larga de internet e a sua capacidade, fiabilidade e velocidade diminui), condiciona significativamente a sua capacidade cognitiva e o controlo executivo, impactando a tomada de decisão e de planeamento. Além destas constatações, a ciência tem ainda demonstrado a forte e cíclica associação entre pobreza e exclusão e a ausência de saúde psicológica, considerando que as situações de exclusão e pobreza são geradoras de ansiedade, stresse e depressão e que as pessoas com níveis mais elevados destes problemas e dificuldades de saúde psicológica estão mais vulneráveis e por isso mais expostas a situações de precariedade, pobreza e exclusão.

Exclusão também retratada no “Balada de um Batráquio” filme também vencedor do Urso de Ouro (mas das curtas-metragens) desse Festival de Berlim de 2016, realizado pela portuguesa Leonor Teles. Curta que começa com uma lenda sobre um “sapo que não foi convidado para a festa porque era feio” e que nos confronta com mal-entendidos e discriminação dissimulada, mas nem por isso menos ostensiva e normalizada, sobre a comunidade cigana a partir de uma superstição feita barro distribuído por montras e portas país fora – os desconcertantes sapos verdes que não mais pretendem que assinalar quem é e não é bem-vinda e bem-vindo. Onde na pobreza surgia a justificação do “traço de personalidade”, nesta exclusão é o “traço físico” e uma pertença comunitária que a define, desaproximando e, conforme a evidência científica tem demonstrado, reforçando o ciclo atrás exposto e polarizando grupos, gerando mais ciclos de exclusão, de dificuldades de convivência e da ausência de espaço para a criação das importantes penumbras sociais.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a escassez persiste e é, não raras vezes, complementada e exponenciada por fenómenos de exclusão sobre quem com ela sofre. No momento de imprevisibilidade global que ainda vivemos pela pandemia, com o aprofundamento das desigualdades dele resultante e com o crescimento do risco potencial global de pobreza, é fundamental responder ao mais básico do mais básico das necessidades dos seres humanos, promovendo-se nas instituições e sociedade civil a confiança nas pessoas e promovendo a sua capacidade, autonomização e inclusão, interrompendo os acantonamentos e os ciclos de reprodução da escassez, exclusão e dos problemas e dificuldades de saúde psicológica. Hoje, fixos no presente que estamos também pela incerteza, é tempo de se preparar o futuro. Um futuro com mais ciência, com maior compreensão, com mais empatia e convivência. Um futuro com mais oportunidade de bem-estar e de qualidade de vida para todas e todos. Um futuro com mais coesão social e equidade. Um futuro com menos pobreza, exclusão e escassez.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 27.07.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/balada-da-escassez

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Ao redor... (Revista Sábado)

O desafio da natalidade e o cogumelo português (Ao redor…; Sábado; 13.07.2021)

O primeiro jogo eletrónico da colecção “Super Mário” foi lançado em arcade no ano em que nasci. Dois anos depois chegaria às consolas da Nintendo e continuaria a construir o espaço que ainda hoje ocupa no imaginário da minha geração e das seguintes. Estávamos em 1985, exactamente 120 anos após a data da primeira publicação do Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll e esse jogo partilharia com a história uma curiosa particularidade: num e noutro a protagonista e o protagonista crescem com cogumelos, quando chocam com eles no jogo ou comem um dos seus lados no livro.

“O que nós esperamos é uma aproximação da pirâmide etária àquilo a que chamo a imagem do cogumelo da bomba atómica (…) em que a parte central e a base da pirâmide se encolhem acentuadamente e o topo aumenta”. Ana Fernandes, presidente da Associação Portuguesa de Demografia, disse-o em declarações recentes sobre as mudanças que espera na estrutura populacional em Portugal quando forem revelados os dados do Censo de 2021 e que apontarão a um cogumelo que, contrariamente aos do jogo e do livro, não nos faz crescer. Pelo contrário.

São múltiplas as causas para a rápida transformação da pirâmide etária da população residente em Portugal. Umas francamente positivas, como o grande aumento da esperança média de vida, da escolarização e do período de formação da população e a maior, embora ainda desigual, integração das mulheres no mercado de trabalho. Outras negativas, como o efeito da crise socioeconómica da última década, os níveis de precariedade, a instabilidade laboral e de rendimento económico e a inconstância no saldo migratório do país. Finalmente, uma particularmente desafiante, a natalidade.

Múltiplas causas com denominador comum. Serem, cada uma delas, determinadas também por múltiplos factores e resultarem em impactos significativos nas pessoas e na sociedade. Em suma, a demografia, em Portugal, é hoje e para futuro um desafio societal complexo, como o é, aliás, noutros países de regiões diversas do Mundo, e sendo-o deve o país procurar responder-lhe mobilizando propostas que assentem, também, na forma como as pessoas se comportam, relacionam, tomam decisões e se integram e interagem na e com a sociedade, não podendo ignorar-se os contributos da ciência psicológica.

Vejamos em maior detalhe a natalidade. No próximo ano passarão 40 anos consecutivos em que a fecundidade não permite a substituição de gerações em Portugal (desde 1982) e 13 (desde 2009) com saldo natural negativo (diferença entre o número de nascimentos e mortes). Indicadores que reflectem a queda no número de nascimentos (cerca de 214.000 em 1960; 120.000 em 2000; 84.500 em 2020); do número de filhas e/ou filhos por mulher em idade fértil (3,2; 1,6; 1,4, respectivamente); a idade mais tardia das mulheres aquando da ou do primeiro filho (25; 26,5; 30,7 anos); a duplicação desde 2000 dos agregados familiares monoparentais; e o impacto da crise socioeconómica da última década nos nascimentos (2013 e 2014 são os únicos anos com nascimentos abaixo dos 83.000).

O momento que vivemos, pela sua imprevisibilidade, incerteza e insegurança associada, é propício a uma maior fixação no tempo presente e a um adiamento de decisões com forte impacto no futuro como a maternidade e paternidade. A este fenómeno acresce a crise socioeconómica resultante da pandemia que vivemos com impacto na natalidade hoje (em 2020 o número de nascimentos voltou a baixar face a anos anteriores e o primeiro trimestre de 2021 teve os valores mais baixos desde 2015 – cerca de 18.200 nascimentos) e, previsivelmente, nos próximos anos, tornando ainda mais urgente uma eficaz acção sobre esta matéria que julgo poder ser informada por dois tipos de dados recolhidos no Inquérito de Fecundidade de 2019 do INE.

Medidas públicas, com contributos da ciência psicológica e parte delas já experimentadas com sucesso noutros países, que responderiam fundamentalmente ao que os e as respondentes ao inquérito identificam como o que sentiriam ser apoios para si promotores da vontade e capacidade de serem mães e pais, como a existência de creches gratuitas (hoje tema importante no debate das Autárquicas 2021 na cidade de Lisboa), passes gratuitos para todas as crianças e adolescentes em idade escolar (medida já implementada em diversos municípios) e cidades mais “amigas” das famílias e responsivas às suas necessidades. Paris tem investido neste conceito tal como França enquanto país bonifica para efeitos de pensão trabalhadoras com filhas e/ou filhos, outra questão analisada. Também a possibilidade de investirmos em licenças pagas mais longas, mais flexíveis e mais partilhadas com companheiras ou companheiros, conforme acontece, por exemplo, na Dinamarca. A implementação de maior protecção social e de abonos monetários verdadeiramente significativos, conforme a comunidade de Madrid se prepara para implementar, ou de apoios em “géneros” conforme acontece com a “Baby Box”, caixa com produtos e materiais de apoio à maternidade e paternidade dada a todas as famílias com recém-nascidos há cerca de 80 anos na Finlândia. Outro ponto destacado aponta a mais tempo disponível para a vida pessoal, reduzindo o número de horas de trabalho semanal e flexibilizando os horários de trabalho como recentemente a Islândia pilotou com cerca de 1% da sua população activa com resultados que demonstram a maioria dos serviços a manter (ou até aumentar em alguns casos) a produtividade. Finalmente, a promoção de uma mais rápida integração no mercado de trabalho e a promoção da estabilidade de previsibilidade de trabalho e rendimento, até por forma a minimizar o impacto do progressivo aumento da idade do ou da primeira filha.

Mas também medidas que apelido de saúde psicológica e bem-estar, com contributo de psicólogas e psicólogos, respondendo essencialmente às 37% das mulheres que no inquérito referem esperar vir a ter menos filhas e/ou filhos do que desejariam. Não tanto quem não deseja ser mãe ou pai, antes estes 37% de mulheres a que se somarão um conjunto significativo de homens, devem merecer toda a nossa atenção. Aqui, pode contribuir-se de formas muito diversas que vão desde a participação em processos de intervenção e apoio à fecundidade ou procriação medicamente assistida, à promoção de literacia e de competências parentais, ao estímulo para a criação de redes de apoio entre mães/pais, à prevenção e intervenção na depressão pós-parto (estima-se que atinja quase 1 em cada 4 mulheres na Europa e que possa duplicar em contexto de pandemia) e no trauma associado ao parto, elementos com forte impacto na possibilidade de se avançar para nova maternidade ou paternidade. Também na prevenção dos riscos psicossociais associados ao trabalho, nomeadamente nas questões de sobrecarga e stresse, na promoção do equilíbrio entre a vida pessoa e profissional e de opções flexíveis de trabalho ao longo da carreira ou no acompanhamento e apoio à definição e concretização de planos e projectos de vida. Ainda na participação em processos de promoção da igualdade de género e prevenção e mitigação das iniquidades neste âmbito, bem como na promoção de programas de integração de população migrante, algo fulcral ao saldo migratório anual e à própria natalidade (se em 1995 apenas 2,2% dos nascimentos em Portugal correspondiam a mães não portuguesas, em 25 anos este número aumentou mais de 6 vezes para 13,4% em 2020).

A Estratégia Portugal 2030, resultante do Plano de Recuperação e Resiliência, destaca no seu primeiro eixo a sustentabilidade demográfica, propondo-se “mitigar a perda populacional actual projectada para 2030, perseguindo a recuperação dos indicadores de natalidade e reforçando os saldos migratórios”. Creio fundamental que os fundos a ele alocados permitam não apenas medidas do primeiro grupo, mas também as que apelido de saúde psicológica e bem-estar, também atendendo ao seu papel preponderante nestes objectivos. Preponderante e cíclico porque, em simultâneo, importa termos presente que aos impactos da demografia na (in)sustentabilidade dos sistemas de saúde, segurança social ou justiça, se somam os impactos na saúde psicológica e bem-estar das pessoas que aspiram a ser pai ou mãe e assim não o decidem ou concretizam, por motivos diversos, não tendo oportunidade de se cumprirem e de encontrarem nesse papel um propósito e significado de vida importantes ao seu bem-estar, algo que sucessiva e de forma cíclica acaba por pesar na (in)sustentabilidade dos sistemas e na própria demografia.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a demografia partilha com a ciência e o âmbito da psicologia a perspectiva da importância da prevenção e intervenção antes do problema instalado. Tal decorre de, depois de consumado o problema, o “custo” da intervenção ser superior e a intervenção ser mais complexa e com sucesso potencial menor. É, portanto, urgente abraçar o desafio da natalidade, munindo-nos dos recursos disponíveis no país e mobilizando os diversos saberes da sociedade civil e da ciência, incluindo a ciência psicológica, neste importantíssimo desígnio e legado do país para as actuais e próximas gerações. Promover a natalidade e mitigar o “inverno demográfico”, “libertando” o país pela garantia da sua sustentabilidade, conforme o objectivo do Super Mário no jogo. Promover a natalidade e apoiar e viabilizar as condições para ser-se mãe e pai quando isso se deseja, promovendo, como a Alice procura no livro, o cumprimento das expectativas e sonhos das pessoas.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 13.07.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-desafio-da-natalidade-e-o-cogumelo-portugues

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Psicologia

O desafio da natalidade e o cogumelo português.

O “Super Mário Bros” chegou às consolas da Nintendo e ao imaginário da minha geração e das seguintes em 1985, 120 anos após a data da 1ª publicação de Alice no País das Maravilhas. O jogo partilharia com a história uma particularidade: num e noutro a protagonista e o protagonista crescem com cogumelos, quando chocam com eles (jogo) ou comem um dos seus lados (livro). Portugal também tem um cogumelo nas vividas palavras de Ana Fernandes, presidente da Ass. Portuguesa de Demografia, quando descreve as mudanças que espera na estrutura populacional com os dados do Censo 2021: “uma aproximação da pirâmide etária àquilo a que chamo a imagem do cogumelo da bomba atómica (…) em que a parte central e a base da pirâmide se encolhem acentuadamente e o topo aumenta”. Um cogumelo que, contrariamente aos do jogo e do livro, não nos faz crescer. Pelo contrário.

“O desafio da natalidade e o cogumelo português”, 11º artigo da rubrica “Ao redor…” (Revista Sábado) reflecte sobre as causas para a rápida transformação da pirâmide etária da população residente em Portugal, das francamente positivas (por ex., aumento da esperança média de vida) às negativas (efeito da crise socioeconómica da última década) passando por uma particularmente desafiante: a natalidade.

“No próximo ano passarão 40 anos consecutivos em que a fecundidade não permite a substituição de gerações em Portugal e 13 com saldo natural negativo”. O momento que vivemos, além de resultar em nova crise socioeconómica, pela sua imprevisibilidade, incerteza e insegurança associada, é propício a uma maior fixação no tempo presente e a um adiamento de decisões, impactando a natalidade.

“A Estratégia Portugal 2030, resultante do PRR, destaca a sustentabilidade demográfica, propondo-se “mitigar a perda populacional actual projectada para 2030, perseguindo a recuperação dos indicadores de natalidade e reforçando os saldos migratórios”. No artigo descrevo como fundamental que os fundos permitam não apenas “medidas públicas” (assim apelido) mas também medidas que apelido de “saúde psicológica e bem-estar”. Creches mas também literacia e competências parentais. Cidades “amigas das famílias” mas também apoio à fecundidade, procriação medicamente assistida e prevenção/intervenção na depressão pós-parto. Equilíbrio entre vida pessoal e profissional mas também promoção da igualdade de género e da integração e inclusão da população migrante.

Apoios cíclicos porque, em simultâneo, impactam na demografia na (in)sustentabilidade dos sistemas de saúde ou segurança social mas também na saúde psicológica e bem-estar das pessoas que aspiram a ser pai ou mãe não tendo oportunidade de se cumprirem e de encontrarem nesse papel um propósito e significado de vida, algo que por si pesa na (in)sustentabilidade dos sistemas.

Investir neste desafio, também pela ciência psicológica, é “libertar” o país via sua sustentabilidade, conforme objectivo do Super Mário. É viabilizar o cumprimento dos sonhos, conforme Alice procura.

 

 

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O valor da amizade (Ao redor…; Sábado; 29.06.2021)

No tempo incerto que vivemos, entramos no Verão de 2021 no 15º mês de uma complexa e duradoura pandemia e com o Campeonato Europeu de Futebol de 2020 (!) a decorrer. Competição atomizada por 11 cidades europeias e marcada por improváveis restrições e por cada vez menos improváveis, mas nem por isso menos inquietantes, posições do organismo que a organiza em torno de assuntos que remetem para direitos, liberdades e equidade. Ainda assim, como em qualquer grande competição internacional de equipas, é bastante provável que no próximo 11 de Julho a selecção vencedora comemore a vitória ao som do “We are the champions”, música composta por Freddie Mercury para funcionar como “um jogo de diálogo” entre os seus Queen no palco e os “nós” na plateia.

Este diálogo (nós com outras ou outros), também pela sua dimensão simbólica, é uma poderosa ferramenta e um traço distintivo dos seres humanos. Foi-o para o homo neanderthalensis (Neondertal) há dezenas de milhares de anos que, mesmo em condições de sobrevivência exigentes, desenvolvia rituais sociais diversos e até fúnebres (por exemplo enterrando corpos em posição fetal), demonstrando uma vantagem evolutiva fundamental – a consciência de si aliada à capacidade de imaginar, celebrar e eternizar-se enquanto ser de uma comunidade (social), portanto mais capaz de lidar com os imensos obstáculos e sacrifícios que enfrentava no seu dia-a-dia, pela possibilidade de poder projectar-se no futuro e aspirar a um amanhã diferente lhe conferir significado e propósito ao tempo presente.

Como o foi há dezenas de milhares de anos, é-o hoje num tempo em que as relações e os vínculos que estabelecemos são um factor importantíssimo na possibilidade de bem-estar, no desenvolvimento de competências e da resiliência e na capacidade de nos adaptarmos à adversidade e aos acontecimentos de vida. Como o foi há dezenas de milhares de anos e é-o hoje, sê-lo-á no futuro porque por mais que os avanços na inteligência artificial possam aspirar aproximar-se da possibilidade de “copiar” a rede neuronal humana (no limite, o cérebro humano), será muito mais complexo traduzir artificialmente o que resulta da interacção e comunicação (da linguagem e do simbólico) entre duas ou mais pessoas e essa apaixonante triangulação humana entre emoção, cognição e comportamento. Será muito mais complexo (re)criar esse diálogo entre estruturas artificialmente construídas e (re)produzir o efeito de uma relação como uma relação de amizade na qual “podemos confiar”, conforme também Freddie Mercury nos sugeriu quando há precisamente 35 anos cantou pela primeira vez a música “Friends will be friends”.

Além do seu papel no bem-estar e na capacidade de adaptação aos acontecimentos de vida, as relações e as amizades, no presente e para o futuro, são decisivas noutros aspectos fundamentais da vida em sociedade. Observemos dois exemplos com bastante actualidade.

O equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional e a forma como, mesmo tendo alguns trabalhadores, trabalhadoras e organizações observado e experimentado benefícios do teletrabalho, existindo condições para o mesmo, ele tenderá a ser sempre balanceado com tempos e períodos de trabalho presencial. Isto, considerando não apenas a importância do alinhamento de valores e princípios entre a organização e as suas trabalhadoras e trabalhadores, mas também e particularmente a importância das relações que se estabelecem no sentido de pertença, bem-estar e produtividade e o facto dos contextos de trabalho serem contextos por excelência de socialização na idade adulta.

A prevenção da desconfiança e do tribalismo que decorre da polarização da sociedade e da forma como se cria, partilha e dissemina (des)informação, considerando que mitigar esta polarização depende da criação de espaços de relação e compromisso entre polos mais do que da apresentação de factos e de informação, normalmente subvertida e contraposta por outros dados e outra (des)informação. Mais, porque os grupos, particularmente quando com fins sociais ou políticos exploram o medo e promovem a desconfiança, o combate a estes fenómenos deve assentar na sua compreensão e na adopção de uma postura contrária à desumanização das pessoas que os constituem, procurando espaços de relação com elas, criando as importantes penumbras sociais que em artigo anterior nesta rúbrica referi. Conforme Troy Campbell tão bem afirma, “uma das formas mais poderosas de inocular as pessoas da informação falsa é ser amiga/o delas”, criando espaços de comunicação e de confiança que funcionando como “campos electromagnéticos” potenciam órbitas que limitam o afastamento e previnem a polarização, mesmo quando não se concorda e se diverge em crenças, opiniões, gostos ou experiências.

Tendo este peso e esta importância, creio não podermos ficar indiferentes a alguns reveladores dados recolhidos pelo Estudo dos Valores Europeus 2017-2020. Apresentado há dias em Portugal, demonstra que os portugueses e as portuguesas têm valores muito baixos de confiança interpessoal, dos mais baixos quando comparados com os restantes países europeus, algo que segundo o relatório do estudo revela “a sua convicção de que o capital cívico da sociedade [portuguesa] é baixo” e se assume como um “obstáculo à cooperação”. Menos de 1 em cada 5 portuguesas e portugueses (17%) respondem poder confiar-se à pergunta “De uma forma geral, acha que se pode confiar na maioria das pessoas ou, pelo contrário, acha que todo o cuidado é pouco?”, valor consideravelmente abaixo da média dos países europeus e que corresponde a cerca de metade da percentagem de população de Espanha e entre um terço e um quarto da população dos países normalmente apelidados de nórdicos. Dados e comparativo que ilustram bem a premência de investirmos nas relações e de promovermos a confiança interpessoal em Portugal, com benefício para todas e todos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, com um futuro pautado pela incerteza e pela volatilidade, importa intencionalizarmos e ritualizarmos as relações e a amizade. Importa sermos amigas e amigos e nisso investirmos. Importa permitir e até reforçar quem investe em ser nossa amiga ou amigo. Importa, pela relação e pela confiança das amigas e amigos, reforçarmos o diálogo entre nós e as outras e os outros, promovendo a empatia e exponenciando a nossa possibilidade de bem-estar e as redes de cooperação nas comunidades e na sociedade. A música “Friends will be friends” foi e é um dos singles do álbum “A kind of magic”. Permitamos que a amizade faça magia e que, todas e todos em conjunto com a sociedade, beneficiemos do seu imenso valor.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 29.06.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-valor-da-amizade

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Psicologia

O valor da amizade…

17%. Menos de 1 em cada 5 portuguesas e portugueses respondem que se pode confiar à pergunta: “De uma forma geral, acha que se pode confiar na maioria das pessoas ou, pelo contrário, acha que todo o cuidado é pouco?”. Metade da percentagem relativa a Espanha e apenas entre um terço e um quarto da dos países normalmente apelidados de nórdicos, de acordo com o Estudo dos Valores Europeus 2017-2020 recentemente divulgado e cujo relatório sublinha que este dado revela “a convicção [das portuguesas e dos portugueses] de que o capital cívico da sociedade [portuguesa] é baixo” e se apresenta como um “obstáculo à cooperação”.

“O valor da amizade”, 10º artigo da rubrica “Ao redor…” (REVISTA SÁBADO) procura reflectir, neste tempo incerto que vivemos, sobre a confiança interpessoal e sobre o diálogo “nós – outras ou outros” enquanto poderosa e distintiva ferramenta e traço do ser humano, também pela sua dimensão simbólica. Viaja ao passado para lembrar a vantagem evolutiva que representou. Lembra no presente o seu papel “importantíssimo na possibilidade de bem-estar, no desenvolvimento de competências e da resiliência e na capacidade de nos adaptarmos à adversidade e aos acontecimentos de vida”. E pensa como no futuro será muito complexo para a inteligência artificial, mesmo aproximando-se da “cópia” das redes neuronais e do cérebro humano, “traduzir artificialmente o que resulta da interacção e comunicação (da linguagem e do simbólico) entre duas ou mais pessoas e essa apaixonante triangulação humana entre emoção, cognição e comportamento”.

O artigo procura pensar as relações e, particularmente, a amizade também em dois exemplos de forte actualidade – equilíbrio entre vida pessoal e profissional (contextos de trabalho como contextos por excelência de socialização na idade adulta) e polarização / tribalismo (criação de espaços de comunicação e confiança que como “campos electromagnéticos” potenciem órbitas, limitem o afastamento e previnam a polarização) – e defender a importância de “intencionalizarmos e ritualizarmos as relações e a amizade” para “pela relação e pela confiança das amigas e amigos, reforçarmos o diálogo entre nós e as outras e os outros, promovendo a empatia e exponenciando a nossa possibilidade de bem-estar e as redes de cooperação nas comunidades e na sociedade”.

Ps1. Um profundo e muito grato obrigado às minhas amigas e aos meus amigos;

Ps2. Porque chegamos a um número redondo de artigos na rúbrica “Ao redor…” convido-vos a ler ou reler os 9 anteriores na sua versão completa meu Lkd (secção artigos) ou aqui.

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Ao redor... (Revista Sábado)

Sonhar (Ao redor…; Sábado; 15.06.2021)

Imagino que o magnético verbo – sonhar – vos estimule a evocação de alguns sonhos, mais ou menos significativos, mais ou menos repetidos. Imagino-o, tal qual imagino que cada uma ou um de nós tenha, em algum momento, sonhado que voava. Como a Gillette e a Maizena são marcas de produtos e, ao mesmo tempo, se tornaram “produtos em si”, voar poderia sê-lo para o sonhar porque, além de sonharmos voar, sonhar, literal ou figuradamente, é sempre voar, de um eu para outro eu, de um acontecimento para outro acontecimento, de uma realidade para outra realidade. O sonho e a possibilidade de sonhar, guiam-nos.

Pensemos no “I have a dream” [Eu tenho um sonho], conceito base feito título do mais marcante discurso de Martin Luther King e reflictamos se não é um ousado plano de voo. Pensemos em quando marcamos aquele golo no último lance de um jogo com um estádio a abarrotar gritando o nosso nome, quando recebemos aquele prémio que todas e todos queriam ou quanto encontramos a solução para o mais complexo dos complexos problemas do Mundo. Ou pensemos quando nos sonhos lúcidos percebemos que estamos a sonhar e por isso temos um papel mais activo nos sonhos. Ou, simplesmente, nos “sonhos pandémicos”, conforme foram definidos, que podemos ter sonhado e que reflectem o sofrimento partilhado e o medo do contágio, em quando caminhamos num espaço público sem roupa ou quando caímos depois daquele passo em frente num precipício; “voares” que partilhamos colectivamente nos nossos sonhos com pessoas de idades, culturas e experiências diferentes das nossas. Sonhar é voar, aqui como em qualquer outro lugar do Mundo.

E porque, como seres humanos que somos, procuramos, invariavelmente, um outro “eu”, sonhar é voar, projectando-nos. Permitindo que nos experimentemos, que nos rejeitemos e rejeitemos outras e outros. Que nos aceitemos e aceitemos outras e outros. Que com e pelo sonho resolvamos problemas, reparemos, sejamos criativos e nos inspiremos, como Paul McCartney na melodia da canção Yesterday surgida num sonho seu. Mas, um pouco como a pandemia que vivemos nos demonstrou com a COVID-19 e os seus impactos, se todas e todos podemos sonhar, nem todos e todas temos as mesmas condições para o fazer.

Essa viagem, esse “daqui para ali”, implica sempre o contexto em que ocorre, a energia disponível e o atrito que se lhe coloca. Três condições base que são determinantes na construção de quaisquer veículos, desde um carrinho de rolamentos para pequenas, simples e divertidas deslocações a um foguetão para grandes, complexas e transformadoras deslocações. Assim é com a possibilidade de sonhar, em tudo dependente do seu contexto, das características culturais e sociais do mesmo, da experiência da ou das pessoas e do suporte existente. Em tudo dependente da energia feita impulso e motivação, nomeadamente os recursos que a pessoa possui, a confiança, a segurança e saúde psicológica que lhe garanta competências e capacidade de resiliência para se adaptar a potenciais desafios que se coloquem no percurso. Em tudo dependente da coesão social e do seu papel na redução de atritos como as iniquidades, os obstáculos e as discriminações muitas vezes profundamente injustas e longitudinalmente impactantes.

O filme “Inception” (estranhamente, “A Origem” em Portugal) começa com um Di Caprio feito “engenheiro de sonhos” com fins pouco lícitos a “falhar” um objectivo num construído sonho dentro de outro sonho. Escrito e dirigido por Christopher Nolan, que 10 anos antes já tinha escrito e realizado o “Memento” (acerca da memória), o filme gira em torno da arquitectura e ciência dos sonhos (um campo ainda com muito espaço de investigação por explorar e até há pouco tempo fortemente estereotipado, mas em forte expansão), das emoções e da resposta dada a uma pergunta do início do filme: “Qual o parasita mais resiliente? Uma bactéria? Um vírus? Uma ideia… resiliente e altamente contagiosa”.

“I have an idea” [Eu tenho uma ideia]. O estudo “A Saúde dos Portugueses – Um BI em Nome Próprio” pergunta “que espaços de melhoria em saúde podemos estar a perder ao não sugerir o sonho?”, afirmando ser necessário dar “forma e cor ao sonho” na relação das portuguesas e dos portugueses com a sua saúde. A minha ideia é que aspiremos a um sonho dentro de um sonho, um sonhar podermos todas e todos sonhar um sonho que nos impelisse ao florescimento e à possibilidade de cumprimento e de propósito. Que nos permitisse voar na ou nas direcções de um espaço de significado, de saúde e de bem-estar. Um sonho lúcido, onde controlássemos (mais) e pudéssemos prever (melhor).

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, se todas e todos podemos sonhar e até partilhar colectivamente sonhos, a possibilidade de com o sonho voar é, para alguns e algumas, um pesadelo e as 3 horas da manhã “na noite profunda e escura da alma”, conforme Scott Fitzgerald afirmou. Precisamos de um contexto que facilite, promova e suporte o sonho. Precisamos de uma energia baseada na saúde psicológica e da redução dos atritos da iniquidade e da desigualdade para, literalmente, podermos sonhar e com o sonho voar. Que nos contagiemos na criação dessas condições e que possamos sempre sugerir o sonho, por um Mundo melhor, assente na possibilidade de mudança, de “outros eus” e de “outras realidades”. Por um Mundo em que temos direito a sonhar e, com o sonho, a voar.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 15.06.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/crescer-19

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Ao redor... (Revista Sábado)

Sonhar

Yesterday, mítica música dos míticos Beatles, trata o passado como um tempo de ausência de problemas ou dificuldades (“all my troubles seemed so far away”) e um tempo em que se pode acreditar (“oh, I believe in yesterday”). Se todas e todos certamente já a ouvimos, parte de nós não saberá que Paul McCartney afirma que a sua melodia surgiu de um sonho seu.

“Sonhar”, 9º artigo da rubrica “Ao redor…” (Revista Sábado) pensa este magnético verbo – sonhar – e a forma como se associa à possibilidade de “voar” e de nos “guiar” de um eu para outro eu, de um acontecimento para outro acontecimento, de uma realidade para outra realidade. Como permite que nos projectemos, aceitando e rejeitando-nos, aceitando e rejeitando outras e outros. Como permite que “resolvamos problemas, reparemos, sejamos criativos e nos inspiremos”. Mas, também, como é desigual a nossa possibilidade de sonhar, por dependente do contexto, dos recursos, confiança, segurança e logo da saúde psicológica de cada pessoa e da coesão social das sociedades.

Porque, complementarmente à música Yesterday, creio que devemos construir possibilidades para um futuro de florescimento, cumprimento e propósito (um tempo em que se pode acreditar), afirmo no artigo a necessidade de se desenvolver um contexto que facilite, promova e suporte o sonho baseado na saúde psicológica e na redução dos atritos baseados nas iniquidades e desigualdades. “Por um Mundo [melhor] em que temos direito a sonhar e, com o sonho, a voar.”

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Educação

Crescer-19 (Ao redor…; Sábado; 01.06.2021)

“É como se tivesse aqui [apontando para o peito] um balão que se vai enchendo, enchendo, enchendo.” Recordo esta frase de uma menina que, com os seus 9 anos, procurava, através de uma imagem, descrever aquilo que sentia e que as palavras que possuía não podiam descrever. Trabalhava então numa Escola – pequena de tamanho, mas grande em diversidade, complexidade e riqueza humana – e ainda no início do meu percurso profissional experienciava a importância da literacia em saúde psicológica e o quão fundamental é darmos um nome ao que sentimos (reconhecendo, do ponto de vista psicológico e até físico, as nossas emoções) para o organizar, compreender e para melhor lhe respondermos.

Recordo-as (a menina, a conversa, a Escola e a comunidade) a propósito de um testemunho de Abier Almasri da Human Rights Watch que afirma “precisarmos de um novo dicionário para descrever o que sentimos e o impacto psicológico” a propósito da situação que se vive(u) na Faixa de Gaza onde, às perdas diversas das pessoas e famílias, se associam “feridas emocionais” de quem sobrevive(u). Human Rights Watch que, poucos dias antes em relatório, apresentou dados que indicam que 9 em cada 10 crianças e jovens em idade escolar em todo o Mundo viram prejudicada a sua educação devido à pandemia que vivemos.

Não pretendo comparar os impactos de um conflito com décadas com a pandemia. Mas quero sublinhar que, se nas adultas e nos adultos a crise sócioeconómica concomitante exponencia os impactos da pandemia na saúde psicológica; as crianças e jovens sentem, não apenas as consequências daquele que é o impacto nas cuidadoras e nos cuidadores, mas também as que resultam de dois anos lectivos atípicos que acrescentam dificuldade e desafio à situação e intensificam os problemas de saúde psicológica com impacto na aprendizagem, motivação e comportamento, particularmente naquelas e naqueles com maiores vulnerabilidades. Consequências que abrem espaço a “feridas emocionais” se não organizadas e compreendidas. Se, enquanto sociedade, não lhes respondermos.

“Tens de escrever sobre a urgência nas Escolas (…) vi uma crise de ansiedade como nunca havia visto”, dizia-me uma psicóloga amiga com muitos anos de Escola(s). E depois outra e outro confirmando “a urgência nas Escolas” e as Escolas como lugar micro de uma realidade macro da sociedade. São-no sempre. Senti-o particularmente nos anos da crise sócioeconómica da última década, aquando do episódio que antes descrevi, e como dia-a-dia, entrava na (minha) Escola e impactava as crianças e jovens com quem trabalhava. Senti-o como hoje sentem as minhas e os meus colegas os impactos da pandemia COVID-19 e das suas múltiplas e diversas consequências.

É certo que a década que passou trouxe alterações, algumas positivas. Desde logo há hoje maior sensibilidade na Educação para a importância de desenvolvimento de competências sócioemocionais e para a promoção da capacidade de adaptação e resiliência de crianças e jovens. Há mais reconhecimento da importância da promoção da literacia em saúde e em saúde psicológica, nomeadamente no que se refere à compreensão/reconhecimento das emoções. Há, também, mais psicólogas e psicólogos, de forma mais contínua e regular nos contextos escolares. Psicólogas e psicólogos com papel mais amplo e cientificamente sustentado que, ao invés de apenas centrado em estratégias remediativas, se foca em políticas de prevenção e promoção que abrangem toda a comunidade educativa. Há ainda mais experiência e partilha de trabalho conjunto entre diversos agentes educativos, de uma concepção da educação inclusiva e do objetivo, ainda que não totalmente cumprindo, de “não deixar ninguém para trás”. Há, finalmente, resultados desta acção patentes por exemplo no nível de abandono escolar precoce em queda impressionante (6,5% no 1º trimestre), particularmente porque conjugada com o aumento da escolaridade obrigatória até ao 12º ano, e que faz jus ao trabalho dos diversos actores e da comunidade educativa.

Apesar disto, estudos no Reino Unido com resultados que em Portugal não surpreenderiam, indicam que quase 8 crianças e jovens em cada 10 revelam sentir impactos da pressão da Escola na “qualidade” da sua saúde psicológica e cerca de 93% dos professores e das professoras consideram que o sistema educativo coloca mais foco (e recursos) na performance académica das e dos estudantes que na sua possibilidade de bem-estar. Outro, em Portugal, que apenas 1 em cada 4 crianças brinca pelo menos 3 horas por dias conforme recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Três indicadores (podiam ser outros) que podem servir-nos de base para entendermos o ciclo vicioso de não envolvimento com a Escola das crianças e jovens, particularmente aqueles e aquelas com maiores vulnerabilidades, que cedo podem sentir e sofrer desfasamentos diversos. São também ponto de partida – no momento que vivemos e no qual à ansiedade se junta o stresse, a agitação e preocupação, ou o medo e a apatia, resultante de períodos de isolamento físico (por vezes, realmente social) com exposição ainda mais significativa a iniquidades contextuais que vão desde as condições físicas das habitações, às oportunidades de relação e estimulação com outras crianças, jovens e adultas e adultos – para a necessidade de estratégias concertadas de recuperação, promoção, desenvolvimento e bem-estar junto de crianças e jovens.

Voltando ao Reino Unido, nos últimos dias de Theresa May enquanto Primeira-Ministra Britânica, foi anunciado um amplo programa de formação para todas as professoras e professores estarem mais sensíveis e capacitados para, precocemente, identificarem dificuldades e problemas de saúde psicológica nas e nos estudantes. Este programa resulta, também, de um debate público que se havia iniciado para um livro verde da prevenção que visa a prevenção “proactiva, preditiva e personalizada” para a saúde no Reino Unido na década de 2020 com enfoque no “desenvolvimento, aconselhamento, apoio e cuidados personalizados às crianças e jovens” e numa “maior protecção contra ameaças futuras”.

Já em Portugal, neste período (pós-)COVID-19 foi criado um grupo de trabalho multidisciplinar para produção de recomendações no âmbito de um plano de recuperação e consolidação de aprendizagens e, em linha com o pacto europeu para a saúde mental e bem-estar e com um estudo recente que afirma que 37% das e dos jovens entre os 18 e 24 anos solicitam mais acompanhamento na área da saúde mental, o Conselho Nacional de Saúde, a Federação Nacional de Associações Juvenis e a Direcção-Geral da Educação apresentaram recentemente a Agenda da Juventude para a Saúde 2030, que visa um forte impulso às dimensões da saúde psicológica, à prevenção e à promoção de competências. Resta, no entanto, concretizar um “Crescer-19”, uma mudança verdadeira e impactante através de uma agenda de prevenção e do desenvolvimento que, neste 01 de Junho de 2021, nos poderia guiar, impulsionando a “urgência na educação”, a inversão do actual ciclo pela possibilidade de activação e de garantia de propósitos e significados para o que vivemos e que, conforme o projecto do Reino Unido, se assumisse como uma agenda interministerial transversal, relacionando várias áreas e contextos, nomeadamente articulando mais eficaz e eficientemente a acção e os recursos da educação com a saúde, trabalho e segurança social ou desporto e juventude, prolongando e projectando o conjunto de acções além dos tradicionais anos e ciclos lectivos e para os múltiplos contextos de vida das crianças e jovens.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, ao contrário do Dia da Criança que se comemora em dias distintos de país para país, em qualquer lugar do Mundo onde exista uma criança colocam-se desafios ao seu desenvolvimento e bem-estar hoje, devido à pandemia, mais complexos. Desafios que merecem um “Crescer-19”, uma agenda de prevenção e promoção, investimento fundamental para um futuro com crianças, jovens e adultas e adultos com mais possibilidade de se cumprirem, de floresceram e expressarem o seu potencial, com mais saúde psicológica, com maior capacidade de adaptação e resiliência e com maior potencial de bem-estar.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 01.06.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/crescer-19