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Debater, construir (não destruir), ganhar (não perder) (Ao redor…; Sábado; 11.01.2022)

Debater, destruir (adversárias/os), ganhar. A narrativa dominante à preparação e à análise ao debate é hoje – porque condicionada e como resposta às novas formas de acesso à informação e à velocidade, falibilidade e ferocidade das redes sociais – particularmente centrada em emoções “ditas negativas” (a raiva, o ódio, por vezes o medo) e assente na forma como se pode e se se conseguiu destruir as ideias, propostas e, por vezes, a pessoa ou pessoas com quem se debate. É, portanto, particularmente baseada em quatro características que empobrecem (se extremadas, que colocam em risco) a democracia: a simplificação e generalização excessivas, promotora de populismos; a polarização, promotora de antagonismos; o tratamento das e dos adversários como inimigas ou inimigos; a obstaculização dos espaços de diálogo, compromisso e partilha.

Próximo da década de 60 do século passado, Lawrence Kohlberg desenvolveu uma das mais relevantes, discutida e, portanto, criticada teoria do desenvolvimento moral com um forte contributo de um conjunto significativo de análises de respostas ao dilema de Heinz. Dilema que explora a forma como pessoas, como cada um/a de nós, justificam e racionalizam as suas acções com base na moralidade a partir da situação que aqui resumo: “Deveria ou não ter Heinz assaltado um laboratório farmacêutico, como fez, para roubar o único medicamento que poderia salvar a sua esposa da morte, por não ter reunido dinheiro suficiente para o comprar por fortemente inflacionado o seu preço?”  A resposta a este dilema e a um conjunto de perguntas a ele associadas (por exemplo, “E se não amasse a sua esposa?” ou “E se fora para uma pessoa sua desconhecida?”) e, particularmente a justificação dada para a acção, permite sustentar os três níveis base de moral da teoria – pré-convencional, orientado para a punição, obediência ou interesse próprio; convencional, orientado para acordos interpessoais, para a conformidade e para a manutenção da ordem social; pós-convencional, orientado para o contrato social e para os princípios éticos e de direitos universais.

No momento particular que vivemos, creio interessante pensarmos numa questão também dilemática relacionada com eleições e candidatas/os (chamemos-lhe o dilema da Democracia): “Imagine que ganhava umas eleições democráticas e justas, mas que sabia que governando, nas condições que teria, enfraqueceria a democracia e esta poderia ser a curto/médio prazo colocada em risco. Governaria ou abdicaria?”. Pensemos esta questão e – porque evidentemente a resposta ao dilema não é simples nem generalizável a diferentes tempos, enquadramentos ou contextos – mais do que as potenciais respostas de quem lhe responderia, as justificações e racionalizações que poderiam ser dadas por quem lhe respondesse. Pensemos nela, se quisermos, não no contexto português, onde os riscos para a democracia estão por enquanto mais mitigados, mas no contexto da França, dos Estados Unidos da América ou da Hungria.

Defender a democracia implica usar as ferramentas da democracia para a aprofundar e não para a enfraquecer. Implica, por exemplo, utilizar os debates (democráticos) para construir e não para destruir. Sucessivamente implica que se possa ganhar, construindo e não apenas destruindo o que, por sua vez, implica que mediadoras e mediadores (comentaristas, jornalistas, líderes societais e comunitários) não nos deem, também nas questões políticas, apenas aquilo que queremos, conhecemos e/ou nos conforta, mas também oportunidade de contactar com o que necessitamos, desconhecemos e/ou nos confronta. Implica que as pessoas, e a sociedade no geral, valorizem e validem a construção, incentivando-a, apoiando-a e nela participando.

Debater, construindo, implica que questões complexas como são as dilemáticas atrás colocadas, mas, particularmente, desafios societais como a pobreza, a desigualdade, as migrações, a crise climática ou a(s) justiça(s) não vivam de inadequadas simplificações, excessivas generalizações e de “medos” e certezas absolutas, promotoras de demagogia e de populismos destrutivos.

Debater, construindo, implica prevenir que recuemos 2500 anos à “guerra entre os opostos” que, segundo Heraclito, filósofo considerado o “pai da dialética”, dava sentido à realidade. Implica que a afirmação de ideias e de propostas não viva exclusivamente da oposição a outras ideias e da criação de antagonismos face a outras pessoas, partindo de verdades absolutas que polarizam e que, como Lerner afirma, são imediatamente contrariadas por outras verdades absolutas, igualmente polarizadoras.

Debater, construindo, implica, por outro lado, recuar 115 anos e ter presente a frase que Evelyn Beatrice Hall (como S. G. Tallentyre) escreveu na biografia que publicou de Voltaire: “Desaprovo o que dizeis, mas defenderei até a morte o seu direito a dizê-lo.” Que existam adversárias e adversários e não inimigas ou inimigos, não tribalizando, preservando o espaço comum de entendimento que representa a democracia.

Debater, construindo, implica, finalmente, prevenir o encerramento e a “autopolinização” exclusiva em prol da “polinização cruzada”. Implica promover espaços de diálogo, compromisso, partilha e crescimento, conjunto.

Para tal, é fundamental considerar a importância do conflito (não violento), da crítica (construtiva) e da capacidade de estabelecer conversas e diálogos (desafiantes). Da capacidade de se avançar de um “ou” para um “e” e de um “deveria” para um “poderá”, também transformando narrativas individuais e societais sobre decisores e decisoras. De se ser proactivo, de se procurar baixar as tensões, encontrar espaços de entendimento, estabelecer objectivos realistas e concretizáveis e de se melhorar a comunicação, escuta activa e o feedback de todos e todas as intervenientes. Tudo isto não se prepara, apenas, no momento imediatamente anterior ao debate. Desenvolve-se ao longo de toda a vida. Desde logo garantindo a mães, pais, cuidadoras e cuidadores oportunidades (competências, quando necessitário) de relação, cuidado e de acompanhamento de menores, desde a primeira hora. Depois nos contextos de educação, formal e não formal, e no processo contínuo de desenvolvimento de competências sócio-emocionais e relacionais e de construção de valores de cidadania das crianças e jovens. Finalmente, promovendo nas e nos jovens e adultos a abertura ao e à outra, ao Mundo, à diversidade e à cidadania e o interesse pelo seu redor, com especial enfoque pela história que nos permite reflectir sobre o passado, pensar o presente e projectar o futuro.

Debater, assim, é ganhar. O debate, a democracia. Confiança e futuro. Quem debate, assim, garante-nos a empatia necessária à compreensão e inclusão das e dos outros, a humildade necessária para reflectir e construir com outras ou outros, a capacidade de reconhecimento de quem não dispõe de todas as respostas para todos os problemas e que procurará, de acordo com a informação, evidência e recursos disponíveis, as melhores e mais personalizadas soluções para cada um dos problemas. Garante-nos integridade, ética, consistência, motivação para a cooperação e uma certa abnegação tendente à consideração do futuro e não apenas do tempo imediato e à defesa dos direitos universais e do contrato social se sobrepor à sua dimensão individual e/ou pertença partidária ou comunitária. Garante-nos bons e boas fazedoras de políticas públicas e nossas e nossos representantes numa democracia.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o reforço da confiança e da coesão social, pilares fundamentais da democracia, depende da possibilidade de construção de soluções conjuntas e partilhadas para os problemas das pessoas e da sociedade. A democracia vive da diversidade e da pluralidade e a consideração de adversárias como inimigas ou a destruição de adversários conduz ao empobrecimento e destruição da democracia e do espaço comum de construção destas soluções. Por isso, particularmente no momento que vivemos, é fundamental promover a crítica construtiva e a possibilidade de debater, construindo (ao invés de destruindo) e, ainda assim, ganhando (ao invés de perder). Tal depende, é certo, de quem prepara os debates, debate e comenta. Tal depende porém, também, de todas e todos e da valorização que fazemos deste importante instrumento democrático e do investimento que fazemos no desenvolvimento das pessoas para que possamos ter um futuro com mais construção, mais soluções, mais confiança e mais democracia.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 11.01.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/debater-construir-nao-destruir-ganhar-nao-perder

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A democracia e os debates (democráticos)

Há poucos dias passou um ano de um triste e, até há pouco tempo, impensável acontecimento: a invasão do Capitólio aquando do processo de ratificação da eleição do actual presidente dos EUA. “Colocaram uma faca no pescoço da democracia americana”, disse Biden numa intervenção que assinalou a data e num momento onde se debatem mudanças na legislação, que condicionam direitos de voto de minorias, e se verifica uma profunda polarização da sociedade americana que coloca em causa a confiança nas instituições, nas eleições e o “chão comum” da democracia. Como aqui chegamos e que reflexões para democracias com riscos para já mais mitigados como a Portuguesa?

“Debater, construir (não destruir), ganhar (não perder)”, 24º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte da narrativa hoje dominante à preparação e análise aos debates: “Debater, destruir (adversárias/os), ganhar”. Narrativa que responde às novas formas de acesso à informação e à velocidade, falibilidade e ferocidade das redes sociais, particularmente centrada em emoções “ditas negativas” (raiva, ódio ou medo). Narrativa tendente em 4 características que empobrecem (se extremadas, que colocam em risco) a democracia: a simplificação e generalização excessivas, promotora de populismos; a polarização, promotora de antagonismos; o tratamento das e dos adversários como inimigas ou inimigos; e a obstaculização dos espaços de diálogo, compromisso e partilha.

No artigo enquadro estas questões e afirmo que “defender a democracia implica usar as ferramentas da democracia para a aprofundar e não para a enfraquecer”, portanto, “utilizar os debates (democráticos) para construir e não para destruir” podendo ganhar-se. Tal implica que “mediadoras e mediadores (comentaristas, jornalistas, líderes societais) não nos deem, também em questões políticas, apenas aquilo que queremos, conhecemos e/ou nos conforta, mas também oportunidade de contactar com o que necessitamos, desconhecemos e/ou nos confronta. Implica que as pessoas, e a sociedade no geral, valorizem e validem a construção, incentivando-a, apoiando-a e nela participando.”

No artigo realço a importância “do conflito (não violento), da crítica (construtiva) e da capacidade de estabelecer conversas e diálogos (desafiantes)” e de que melhorar a comunicação e as formas de entendimento depende de investirmos no desenvolvimento das pessoas, das suas competências (nomeadamente relacionais e sócio-emocionais) e da sua “abertura ao e à outra, ao Mundo, à diversidade e à cidadania e o interesse pelo seu redor, com especial enfoque pela história que nos permite reflectir sobre o passado, pensar o presente e projectar o futuro”. Factores hoje fulcrais porque, no momento complexo que vive(re)mos, o reforço da confiança e da coesão social, pilares fundamentais da democracia, depende da possibilidade de construção de soluções conjuntas e partilhadas para os problemas das pessoas e da sociedade e não da destruição do espaço comum de entendimento que representa a democracia.

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Um desejo para 2022? Construirmos mais Paz (Ao redor…; Sábado; 30.12.2021)

Há palavras e expressões cuja definição mais comummente utilizada é a ausência do seu contrário. É assim com a saúde mental. Muitas pessoas definem e entendem saúde mental como um estado em que não se tem uma doença mental. Nunca como no ano que agora termina – em contexto pessoal e profissional, em privado ou nas oportunidades que tive de o fazer em contexto público – tantas vezes procurei afirmar que a saúde mental vai muito além da ausência de doença mental, correspondendo aos recursos (internos e externos) que cada pessoa tem para lidar e se adaptar aos seus acontecimentos de vida e à sua possibilidade de florescimento e de bem-estar global. 2021 foi (mais) um ano muito desafiante relativamente à saúde mental da população portuguesa e mundial, mas terá permitido que mais pessoas tenham reflectido sobre a sua importância e impacto em tantas dimensões da sua e nossa vida e sociedade, conforme o próprio Presidente da República afirmou nos últimos dias.

Conforme sucede com a saúde mental, também a paz é comummente definida como a ausência de guerra. Creio que 2022 será um ano particularmente desafiante no que à paz diz respeito e que, também por isso, será importante que pessoal ou profissionalmente, em contexto privado ou público, conversemos sobre ela e disseminemos que, indo muito além da ausência de guerra, a paz representa a harmonia, a civilidade entre pessoas e comunidades e a serenidade, e que compreendê-lo será fundamental para a promovermos. Para a promovermos em Portugal, na Suíça ou nos Estados Unidos da América, não apenas na Síria, em Myanmar ou na fronteira da Ucrânia com a Rússia.

O próprio Instituto para a Economia e a Paz publica dois “rankings” que organizam anualmente 163 países: Paz Global [Global Peace Index], classificando a apelidada “paz negativa” (ausência de violência, conflito destrutivo e guerra) e que em 2020 colocou Portugal na 3ª posição (4º em 2021); e Paz Positiva [Positive Peace Index], partindo do reconhecimento de que a paz é mais que a ausência dos indicadores anteriores, ao analisar a civilidade, a cooperação e o cuidado (com outras e outros) e que em 2020 colocou Portugal na 13ª posição, atrás da Noruega (1º), Suíça (4º) ou Alemanha (11º) mas à frente da França (15º), Reino Unido (22º) ou Estados Unidos da América (31º).

Apesar das críticas (parte delas, a meu ver, justas) à forma de recolha e representatividade de indicadores de medida, há algo que creio reflexivamente relevante – a ligação do índice de paz positiva a aspectos (positivos) que são condição fundamental para uma sociedade florescer. Quando se analisa o bom funcionamento do governo, a equidade na distribuição de recursos, o acesso livre e a disponibilidade da informação, as boas relações de vizinhança, os elevados níveis de capital humano, a aceitação e reconhecimento dos direitos de outras/os, os baixos níveis de corrupção e um ambiente de negócio e investimento sólido e estável de países, fazêmo-lo. Como se faz, no Projecto de Sustentabilidade da Paz [Sustaining Peace Project], ao considerarem-se dimensões como a identidade social abrangente entre grupos e comunidades, as suas interconexões e interdependências, a forma como as normas e os valores suportam a paz ou o papel das instituições e das lideranças na promoção do relacionamento entre comunidades. Num e noutro caso, com as limitações inerentes a estes processos de grande complexidade, ponderara-se a possibilidade de bem-estar da população, a promoção da paz e a prevenção da guerra.

Ora, nestes indicadores e dimensões creio que reside um desafio muito relevante para Portugal em 2022. Não que espere que no próximo ano possamos “cair” em guerra. Antes porque creio que, se nada fizermos – considerando o contexto do país, o agravamento das desigualdades, da desesperança, da dificuldade das respostas dos serviços públicos e da quebra de confiança nas e nos decisores e nas instituições – podemos “cair” em paz. Porque, creio, sem investirmos na promoção da paz, podemos involuir em dimensões que sustentam a harmonia e serenidade da sociedade e nos protegem dos conflitos violentos, aprofundando o fosso que já existe entre a nossa posição nos índices de “paz negativa” (4º) e “paz positiva” (13º). Porque me parece fundamental que compreendamos e assumamos que a construção da paz é um processo sempre em curso, tão inacabado quanto urgente, e que depende do nosso contributo individual (enquanto pessoa) e colectivo (enquanto comunidade e sociedade).

Depende de assumirmos, por vezes contraintuitivamente, que todas e todos sem excepção, temos um papel no que recentemente se debateu a propósito das acções de um conjunto de agentes da Guarda Nacional Republicana relativamente a pessoas migrantes a residir em Portugal. Sendo óbvio que são situações decorrentes do comportamento de algumas pessoas, a complacência da sociedade com elas não começa e termina no “julgamento” dessas acções e pessoas concretas e das suas consequências. Antes, na forma como cada um e uma de nós comunica sobre a população migrante, cria e reproduz narrativas e crenças e como isso pode estimular (por vezes até legitimar) algumas emoções, atitudes e comportamentos que, em situações mais extremas, derivam em actos potencialmente criminosos. Ou, como comunicamos sobre as decisoras e os decisores e a forma como a confiança nessas pessoas e nas instituições está em queda acentuada, como recentemente uma equipa de investigação que faço parte observou. Uma sociedade que não compactua com a discriminação e com julgamentos de e por generalização. Que se assume anti-racismo e anti-violência(s), de reconhecimento das e dos outros, particularmente dos e das mais vulneráveis, de boa vizinhança, de confiança, de diálogo, entreajuda e compromisso, de pertença, de penumbras (de encontros entre comunidades e culturas) e de coesão social, constrói-se dia após dia, com contributos múltiplos e desde a mesa do jantar da casa de cada pessoa, até às mesas dos cafés e colectividades, passando pelos locais de trabalho, serviços públicos e pelas autoridades de qualquer tipo.

Podem estar a pensar, sim… Mas o que tem isto que ver com guerra? Saberá ele o que significa a guerra? O que é a guerra? Pois, não sei. Directamente. Não sei porque, enquanto experiência complexa, muito provavelmente só quem a vive pode saber. Mas sinto que, ao contrário do que poderia esperar recuando uma década que fosse, caminhamos no seu sentido. Sinto, sei, que a perda de confiança nas instituições não é um fenómeno português e que por exemplo nos Estados Unidos da América a confiança nunca foi tão baixa (apenas 1 em cada 4 cidadãs e cidadãos confiam nas instituições quando há cerca de 50 anos eram 3 em cada 4). Sinto, sei, que esse é mais um passo para a degradação dos mediadores sociais (a par do jornalismo, cuja investigação que acima referi também sinaliza quebras de confiança) o que conjugado com a forte polarização nos empurra para um ambiente de “tensão civil” – segundo o barómetro da confiança Edelman (2021), 57% das e dos americanos considera que o país está em “guerra civil latente” e que uma guerra civil é possível no seu tempo de vida.

Por tudo isto desejo para 2022 que construamos mais paz.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, construir futuro e construir futuro com possibilidade de bem-estar depende de construirmos harmonia, civilidade e de cooperarmos. Dependente de desenvolvermos a partilha, a pertença e a gratidão. De pensarmos que não há individual sem colectivo e colectivo sem individual. De integrarmos que não confiar nas e nos outros e nas instituições em democracia é, antes de mais, não confiarmos em nós, nas pessoas que fazem as instituições e os governos. Depende, pois, de investirmos na paz e na sua promoção e de fazermos do cuidado com as outras e os outros o principal cuidado connosco. 2022 é tempo para nos juntarmos, relacionarmos e para construirmos mais paz.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 30.12.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2022-construirmos-mais-paz

 

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2022, tempo de construirmos mais paz

Chegamos às últimas (difíceis) horas de um 2021 desafiante para todas e todos, dificílimo para muitas e muitos. Muitas vezes, ao longo do ano, aqui, convosco, procurei sublinhar que a saúde mental é muito mais que a ausência de doença mental, correspondendo aos recursos (internos e externos) que cada pessoa tem para lidar e se adaptar aos acontecimentos de vida e à sua possibilidade de florescimento e bem-estar global. Termino o ano a pensar que em 2022 o farei com a paz, sublinhando ser muito mais que a ausência de guerra, representando a harmonia, civilidade entre pessoas e comunidades e serenidade e que compreendê-lo é fulcral para a promovermos.

“Um desejo para 2022? Construirmos mais paz”, 23º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) trata a necessidade da promoção da paz, não apenas na Síria ou na fronteira da Ucrânia com a Rússia, mas em Portugal ou nos EUA. Reflecte sobre o fosso no posicionamento de Portugal nos índices de Paz Global/Negativa (ausência de violência, conflito destrutivo e guerra; 3ª posição em 2020 e 4ª em 2021) e Paz Positiva (civilidade, cooperação e cuidado com outras e outros; 13ª em 2020). Também sobre um 2022 de condições desafiantes da paz em Portugal, pelo agravamento das desigualdades, da desesperança, da dificuldade da resposta dos serviços públicos e da quebra de confiança nas e nos decisores e nas instituições. Não espero que possamos “cair” em guerra, mas creio pudermos “cair” em paz, involuindo em dimensões que a sustentam pelo não investimento na promoção da paz e não assunção do “nosso contributo individual (pessoa) e colectivo (comunidade e sociedade).

No artigo penso a forma como a quebra de confiança, cá como noutras partes do Mundo, contribuirá para o acelerar da degradação dos mediadores sociais e como, em conjugação com a forte e crescente polarização social, isso nos “empurra para um ambiente de (potencial) tensão civil”, com impacto no comportamento das autoridades, incluindo de segurança, decisoras/es e num dado inquietante: 57% das e dos americanos considera que o país está em “guerra civil latente” e que uma guerra civil é possível no seu tempo de vida.

Também por isso, em 2022, precisamos de construir futuro e construir futuro com possibilidade de bem-estar depende de construirmos harmonia, civilidade e de cooperarmos. Precisamos de desenvolver a partilha e a pertença, de gratidão e de pensar que não há individual sem colectivo e colectivo sem individual. De integrar que não confiar nas e nos outros e nas instituições em democracia é, antes de mais, não confiarmos em nós, nas pessoas que fazem as instituições e governos. De investir na paz e na sua promoção e de fazermos do cuidado com as outras e os outros o principal cuidado connosco.

Estou-vos grato por me lerem, questionarem e por conferirem propósito e significado ao que procuro reflectir e contribuir.

Que 2022 seja tempo para nos juntarmos, relacionarmos e para construirmos mais paz, juntas e juntos. Tudo de bom.

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O valor de nada fazer (Ao redor…; Sábado; 13.12.2021)

Hamburgo é a segunda maior cidade da Alemanha. Conta com um importante porto, um dos maiores da Europa, e é habitualmente percebida como centro financeiro e económico da Alemanha. É, no entanto, concomitantemente, uma cidade com uma educação, ciência e cultura vibrantes, com magníficas salas de espetáculo e museus. Um deles (MK&G) recebeu este ano uma exposição intitulada “A escola da inconsequência”, resultante de um projecto que, em 2020, atribuiu as Bolsas “Doing nothing” [Fazer nada] da Universidade de Belas Artes de Hamburgo, às três pessoas que, de acordo com o júri, responderam com as ideias mais relevantes a quatro questões: “O que pretende não fazer?; Quanto tempo pretende não o fazer?; Porque é particularmente importante para si não o fazer?; Porque é que é a pessoa certa para não o fazer?”. As originais bolsas, assentam na perspectiva de desafiar a visão tradicional (em alguns contextos, pecaminosa) da ociosidade e, dessa forma, questionar a percepção social do sucesso.

Ao contrário da obsolescência programada, por estes dias combatida no seio da União Europeia e que visa tornar obsoleto e por isso não funcional um determinado produto, esta ociosidade programada, estimulada e activada, visa a transformação, a mudança de comportamentos e o questionamento do “prestígio social” no sentido de permitir que este se compatibilize com “tempo para sonhar”, “tempo para nada fazer”. Algo que nos confronta, que nos pode inclusivamente “soar estranho”, por ser divergente. Diria, por ser duplamente divergente, se pensarmos que as bolsas são atribuídas por uma Universidade.

Esta não-conformidade, simbolicamente, elucida um possível binómio entre conformismo e originalidade. Entre o conformismo de fazer, continuando a fazer, e a originalidade de não fazer, não continuando a fazer. Permite-nos reflectir sobre como aceitar que não fazer algo pode ser um primeiro passo e uma oportunidade de espaço e tempo para uma mudança, para (fazer) algo diferente, potencialmente gerador de outras respostas a um mesmo problema ou desafio ou de maior potencial de bem-estar. Como esta originalidade pode ter valor face a um conformismo que nos mantém, imperturbáveis, a fazer, fazer e fazer, não guardando oportunidade para ousar mudar. Como o nada fazer pode gerar instabilidade, por oposição a inércia (que de tão humana se reforça a si própria) e criar condições, pelo pensamento, pela reflexão e pela transformação, para a originalidade, a liberdade, a junção, passo a passo, do que permite e contribui para a possibilidade de sermos criativos, de construirmos criatividade e de lhe darmos significado.

De múltiplas formas, o momento que vivemos demonstra-nos a sua importância. Porque, nas crianças, obstaculiza há muito o brincar e a sua expressão livre, não dirigida e espontânea, fundamental à possibilidade de imaginação e construção de cenários alternativos e de se colocar em papéis diferentes. Porque a criatividade beneficia da abrangência de interesses e de experiências e o momento que vivemos propicia menos diversidade e mais “encerramento”. Porque, sendo cada vez mais óbvia a importância da pausa e da (boa) conciliação entre diferentes papéis de vida, esse conhecimento não é por si suficiente, sendo necessária a sua prática, bem como a sua promoção e estimulação.

Também aqui, esta necessidade de parar (e do momento e forma de parar) depende, não apenas, de pessoa para pessoa no que toca às suas características e interesses, como principalmente depende das suas condições para tal e, a partir delas, da possibilidade de desenvolver capacidades criativas e reflexivas associadas. Estas condições, que mais que nunca devem ser investidas (nas e pelas famílias; na educação pelos e pelas educadoras; nas organizações e instituições pelas suas lideranças), podem ser organizadas em torno de quatro dimensões: 1) importância de estarem cumpridas necessidades básicas de segurança e conforto, pois a criação e a reflexão é condicionada em situações de escassez ou incerteza que impactam na dimensão emocional e cognitiva das pessoas; 2) importância da existência de contextos encorajadores da criação e reflexão, lugares cuja dimensão material o estimule e cuja dimensão imaterial o promova, nomeadamente redes e organizações que funcionem como ambientes seguros onde o erro é possível e onde as relações e as lideranças suscitem oportunidades de reflexão, de co-criação e de resolução criativa de problemas e desafios; 3) importância do desenvolvimento de valores associados à reflexão e de competências, também pelo treino e prática, de criação que, entre outros, incluam a capacidade de sonhar[i] e de se projectar no futuro; 4) importância da saúde psicológica, da existência de recursos internos e externos de adaptação e resiliência, de capacidades e oportunidades de relação com as outras e os outros e com o que nos rodeia e de autocuidado.

Ao contrário de uma visão mistificada – e apesar dos pontos de contacto entre (alguma) disrupção e criatividade e (alguma) doença mental – a capacidade de criação depende do não confronto permanente com o sofrimento (como ser criativa/o muito tempo se nos sentirmos sempre em sofrimento?) e do não esgotamento de recursos, nomeadamente emocionais. A criação não acontece na ausência de condições, mas criando condições para ela, garantindo a possibilidade de equilíbrio entre a disrupção necessária à inovação e originalidade com a concentração e foco fundamental ao selecionar do essencial para concretização ou operacionalização. Mesmo aquando da excepcionalidade associada à genialidade de artistas, desportistas ou cientistas creio legitimo que nos perguntemos não apenas se Cobain, Munch, Plath, Biles ou Newton poderiam ser quem foram/são noutras condições, mas também no que (ainda) mais poderiam ter dado/dar ao Mundo com outras condições e com mais saúde e saúde psicológica.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, conforme afirma Natalia Ginzburg, “quando somos felizes, a nossa fantasia tem mais força; quando somos infelizes, então é a nossa memória que age mais vivamente”. Nada fazer pode não ser fácil, pode ser contraintuitivo, pode até não merecer atenção ou granjear prestígio social e ainda assim ser um caminho para maior possibilidade de bem-estar e para fortalecer a nossa fantasia, a nossa capacidade de sermos criativos e, por nos permitir o exercício e usufruto da nossa liberdade, a nossa autodeterminação. Aproveitemos o momento e a época do ano que vivemos para reflectirmos sobre a possibilidade de parar, de pausar, de nada fazer sem nos culpabilizarmos, intencionalizando uma ociosidade positiva essencial ao nosso florescimento, à diversidade e, através dela, à riqueza. Aproveitemos o momento para desafiar e questionar o prestígio e sucesso conforme o conhecemos e conforme nele nos reconhecemos.

[i] https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/sonhar

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 13.12.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-valor-de-nada-fazer

 

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Nada fazer… Que valor?

O que pretende não fazer?; Quanto tempo pretende não o fazer?; Porque é particularmente importante para si não o fazer?; Porque é que é a pessoa certa para não o fazer? Estas questões foram mote para os projectos cujo júri da Universidade de Belas Artes (Hamburgo) apreciou para atribuição das originais bolsas “Doing nothing” [Fazer nada] que desafiam a visão tradicional (em alguns contextos, pecaminosa) da ociosidade e, dessa forma, questionam a percepção social do sucesso. Ao contrário da obsolescência programada, propõem algo como uma “ociosidade programada” que, estimulada e activada, potencia a transformação, a mudança de comportamentos e o questionamento do “prestígio social” no sentido de permitir que este se compatibilize com “tempo para sonhar”, “tempo para nada fazer”.

“O valor de nada fazer”, 22º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) trata o que nos confronta a atribuição de uma bolsa a uma pessoa e projecto para “nada fazer”. Trata esta não-conformidade e o que ela, simbolicamente, elucida sobre um possível binómio entre conformismo (fazer, continuando a fazer) e originalidade (não fazer, não o continuando a fazer). Estimular a reflexão sobre “aceitar que não fazer algo poder ser um primeiro passo e uma oportunidade de espaço e tempo para uma mudança, para (fazer) algo diferente, potencialmente gerador de outras respostas a um mesmo problema ou desafio ou de maior potencial de bem-estar.” Finalmente, fá-lo, num momento especialmente importante, onde o brincar na sua expressão livre, espontânea e não dirigida das crianças se encontra há muito obstaculizado e há um “encerramento” das pessoas no sentido da menor abrangência e diversidade e especiais desafios à conciliação de papéis.

Mas, esta necessidade de parar depende de pessoa para pessoa e necessita de condições, que mais do que nunca devem ser investidas, que organizo (e detalho) em quatro dimensões: 1) estarem cumpridas necessidades básicas de segurança e conforto; 2) existência de contextos encorajadores da criação e reflexão; 3) desenvolvimento de valores associados à reflexão e de competências de criação; 4) importância da saúde psicológica e da existência de recursos internos e externos de adaptação e resiliência.

Como N. Ginzburg descreve (“quando somos felizes, a nossa fantasia tem mais força; quando somos infelizes, então é a nossa memória que age mais vivamente”) ao contrário de uma visão mistificada – e apesar dos pontos de contacto entre (alguma) disrupção e criatividade e (alguma) doença mental – a capacidade de criação depende do não confronto permanente com o sofrimento e do não esgotamento de recursos. Aproveitemos o momento e a época do ano que vivemos para reflectirmos sobre a possibilidade de parar, de pausar, de nada fazer sem nos culpabilizarmos, intencionalizando uma ociosidade positiva essencial ao nosso florescimento, à diversidade e, através dela, à riqueza. Aproveitemos o momento para desafiar e questionar o prestígio e sucesso conforme o conhecemos e conforme nele nos reconhecemos.”

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Confiar, confiar…

. Permanecer membro da União Europeia ____

. Sair da União Europeia ____

Todo o processo associado ao referendo que resultou no apelidado “Brexit” é, a meu ver, merecedor de atenção e reflexão ao concentrar em si e concretizar três fenómenos com forte impacto na nossa sociedade: 1) a simplificação, normalmente polarizada, de questões complexas, algo que se observa nas “simples” opções de resposta no referendo face à questão complexa relativa à relação do UK com a UE; 2) o julgamento, normalmente polarizador, que pessoas com uma posição assumem face a pessoas com outra posição, assumindo-se como as boas (face as más), as sensíveis (face às insensíveis) ou as morais (face às imorais); 3) o aproveitamento, normalmente alheio ao bem-comum, da incerteza e destas polarizações de pessoas com o fim único de se garantirem recompensas imediatas para si ou, quando muito, para o seu grupo (políticas, ideológicas ou outras), sem pensar nos impactos negativos desse aproveitamento nas instituições ou na sociedade a médio e longo prazo.

“Pessoas, ciência, políticas, instituições – Confiança”, 21º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) procura discutir a crise de confiança que trespassa várias áreas da sociedade, desde as suas instituições, às políticas, à ciência e às pessoas e como, a velocidade e a forma de acesso e disseminação de (des)informação, a par da crescente polarização da e na sociedade, forçam uma forte e circular associação destas crises de confiança. Uma associação que “gera maior fragmentação na sociedade, pelo foco e reforço sistemático do que funciona menos bem (face ao que funciona bem), dos problemas (por oposição às soluções), da irracionalidade e obscurantismo (por oposição à racionalidade e factualidade) e de posturas de confronto (por oposição às de cooperação) e de estigmatização (por oposição à compreensão, empatia e compaixão).”

Em qualquer momento, mas particularmente em momentos de complexidade e incerteza, o confronto com as “nossas vulnerabilidades, enquanto pessoas, comunidades e país, deve sobressaltar-nos para nos envolvermos nas diferentes dimensões da sociedade, para nos mobilizarmos e para desenvolvermos relação e confiança, com pessoas, com a ciência, as políticas e as instituições”, enquanto “melhor garante e “escudo” em períodos em que grandes desafios societais se nos afiguram como “balas” contra o bem-estar, a equidade e a coesão social.”

Cumpre-nos promover e manter “consenso social consentâneo com a necessária mitigação do impacto potencial na confiança de pessoas que usaram, usam e usarão de quaisquer poderes para diminuir outras pessoas, da pseudociência ou do obscurantismo, do ataque, desconsideração e utilização de políticas e/ou da fragilização das instituições para se afirmarem.

Cumpre-nos, “contra os canhões”, além de “marchar, marchar”, confiar, confiar.

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COP365 (Ao redor…; Sábado; 17.11.2021)

Há 339 anos, Tiago, um jovem nascido no Portugal do meio do século XVII, deslocou-se ao local do seu novo trabalho no Campo de Santa Clara em Lisboa. Participaria nesse 1682 do reinício da construção da Igreja de Santa Engrácia. Seria impossível a Tiago prever como seria a vida em Lisboa e no Mundo em 2021, como seria improvável prever que a obra em cuja construção participava apenas terminasse e fosse inaugurada em 1966, quase 400 anos depois do seu início (1568), já como Santa Engrácia – Panteão Nacional.

Tal como aquele Tiago, não tenho pretensões de imaginar como será a vida em Portugal ou no Mundo em 2360, quais serão os desafios da sociedade na segunda metade do século XXIV ou sequer como será a sociedade. Não tenho, portanto, quaisquer pretensões a escrever-vos sobre o que seria uma potencial COP365 (considerando que haveria uma a cada ano e que não sucederia algo como em 2020), antes a reflectir sobre como, transformar cada COP num projecto de cada dia de cada ano, é o que mais nos pode projectar para uma acção climática urgente e proteger de uma dinâmica tipo obra de Santa Engrácia, conforme popularmente definimos o que consideramos que vai demorar muito tempo ou nunca chegar a ser concluído.

Senti-o profundamente em Glasgow na passada semana. Ali estive, na pequena equipa que representou a Global Psychology Alliance na COP26, aliança de 70 associações de psicologia e de psicólogas/os dos cinco continentes criada na sequência da “International Summit on Psychology and Global Health: A Leader in Climate Action” (Novembro de 2019, Lisboa). Senti que – a par da profunda onda de preocupação, particularmente significativa quando cara a cara se ouve e sente a história e as histórias de pessoas e comunidades já hoje fortemente impactadas pelas alterações climáticas resultantes da acção humana – cresce uma onda de reconhecimento do problema e das suas consequências e da necessidade e formas de acção para a mudança. Senti que a decepção face aos (pequenos) passos e compromissos políticos assumidos resulta da esperança das (grandes) acções que se querem construídas e implementadas já hoje. Senti que o desencanto pela ausência de figuras de vulto resulta da crescente percepção da crise climática como veículo de outras crises, um desafio societal complexo que, também simbolicamente, tem que valer mais que qualquer outro problema estrutural ou conjuntural que justifique a não presença de figuras cimeiras de executivos, como aconteceu com diversos países, incluindo o nosso, numa curiosa e inquietante interpretação do programa de governo que, apesar de apresentar como primeiro de quatro desafios estratégicos “combater as alterações climáticas”, não resulta na priorização para comparência e intervenção do nosso primeiro-ministro em Glasgow.

A crise climática, além de interrelacionada, teve, tem e terá um papel cada vez mais central noutras crises como a pobreza e exclusão, a desigualdade, a demografia e as migrações, ou o trabalho e bem-estar, algo que acrescenta complexidade a um problema já muito complexo e risco para a coesão social, para a confiança nas pessoas e instituições, para a democracia conforme a conhecemos, e para a paz. É que, como tão bem reflecte Daniel Innerarity, a não resposta aos problemas complexos é uma oportunidade para o crescimento dos populismos, não porque respondam aos problemas, antes porque se substituem à necessidade de resposta, instigando ódios, dúvidas e crescendo na e com a insegurança e a incerteza através de propostas simplistas, salvíficas e não raras vezes pseudocientíficas. Um caminho que já vimos percorrido no passado e do qual temos sinais recentes que nos devem mobilizar para fazermos deste momento ponto de inflexão em favor das pessoas e do planeta.

Há tempo, pela transformação da vontade em mobilização e compromisso, de substituir a inacção, que aprofundará o problema existente, por uma acção firme que produzirá resultados muito positivos, com impacto na mitigação da crise climática e, pelo efeito atrás descrito, noutras crises e desafios societais complexos. Tal depende de contribuirmos, cada pessoa, comunidade e país, para uma visão partilhada do problema, assente na empatia com as e os outros, e para uma visão mais cooperativa das soluções, assente na equidade e compaixão. Depende, também, de melhorarmos os processos negociais, abandonando proclamações a 20, 30 ou 50 anos que pouco contributo aportam (imaginemo-nos em 1971 a traçar metas sobre a implementação da rede 5G no Mundo ou de redução de emissões para 2021), concentrando-nos, antes, em acções imediatas, próximas, concretas e avaliáveis e procurando aprofundar os NDC (contribuições nacionalmente determinadas) de cada país e o estabelecimento de compromissos a cada ano, um dos principais ganhos da declaração final da COP26. Depende, portanto, de lideranças globais, inspiradoras e com visão. Do crescimento do consumo e da utilização de recursos consciente, por oposição ao proibicionismo, da estimulação e motivação da mudança de comportamentos por oposição à sua obstaculização e de transformações sociais. Do desenvolvimento tecnológico e da inovação pelo bem-comum. Depende, finalmente, de usarmos mais do conhecimento sobre o comportamento humano e sobre os processos de tomada de decisão na definição de políticas e na comunicação, na promoção de literacia e na prevenção, mitigação e adaptação às mudanças necessárias e aos impactos das cada vez mais frequentes e intensas catástrofes, já não passíveis de serem chamadas naturais por também comprovadamente resultarem da acção humana.

Bem sei e sabemos que Glasgow, nos últimos dias, está longe de representar a totalidade da população. Ali se concentraram activistas, membros de organizações não governamentais, cientistas e investigadoras/es, jornalistas e decisoras/es com trabalho, interesse ou responsabilidade nesta área. Era, nesse sentido, uma Glasgow com viés, mas por todas e todos sentida como uma Glasgow diferente de uma Madrid em 2019 (COP25) também com viés, ou de Katowice (COP24), Bonn (COP23), Marraquexe (COP22) ou mesmo Paris (21) onde se conseguiu um acordo importantíssimo. Como, apesar de tudo, creio que sentiremos diferentes as próximas COP, já a do próximo ano em Sharm el-Sheikh, apesar da polémica envolta na escolha do Egipto para a sua organização, e depois na previsivelmente não menos polémica COP28 nos Emiratos Árabes Unidos. Viés à parte, assiste-se a uma onda de mudança que tende a envolver mais e mais pessoas, não apenas porque já fortemente impactadas (cada vez mais) pela crise climática, mas porque cada vez mais despertas e cada vez mais envolvidas num processo e estímulo à mudança, com a energia de novas e zangadas (como Obama definiu), mas principalmente mobilizadas, gerações a pressionar decisoras/es e empresas.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, não contra, mas com as pessoas, envolvidas em acções com propósito e significado para as suas realidades e necessidades, aproveitemos esta onda de mobilização para fazer a COP e a mudança 365 dias por ano, na nossa rua, no nosso país, no nosso Mundo. Aproveitemos esta onda de mobilização para a mudança e seremos recompensadas e recompensados com inovação, com novas formas de vivência, relacionamento e trabalho, com novas formas de interacção com os lugares e territórios, com novas oportunidades de emprego, de bem-estar e de equidade. Com o reforço da confiança nas pessoas e nas instituições, protegendo a paz e a democracia e globalizando o mote da recente Lei de Bases do Clima Portuguesa: o uso sustentável dos recursos naturais do planeta por um clima estável enquanto património comum da humanidade.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 17.11.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/cop365

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COP365

Nos últimos dias notícias abordaram a possibilidade de um “confinamento total” da cidade de Deli e um número de mortes em 2019 de cerca de 6mil em Portugal e 307mil na UE. Motivo? O mesmo e – por estes dias, por associar “mortes” e “confinamentos” – contraintuitivo: poluição atmosférica.

Sem pretensão de pensar o Mundo, a sociedade e os seus desafios daqui a 339 anos (numa potencial COP365), o que hoje sabemos, sentimos e o que nos rodeia deve impelir-nos a transformar cada COP num projecto de cada dia de cada ano.

“COP365”, 20º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa a necessidade de abandonarmos “proclamações a 20, 30 ou 50 anos que pouco contributo aportam” e de nos concentrarmos “em acções imediatas, próximas, concretas e avaliáveis”, aprofundando os NDC (contribuições nacionalmente determinadas) de cada país e o estabelecimento de compromissos a cada ano, um dos principais ganhos da declaração final da COP26. Também sobre como “há tempo, pela transformação da vontade em mobilização e compromisso, de substituir a inacção, que aprofundará o problema existente, por uma acção firme que produzirá resultados muito positivos, com impacto na mitigação da crise climática” (e noutras crises/desafios societais) e de como isso depende “de contribuirmos, cada pessoa, comunidade e país, para uma visão partilhada do problema, assente na empatia com as e os outros, e para uma visão mais cooperativa das soluções, assente na equidade e compaixão”.

Como depende “do crescimento do consumo e da utilização de recursos consciente, por oposição ao proibicionismo, da estimulação e motivação da mudança de comportamentos por oposição à sua obstaculização e de transformações sociais”. Ou “do desenvolvimento tecnológico e da inovação pelo bem-comum e de usarmos mais do conhecimento sobre o comportamento humano e sobre os processos de tomada de decisão na definição de políticas e na comunicação, na promoção de literacia e na prevenção, mitigação e adaptação às mudanças necessárias e aos impactos das cada vez mais frequentes e intensas catástrofes, já não passíveis de serem chamadas naturais por também comprovadamente resultarem da acção humana”.

Em Glasgow “senti que – a par da profunda onda de preocupação, particularmente significativa quando cara a cara se ouve e sente a história e as histórias de pessoas e comunidades já hoje fortemente impactadas pelas alterações climáticas – cresce uma onda de reconhecimento do problema, suas consequências e da necessidade e formas de acção para a mudança” e que aproveitar esta onda resultará numa recompensa em inovação, novas formas de vivência, relacionamento, trabalho e interacção com os territórios, novas oportunidades de emprego, bem-estar e de equidade”. Garantiremos (mais) confiança, coesão e paz. Protegeremos a democracia e contribuiremos para globalizar o mote da recente Lei de Bases do Clima Portuguesa: o uso sustentável dos recursos naturais do planeta por um clima estável enquanto património comum da humanidade.

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Personalização e compromisso – Dos partidos às políticas (Ao redor…; Sábado; 02.11.2021)

Allerweltspartei. Original alemão do vulgarizado e famoso conceito em inglês catch-all party, significa partido (político) “onde todas e todos cabem”. Tradução minha – insuficiente, mas possível – do conceito explanado em 1966 por Otto Kircheimer para descrever partidos maioritariamente surgidos pós fim da II Guerra Mundial que, pelo seu largo espectro e por serem menos ideológicos, procuravam atrair o maior número de pessoas e de eleitoras e eleitores possível assumindo-se como partidos de massas. Apesar do conceito per si ter sempre sido bastante discutido e problematizado, creio ser perceptível que um pouco por toda a Europa, e embora a ritmos diferentes, estes partidos estão actualmente em perda face ao surgimento ou crescimento de partidos políticos mais centrados em causas e mais dirigidos a grupos específicos de pessoas e de eleitoras e eleitores. Também em Portugal temos, e, previsivelmente, continuaremos a ter 9 (senão mais – no início da presente legislatura eram 10) partidos representados no Parlamento pós, as cada vez mais previsíveis, Legislativas de 2022 – algo demonstrativo da fragmentação política recente e de um caminho de progressiva transferência de votos de partidos generalistas e mais abrangentes para (mais) partidos mais assentes em singularidades, menos abrangentes e mais individualizados. Sinto relevante que no presente e para o futuro, pensemos no porquê desta fragmentação e no porquê dos “grandes” partidos políticos ficarem hoje longe das grandes maiorias do passado.

Considero que um dos fenómenos que contribui para esta situação refere-se à forma como hoje se produz, dissemina e se contacta com informação e, também nesse sentido, com a desinformação. O acesso é mais rápido e mais amplo, desafiando os limites da privacidade e, pelas suas características, tende a “enclausurar” as pessoas junto de outras pessoas que percepcionam o Mundo e os seus desafios da mesma forma. Isso é reforçador da pertença identitária a grupos, da polarização e da fragmentação. Outro fenómeno trata da enorme disponibilidade de dados e de algoritmos e ferramentas de tratamento de dados, incluindo as de aprendizagem automática que, cada vez com mais eficácia e menor custo, permitem a adequação das mensagens a dimensões cognitivas (crenças) e emocionais de cada pessoa, funcionado como “alfaiates” da informação, preparando-a e personalizando-a à medida para cada pessoa e grupo, nas suas causas (por vezes também inseguranças). Paralelamente, estes dois fenómenos promovem a mutação, mobilidade e mudança que redunda em maior volatilidade nos votos face a alguma continuidade que antes existia (até entre gerações de famílias). Resultam, também, numa quebra de confiança nas e nos políticos e nas instituições e num ambiente de “passa culpas” e julgamentos que legitimam o mal-estar próprio, impactando mais os partidos de massas. Resultam, ainda e porque reflectem normalmente questões de elevada complexidade e urgência, na procura de respostas simplistas e securizantes que estimulam a emergência de lideranças pautadas por uma ideia de providencialismo, salvíficas e populistas (bem presentes aquando de contextos de crise), ameaçando as dimensões democráticas, obstaculizando a participação de correntes divergentes dentro dos partidos e favorecendo partidos que partem da individualização, da unicidade em causas e de lideranças com perfil mais autoritário.

Os dois fenómenos que atrás descrevi e que contribuem para os desafios que se colocam aos partidos e à governação, são os mesmos que, utilizados com outro fim (o do bem-comum) poderiam, noutras áreas, produzir efeitos também significativos e impactantes na melhoria da qualidade de vida das pessoas, na sua possibilidade de bem-estar e na coesão social. Um exemplo importante seria o seu uso mais intencional e consciente para uma maior personalização das políticas públicas, contribuindo para a sua eficácia e eficiência. Aumentar a possibilidade de agenciamento das pessoas sobre os acontecimentos de vida com que se deparam e as dificuldades, desafios e vulnerabilidades momentâneas, depende de políticas públicas não abrangentes e de massas, mas personalizadas, contingentes, baseadas nas singularidades e que possam garantir mais eficácia e eficiência. Tal pode acontecer em políticas referentes a apoios sociais, à saúde, à educação. Tal pode também acontecer nas políticas de promoção de empregabilidade junto de pessoas em situação de desemprego, políticas há décadas estagnadas em modelos onde a experimentação não abunda e onde é baixa a permeabilidade ao conhecimento e à evidência científica (por exemplo não considerando as dimensões da saúde psicológica das pessoas em situação de desemprego, a motivação das trabalhadoras e trabalhadores das estruturas que prestam estes apoios / serviços ou a testagem de impactos a médio e longo prazo para melhorar definição dos apoios e incentivos à contratação disponibilizados a entidades empregadoras). Fazê-lo, pelo impacto na confiança nas instituições, seria um contributo para a mitigação de duas das consequências mais importantes acima discutida – a quebra de confiança e a emergência do providencialismo e de lideranças mais autoritárias.

Também para esse objectivo contribuiria mais participação, abertura, capacidade de integração e uma maior atitude de entendimento e compromisso entre partidos, prevenindo que a fragmentação na representação resulte na esperada instabilidade e incerteza política. Para tal é necessário, como defendem Levitsky e Ziblatt no livro “Como morrem as democracias”, prevenirmos a polarização partidária pelo respeito dos princípios democráticos e pela visão e entendimento dos e das adversárias como adversárias e não como inimigas ou inimigos, a par da não utilização dos instrumentos democráticos para fragilizar a própria democracia, fenómeno a que temos assistido em diversos países e de diversas formas. É também necessário investir na construção de espaços de entendimento e compromisso centrados na abertura, na resposta aos anseios e objectivos das pessoas. É, ainda, necessário melhorar, pelo desenvolvimento de competências que permitam entregar e receber melhor críticas construtivas e permitir que esse feedback influencie o comportamento e a tomada de decisão, os processos de negociação e discussão. Finalmente, é necessário gerar, reforçar e utilizar empatia com as e os adversários, partidos e pessoas.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, aproveitemos um certo colocar em causa dos Allerweltspartei para colocar em causa as Allerweltspolitik, políticas catch all. Se o pluralismo e a diversidade das pessoas e das sociedades ameaçam os partidos de massas, o pluralismo e diversidade das pessoas invalidam políticas de massas, incentivando-nos à sua transformação e adequação, também pelos contributos do conhecimento e da evidência científica, no sentido do reforço da sua personalização, singularização e da identificação com as pessoas suas destinatárias e das pessoas com as políticas. Personalização com criatividade, persistência e compromisso. Compromisso entre políticas públicas e pessoas. Entre partidos políticos e pessoas. Entre políticas públicas. Entre partidos. Pela confiança e pelo bem comum, defesas últimas das consequências da fragmentação e polarização das pessoas e sociedades.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 02.11.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/personalizacao-e-compromisso–dos-partidos-as-politicas