Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade

Saúde Mental | Erradicação da Pobreza: 7 dias de distância (Ao redor…; Sábado; 19.10.2021)

Desde 1994, 7 dias separam as comemorações do Dia Mundial da Saúde Mental (10.10) do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza (17.10). 7 dias, uma semana, com um simbolismo próprio, este ano reforçado pelo facto de o tema das comemorações do Dia Mundial da Saúde Mental ser a “Saúde Mental num Mundo desigual”, a propósito de um Mundo onde “as pessoas mais ricas continuam a enriquecer” coexistindo com “um número de pessoas ainda muito alto que vivem em situação de pobreza”. Por vezes, extrema, acrescento. Como acrescento que poderia o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza ter sido também ele dedicado à “Pobreza num Mundo desigual” a propósito de um Mundo onde as pessoas não pobres têm mais oportunidade e acesso a respostas e serviços na área da Saúde Mental coexistindo com um número ainda muito alto de pessoas pobres e excluídas sem oportunidade e acesso a respostas e serviços na área da Saúde Mental.

Uma semana e um ciclo muito próprio. Ciclo sobre o qual já reflecti nesta rubrica, porquanto a pobreza e a exclusão, também dela resultante, têm uma forte e cíclica associação com dificuldades e problemas de saúde mental ou psicológica, como são a depressão, a ansiedade e o stresse. Ciclo sobre o qual é urgente agirmos, porque todas e todos, num determinado momento da nossa vida, vivenciaremos ou poderemos vivenciar dificuldades ou problemas de saúde psicológica ou por eles sermos impactados. Porque todas e todos, num determinado momento da nossa vida, ficaremos ou poderemos ficar expostos a alguma precariedade, vulnerabilidade ou exclusão ou por elas ser impactados. Porque este ciclo significa, sobretudo, o sofrimento de muitas pessoas e comunidades, perda de anos de vida com qualidade e perdas económicas significativas em Portugal, na União Europeia (4% a 5% do PIB Europeu, segundo dados recentes) e no Mundo.

 

Daqui resultam três inevitabilidades. A de que não poderá existir um avanço significativo ao nível da saúde mental da população portuguesa se não existir também a diminuição significativa dos níveis a pobreza e de exclusão, seu importante determinante. A de que não haverá uma diminuição significativa no nível de pobreza e exclusão sem um investimento de recuperação das pessoas com doença mental e da promoção de saúde mental, enquanto factor determinante de resiliência e de possibilidade de adaptação da pessoa aos acontecimentos de vida e de projecção de e no futuro. Finalmente, a de que investir na saúde mental resultará também na diminuição de factores de vulnerabilidade que conduzem e/ou reforçam situações de pobreza e exclusão e que investir na diminuição dos níveis de pobreza e exclusão resultará no aumento da potencial da saúde mental, pela redução da escassez, promoção de competências transversais de vida e pela maior possibilidade de florescimento e de bem-estar.

 

Daqui resulta também a necessidade, não menos urgente, de sermos congruentes com quatro dimensões conceptuais nestas áreas que podem informar decisivamente as políticas e intervenções neste âmbito. Que todas e todos nos encontramos no espaço que existe entre os polos doença e saúde mental, deambulando mais para próximo de um ou outro polo, consoante mudam certos determinantes da nossa vida e vivenciamos e nos adaptamos aos seus acontecimentos, existindo espaço de oportunidade para políticas de prevenção e promoção que considerem este contínuo. Ainda, que em toda a nossa vida e, particularmente, quando expostos a situações de maior vulnerabilidade como a pobreza e exclusão ou como a doença mental, a dignidade é fundamental e que apenas podem existir respostas, numa e noutra área, assentes na dignidade da pessoa, em ferramentas e intervenções com base em evidência científica que suportem a recuperação e a mudança e no desenvolvimento de políticas e respostas integradas, humanistas, qualificadas, visando a autonomia e a integridade da pessoa em qualquer circunstância – quando “bem”, aquando de potenciais dificuldades ou problemas ou em processo de recuperação, apoio ou intervenção.

 

Resulta, também, que o indicador bem-estar percebido pelas pessoas e pelas comunidades deva ser um elemento central na definição de políticas (sociais, de emprego ou de saúde, para referir apenas três exemplos), vector-chave no desenho das mesmas e objecto de avaliação na observação dos seus impactos. Finalmente, que, nem as questões da pobreza e da exclusão, nem as relativas à doença mental, são problemas iminentemente individuais, como muitas e muitos querem fazer supor, antes a sociedade, a sua complexidade e volatilidade e toda a incerteza associada aos desafios actuais e à precariedade de algumas situações, desempenham um papel fundamental nestes problemas, não sendo os mesmos da responsabilidade de cada pessoa ou resolvidos exclusivamente por cada pessoa, e necessário que previnamos que a recente saliência da importância do autocuidado ou da resiliência não resulte em processos de dupla culpabilização decorrente da responsabilização das pessoas que sofrem com estas dificuldades pelas próprias dificuldades.

 

Considerando este ciclo, as inevitabilidades referidas e em congruência quer com o quadro conceptual acima, quer com o papel que interpretamos como essencial de uma associação pública profissional (por estes dias bastante discutido), a Ordem dos Psicólogos Portugueses desenvolverá no próximo ano um amplo debate que conduzirá à definição de uma estratégia de promoção do contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos portugueses para a prevenção, mitigação e erradicação dos fenómenos de pobreza e de exclusão. A estratégia viverá de acções e contributos dirigidos à própria profissão, à sociedade civil, aos e às decisoras e a instâncias internacionais e procurará motivar um relevante e mobilizador questionamento: qual o meu papel e qual o meu contributo junto dos fenómenos da pobreza, da exclusão e da desigualdade?

 

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, cada um e uma de nós não conseguirá por si mudar o Mundo. Mas poderá, intervindo nos determinantes e promovendo saúde mental, contribuir para a mudança de uma ou de um conjunto de pessoas. Mudando o Mundo de cada uma. Mudando o Mundo do Ricardo, da Luísa, do Manuel ou da Micaela. Deles, das suas filhas e filhos, amigos e amigas, pais e mães. Sentem e sabem do que falo, não sabem? Porque esperamos?

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia

Saúde Mental | Erradicação da Pobreza: 7 dias de distância

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 dias… Desde 1994, 7 dias separam as comemorações do Dia Mundial da Saúde Mental (10.10) do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza (17.10). 7 dias, uma semana, um ciclo com simbolismo próprio, este ano reforçado pelo tema das comemorações do Dia Mundial da Saúde Mental ser a “Saúde Mental num Mundo desigual”, a propósito de um Mundo onde “as pessoas mais ricas continuam a enriquecer” coexistindo com “um número de pessoas ainda muito alto que vivem na pobreza”. Poderia, também, o Dia Mundial da Erradicação da Pobreza ter sido dedicado à “Pobreza num Mundo desigual” a propósito de um Mundo onde as pessoas mais ricas têm mais oportunidade e acesso a respostas e serviços na área da Saúde Mental coexistindo com um número ainda muito alto de pessoas pobres e excluídas sem oportunidade e acesso a respostas e serviços na área da Saúde Mental.

“Saúde Mental | Erradicação da Pobreza: 7 dias de distância”, 18º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) pensa a associação forte e cíclica entre a pobreza a exclusão e dificuldades e problemas de saúde psicológica. Ciclo do qual resultam 3 inevitabilidades: não poder existir um avanço significativo ao nível da saúde mental se não existir também a diminuição significativa dos níveis a pobreza e de exclusão, seu importante determinante; não haverá uma diminuição significativa no nível de pobreza e exclusão sem um investimento de recuperação das pessoas com doença mental e da promoção de saúde mental, enquanto factor determinante de resiliência e de possibilidade de adaptação da pessoa aos acontecimentos de vida e de projecção de e no futuro; que investir na saúde mental resultará também na diminuição de factores de vulnerabilidade que conduzem e/ou reforçam situações de pobreza e exclusão e que investir na diminuição dos níveis de pobreza e exclusão resultará no aumento da potencial da saúde mental, pela redução da escassez, promoção de competências transversais de vida e pela maior possibilidade de florescimento e de bem-estar.”

Importa trabalharmos na prevenção e promoção da saúde mental; respeitar a dignidade humana e construir respostas integradas, humanistas e qualificadas que visem a autonomia e a integridade da pessoa em qualquer circunstância; atender ao indicador do bem-estar percebido enquanto objecto de políticas públicas; responsabilizarmos a pessoa por problemas sistémicos e complexos, prevenindo a “dupla culpabilização”.

Termino como terminei ontem uma intervenção a convite da Ana Rodrigues num webinar da EAPN: “Cada um e uma de nós não conseguirá por si mudar o Mundo. Mas poderá – também inspirada na figura e exemplo de Aristides Sousa Mendes [ontem celebrado], intervindo nos determinantes e promovendo saúde mental – contribuir para a mudança de uma ou de um conjunto de pessoas. Mudando o Mundo de cada uma. O Mundo do Ricardo, da Luísa, do Manuel, da Micaela. O deles, o das suas filhas/os, amigos/as, pais e mães. Sentem e sabem do que falo, não sabem? Porque esperamos?

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Futuro da Psicologia

Hiperespecialização: Sim ou Não? (Ao redor…; Sábado; 04.10.2021)

Vivemos tempos em que à complexidade crescente acrescentamos urgência. Como escreve Gonçalo M. Tavares, tempos em que “a vida, exigente, quer a resposta certa ao mesmo tempo da pergunta difícil formulada.” Tempos de maior conhecimento e maior expectativa. De mais escolha, mais exigência. De novos desafios, exclusões e, até, de novas “pobrezas”.

Adam Smith, não raras vezes apontado como “pai da economia moderna” e responsável pela célebre frase “mão invisível do mercado”, foi um dos primeiros autores a debruçar-se e a defender os benefícios da divisão do trabalho, nomeadamente da sua segmentação e da especialização de trabalhadoras e trabalhadores nas áreas, tarefas ou actividades dela resultantes. Adam Smith defendia que a divisão proporcionava o “aumento da capacidade produtiva” e o “maior progresso da ciência”, resultados do treino e especialização de trabalhadoras e trabalhadores, da poupança de tempo resultante da não necessidade de mudança de tarefas e da possibilidade de automação progressiva de partes do trabalho. Defendeu-o no livro “A riqueza das nações”, publicado há 245 anos numa Londres e num Mundo tão diferente do actual. Pergunto-me se e como o escreveria hoje? Pergunto-me, particularmente, como reflectiria hoje sobre os benefícios da especialização no contexto do trabalho e da ciência?

Nestes mais de dois séculos avançamos da especialização para algo muito próximo da hiperespecialização. E, se esta hiperespecialização pode ser importante e relevante em ambientes de aprendizagem ditos “acolhedores” – caracterizados por feedbacks próximos e imediatos e por uma estabilização das regras e do contexto, onde a prática e o treino intenso tendem a produzir melhores resultados – parece não produzir semelhantes resultados em ambientes de aprendizagem descritos como “inóspitos”. Nestes contextos, onde o feedback é mais irregular e os contextos e até as “regras” são mais voláteis e ambíguas, a hiperespecialização decorrente de um treino intenso e persistente tende a não produzir os mesmos resultados. Ou seja, a hiperespecialização parece resultar menos, por exemplo, em trabalhos mais individuais de criação na área da programação ou cultura ou na educação de crianças (ambientes mais inóspitos) face à prática de um desporto individual em que não existe interacção directa com as adversárias e/ou adversários como o golfe ou quando se é parte de uma linha de montagem numa indústria (ambientes mais acolhedores).

Se pensarmos em períodos férteis da inovação científica como o do final do século XIX e início do século XX e em seus expoentes como Marie Curie, Max Planck ou Albert Einstein encontraremos formações e interesses díspares e nada unidisciplinares. Aliás, a par com o próprio Adam Smith (que partiu da filosofia para a economia), esta e estes cientistas são exemplos da importância das humanidades, das ciências sociais e das artes ao enquadramento da ciência (especialidade) por si construída no Mundo (cultura). São exemplo de que a resposta para maior complexidade ou competição nem sempre é maior especialização, mas mais flexibilidade. São exemplo de que a diversidade e o contacto com diferentes contextos, estímulos, pessoas ou áreas comporta riqueza e versatilidade, essenciais à colocação de (novas) hipóteses e à construção de (novas) propostas para resolução de (novos) problemas.

A complexidade e urgência que vivemos pedem uma experiência que resulte de diversidade e não de uniformidade, de flexibilidade e não de rigidez, de versatilidade e não de constância. Pedem novas visões que resultem do aumento da possibilidade do simbólico e da abstracção e não da permanência única no concreto. Pedem novas respostas que resultem da expansão e não do entrincheiramento cognitivo. Pedem grupo e não apenas individualidade. Pedem mais prática, treino e experiência multidisciplinar precoce e ao longo da vida e não, em exclusivo, mais e maior hiperespecialização precoce e/ou ao longo da vida como algum discurso vigente e algumas áreas da sociedade ainda favorecem. Destaco três.

Desde logo a forma como o ensino superior está estruturado, parecendo responder ao aumento da volatilidade na sociedade com maior especialização (precoce), fazendo tábua rasa da ciência que demonstra que é o conhecimento conceptual e transferível que melhor se coaduna com estas circunstâncias e dinâmicas, que é essencial desenvolver capacidade de planeamento de curto prazo e não apenas de médio ou longo prazo (para rapidamente e com menos impacto nos adaptarmos a mudanças de direcção, se e quando necessárias) e que os resultados escolares sob a forma de classificações têm associação muito baixa com a capacidade crítica, também ela fulcral em ambientes inóspitos de aprendizagem, conforme os que os e as futuras profissionais tenderão a encontrar.

Ainda, e neste quadro, para continuarmos um caminho de progresso global na possibilidade de bem-estar e de coesão social, vencermos os desafios globais complexos que se nos afiguram e promovermos a paz, será essencial que organizações e entidades da sociedade invistam na compatibilização de processos de especialização e hiperespecialização com a experimentação e abertura à diversidade. Devemos ter presente que o grupo, quando com as condições certas, é mais capaz e mais racional que as mais capazes e racionais pessoas que o constituem. Acrescenta perspectivas face a lideranças individuais, previne enviesamentos e, mais importante, acrescenta a possibilidade de construção de caminhos alternativos, normalmente alheados da decisão quando individualizada pela dificuldade de desafio à autoridade (vejam-se, por exemplo, os estudos de Solomon Asch).

Finalmente, esta realidade ultrapassa o quadro das organizações, tocando também áreas científicas e profissões. Abel Salazar, num momento em que o atraso científico do país era gritante e o governo do Estado Novo promovia o obscurantismo, perseguindo cientistas e cerceando áreas científica (como a psicologia), ousou afirmar que uma médica ou um médico que “apenas sabe medicina, nem medicina sabe”. Aforismo iminentemente válido hoje e noutras áreas científicas, em particular na minha. Porque a psicologia, conforme outras áreas, necessita de ser praticada por psicólogos cidadãos e psicólogas cidadãs, capazes de, nos seus diversos papéis de vida, expandirem e amplificarem o seu contributo para uma maior possibilidade de autodeterminação e bem-estar de todas e todos e para mais equidade e coesão social. Porque a ciência psicológica, conforme outras áreas científicas, para apoiar a resposta aos desafios complexos da sociedade e anseios das pessoas, necessita de um grupo de psicólogas e psicólogos, com identidade definida e partilhada, antes da soma de conjuntos de psicólogos e psicólogas hiperespecializadas em áreas, por vezes hiperespecíficas, da psicologia.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a complexidade presente e futura determina que, não diabolizando os importantes processos de especialização, não sobrevalorizemos a hiperespecialização face à versatilidade e o talento individual face ao talento de grupos. A hiperespecialização não pode, portanto, ser um fim em si, antes ponderada e utilizada com parcimónia. Sabemos, por vezes com perda e sofrimento associado, no que pode resultar economias excessivamente dependentes de uma área de actividade ou recurso, organizações de apenas um ou uma líder ou políticas de apenas um partido ou de uma personalidade. Poderá ser bom para algumas e alguns, poucos, mas raramente para todas e todos e para um bem-comum que exige flexibilidade, versatilidade, diversidade e grupo.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 04.10.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/hiperespecializacao-sim-ou-nao

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Psicologia

Hiperespecialização: Sim ou Não?

Vivemos tempos em que à complexidade crescente acrescentamos urgência. Tempos em que “a vida, exigente, quer a resposta certa ao mesmo tempo da pergunta difícil formulada” (Gonçalo M. Tavares).  Tempos de maior conhecimento e maior expectativa. De mais escolha, mais exigência. De novos desafios, exclusões e, até, de novas “pobrezas”. Tempos que me fazem questionar se hoje, Adam Smith, “pai da economia moderna”, continuaria a defender os benefícios na capacidade produtiva e progresso da ciência da divisão do trabalho, nomeadamente a sua segmentação e a especialização de trabalhadoras e trabalhadores nas áreas, tarefas ou actividades dela resultantes como o fez há 245 anos num Mundo tão diferente do actual.

“Hiperespecialização: Sim ou Não?”, 17º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) pensa os impactos do caminho da especialização até aos actuais processos próximos da hiperespecialização. Fá-lo descrevendo, exemplificando e distinguindo “ambientes acolhedores de aprendizagem”, onde a hiperespecialização parece produzir resultados, de “ambientes inóspitos de aprendizagem” onde tal não sucede. Ambientes inóspitos, comuns ao contexto de volatilidade e incerteza da sociedade presente e futura.

“A complexidade e urgência que vivemos pedem uma experiência que resulte de diversidade e não de uniformidade, de flexibilidade e não de rigidez, de versatilidade e não de constância. Pedem novas visões que resultem do aumento da possibilidade do simbólico e da abstracção e não da permanência única no concreto. Pedem novas respostas que resultem da expansão e não do entrincheiramento cognitivo. Pedem grupo e não apenas individualidade. Pedem mais prática, treino e experiência multidisciplinar precoce e ao longo da vida e não, em exclusivo, mais e maior hiperespecialização precoce e/ou ao longo da vida, como algum discurso vigente e algumas áreas da sociedade ainda favorecem.” Isto afirmo, destacando: a forma como o ensino superior não prioriza o conhecimento conceptual e transferível e a capacidade crítica; a pouca importância dada ao grupo nas organizações (com as condições certas, mais capaz e racional que as pessoas mais capazes e racionais que o constituem); a necessidade de “psicólogas e psicólogos cidadãos, capazes de, nos seus diversos papéis de vida, expandirem e amplificarem o seu contributo para uma maior possibilidade de autodeterminação e bem-estar de todas e todos, mais equidade e coesão social” e de uma prática assente numa “identidade definida e partilhada, antes da soma de conjuntos de psicólogos e psicólogas hiperespecializadas em áreas, por vezes hiperespecíficas, da psicologia”.

“A complexidade presente e futura determina que, não diabolizando os importantes processos de especialização, não sobrevalorizemos a hiperespecialização face à versatilidade e o talento individual face ao de grupos (…) Sendo bom para algumas pessoas, poucas, raramente o é para todas e para um bem-comum que exige flexibilidade, versatilidade, diversidade e grupo.”

 

Categories
Ao redor... (Revista Sábado)

Pai Motorista (Ao redor…; Sábado; 21.09.2021)

Como viveremos juntos? A pergunta que a tantas e tantos inquieta é o mote da 17ª Bienal de Arquitectura de Veneza, a primeira pós-COVID-19 que decorre até Novembro próximo. A Bienal trata a arte e a arquitectura, ingredientes fundamentais à experimentação e à contemplação, e permite um contexto de questionamento propício à reflexão sobre o que (e como) vivemos e o que (e como) viveremos. O seu curador, Hashim Sarkis, afirma que lhe parece igualmente válida a questão “e se?” face às questões “como?” e “por que?” enquanto, ao sublinhar que “um contrato espacial pode ajudar a inspirar um contrato social”, estimula as arquitectas e arquitectos a “imaginarem espaços em que possamos viver de forma generosa e juntas e juntos”.

Penso-o movendo-me do complexo e desafiante mote da Bienal para o “Pê de pai”, livro escrito por Isabel Minhós Martins, belissimamente ilustrado por Bernardo Carvalho e que, de forma simples e desconcertante, mas não menos simbólica, aborda a relação de pais com filhas e filhos, convidando a “descobrirem-se juntos, ao virar de cada página”. Ao virar de cada página, como ao virar de cada esquina, de cada espaço. Aos “pê de pai avião” e de “pai travão”, de “pai sofá” e de “pai boia”, de “pai carrossel” e de “pai túnel” do livro, acrescento, o pê de pai motorista.

A arte e nossa construção e/ou “confronto” com ela, permite-nos, a partir das novas leituras da realidade que proporciona, nomear e, por vezes, (re)significar o que sentimos. Nos últimos dias, com poucas horas de diferença, permaneci à porta de uma Unidade de Saúde aquando de um exame do meu filho mais novo e à porta da Escola aquando da reunião de preparação deste ano lectivo do meu filho mais velho. Neste meu “confronto” com as regras destes espaços e as suas consequências em mim e na minha família, outro “confronto”, este com a arte, ajudou-me a nomear o que sinto (a tal ideia de pai motorista) e, particularmente, a significar o que sinto (a forma como o contrato e as regras dos espaços condicionam e influenciam o contrato social).

Não esqueço que vivemos um momento ainda muito desafiante e que, pese embora todos os avanços (na imunização da população face ao vírus SARS CoV-2 e até no tratamento da COVID-19, na disponibilização e acesso mais simples a equipamentos de protecção individual, na melhor preparação dos espaços e na literacia da população relativa a comportamentos pró-saúde e pró-sociais), a pandemia ainda determina a necessidade de, em termos comportamentais, assumirmos cuidados de auto e hetero-protecção. Tal qual nos impõe perguntas para as quais não temos e não existe resposta definitiva e nos brinda com incertezas, dúvidas e até inseguranças face ao futuro próximo e menos próximo. Mas também não posso esquecer que estas minhas inquietações não são exclusivas do momento que vivemos, bastantes são prévias à pandemia, como é exemplo, para referir apenas um que muito me impactou, o facto de não me ter sido permitido estar as duas primeiras noites de vida do meu primeiro filho a seu lado e ao lado da sua mãe.

Sinto que, pré-pandemia, em pandemia e quando sairmos desta pandemia, temos o dever de, enquanto sociedade, garantir que as regras e contratos espaciais, particularmente os relativos aos espaços e serviços públicos, promovem o que consideramos mais importante do contrato social, ainda que isso nos coloque dificuldades de gestão e, por vezes, até exponha as organizações ou instituições a maiores exigências e riscos (desde que devidamente “controlados”). Sinto que, se defendemos uma sociedade que promova a equidade e combata as desigualdades (de género, pertença comunitária ou cultural, nacionalidade, idade, …) e que promova a coesão social e o desenvolvimento de relações e vínculos entre pessoas, temos que ter regras para o espaço público e para o acesso a serviços públicos que disso sejam facilitadoras.

Se isto é verdade sempre, creio que todas e todos percebemos a sua urgência no momento que vivemos e viveremos. Momento em que, compreendendo-se as restrições ainda necessárias, é fundamental um especial empenho e esforço para intencionalizarmos a promoção da possibilidade de relação como factor fundamental à saúde psicológica e bem-estar, presente e futuro. Nas Escolas, nas Unidades de Saúde, nas Casas de Acolhimento de crianças e jovens, nos Centros de Dia ou nas ERPI (Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas). Onde quer que uma pessoa esteja, e onde quer que a parentalidade e o cuidar das outras e dos outros se expresse, a segurança, o cumprimento de necessidades básicas e os laços que se estabelecem são essenciais e isso deve ser encorajado e não obstaculizado. Isso é um factor fundamental na promoção de saúde psicológica e bem-estar de crianças e jovens, e comprovadamente preventivo de riscos de problemas físicos (como a obesidade, por exemplo) e psicológicos (ansiedade, por exemplo). Isso é um factor fundamental na promoção de saúde psicológica e bem-estar de adultas e adultos mais velhos, e comprovadamente preventivo de riscos de problemas físicos (como problemas cardíacos, por exemplo) e psicológicos (perdas cognitivas, por exemplo). Isso é um factor fundamental na promoção de saúde psicológica e bem-estar de mães, pais, cuidadoras e cuidadores, pela possibilidade de acompanhamento de marcos fundamentais do desenvolvimento das pessoas a seu cuidado e de não retrocedermos num caminho que deve ser acelerado e aprofundando de partilha de responsabilidades nas famílias.

É momento de investirmos na melhor compatibilização e conciliação de medidas sanitárias com medidas de promoção da saúde psicológica, afirmava a Ordem dos Psicólogos Portugueses já no Verão de 2020 defendendo “equilíbrio (e proporcionalidade) entre as medidas sanitárias, essenciais ao controlo epidemiológico, e os impactos psicológicos e emocionais dessas mesmas medidas”. Era, é tempo e será no futuro, também como preconiza o Plano 21|23 Escola+, criado com “vista à recuperação das aprendizagens e procurando garantir que ninguém fica para trás” e que tem no “investimento no bem-estar social e emocional” e no “envolvimento de toda a comunidade educativa” dois dos seus objectivos estratégicos. Envolvimento este fundamental no desenvolvimento competências sociais e emocionais, abordadas num recente trabalho da OCDE que comprova, não apenas a sua importância e os seus impactos longitudinais relevantes para os desafios que se colocarão às pessoas no futuro, mas também o papel do envolvimento parental no seu desenvolvimento.

É, portanto, necessário fazer mais e melhor. É possível fazer mais e melhor. É tempo de fazer mais e melhor.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, promover a participação de todas e todos nos processos educativos e de cuidado implicará revisitar os contratos espaciais hoje definidos que impactam os contratos sociais, a saúde psicológica e a possibilidade de bem-estar. Hoje e amanhã, num contexto de “maior divisão (política) e de desigualdade económica (crescente)” como refere Hashmin Sarkis, necessitamos de arquitectas e arquitectos, mas também de decisoras e decisores e de cidadãs e cidadãos a “imaginar(em) espaços em que possamos viver de forma generosa e juntas e juntos”. “E se” for mais difícil? “E se” falta(re)m condições e recursos? Ainda assim. Numa priorização e exigência que tem que ser de todas e todos e de estímulo e apoio à participação de todas e todos. Para que mais que pê de pai motorista sejamos “pai motor”, como no livro.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 21.09.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/pai-motorista

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia

Pai motorista

Há dias, com poucas horas de diferença, permaneci à porta de uma Unidade de Saúde aquando de um exame do meu filho mais novo e à porta da Escola aquando da reunião de preparação do ano lectivo do meu filho mais velho. Socorro-me do mote da Bienal de Arquitectura de Veneza de 2021 (“Como viveremos juntos?”) e da frase do seu curador Hashim Sarkis (“um contrato espacial pode ajudar a inspirar um contrato social”) para significar o que senti – como as regras dos e nos espaços podem condicionar o contrato social existente. Como me socorro do belíssimo livro “pê de pai” para, acrescentando o pê de pai motorista, aos pê de “pai avião, pai travão, pai sofá, pai boia, pai carrossel e pai túnel” do livro, nomear o que senti. O “confronto” com a arte, em duas formas distintas mas simbólicas, a permitir-me nomear e (re)significar o que senti.

“Pai motorista”, 16º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) procura reflectir sobre o nosso dever de, enquanto sociedade, “garantir que as regras e contratos espaciais, particularmente os relativos aos espaços e serviços públicos, promovem o que consideramos mais importante do contrato social, ainda que isso nos coloque dificuldades de gestão e, por vezes, até exponha as organizações ou instituições a maiores exigências e riscos (desde que devidamente “controlados”)”. Procura fazê-lo, não esquecendo o momento ainda muito desafiante que vivemos e que, pese embora todos os avanços, “ainda determina a necessidade de, em termos comportamentais, assumirmos cuidados de auto e hetero-protecção”, ressalvando, todavia, que esta questão se coloca para períodos pós e de pandemia, conforme já se colocava pré-pandemia – não esqueço, nem esquecerei, não me ter sido permitido estar as duas primeiras noites de vida do meu primeiro filho a seu lado e ao lado da sua mãe.

Sinto, portanto, e isso procuro discutir, que, se defendemos uma sociedade que promova a equidade e combata as desigualdades (de género, pertença comunitária ou cultural, nacionalidade, idade, …) e que promova a coesão social e o desenvolvimento de relações e vínculos entre pessoas, temos que ter regras para o espaço público e para o acesso a serviços públicos que disso sejam facilitadoras, sendo especialmente necessário hoje um “empenho e esforço para intencionalizarmos a promoção da possibilidade de relação como factor fundamental à saúde psicológica e bem-estar, presente e futuro, nas Escolas, Unidades de Saúde, Casas de Acolhimento de crianças e jovens, Centros de Dia ou nas ERPI. “Onde quer que uma pessoa esteja, e onde quer que a parentalidade e o cuidar das outras e dos outros se expresse, a segurança, o cumprimento de necessidades básicas e os laços que se estabelecem são essenciais e isso deve ser encorajado e não obstaculizado.”

“E se for mais difícil? E se falta(re)m condições e recursos? Ainda assim. Numa priorização e exigência que tem que ser de todas e todos e de estímulo e apoio à participação de todas e todos. Para que mais que pê de pai motorista sejamos “pai motor”, como no livro.”

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Tomada de Decisão

A feliz conjugação das Autárquicas 2021 com a infeliz crise COVID-19 (Ao redor…; Sábado; 07.09.2021)

São raras as situações na nossa vida onde algo que funciona num determinado momento, contexto e com determinada pessoa ou grupo funciona igualmente noutro momento, contexto ou com outra pessoa ou grupo de pessoas. O passar dos dias mostra-nos, muitas vezes com perda e sofrimento associados, que assim é. Também é isso que nos revela estudar e compreender a ciência psicológica – não há uma “receita para todas e todos”, instrumentos de avaliação e modelos de intervenção psicológica são tão mais eficazes quanto adaptados ao momento, contexto, pessoa ou grupo de pessoas.

Devemos, pois, cuidar e atender a transferências, deduções e generalizações que podem ser abusivas e resultar inapropriadas. Devemos também e em todo o caso, procurar reflectir sobre possibilidades de transferência, dedução e generalização de situações. Um exemplo possível é pensarmos em como os modelos de intervenção psicológica em contexto de crise e na comunidade nos podem ajudar a pensar o momento social que vivemos.

Daniel Caplan foi um dos precursores daquilo a que hoje podemos chamar saúde mental comunitária, enquanto possibilidade de bem-estar e florescimento das pessoas de uma e numa determinada comunidade. Dedicou parte da sua vida à inovadora teorização de modelos preventivos associados à saúde pública e revisitou a intervenção da saúde mental comunitária, contribuindo decisivamente para que passasse a considerar o contexto imediato e se centrasse nas pessoas e na relação estabelecida com elas, promovendo não apenas a sua humanidade, mas também a sua eficácia e eficiência. Caplan é também responsável por um modelo, ainda hoje amplamente referenciado, que descreve em quatro fases o processo pessoal de reacção à crise, onde o suporte emocional surge como ferramenta fundamental de adaptação. Modelo base para outros que se lhe seguiram e que viriam a sublinhar a importância do rápido acesso das pessoas à ajuda e da intervenção ser contingente ao problema, a maior abertura à mudança da pessoa em crise ou a necessidade de exploração das possibilidades alternativas e compromisso face a elas, central a modelos actuais como o preconizado pela Organização Mundial da Saúde.

As crises individuais não são equivalentes às crises societais mas os modelos referidos dão-nos pistas que, com as devidas adaptações, podem informar a situação que vivemos hoje com a pandemia COVID-19 e as suas consequências. Sublinham a importância da prevenção, proximidade, conhecimento, relação, suporte, contingência, abertura à mudança, exploração de possibilidades e compromisso, elementos que considero fulcrais no processo de resposta à actual crise.

Elementos a que devemos acrescentar a conjugação. A ideia de que por vezes, pequenas alterações no contexto podem provocar mudanças significativas nos comportamentos e na concretização de necessidades por nós sentidas, sejam elas mais ou menos conscientes. São inúmeros os exemplos que o ilustram, desde o debate sobre o difícil desafio de saúde pública que representa o suicídio e a forma como alterações ao contexto podem apoiar a sua prevenção (veja-se os impactos resultantes da mudança do gás natural distribuído em Londres que quando passou a ser mais limpo de monóxido de carbono permitiu a redução em 1/3 dos suicídios em Inglaterra, a redução significativa dos números no Sri Lanka com a aplicação de leis restritivas ao acesso a pesticidas tóxicos ou a redução resultante da proibição dos militares jovens Israelitas “levarem” consigo armas de fogo em períodos não laborais como fins de semana ou férias)[i] ao debate sobre os fundamentos da recente proibição de venda no interior das Escolas públicas de alguns produtos alimentares, podemos aferir a importância que a conjugação tem no potencial de cumprimento de uma acção.

A aldeia, a vila e a cidade são o resultado da expressão da existência e da relação humana. São também o micro do macro dos desafios societais, onde a pobreza ganha nome, onde as pessoas em situação sem abrigo não são apenas um número, onde a crise demográfica se expressa e se sente no dia-a-dia e onde a crise climática se concretiza em fenómenos adversos pontuais e permanentes. Onde os desafios complexos do presente e do futuro, a cujos objectivos do desenvolvimento sustentável pretendem responder, viajam do papel e do abstracto para se revelarem nos territórios e no concreto das pessoas, dos grupos, dos lugares. São, neste sentido, contextos que necessitam de políticas e políticos que utilizem o conhecimento da ciência psicológica e a prática das psicólogas e dos psicólogos além dos papéis mais tradicionais da sua intervenção. As autarquias são assim espaços que beneficiam não apenas do reforço em número destes profissionais, como de uma maior amplitude do seu papel.

Ora, a conjugação da “crise COVID-19” nas suas múltiplas e amplas consequências com as eleições autárquicas deste mês permite uma importante oportunidade para, como noutro texto desta rubrica defendi (“Autárquicas 2021 – Por um Portugal de ABC”; 05.05.2021), aspirarmos a projectos das Autarquias que se centrem no bem-estar e na coesão social. São as Autarquias que melhor podem, enquanto contexto próximo das cidadãs e dos cidadãos e pelo conhecimento e relação que têm com as populações, permitir uma resposta de suporte contingente aos problemas, mais eficaz porque adaptada e mais geradora de confiança nas instituições. São elas que melhor podem, antecipando desafios e crises futuras e sendo responsivas às necessidades das pessoas, adoptar estratégias de prevenção, de desenvolvimento de competências e de resiliência individual e colectiva. São elas que melhor podem, através da exploração (e experimentação) de possibilidades, corresponder à hoje maior abertura a uma mudança que, no que se refere a estilos de vida e consumo de recursos, a crise climática que vivemos torna indispensável. São elas, finalmente, que melhor podem contribuir para um mais efectivo envolvimento e compromisso de todas e todos nos processos de definição e implementação de políticas públicas.

Defendo que este aprofundamento e que a maior amplitude da utilização do conhecimento resultem, entre outros, na possibilidade da criação de equipas / unidades de ciências comportamentais que apoiem o desenho, a testagem, a implementação e a avaliação de políticas públicas tendo em consideração a forma como as pessoas se comportam e os princípios que assistem à sua tomada de decisão, nomeadamente em políticas cujos objectivos remetam ou requeiram adesão, promoção, manutenção ou alteração de determinadas práticas ou comportamentos, do consumo de água ao absentismo ou abandono escolar precoce. Também pelo investimento na promoção da saúde psicológica enquanto factor essencial nas áreas da saúde, educação, emprego, social, trabalho, justiça, ambiente ou desporto. Ou pelo papel que a ciência psicológica pode desempenhar na promoção da literacia, seja a literacia em saúde e saúde psicológica, a digital, a financeira ou a relacionada com a (des)informação e cidadania, conhecimentos cruciais ao autocuidado, à autodeterminação e à prevenção. Ainda o papel da ciência psicológica e das psicólogas e dos psicólogos nos processos de mudança e adaptação, fundamentais num futuro que os exigirá mais e mais permanentemente e que, se trabalhados e pensados com as pessoas e não contra as pessoas, podem ser concomitantes com a promoção do bem-estar. Finalmente, nos processos de envolvimento das pessoas nos processos de tomada de decisão e planeamento, reforçando a confiança e a relação entre cidadãos, decisoras e decisores e instituições e preservando a paz, enquanto princípio basilar da possibilidade de bem-estar e florescimento individual e colectivo.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, à crise COVID-19 suceder-se-ão novas crises resultantes de um Mundo de incerteza e volatilidade crescentes e de desafios societais complexos. Mundo que em muito beneficiaria de políticas e de decisoras e decisores que façam uso da ciência psicológica e das psicólogas e dos psicólogos e que priorizem a saúde psicológica, o bem-estar e a coesão social. No passado Sábado (04.09) comemorou-se o Dia Nacional do Psicólogo em Portugal, dia que celebra cerca de 25.000 psicólogas e psicólogos que dia-a-dia se mobilizam para um importante (por vezes decisivo) papel junto das pessoas e das organizações e dia que afirma a sua prática como fundamental aos desafios que se colocam ao país, hoje e no futuro. Que a feliz conjugação das Autárquicas 2021 com a infeliz crise COVID-19 resulte em projectos políticos que considerem o seu contributo e o incentivem, para em proximidade, relação e procurando a personalização das respostas, promoverem o bem-estar e a coesão social das populações. Estou e estamos aqui, disponíveis, comprometidas e comprometidos, motivados e motivadas. Podemos e queremos contribuir no presente para o futuro do país.

 

[i] No próximo dia 10.09 assinala-se o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, desafio que a todas e todos convoca porque cada pessoa pode ser um agente na prevenção deste grave problema de saúde pública com forte impacto nas pessoas, famílias e comunidades. A este propósito, numa situação de crise, ligue 808242424 (Serviço de Aconselhamento Psicológico da Linha SNS24). Numa situação de emergência ligue 112 (INEM).

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 07.09.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-feliz-conjugacao-das-autarquicas-2021-com-a-infeliz-crise-covid-19

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Política Psicologia

Conjugação…

Qual a relação entre o facto do gás natural distribuído em Londres a partir de meio do século XX ter passado a ser mais limpo de monóxido de carbono; a aprovação de Leis restritivas do acesso a pesticidas tóxicos no Sri Lanka; e ter deixado de ser possível às e aos jovens militares Israelitas terem consigo armas de fogo fora do período laboral? A diminuição da taxa de suicídio no momento subsequente às mudanças naqueles três contextos. A conjugação, nos exemplos associada ao muito complexo desafio de saúde pública que é o suicídio (ver nota de fim), mas que se verifica noutros exemplos, das lojas em que somos “forçadas e forçados” a “visitar” na totalidade ainda que queiramos um único artigo e o possamos encontrar logo entrada (não raras vezes compramos algo mais) ao debate em torno da proibição de venda no interior das Escolas públicas de alguns produtos alimentares.

“A feliz conjugação das Autárquicas 2021 com a infeliz crise COVID-19”, 15º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) trata a conjugação, ou seja, a forma como “pequenas alterações no contexto podem provocar mudanças significativas nos comportamentos e na concretização de necessidades por nós sentidas, sejam elas mais ou menos conscientes” e a oportunidade que resulta do facto do momento actual conjugar a crise COVID-19 com as Autárquicas 2021, que já havia abordado nesta rubrica a 05.05.21.

É que, sendo “a aldeia, a vila e a cidade o resultado da expressão da existência e da relação humana e o micro do macro dos desafios societais, onde a pobreza ganha nome, onde as pessoas em situação sem abrigo não são apenas um número, onde a crise demográfica se expressa e se sente no dia-a-dia e onde a crise climática se concretiza em fenómenos adversos pontuais e permanentes”, o artigo discute a importância das autarquias verem os seus projectos mais informados pela ciência psicológica, as suas equipas reforçadas com psicólogas e psicólogos e a amplitude do seu papel aumentar em seis áreas nele discutidas, para em proximidade, relação e procurando a personalização das respostas, promoverem o bem-estar e a coesão social das populações.

Também porque “à crise COVID-19 suceder-se-ão novas crises resultantes de um Mundo de incerteza e volatilidade crescentes e de desafios societais complexos” e por Portugal ter já cerca de 25000 psicólogas e psicólogos “disponíveis, comprometidas e comprometidos, motivados e motivadas” que podem e querem “contribuir no presente para o futuro do país.”

 

Nota: A 10.09 assinala-se o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, desafio que a todas e todos convoca porque cada pessoa é agente na prevenção deste gravíssimo problema de saúde pública com forte impacto nas pessoas, famílias e comunidades. A este propósito, numa situação de crise, ligue 808242424 (Serviço de Aconselhamento Psicológico da Linha SNS24). Numa situação de emergência ligue 112 (INEM).

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia

Menos (Ao redor…; Sábado; 24.08.2021)

Passei centenas de vezes naquele portão preto. Uma parte sempre fechada e outra sempre aberta que “separava” o interior do recinto daquela escola primária da minha rua, rua da aldeia onde cresci e vivi a primeira metade da minha vida. Brinquei e brincámos naquele recinto, em dias de semana e ao fim de semana, durante o dia e a noite. Brinquei e brincámos até que um dia o lado sempre aberto do portão encontrou o lado sempre fechado e assim permaneceu, criando uma barreira e fazendo daquele recinto escolar uma ilha apenas utilizável num pequeno período de tempo, por um pequeno grupo de pessoas. Espaço anulado enquanto espaço de todas e todos, enquanto bem-comum.

“Gosto de estruturas híbridas. Não quero uma igreja que sirva apenas uma vez por semana. Para mim, um edifício bem-sucedido é um edifício de utilização permanente”, afirmou recentemente David Adjaye, arquitecto responsável pelo projecto do Museu Nacional da História e da Cultura Afro-Americana (Washington, EUA). Diz imaginar “um futuro em que templo e universidade sejam um só”, defendendo múltiplas utilizações do espaço a que acrescento, pelo maior número de pessoas (diversas), de actividades e de tempo possível. Um “templo-universidade”, uma praia para o ano inteiro ou uma escola, pavilhão ou outra infraestrutura a todo o momento disponível e acessível à comunidade. Multiutilizações de espaços e estruturas que, se projectadas de acordo com o resultado do envolvimento activo das cidadãs e dos cidadãos e conscientemente com esse fim, podem fazer jus ao bem-comum criando mais oportunidades e outras dinâmicas com menos.

A crise climática que vivemos desafia-nos e confronta-nos com a urgência de pensarmos o presente e o futuro, considerando o nosso comportamento e estilo de vida e o comportamento e estilo de vida das pessoas que connosco habitam o nosso planeta. Se em parte já significativa do Mundo se tornou prática a reciclagem, temos rapidamente assistido a um impulso para a reutilização de materiais utilizados. Em todo o caso, é também hoje claro – até pelos recentes e muito mediatizados dados disponibilizados pelo Painel Intergovernamental das Alterações Climáticas (IPCC) – que um terceiro “R” será fundamental para mitigar a emergência climática resultante da acção humana – Reduzir.

Se até as energias renováveis, solução mais evidente para os problemas da utilização de combustíveis fósseis, têm “custos ambientais”; se a população e a pressão sobre os recursos do planeta continua a aumentar; se as florestas e os oceanos estão cada vez mais fragilizados; se continuamos a desperdiçar mais de mil milhões de toneladas de alimentos (cerca de um terço do total produzido) a cada ano; mas também se um determinado comportamento ou prática nos “aprisiona” e nos rouba espaço e oportunidade; e se a repetição e a hiperespecialização, particularmente quando precoce, não nos prepara para um Mundo de complexidade e ambiguidade, a solução tem e terá que ser reduzir. Desacelerar, desapegar, diversificar, diminuir e reduzir a caminho de um menos que, conforme Adjaye preconiza, pode ser mais. De um menos que pode não apenas ser conciliável com o bem-estar, mas até seu gerador. De um menos que previne a desigualdade e iniquidade e que promove a partilha e a coesão social.

No entanto, o caminho para este menos não é nem linear, nem simples, nem imune a perdas, podendo beneficiar de uma progressiva generalização da percepção de que o ser humano e o seu comportamento são influenciados quer pela inércia (conforme definida pela Física), quer por um conjunto de viés que concorrem para um certo “egoísmo”, muitas vezes não consciente, que nos centra em nós (e menos nas e nos outros), no nosso contexto (e menos nos contextos ao nosso redor) e no presente ou futuro de curto prazo (e não no de médio ou longo prazo) quando tomamos pequenas decisões associadas, por exemplo, a consumir algo, a deslocarmo-nos e à forma escolhida para essa deslocação ou a comprar ou não algo. Pode ainda beneficiar de uma mais ampla percepção de que mudar é, pelo questionamento inerente, pela energia que implica e pelo que impacta em nós e no nosso grupo mais próximo, muito difícil e muito desafiante. Difícil e desafiante, mas possível, particularmente quando a mudança resulta de um ou mais objectivos com significado que estabelecemos, incentivados e valorizados por outras, outros e pela sociedade, com propósito individual e social.

Essa mudança beneficiará, também, de uma atitude coerente e congruente com o conhecimento existente, que determina que algumas pessoas podem necessitar de incentivos para a compreensão e aceitação da necessidade de mudar e/ou apoio ao desenvolvimento de competências e oportunidades que permitam a mudança. Daqui resulta que devemos, enquanto sociedade, organizar-nos e prepararmo-nos, para mudar, apoiando as e os de nós que possam ter mais dificuldades neste processo.

Esta mudança, atendendo às dimensões de bem-estar envolvidas, não poderá acontecer “contra as pessoas” e, por isso, não poderá assentar apenas em restrições e proibições, mas numa progressiva maior consciencialização das pessoas, pela informação e literacia, das consequências (individuais e sociais) das suas decisões e comportamentos, nomeadamente nos que remetem para um consumo (mais consciente) e dessa forma para a possibilidade de uma mudança incremental e da avaliação progressiva e contingente de sucessos (individuais e sociais, também).

Esta mudança tem, finalmente, que envolver um grande número de pessoas – das crianças mais pequenas às adultas e aos adultos mais velhos e da “cidadã comum” ao empresário ou à decisora – e ser alimentada e reforçada pelas diversas oportunidades de criação de valor e utilização sustentável dos recursos e de gerações com experiências muito diversas que conseguem projectar memória da vivência em sociedade há quatro, cinco, seis décadas e projectar-se na sociedade nas próximas quatro, cinco, seis décadas, permitindo um olhar sobre o presente informado pelo passado e pela expectativa de futuro.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, há espaço, particularmente em algumas sociedades e contextos, para conciliar a necessidade de desacelerarmos, nos desapegarmos, de diminuir, diversificar e, particularmente, de reduzirmos com a possibilidade de bem-estar. Há espaço para, neste processo, ganharmos proximidade, tempo, foco e energia, logo maior qualidade de vida. Há espaço para mais e melhor relação connosco, com as outras e outros e com o que nos rodeia, promovendo a resiliência e a coesão social. Há espaço para um consumo mais consciente individual e colectivo, para maior partilha e para a tomada de decisão e gestão conjunta dos bens-comuns por todas e todos e para todas e todos, as e os de hoje e as e os de amanhã, garantindo maior justiça social intergeracional. Há espaço para que, dia-a-dia, integremos que menos pode ser mais. Que menos, será mais.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 24.08.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/menos

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Emergência Climática

Menos

“Passei centenas de vezes naquele portão preto (…) que “separava” o interior do recinto daquela escola primária da minha rua. Nele brinquei e brincámos em dias de semana e ao fim de semana, durante o dia e a noite (…) até que um dia o lado sempre aberto do portão encontrou o lado sempre fechado e assim permaneceu, criando uma barreira e fazendo daquele recinto escolar uma ilha apenas utilizável num pequeno período de tempo, por um pequeno grupo de pessoas. Espaço anulado enquanto espaço de todas e todos, enquanto bem-comum.”

“Menos”, 14º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) começa com esta minha recordação de infância e procura abordar a necessidade de juntarmos um terceiro “R” ao “Reciclar” e “Reutilizar”, o “Reduzir”. Não apenas reforça a sua evidente necessidade para mitigar a emergência climática resultante da acção humana – aliás sublinhada pelos recentes e muito mediatizados dados disponibilizados pelo Painel Intergovernamental das Alterações Climáticas (IPCC) – como, a propósito de uma recente afirmação de David Adjaye (“Gosto de estruturas híbridas. Não quero uma igreja que sirva apenas uma vez por semana. Para mim, um edifício bem-sucedido é um edifício de utilização permanente”), procura afirmar que “há espaço para que, dia-a-dia, integremos que menos pode ser mais; que menos, será mais”.

Pelo meio, o artigo também aborda a possibilidade de “desacelerar, desapegar, diversificar, diminuir e reduzir” poder “não apenas ser conciliável com o bem-estar, mas até seu gerador” e desse menos ser um contributo na promoção da partilha e da coesão social e na prevenção da desigualdade e iniquidade. Para tal, precisaremos de “enquanto sociedade, organizar-nos e prepararmo-nos, para mudar, apoiando as e os de nós que possam ter mais dificuldades neste processo”, nomeadamente sublinhando a inércia e alguns viés que conduzem a um “certo egoísmo” do ser humano, muitas vezes não consciente, que nos leva a manter determinados comportamentos e a centrarmo-nos mais em nós (e menos nas e nos outros), no nosso contexto (e menos nos contextos ao nosso redor) e no presente ou futuro de curto prazo (e não no de médio ou longo prazo) quando tomamos decisões.

Discute ainda a importância da mudança ser feita a partir de objectivos com significado e propósito individual e social e com as pessoas e não contra as pessoas, pelo que não apoiada apenas em restrições e proibições, mas numa progressiva maior informação e literacia (consciencialização), que estimule um consumo mais consciente e a possibilidade da mudança incremental e sua avaliação progressiva. Finalmente, reflecte sobre a necessidade do envolvimento de todas e todos, do cidadão comum à decisora, do adulto mais velho às crianças nesta mudança, permitindo um olhar mais amplo sobre as possibilidade de criação de valor e de utilização sustentável dos recursos e sobre o presente, informado pelo passado e pela expectativa de futuro.