
Debater, destruir (adversárias/os), ganhar. A narrativa dominante à preparação e à análise ao debate é hoje – porque condicionada e como resposta às novas formas de acesso à informação e à velocidade, falibilidade e ferocidade das redes sociais – particularmente centrada em emoções “ditas negativas” (a raiva, o ódio, por vezes o medo) e assente na forma como se pode e se se conseguiu destruir as ideias, propostas e, por vezes, a pessoa ou pessoas com quem se debate. É, portanto, particularmente baseada em quatro características que empobrecem (se extremadas, que colocam em risco) a democracia: a simplificação e generalização excessivas, promotora de populismos; a polarização, promotora de antagonismos; o tratamento das e dos adversários como inimigas ou inimigos; a obstaculização dos espaços de diálogo, compromisso e partilha.
Próximo da década de 60 do século passado, Lawrence Kohlberg desenvolveu uma das mais relevantes, discutida e, portanto, criticada teoria do desenvolvimento moral com um forte contributo de um conjunto significativo de análises de respostas ao dilema de Heinz. Dilema que explora a forma como pessoas, como cada um/a de nós, justificam e racionalizam as suas acções com base na moralidade a partir da situação que aqui resumo: “Deveria ou não ter Heinz assaltado um laboratório farmacêutico, como fez, para roubar o único medicamento que poderia salvar a sua esposa da morte, por não ter reunido dinheiro suficiente para o comprar por fortemente inflacionado o seu preço?” A resposta a este dilema e a um conjunto de perguntas a ele associadas (por exemplo, “E se não amasse a sua esposa?” ou “E se fora para uma pessoa sua desconhecida?”) e, particularmente a justificação dada para a acção, permite sustentar os três níveis base de moral da teoria – pré-convencional, orientado para a punição, obediência ou interesse próprio; convencional, orientado para acordos interpessoais, para a conformidade e para a manutenção da ordem social; pós-convencional, orientado para o contrato social e para os princípios éticos e de direitos universais.
No momento particular que vivemos, creio interessante pensarmos numa questão também dilemática relacionada com eleições e candidatas/os (chamemos-lhe o dilema da Democracia): “Imagine que ganhava umas eleições democráticas e justas, mas que sabia que governando, nas condições que teria, enfraqueceria a democracia e esta poderia ser a curto/médio prazo colocada em risco. Governaria ou abdicaria?”. Pensemos esta questão e – porque evidentemente a resposta ao dilema não é simples nem generalizável a diferentes tempos, enquadramentos ou contextos – mais do que as potenciais respostas de quem lhe responderia, as justificações e racionalizações que poderiam ser dadas por quem lhe respondesse. Pensemos nela, se quisermos, não no contexto português, onde os riscos para a democracia estão por enquanto mais mitigados, mas no contexto da França, dos Estados Unidos da América ou da Hungria.
Defender a democracia implica usar as ferramentas da democracia para a aprofundar e não para a enfraquecer. Implica, por exemplo, utilizar os debates (democráticos) para construir e não para destruir. Sucessivamente implica que se possa ganhar, construindo e não apenas destruindo o que, por sua vez, implica que mediadoras e mediadores (comentaristas, jornalistas, líderes societais e comunitários) não nos deem, também nas questões políticas, apenas aquilo que queremos, conhecemos e/ou nos conforta, mas também oportunidade de contactar com o que necessitamos, desconhecemos e/ou nos confronta. Implica que as pessoas, e a sociedade no geral, valorizem e validem a construção, incentivando-a, apoiando-a e nela participando.
Debater, construindo, implica que questões complexas como são as dilemáticas atrás colocadas, mas, particularmente, desafios societais como a pobreza, a desigualdade, as migrações, a crise climática ou a(s) justiça(s) não vivam de inadequadas simplificações, excessivas generalizações e de “medos” e certezas absolutas, promotoras de demagogia e de populismos destrutivos.
Debater, construindo, implica prevenir que recuemos 2500 anos à “guerra entre os opostos” que, segundo Heraclito, filósofo considerado o “pai da dialética”, dava sentido à realidade. Implica que a afirmação de ideias e de propostas não viva exclusivamente da oposição a outras ideias e da criação de antagonismos face a outras pessoas, partindo de verdades absolutas que polarizam e que, como Lerner afirma, são imediatamente contrariadas por outras verdades absolutas, igualmente polarizadoras.
Debater, construindo, implica, por outro lado, recuar 115 anos e ter presente a frase que Evelyn Beatrice Hall (como S. G. Tallentyre) escreveu na biografia que publicou de Voltaire: “Desaprovo o que dizeis, mas defenderei até a morte o seu direito a dizê-lo.” Que existam adversárias e adversários e não inimigas ou inimigos, não tribalizando, preservando o espaço comum de entendimento que representa a democracia.
Debater, construindo, implica, finalmente, prevenir o encerramento e a “autopolinização” exclusiva em prol da “polinização cruzada”. Implica promover espaços de diálogo, compromisso, partilha e crescimento, conjunto.
Para tal, é fundamental considerar a importância do conflito (não violento), da crítica (construtiva) e da capacidade de estabelecer conversas e diálogos (desafiantes). Da capacidade de se avançar de um “ou” para um “e” e de um “deveria” para um “poderá”, também transformando narrativas individuais e societais sobre decisores e decisoras. De se ser proactivo, de se procurar baixar as tensões, encontrar espaços de entendimento, estabelecer objectivos realistas e concretizáveis e de se melhorar a comunicação, escuta activa e o feedback de todos e todas as intervenientes. Tudo isto não se prepara, apenas, no momento imediatamente anterior ao debate. Desenvolve-se ao longo de toda a vida. Desde logo garantindo a mães, pais, cuidadoras e cuidadores oportunidades (competências, quando necessitário) de relação, cuidado e de acompanhamento de menores, desde a primeira hora. Depois nos contextos de educação, formal e não formal, e no processo contínuo de desenvolvimento de competências sócio-emocionais e relacionais e de construção de valores de cidadania das crianças e jovens. Finalmente, promovendo nas e nos jovens e adultos a abertura ao e à outra, ao Mundo, à diversidade e à cidadania e o interesse pelo seu redor, com especial enfoque pela história que nos permite reflectir sobre o passado, pensar o presente e projectar o futuro.
Debater, assim, é ganhar. O debate, a democracia. Confiança e futuro. Quem debate, assim, garante-nos a empatia necessária à compreensão e inclusão das e dos outros, a humildade necessária para reflectir e construir com outras ou outros, a capacidade de reconhecimento de quem não dispõe de todas as respostas para todos os problemas e que procurará, de acordo com a informação, evidência e recursos disponíveis, as melhores e mais personalizadas soluções para cada um dos problemas. Garante-nos integridade, ética, consistência, motivação para a cooperação e uma certa abnegação tendente à consideração do futuro e não apenas do tempo imediato e à defesa dos direitos universais e do contrato social se sobrepor à sua dimensão individual e/ou pertença partidária ou comunitária. Garante-nos bons e boas fazedoras de políticas públicas e nossas e nossos representantes numa democracia.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o reforço da confiança e da coesão social, pilares fundamentais da democracia, depende da possibilidade de construção de soluções conjuntas e partilhadas para os problemas das pessoas e da sociedade. A democracia vive da diversidade e da pluralidade e a consideração de adversárias como inimigas ou a destruição de adversários conduz ao empobrecimento e destruição da democracia e do espaço comum de construção destas soluções. Por isso, particularmente no momento que vivemos, é fundamental promover a crítica construtiva e a possibilidade de debater, construindo (ao invés de destruindo) e, ainda assim, ganhando (ao invés de perder). Tal depende, é certo, de quem prepara os debates, debate e comenta. Tal depende porém, também, de todas e todos e da valorização que fazemos deste importante instrumento democrático e do investimento que fazemos no desenvolvimento das pessoas para que possamos ter um futuro com mais construção, mais soluções, mais confiança e mais democracia.
Tiago Pereira
in Sábado (Ao redor…); 11.01.2022
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/debater-construir-nao-destruir-ganhar-nao-perder


