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9 décadas Vs. 9 meses – A saúde mental como matéria-prima do tempo que vive(re)mos (Ao redor…; Sábado; 19.04.2022)

Um pouco mais de 9 décadas separam o ano de nascimento do Gil da sua bisavó, a pessoa mais velha da sua genealogia. Olhando através das gerações, conforme convencionadas, a sua bisavó pertence à geração S (Silent) e atravessou as gerações Baby Boomers (das suas avós e dos avôs), X (do seu tio), Y (da sua mãe e pai), Z (das suas primas e primos mais velhos), a (do seu irmão) e a geração ainda sem nome que previsivelmente caracterizará as pessoas que como ele nasceram em 2021. Em 9 décadas, a sua bisavó viveu a II Guerra Mundial, a Guerra Colonial, a Guerra Fria e o Terrorismo. Viveu a Grande Depressão, a crise do subprime e períodos de forte expansão económica, também em Portugal. Viveu a emergência e queda do Estado Novo, o 25 de Abril de 1974 e a integração de Portugal na União Europeia. Viveu a transformação dos direitos humanos, a democratização das sociedades, a globalização e um recente questionar dos direitos e (re)emergência do autoritarismo. Viveu as transformações nos transportes, incluindo as idas à Lua e ao Espaço, e de comunicação/conectividade, do telefone à televisão, da internet às redes sociais e realidade virtual. A minha avó Felismina viveu tudo isto e muito mais, em mais de 9 décadas. O Gil, meu filho mais novo, viveu, consigo e comigo, nos seus nove meses de vida, a pandemia COVID-19, as primeiras viagens comerciais ao espaço, o relatório da ONU que confirma as primeiras mortes em contexto de guerra com decisão exclusiva da inteligência artificial (sem intervenção humana) e a Guerra na Ucrânia. 9 meses que comparam com 9 décadas confirmando a aceleração do momento que vivemos. Um tempo de enorme complexidade, volatilidade, ambiguidade, incerteza e, claro, imprevisibilidade. Um tempo em que a saúde mental das pessoas está naturalmente ameaçada e impactada no exacto momento em que, mercê todas as previsíveis transformações e toda a necessidade de adaptação, reacção à adversidade e aos acontecimentos de vida, muito dela necessitamos.

Não me canso de sublinhar que, conforme sucede com a paz (muito mais que a ausência de guerra), quando falamos de saúde mental não falamos de doença mental ou mesmo da sua ausência. Falamos, de acordo com a definição da Organização Mundial da Saúde, de “um estado de bem-estar em que os indivíduos podem cumprir as suas capacidades, lidar com as adversidades da sua vida, trabalhar de forma produtiva e contribuir para a sua comunidade”. No fundo, falamos de um estado de bem-estar que permite o florescimento e a adaptação e que resulta de um conjunto de determinantes (biológicos, psicológicos, sociais), do desenvolvimento de competências e da disponibilidade de recursos para viver o dia-a-dia. De recursos internos e de autocuidado, de recursos externos, de heterocuidado e suporte social e de ajuda especializada, quando tal se justifica. Não me canso de sublinhar porque, infelizmente, creio ainda não inscrito junto da sociedade, das instituições às pessoas, passando pelas decisoras e pelos decisores, onde, creio, por vezes persistir um viés que opõe, em polos, a doença mental à ausência de doença mental e não à saúde mental.

É, também, por ausência desta inscrição que considero particularmente relevante e até corajoso que instituições da sociedade civil invistam na saúde mental e contribuam para a afirmação conceptual da saúde mental e do quão fundamental é a sua promoção, no presente e para o futuro das pessoas, das comunidades e do país. Assim o fez a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) que, com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), apresentou no passado dia 11 de Abril (candidaturas até 19 de Junho) um programa dirigido a serviços de saúde/psicologia de instituições de ensino superior públicas,que se baseia no conceito de saúde mental e investe (até 100.000 euros) em projectos que apostem na sua promoção, a par da promoção da literacia, do desenvolvimento de competências socioemocionais e da resiliência (não apenas na recuperação, mas na resiliência) no contexto do ensino superior.

Um programa profundamente responsivo à hoje significativa e abundante evidência científica que confirma a premência e pertinência deste investimento, com o propósito de servir de estímulo ao futuro e a novas e boas práticas nestes domínios, baseadas na articulação interinstitucional e entre serviços, no envolvimento das e dos participantes no desenho e avaliação dos projectos e na sua transferibilidade e sustentabilidade.

Um programa profundamente responsivo, também, porque a população jovem foi desproporcionalmente afectada pela pandemia (como aliás havia sido na crise socioeconómica do início da década anterior), quer a nível económico e social, quer psicológico. Se antes da pandemia 15 a 25% dos e das estudantes universitárias sofria com problemas na área da saúde mental (com um aumento da prevalência e da gravidade nos anos que a antecederam) e 44% apresentava um “nível inadequado ou problemática de literacia em saúde (e saúde mental)”, a pandemia agravou significativamente este cenário com 55% das e dos estudantes a relatarem que a “sua saúde mental piorou” nestes últimos dois anos, 38% dos e das quais referindo que isso condicionou o seu desempenho académico (com impacto nos muitos preocupantes níveis de insucesso e abandono no Ensino Superior em Portugal) e 28% que, em consequência, fez medicação relativa a estes problemas, quase metade sem qualquer consulta ou prescrição nesse sentido (por dificuldade de acesso a cuidados nesta área).

Um programa profundamente responsivo, finalmente, à necessidade de diminuirmos a rigidez na análise de quais as competências mais úteis para o nosso futuro pessoal e profissional, de produtividade e de bem-estar. À sobrevalorização de competências técnicas, o ensino superior deverá responder com a promoção de competências socioemocionais e facilitadoras (como a autoestima, a autorregulação emocional, a capacidade de adaptação e resolução de problemas, a empatia e altruísmo, a cooperação ou a capacidade de trabalho em equipa), hoje, embora já menos, ainda subvalorizadas, e com a promoção da saúde mental, atributos que preparam as pessoas e sociedades para o futuro.

Um pouco por tudo isto creio fundamental que a geração do Gil, desafiada que será pela imprevisibilidade e incerteza do futuro próximo e menos próximo, necessitará de uma comunidade, um país e um Mundo que invistam na promoção da confiança (em nós, nas outras e outros e nas instituições), da coesão social, da universalização e generalização dos direitos (humanos) e do bem-estar. Invistam na literacia, na resiliência e na saúde mental, de cada individuo e da sociedade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a saúde mental é hoje uma matéria-prima fundamental que importa, não apenas preservar, mas estimular, enquanto recurso fundamental ao presente e futuro. Enquanto ferramenta essencial aos complexos e tremendos desafios societais que enfrentaremos. O programa “Saúde Mental no Ensino Superior” é um contributo da FLAD e da OPP que nos deve mobilizar para este desígnio colectivo: acreditar que seremos capazes de construir um futuro com maior produtividade, equidade e possibilidade de bem-estar de todas e todos, desígnio para o qual a população jovem é essencial.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 19.04.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/9-decadas-vs-9-meses—a-saude-mental-como-materia-prima-do-tempo-que-viveremos

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9 e a sociedade líquida…

“Penso que tudo quanto considerava sólido se apresenta hoje como instável, líquido.” P. Pomerantsev há muito estuda (e pensa) o fenómeno da desinformação. Tem, na sua vida, um conjunto de experiências familiares (perseguição do KGB aos seus pais) e pessoais (viveu na Rússia entre 2001-2010) que certamente acrescentam pontos de reflexão e lhe permitem afirmar, com propriedade, a volatilidade do tempo que vivemos e que “os dramas e rupturas na sua vida pessoal e familiar” o ajudam a compreender como começam e acabam os processos de (des)informação, tal qual sistemas de forças.

“9 décadas Vs. 9 meses – A saúde mental como matéria-prima do tempo que vive(re)mos”, 31º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) procura reflectir sobre a volatilidade do tempo que vive(re)mos a partir da sua aceleração (olhando os últimos 9 meses por comparação a 9 décadas, a partir da genealogia do meu filho mais novo), transformação e do impacto dos acontecimentos de vida (dramas e rupturas, mas não apenas, na vida pessoal e familiar, mas também na social e profissional) enquanto sistemas de forças com poder de mudança do presente, de condicionar o futuro e impactar diferentes dimensões de vida, incluindo a saúde (também mental), o bem-estar ou a produtividade.

O artigo reflecte, também, a necessidade da inscrição desta realidade na perspectiva de que a saúde mental é hoje um enorme factor de protecção e da necessidade de reflectirmos sobre as “competências mais úteis para o nosso futuro pessoal e profissional, de produtividade e bem-estar”, nomeadamente estimular o Ensino Superior (ES) a responder “à sobrevalorização de competências técnicas” com “a promoção de competências socioemocionais e facilitadoras (autoestima, autorregulação emocional, empatia e altruísmo, capacidade de trabalho em equipa, …), hoje, embora já menos, ainda subvalorizadas.

Procura, ainda, enaltecer a premência e coragem do investimento da FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (com apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses) pelo programa dirigido a serviços de saúde/psicologia do ES, baseado no conceito de saúde mental, investindo (até 100.000€) em projectos que visem a sua promoção, a promoção da literacia, de competências socioemocionais e da resiliência (não apenas na recuperação, mas na resiliência). Um programa responsivo às necessidades da sociedade, de presente e futuro, e à evidência científica que confirma a sua premência/pertinência. Um programa que responde à forma desproporcional como a população jovem foi afectada pela pandemia, tem ainda lacunas na literacia em saúde (mental) e a uma “sociedade líquida” que nos deve mobilizar para um desígnio colectivo: “acreditar que seremos capazes de construir um futuro com maior produtividade, equidade e possibilidade de bem-estar de todas e todos no qual a população jovem é essencial”.

Um futuro com pessoas, afinal, mais do que a (tentarem) cumprir regras e procedimentos, preparadas e motivadas para (tentarem) tomar boas decisões.

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Fadiga da Solidariedade? (Ao redor…; Sábado; 06.04.2022)

Sabem aquele calorzinho que sentimos nos músculos após uma longa caminhada, uma corrida ou a prática de outra actividade desportiva? A fadiga muscular é, como todas e todos sabemos e sentimos, uma reacção fisiológica despoletada quando os músculos do nosso corpo realizam um esforço superior ao que habitualmente realizam ou limite, podendo ser influenciada por outros factores como o período e qualidade de repouso anterior. É, também, uma analogia particularmente eficaz para outras fadigas, mais psicológicas, que todas e todos, em momentos e com intensidades distintas, podemos sentir. Da muito discutida fadiga da pandemia, enquanto sentimento resultante da sobrecarga associada à necessidade constante de hipervigilância e de respondermos a medidas restritivas com impacto e alteração do nosso quotidiano, à fadiga da compaixão, que resulta da exaustão emocional que, profissionais de cuidado ou de “primeira linha”, podem desenvolver pelo trabalho continuado com pessoas em perda, luto ou com trauma e em que, por vezes, os problemas dessas pessoas se misturam com os seus problemas, sem o “filtro da racionalidade”, essencial à empatia e, sucessivamente, a uma empatia equilibrada e activadora de uma acção de apoio e colaborante e não apenas reforçadora do que já sentimos e por isso potencialmente paralisante.

Fadiga muscular, fadiga da pandemia, fadiga da compaixão. Tudo a mostrar-nos que temos limites. Que, conforme a nossa capacidade de adaptação (que é grande, mas não ilimitada), a nossa capacidade de relação, de cuidado, de empatia, de nos centrarmos na e no outro e nas suas necessidades, é grande, mas, também não é ilimitada e é, em muito, dependente da nossa própria condição.

O complexo tempo que vivemos é, creio, propício a que reflictamos e nos perguntemos se assim é também com a solidariedade. Será, também, a atitude e as acções solidárias permeáveis à fadiga? Permeáveis a uma percepção ampliada do esforço delas decorrentes? E, se sim, é expectável que isso possa acontecer relativamente à onda de solidariedade que assistimos em virtude da guerra da Ucrânia que há semanas nos confronta e mobiliza e aos movimentos amplos individuais e sociais-comunitários que assistimos em Portugal e um pouco por toda a Europa?

Sim, creio que a resposta é sim. Porque, talvez conforme já sintamos, as notícias não são já tão abundantes; porque possivelmente não as procuramos com a mesma frequência e afinco; porque estamos hoje menos sensíveis ao tema; porque a guerra já não é tão “urgente e emergente”; porque conversas sobre ela já não se diluem da mesma forma por toda e qualquer conversa e, um pouco por tudo isso, pode considerar-se mais naturalizada nas nossas vidas e dia-a-dia, não tão saliente e proeminente e por isso ser um foco cada vez menos exclusivo da nossa atenção. Este fenómeno diminui a pressão social para a resposta e a necessidade de agenciamento e proatividade, diminuindo dois fortes incentivos à activação solidária, permitindo tornar mais proeminentes outras necessidades nossas ou de pessoas mais próximas face à população migrante ou refugiada resultante da guerra.

Se assim é com as pessoas, assim é com as sociedades e com as e os seus representantes. Este progressivo desfocar, a guerra de informação e desinformação que gera desconfiança e insegurança na sociedade civil, eliminando paulatinamente o suposto unanimismo face a uma ideia de “inimigo comum” e as consequências socioeconómicas que nos atingem e que trazem perda, imprevisibilidade e incerteza a um país já muito marcado pelas diversas perdas, pela imprevisibilidade e incerteza que marcaram os últimos 10 anos abrem espaço a que políticos e outros e outras líderes legitimem discursos tipo “nós Vs. outras/os”. Como o fez nos últimos dias, Andrej Babiš, ex-primeiro ministro e agora “líder” da oposição na República Checa, quando afirmou que o governo do seu país está a “priorizar refugiados face aos cidadãos nacionais”, palavras não despicientes num país em que quase dois terços da população defendem que os apoios à população em fuga da Ucrânia devem limitar-se a poucos meses e em que apenas uma em cada quatro pessoas defende apoios sociais e de alojamento para esta população. Não conhecendo estudos para Portugal – e embora creia e confie, não sem orgulho e também por isso com viés, que seriam bem diferentes – com o passar do tempo crescerá algum deste pensamento e posicionamento, mais ou menos explicito, face à população refugiada da Ucrânia, hoje já existente face a outra população refugiada ou requerente de asilo. Posicionamento que, classicamente, usa do discurso de ódio, da diferença, do medo e de um suposto ataque a um “modo de vida” e aos “recursos disponíveis”, para benefício próprio, de afirmação pessoal e política. Mas, também classicamente, a história diz-nos no que resulta esse discurso e essa utilização do ódio, do medo e da insegurança – no caminho oposto à construção e promoção da Paz, o do “encerramento”, do conflito violento, da guerra.

É por isso – e sim, porque creio possível uma fadiga da solidariedade – que importa reforçar e advogar que decisoras e decisores, responsáveis e lideranças estimulem a empatia e a compaixão, ao invés de aproveitarem os seus limites, e não sejam complacentes com discursos e práticas legitimadoras de discursos de ódio, discriminação e/ou de diminuição de direitos. Que importa reforçar a necessidade de humanização, de responsabilidade social e de cuidado com outras e outros face à perspectiva de percurso de despersonalização e de um progressivo caminhar de “pessoas com nome e história” para “pessoas número”. A este propósito devemos recordar o impacto que imagens e histórias que personalizam têm na mobilização da sociedade civil e na percepção da necessidade de apoio, acolhimento e integração de pessoas em situação de particular vulnerabilidade. Impacto que pode ser facilmente comprovado pelo aumento abismal da pesquisa da palavra “refugiados” e da curva em forma de “U” invertido de apoio às instituições humanitárias pós imagem do pequeno Alan Kurdi, criança Síria em fuga de uma guerra de uma destruição imensa, caída morta numa praia da Turquia ou o papel que a imagem hoje conhecida como “napalm girl” teve na mobilização da opinião pública aquando da guerra do Vietname. Que importa que sintamos e saibamos que todas e todos, um dia, podemos ser estas pessoas que, em bom rigor, são parte de nós. São nós, infelizmente noutra circunstância que não desejavam, contra a qual lutam e pela qual sofrem.

É, também por isso, que respeitando, apoiando e valorizando os contributos técnicos voluntários de tantas e tantos profissionais de diferentes áreas, este esforço e compromisso deve sempre ser enquadrado em respostas integradas, baseadas na melhor informação e ciência disponível, considerando que pessoas em situação de particular vulnerabilidade necessitam de intervenções, respostas e apoios particularmente preparados, especializados e continuados no tempo, por vezes não compatíveis em exclusivo com respostas baseadas em voluntarismo, cuja dimensão e intensidade são irregulares e dependentes da urgência do momento.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, quando a espuma dos dias – essa visual expressão de Boris Vian – se desvanecer, quando o som das sirenes não nos confrontar, quando a urgência se transformar numa (absurda, é certo) rotina surgirão as brechas, as falhas, que, como as geológicas, libertarão energia e provocarão pequenos ou não tão pequenos abalos na nossa confiança, na nossa coesão, na nossa solidariedade. Pense-se França e as oscilações nas intenções de voto face às eleições presidenciais dos próximos dias 10 e 24 de Abril – data da segunda volta que, simbolicamente, nos deve fazer reflectir, particularmente num país que nos é tão referente. Recordemos que uma das principais prioridades da política externa da União Europeia é garantir a segurança dos Estados-Membros, segurança que depende da confiança, da coesão (harmoniosa), da solidariedade, do apoio mútuo aquando de dificuldades e da resiliência colectiva. Recordemos, ainda, que a integração bem-sucedida e a reparação (psicológica e social) são garantes fundamentais ao bem-estar das pessoas e à construção e promoção da Paz. Recordemos e ajamos, não apenas quando é simples, automático e unânime fazê-lo, mas também quando é desafiante, dependente da intencionalização e fonte potencial de crítica e conflito. Ajamos na certeza de que no futuro, quando pensarmos o tempo presente, não sintamos não ter feito o que poderíamos e deveríamos ter feito. Cuidemos, hoje, por amanhã.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 06.04.2022

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E você, quem mataria? (Ao redor…; Sábado; 22.03.2022)

Suponha que um carro autónomo vai na direcção de 5 pessoas que atravessam uma estrada, que a sua velocidade/distância torna potencialmente mortal o embate e que tem apenas uma opção: nada fazer, mantendo este embate, ou desviar o carro para uma parede matando a/o passageira/o. Quem mataria? Isto nos questiona a “moral machine”, plataforma de um consórcio de Universidades que pretende reunir uma perspectiva humana em torno de decisões morais e dilemáticas tomadas pela inteligência artificial, nomeadamente por softwares de condução de carros autónomos. Variantes de cenários e decisões, de pertenças comunitárias, de idades ou de familiaridades das pessoas que conduzem ou se encontram na situação sobre a qual temos de tomar uma decisão, tudo a fazer-nos reflectir e a permitir confrontar as nossas decisões com as de outras e outros. A colocar-nos na posição de “máquinas morais”, que decidem vidas de outras pessoas. Quem mataríamos nós? Quem e com que pressupostos escolheríamos nós alguém para programar estas decisões?

Basta que olhemos à volta, enquanto lemos estas palavras, para nos fascinarmos com as evoluções sociais e tecnológicas que estão ao nosso redor. Basta que olhemos à forma como lemos estas palavras para pensarmos o quanto o absurdo da guerra para isso tem contribuído, desde logo no desenvolvimento da internet que hoje praticamente todas, todos e tudo liga. Enquanto a guerra na Ucrânia nos inquieta, nos horroriza e nos relembra a volatilidade do tempo e Mundo (em) que vivemos, continuamos, sem fim à vista, a discutir um potencial tratado internacional vinculativo sobre sistemas de armas autónomos letais. Enquanto a guerra regressa com impacto e potencial de escalada à Europa, discutimos, sem acordo, um potencial futuro onde algoritmos decidem, não sobre um obstáculo na estrada, mas sobre quem e em que condições deve uma arma disparar ou face a que alvo e quando deve ser disparado um determinado míssil. Um passo em frente num processo de desumanização da guerra, já realidade nos exércitos da Rússia (“drones vadios” com capacidade de decisão autónoma); da China (reconhecimento facial de alvos inimigos sem intervenção humana); dos EUA (munições/mísseis com sistemas e capacidades autónomas) e que já terá sido utilizada na Líbia pelo exército turco (drones Kargu-2) em 2020, tendo resultado na morte dos primeiros seres humanos em contexto de guerra por decisão de um sistema sem intervenção humana, segundo indica um relatório do Conselho da Segurança das Nações Unidas.

Ao tempo dos significativos e sem precedentes riscos na sua dimensão, velocidade e potencial de impacto (pandemias, genocídios, crise climática ou ameaças biológicas, químicas e nucleares), junta-se a inversão do caminho de maior democratização dos sistemas políticos e a (re)emergência do autoritarismo, bem como a ameaça da despersonalização potencial que a inteligência artificial e a aprendizagem automática comportam. Ao tempo dos significativos e sem precedentes riscos, deveria corresponder uma ordem mundial assente em compromissos vinculativos de direito internacional e de generalização dos direitos humanos que prevenisse a perda de valor da vida/decisão individual face às significativas ameaças, suportada na partilha e tomada de decisão individual sustentada na ética.

Na ética e num modelo ético não baseado num homo super-rationale (ser humano super-racional), capaz da tomada das melhores decisões para si e para toda a comunidade a qualquer momento e em qualquer circunstância, homo que claramente não somos. Antes, num modelo ético que nos alinhasse, num processo de co-construção e co-reflexão permanente, numa miríade de princípios e de orientações morais transparentes e partilhadas, capazes de nos guiar nas decisões em situações específicas, priorizando valores, criando previsibilidade e prevenindo experimentalismo e decisões salvíficas.  Mas, quando distantes disso estamos? Regresso ao software dos carros autónomos e a Joshua Greene e à sua afirmação de que as engenheiras e os engenheiros que os programam não “têm o luxo da vaga abstração que opinadoras/es ou políticas/os detêm”, não podendo sugerir às máquinas que respeitem “diretos humanos ou sejam justas”, particularmente quando nós, seres humanos, não conseguimos ser claros e consistentes sobre direitos humanos ou justiça. Estamos tão distantes quanto muitas e muitos estamos, incluindo outras e outros líderes, da visão de direito internacional, de direitos humanos ou de justiça de Putin e do actual governo e regime russo.

Sabemos, porém, que emoções como a raiva ou sentimentos de vingança individuais e coletivos diminuem a Paz e aumentam a possibilidade e probabilidade de conflito violento. Não sendo estas emoções e sentimentos base da acção das máquinas, são, a par dos vieses cognitivos, factores fundamentais do seu desenvolvimento e programação por seres humanos, e elementos nucleares na vivência em sociedade e na projecção de uma ideia de construção de Paz para o futuro, não só mas também pós-conflitos e pós-guerras. A humanização, a compaixão, a empatia, mas também o perdão, são valores fulcrais a perseguir para que tal seja possível e, além de indicadores importantes de saúde psicológica e de bem-estar das populações, são o melhor garante para uma utilização ética e baseada nos direitos e no interesse colectivo da tecnologia e da inteligência artificial.

Sabemos, também, que pessoas, líderes, particularmente em contextos não democráticos, de forma personalista, podem subjugar direitos e a ideia do colectivo a interesses, eventualmente ainda que partilhados, decididos não com a prioridade da universalidade dos direitos e da possibilidade de auto-determinação de pessoas e países. Sabemos como, por vezes, estas pessoas se rodeiam de outras que apenas confirmam e reforçam narrativas, encerrando o discurso e a propaganda, impossibilitando ou mesmo promovendo a eliminação (por vezes literal) da dissidência e do contraditório.

Sabemos, ainda, que a coesão harmoniosa (estado em que os princípios humanitários são os prioritários e existe equidade na valorização de cada pessoa) é o caminho para nos aproximarmos de países, instituições transnacionais e de um Mundo mais protegido dessa imprevisibilidade, do experimentalismo e de posições e decisões salvíficas. Isso constrói-se com base na empatia e na despolarização da sociedade. Com base na compaixão e na promoção da resolução não violenta de conflitos, desde os da nossa casa, aos das nossas Escolas e contextos de trabalho, aos dos países. Com base no reforço dos sentimentos de pertença e de abertura à e ao outro e a outras realidades. Com base, ainda, na prevenção de uma coesão baseada na rivalidade que cresce (e é, por alguns, incluindo decisoras e decisores aproveitado) em contexto de incerteza, de menor controlo ou de percepção de ameaça de outras/os.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, quando por vezes se fala, simplificando o complexo, em “ocidente”, creio falar-se de uma visão, por vezes mais idealista que realista, de uma ética partilhada e co-construida, de uma coesão harmoniosa e de valores democráticos, de direitos humanos globais e de equidade. De valores assentes na confiança, em nós, nas outras/os e nas nossas instituições, feitas por nós e, por isso, na liberdade, na abertura, na diversidade, na possibilidade de conflito (não violento) e na auto-determinação. Isso assusta autocracias, autocratas e déspotas. Isso proteger-nos-á das potenciais guerras do futuro, cuja evolução não podemos prever. “Não escolhemos o tempo que vivemos, a única escolha que temos é como lhe reagimos”, diz Von Hartmann, personagem do filme “Munique, à beira da guerra” que trata o acordo de Munique de 1938 que não travou a escalada que nos conduziu à II Guerra Mundial. Munique, a mesma cidade que em 2007 ouviu um célebre discurso prelúdio da Rússia hoje, onde Putin afirmou que “ninguém mais pode sentir-se seguro porque ninguém se pode esconder atrás da lei internacional”. Não escolhemos este tempo e Mundo complexo, de mil oportunidades e de mil significativos e sem precedentes riscos, mas podemos e devemos escolher como lhe reagir. Como e pelo que lutar.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 22.03.2022

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E você, quem mataria?

5 pessoas que caminham numa estrada ou a/o passageira/o de um carro? Imagine que programa softwares de carros autónomos e que apenas pode decidir entre manter a sua rota provocando a morte de 5 pessoas ou desviá-lo para um obstáculo provocando a de quem o conduz? Quem mataria? Quem e com que pressupostos escolheria para programar estas decisões?

“E você, quem mataria?”, 29º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte desta questão/confronto para reflectir sobre como a tecnologia tem rapidamente evoluído e como a guerra que nos horroriza tem para tal contribuído e se tem transformando, com sistemas de armas autónomos letais hoje presentes na maioria dos exércitos e já responsáveis, segundo a ONU, pela morte de seres humanos na Líbia em 2020 sem intervenção de decisão humana.

A (forma de utilização e despersonalização) da inteligência artificial (IA), a par de pandemias, crise climática, genocídios ou ameaças biológicas, químicas e nucleares, fazem do tempo que vivemos, um tempo de significativos e sem precedentes riscos na sua dimensão, velocidade e potencial impacto. Riscos agravados pela inversão do caminho de maior democratização no Mundo e (re)emergência do autoritarismo e, portanto, de não total correspondência entre mais riscos e uma ordem mundial assente em compromissos de direito internacional e na generalização dos direitos humanos, preventiva da perda de valor da vida/decisão individual face às significativas ameaças. Ordem, suportada na tomada de decisão individual a partir de um modelo ético que nos alinhasse, num processo de co-construção e co-reflexão permanente, numa miríade de princípios e de orientações morais transparentes e partilhadas, capazes de nos guiar nas decisões em situações específicas, priorizando valores, criando previsibilidade e prevenindo o experimentalismo e o subjugar de direitos e do colectivo face a interesses e decisões individuais e salvíficas.

Sabemos que a humanização, compaixão, empatia, mas também o perdão, são valores fulcrais a perseguir e, além de indicadores importantes de saúde psicológica e de bem-estar, são o melhor garante da utilização ética e baseada nos direitos e no interesse colectivo da tecnologia e da IA. Sabemos que a coesão harmoniosa (estado em que os princípios humanitários são os prioritários e existe equidade na valorização de cada pessoa) é o caminho para nos aproximarmos de países, instituições transnacionais e de um Mundo mais protegido dessa imprevisibilidade e que isso depende da despolarização da sociedade, da possibilidade de resolução não violenta de conflitos e do reforço dos sentimentos de pertença, abertura à e ao outro e à diversidade.

“Não escolhemos o tempo que vivemos, a única escolha que temos é como lhe reagimos”, diz Von Hartmann, personagem do “Munique, à beira da guerra”. Não escolhemos este tempo e Mundo complexo, de mil oportunidades e de mil significativos e sem precedentes riscos, mas podemos e devemos escolher como lhe reagir. Como e pelo que lutar.

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Telefone Laranja para os Direitos Humanos (Ao redor…; Sábado; 03.10.2022)

São muitas as pessoas que, quase 50 anos depois, se sentem inspiradas pelo discurso de Martin Luther King em Washington a 28 de Agosto de 1963. I have a dream [Eu tenho um sonho], confessou, perante cerca de 250.000 pessoas que em marcha exigiram consigo o fim da segregação racial, justiça social e liberdade. São muito menos as que, também quase 50 anos depois, se sentem inspiradas pela abertura da ligação directa entre os EUA e a URSS 48 horas depois. Esta linha directa, apelidada de “telefone vermelho”, fora decidida no acordo de Genebra a 20 de Junho desse mesmo ano e terá sido fundamental na redução dos riscos de uma guerra (nuclear), prevenindo acidentes, confrontos, erros de cálculo e falhas de comunicação. Dois dias e dois acontecimentos muito distintos que mudaram o Mundo. Que o mudaram no sentido de mais Direitos Humanos. De maior possibilidade de autodeterminação, de equidade, de bem-estar.

 

Em parte significativa dos quase 50 anos que distam desses momentos, o Mundo fez progressos notáveis. Na pobreza extrema, por exemplo, que no início da década de 80 ainda afectava 44% da população mundial (cerca de 2 mil milhões de pessoas), descendo para 35% em 1990 e entre esse ano e 2015 cerca um ponto percentual ao ano. Caminhávamos, embora não ao ritmo desejado, para um valor apresentado como possível pelo Banco Mundial de 3% em 2030 quando vimos a descida progressiva interrompida por um aumento em 2020 e 2021, estando os valores hoje em cerca de 9,5% ao invés dos esperados 7,5% (mais cerca de 150 milhões de pessoas). Ou no modelo de governação, onde em 1980 existiam apenas 22% de países no Mundo com democracias, crescendo este número para 35% em 1990 e subindo consecutivamente até 2017 (54%), ano a partir do qual passou, também, a existir um decréscimo anual até aos 49% de 2021. A COVID-19 e o recrudescimento do autoritarismo e dos sistemas autocráticos demonstraram-nos, nos últimos anos, que não existe irreversibilidade no progresso e que dimensões sociais que podemos dar como adquiridas ou garantidas podem ser questionadas. Como nos mostraram, com incredulidade e brutalidade, explosões e sirenes, primeiro em Kyiv na madrugada de 24 de Fevereiro de 2022, e nos últimos dias em diversas cidades e regiões da Ucrânia.

 

“Conforme sucede com a saúde mental [face à doença mental], também a Paz é comummente definida como a ausência de guerra. Creio que 2022 será um ano particularmente desafiante no que à Paz diz respeito e que, também por isso, será importante que pessoal ou profissionalmente, em contexto privado ou público, conversemos sobre ela e disseminemos que, indo muito além da ausência de guerra, a Paz representa a harmonia, a civilidade entre pessoas e comunidades e a serenidade, e que compreendê-lo será fundamental para a promovermos.” Isto escrevi, nesta mesma rúbrica a 30 de Dezembro de 2021[i], num desejo para um 2022 consubstanciado num investir contínuo na construção de Paz, não a dando por adquirida, antes sempre em co-construção, em qualquer lugar do Mundo.

 

Sabemos que a imprevisibilidade e a incerteza são aspectos sempre presentes na nossa vida. Sabemos, por experiência própria e cidadã, que em Portugal esta máxima é especialmente verdadeira. Sou psicólogo há cerca de 15 anos e vivi, como cidadão e como profissional, nos últimos dez anos, a complexa crise socioeconómica que vivenciamos, os graves incêndios de Junho e Outubro de 2017, a disruptiva pandemia de COVID-19 e, agora, a tragédia da invasão ilegítima de um país Europeu e da Guerra na Ucrânia. Todos factos que acrescentam e somam imprevisibilidade, incerteza e insegurança sobre imprevisibilidade, incerteza e insegurança. Todos factos que comportam perdas, sofrimento psicológico e colocam em risco a saúde psicológica e o bem-estar de todas e todos. Todos factos que são marcados pelo passado (por traumas não reparados, por vulnerabilidades não respondidas, por problemas não atendidos), que condicionam o presente e que impactam para o futuro. Tudo factos que se cruzam, criando o que penso podermos nomear enquanto uma sindemia, conforme originalmente Merril Singer definiu, ou seja a conjugação de problemas de saúde, neste caso saúde psicológica, e o seu cruzamento com problemas sociais e económicos de pessoas e famílias, aprofundando-os, perpetuando-os e criando vulnerabilidades e adversidades nas pessoas ao redor, incluindo crianças e jovens.

 

Se assim é em Portugal, imaginemos, por um momento, o que acontece hoje na Ucrânia e com o povo ucraniano. Confrontados com uma guerra e com um cenário de total disrupção. Vidas interrompidas, relações coartadas, migração forçada. Trauma. Realidades e fenómenos complexos, pessoais e colectivos, que o tempo, apenas o tempo, não resolverão. Se em Portugal é fundamental recuperar as pessoas para recuperar o país e o projectar para o futuro depois de crises sucessivas, mais assim é com as Ucranianas e Ucranianos. Recuperação, reparação, reconciliação. Isso se espera dos países que, como o nosso, acolherão, acompanharão e integrarão as refugiadas e os refugiados desta guerra, pessoas como cada uma e cada um de nós, mas especialmente vulneráveis neste momento e, também por isso, a necessitarem de intervenções e de respostas verdadeiramente especializadas, qualificadas, integradas e continuadas. Temos, felizmente, entidades e organizações muito competentes e experientes para tal. Temos, felizmente, uma população que se mobiliza e se constituiu como uma rede de coesão e suporte social, em momentos desta natureza. Temos um dever de humanidade e humanismo e uma tarefa pela frente: garantir que quem, escolhendo ou não o nosso país como destino a ele acorra, seja recebida/o com empatia, compaixão e com apoio, também técnico, capaz de responder às suas necessidades e promover o seu agenciamento sobre os problemas. Garantir uma linha directa, um telefone laranja, para com os Direitos Humanos. Garantir que essa linha previne acidentes, confrontos, erros de cálculo e falhas de comunicação, como a linha vermelha, que advirão, também, das consequências socioeconómicas da crise que vivemos e da grande incerteza associada às próximas semanas (meses?; anos?) da Europa e do Mundo e da forma como as sociedades e as pessoas a elas reagirão.

 

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, vivemos dias de pesadelo que necessitam de um sonho que se concretize numa realidade inspiradora. De um sonho que se concretize na criação de espaço de pacificação e, mais do que apenas a ausência de guerra, promova a Paz. De um sonho que se concretize na retoma de um caminho de progresso em indicadores fundamentais à autodeterminação das pessoas, à equidade, à coesão social e à possibilidade de bem-estar de todas e todos. De um sonho que se concretize na garantia de mais saúde psicológica e, também por ela, mais resiliência individual e colectiva para enfrentar a complexidade e a adversidade que nos espera num Mundo de rápidas e profundas transformações e de muitas dúvidas e ambiguidades. De um sonho que se concretize na inviabilização de espaço de complacência com tudo quanto interfira com direitos fundamentais e de neutralidade em disputas ou matérias de violação de direitos humanos. De um sonho que se concretize na projecção de um futuro de Direitos Humanos globais. Que Portugal possa para tal contribuir e nisso ser exemplo. É este o (seu) momento.

Ps. Hoje, dia do Pai, pensemos nos Pais, nas filhas e nos filhos, nas companheiras e companheiro e amigas e amigos dos Pais. Pensemos nos nossos e nos de outras e outros. Pensemos. Façamos.

[i] Um desejo para 2022? Construirmos mais Paz | https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2022-construirmos-mais-paz

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 10.03.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/telefone-laranja-para-os-direitos-humanos

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Telefone Laranja para os Direitos Humanos

São muitas as pessoas que ainda se sentem inspiradas pelo discurso de Martin Luther King a 28.8.1963 – I have a dream – e menos as que se sentem inspiradas pela abertura da ligação directa entre os EUA e a URSS 48 horas depois. Apelidada de “telefone vermelho” terá sido fundamental na redução dos riscos de uma guerra (nuclear). Dois dias e dois acontecimentos muito distintos que mudaram o Mundo no sentido de mais Direitos Humanos.

Em parte significativa dos quase 50 anos que distam desses momentos, o Mundo fez progressos notáveis, verificando-se melhorias progressivas até há poucos anos, momento a partir do qual a COVID-19 e o recrudescimento do autoritarismo nos demonstraram que não existe irreversibilidade no progresso e que algo que podemos dar por garantido pode ser questionado. Como nos mostrou, com incredulidade e brutalidade, a guerra na Ucrânia.

“Telefone Laranja para os Direitos Humanos”, 28º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte desta constatação para discutir a necessidade de não darmos a Paz por adquirida, antes sempre em co-construção como defendi nesta rubrica a 30.12.2021, para pensar como um conjunto de acontecimentos (crise socioeconómica, incêndios rurais de 2017, COVID-19, agora uma absurda Guerra) somam(ar) imprevisibilidade, incerteza e insegurança à imprevisibilidade, incerteza, insegurança colocando em risco a saúde psicológica e o bem-estar de todas e todos e criando o que penso podermos nomear enquanto uma sindemia, ou seja a conjugação de problemas de saúde, neste caso saúde psicológica, e o seu cruzamento com problemas sociais e económicos, aprofundando-os, perpetuando-os e criando vulnerabilidades e adversidades nas pessoas ao redor, incluindo crianças/jovens.

No artigo convido a pensarmos se assim é em Portugal como será na Ucrânia e com o povo ucraniano. Vidas interrompidas, relações coartadas, migração forçada. Trauma. Se em Portugal é fundamental recuperar as pessoas para recuperar o país e o projectar para o futuro depois de crises sucessivas, mais assim é com as Ucranianas e Ucranianos. Recuperação, reparação, reconciliação. Garantir a tal linha directa, um telefone laranja, para com os Direitos Humanos.

Vivemos dias de pesadelo que necessitam de um sonho que se concretize numa realidade inspiradora. De um sonho que se concretize na criação de espaço de pacificação e Paz; de progresso em indicadores fundamentais à autodeterminação das pessoas, à equidade, à coesão social e à possibilidade de bem-estar de todas e todos; na inviabilização de espaço de complacência com tudo quanto interfira com direitos fundamentais e de neutralidade em disputas ou matérias de violação de direitos humanos. De um sonho que se concretize na projecção de um futuro de Direitos Humanos globais.

Que Portugal possa para tal contribuir e nisso ser exemplo. É este o (seu) momento.

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Trabalhar – Pensar um verbo da primeira conjugação através de quatro verbos da segunda conjugação (Ao redor…; Sábado; 07.02.2022)

Além do seu significado gramatical referente à flexão dos verbos, conjugar corresponde a unir de forma harmoniosa. A harmonia é tanto uma aspiração de cada um e uma de nós, quanto um exigente desafio verificável, entre outros, na dificuldade que temos em conjugar ou unir de forma harmoniosa diferentes interesses, escolhas ou papéis. Em conciliar, por exemplo, a nossa vida pessoal com a nossa vida profissional.

Se pensarmos a quantidade de tempo que nos últimos dias, semanas, meses e anos dedicamos a trabalhar; ou a quantidade de tempo que estivemos, mesmo que fora do contexto de trabalho, com pessoas a ele associadas (hoje nossas amigas, companheiras, familiares); ou quanto o nosso trabalho implicou e influenciou decisões de toda a natureza na nossa vida, consciencializaremos a centralidade e importância que assume. Que assume, assumiu e assumirá a par da sua importância na nossa saúde e no nosso bem-estar. Basicamente em como o trabalhar (primeira conjugação) nos faz caminhar em dois contínuos de verbos da segunda conjugação: adoecer–florescer; confranger–desenvolver.

Tem aumentado a reflexão em torno da “great resignation” [grande renúncia], expressão atribuída ao fenómeno que cresce desde o início em 2021 e que corresponde ao número elevado de saídas dos locais de trabalho e da indisponibilidade para determinados empregos de trabalhadoras/es nos EUA e que, tendo múltiplas, diversas e complexas causas, tem na questão da “qualidade do emprego” e na exigência por parte das pessoas de possibilidades de melhor conciliação entre vida pessoal e profissional, pontos cardeais à sua compreensão. Na Europa tem-se assistido a algo próximo, particularmente no que se refere ao emprego e mercado laboral jovem. Um estudo da YPulse estima que até 20% de jovens trabalhadoras/es tenha, entre 2020 e 2021, abandonado o seu trabalho, identificando como razões principais, logo a seguir ao salário, o impacto do trabalho na saúde mental (24% nas/os jovens até 24 anos) e a dificuldade no equilíbrio entre vida pessoal e profissional (20%). Mais expectativas e exigências das e dos trabalhadores, não apenas da camada mais jovem da população, por um “local de trabalho saudável”, avançando-se do trabalho como direito humano fundamental, tal qual previsto na declaração universal dos direitos humanos, para a promoção da possibilidade de florescer e nos desenvolvermos a trabalhar e respectiva necessidade de prevenção da possibilidade de adoecermos e de nos confrangermos a trabalhar. Tal não é apenas um desígnio ou um objectivo irrealizável. Antes, é realizável e há significativa evidência científica que o demonstra. É realizável e há profissionais preparadas/os e motivadas/os para participarem neste processo. É realizável e há práticas já instituídas que o demonstram, com ganhos para todas as partes envolvidas, desde a organização a trabalhadoras/es, incluindo lideranças e a sociedade como um todo.

A Agência Europeia de Segurança e Saúde no Trabalho [EU-OSHA], suportada na evidência científica crescente, também da ciência psicológica, tem colocado na agenda europeia a necessidade, premência e a mais-valia de se promoverem locais de trabalho saudáveis. Desde 2000 promove as campanhas locais de trabalho saudáveis, a partir de uma visão da saúde e bem-estar ampla que naturalmente considera as dimensões físicas e psicológicas e a necessidade de prevenção. Tem também insistido que um dos investimentos com maior retorno em questões como a produtividade, a redução do absentismo, o abandono laboral ou a redução de erros/acidentes laborais é a prevenção e a gestão dos riscos psicossociais associados ao trabalho, nomeadamente as questões do stresse, depressão e burnout [esgotamento].

Em Portugal, a DGS, através do Programa Nacional de Saúde Ocupacional, apresentou e disponibilizou em 2021 o guia técnico “Vigilância da saúde dos trabalhadores expostos a fatores de risco psicossocial no local de trabalho”, uma recomendação técnica de actuação de Serviços de Saúde e Segurança e de Saúde Ocupacional (SST/SO) no trabalho para promoção da “saúde mental e bem-estar”, identificando “medidas de prevenção, factores de risco psicossocial, instrumentos/metodologias para a sua avaliação, análise e gestão e determinando processos de identificação e referenciação” de trabalhadoras/es. Para tal lista o conjunto de profissionais que devem integrar estas equipas, com preparação e especialização adequada, ao referir a necessidade de se “estabelecer e fomentar processos de articulação e o trabalho integrado entre os diversos profissionais que integram os Serviços de SST/SO, nomeadamente médico do trabalho, enfermeiro do trabalho, técnico (superior) de segurança do trabalho, psicólogo do trabalho e outros profissionais (ex. assistentes sociais, ergonomistas, entre outros)”.

Ainda em Portugal, a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), em colaboração com a EU-OSHA e a ACT, com alto patrocínio dos Ministérios da Saúde e do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social e com apoio as principais confederações representativas de trabalhadoras/es e associações de empregadoras/es, tem, desde 2015, no âmbito do “Prémio Healthy Workplaces – Locais de Trabalho Saudáveis”, reconhecido micro e pequenas, médias e grandes organizações públicas, do sector social e/ou privadas, com empenho na gestão dos riscos psicossociais e da saúde ocupacional e com práticas relevantes de gestão promotoras da segurança, saúde e do bem-estar no trabalho. A quarta edição deste reconhecimento tem, por ora e até ao próximo dia 18 de Fevereiro, candidaturas (gratuitas) abertas no portal maisprodutividade.org, que disponibiliza, além do regulamento e da checklist de candidatura (que funciona como um referencial de boas práticas), informação sobre saúde psicológica no trabalho – para organizações, trabalhadoras/es e psicólogas/os do trabalho – e uma calculadora que estima custos associados à perda de produtividade resultante de problemas de saúde psicológica e do absentismo e “presentismo” deles decorrentes.

Discutimos, recentemente, propostas diversas de diferentes partidos políticos que convergem na identificação de desafios prementes do país: assegurar e reforçar a resposta do nosso sistema de saúde, garantindo a sustentabilidade do serviço nacional de saúde; assegurar e reforçar a sustentabilidade da segurança social e o seu importante papel na coesão social; aumentar a produtividade e a competitividade das nossas organizações, estimulando um crescimento económico mais inclusivo. Discutimos, ainda e embora menos, como utilizar verbas do Next Generation EU (Plano de Recuperação e Resiliência) e do PT2030 ou de como e em que condições realizar alterações à matriz fiscal hoje vigente. A prevenção e gestão de riscos psicossociais e a construção de locais de trabalho saudáveis é, com toda a certeza, uma das formas possíveis de investir nos três desafios atrás salientados, prevenindo custos em doença física e psicológica que, resultando do trabalho, chegam ao sistema de saúde; prevenindo perdas na segurança social baseadas não apenas em “baixas” e em reformas antecipadas, mas também no não cumprimento do potencial de trabalhadoras/es em virtude de problemas de saúde psicológica; e, finalmente, prevenindo perdas de produtividade e competitividade do país. A prevenção e gestão de riscos psicossociais e a construção de locais de trabalho saudáveis pode e deve ser incentivada, também, pelo recurso aos fundos da União Europeia que visam “não apenas a recuperação”, mas a “transformação de economias e das sociedades europeias”, bem como pode ser um dos investimentos que permitam acesso a incentivos fiscais pelas organizações, em claro benefício de todas/os.

Num dos, para mim, sempre importantes dias 23 de Dezembro (o de 2008) encerrou em Dayton uma grande fábrica automóvel que empregava 10.000 pessoas, muitas delas pertencentes aos mesmos agregados familiares. A sua reconfiguração em 2014 numa fábrica de uma empresa chinesa está na base do “Fábrica Americana”, vencedor do Óscar de melhor Documentário (2020), e trouxe, além de esperança à comunidade, grandes exigências pessoais e profissionais de conformação a uma nova realidade de trabalho (e de papel/reconhecimento profissional) pautado pela procura de um “chão comum” entre culturas de trabalho. “Fazer a mesma coisa vezes sem conta acaba por nos desgastar. Corpo, mente… De vez em quando pensamos porque faço isto? Pensamos se teremos a resistência e a vontade para fazer este tipo de trabalho”, confessa um trabalhador no documentário, cuja produção foi apoiada por Barack e Michelle Obama que, numa conversa com a sua realizadora e o seu realizador, reforçam a “importância do propósito e do significado na relação”. Do propósito e do significado no cumprimento e na conciliação dos nossos diferentes papéis de vida. Do propósito e do significado no florescimento e desenvolvimento.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a saúde mental tem ganho preponderância e relevância e existe uma crescente exigência de pessoas e sociedades por maior possibilidade de bem-estar, particularmente a partir dos locais de trabalho. Estando as organizações cada vez mais despertas para esta realidade, será fundamental que as suas estratégias neste sentido sejam integradas e suportadas em evidência e não baseadas em acções esporádicas e não cientificamente sustentadas. Que estas estratégias se suportem em mudanças na cultura, nas lideranças, na confiança, nas práticas e nas normas (formais e informais) da organização. Assim, com benefícios para a organização, para o/a trabalhador/a e para a sociedade, caminharemos, insisto, do trabalho como direito para a dignidade e propósito no trabalho como direito, contribuindo para maior produtividade, desenvolvimento, prosperidade, sustentabilidade dos serviços públicos e coesão social. Contribuindo para maior possibilidade de bem-estar para todas e todos.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 07.02.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/trabalhar–pensar-um-verbo-da-primeira-conjugacao-atraves-de-quatro-verbos-da-segunda-conjugacao

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Ao redor... (Revista Sábado) Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Trabalhar…

“Viver para contá-la” de G.G.Márquez é, para mim, um dos mais impactantes títulos de livro. Viver para contar a vida e na vida (contá-la). Viver para conjugar a vida e na vida (conjugá-la). A viver, conjugamos. Procuramos, com dificuldade e desafio, harmonizar diferentes interesses, escolhas e papéis. Conciliar, por exemplo, a nossa vida pessoal com a nossa via profissional. A contar, conjugamos. Verbos. Por exemplo, o trabalhar que, pela centralidade e importância que assume na nossa saúde e bem-estar, nos faz caminhar em dois contínuos de verbos: adoecer–florescer; confranger–desenvolver.

“Trabalhar – Pensar um verbo da primeira conjugação através de quatro verbos da segunda conjugação”, 26º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte destes dois contínuos para reflectir sobre como a “great resignation” e o mercado laboral jovem na Europa nos conferem pistas sobre (novas) expectativas/exigências de trabalhadoras/es, nomeadamente locais de trabalho saudáveis e avanços da ideia do trabalho como direito para a perspectiva da dignidade, propósito e florescimento no trabalho como direito. Caminho, não apenas desígnio ou objectivo irrealizável.

É realizável e há significativa evidência científica que o demonstra, algo cujas campanhas locais de trabalho saudáveis da EU-OSHA sublinham ao insistirem que um dos investimentos com maior retorno em produtividade, redução de absentismo, de abandono laboral e de erros/acidentes laborais é a prevenção/gestão de riscos psicossociais associados ao trabalho, nomeadamente o stresse, depressão e burnout [esgotamento].

É realizável e há profissionais preparadas/os e motivadas/os para participarem neste processo, conforme a DGS afirma no guia “Vigilância da saúde dos trabalhadores expostos a fatores de risco psicossocial no local de trabalho”, ao sugerir o fomentar de “processos de articulação e o trabalho integrado entre os diversos profissionais que integram os Serviços de SST/SO, nomeadamente médico do trabalho, enfermeiro do trabalho, técnico (superior) de segurança do trabalho, psicólogo do trabalho e outros profissionais (ex. assistentes sociais, ergonomistas, entre outros)”.

É realizável e há práticas já instituídas que o demonstram, com ganhos para todas as partes envolvidas, desde a organização a trabalhadoras/es, incluindo lideranças e a sociedade. Práticas que a OPP volta a reconhecer na 4ª edição do “Prémio Healthy Workplaces–Locais de Trabalho Saudáveis”, cujas inscrições (gratuitas) decorrem até 18.2 em maisprodutividade.org

Estando as organizações mais despertas para a centralidade destas questões, é fundamental que as estratégias que adoptem sejam integradas e suportadas em evidência e não baseadas em acções esporádicas e não cientificamente sustentadas. Acções que, contribuindo para maior produtividade e competitividade, permitem às pessoas e ao país mais desenvolvimento e prosperidade, maior sustentabilidade dos serviços públicos, coesão social e possibilidade de bem-estar para todas e todos.

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Legislativas 2022: A Psicologia a contribuir para soluções nos programas e no debate político (Ao redor…; Sábado; 28.01.2022)

Momentos extraordinários exigem medidas extraordinárias. Frase histórica, muito utilizada politicamente em diferentes momentos e países, voltou a ser bastante usual no contexto desta (extraordinária) pandemia, que implicou medidas extraordinárias. Aproprio-me dela e adapto-a para pretexto deste texto: momentos extraordinários exigem um texto diferente. Um texto que, a poucos dias das eleições Legislativas de 2022, procura proporcionar uma pequena reflexão sobre contributos da psicologia para soluções para os desafios das pessoas e da sociedade e de como os programas dos partidos e, principalmente, um debate político o reflectem.

Refiro-me ao debate entre oito dos nove partidos/grupos parlamentares representados na Assembleia da República no início da última legislatura, organizado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) e que, com moderação da jornalista Maria Flor Pedroso, juntou Anabela Castro (PAN), Carlos Silva Santos (CDU), Cecília Anacoreta Correia (CDS-PP), Isabel Mendes Lopes (LIVRE), Lina Lopes (PSD), Moisés Ferreira (BE), Paulo Marques (PS) e Vítor Mendonça (IL). Em representação dos seus partidos, discutiram o contributo científico da Ordem dos Psicólogos Portugueses (disponível no seu site) que, de forma contextualizada e quantificada, como no debate salientado, compilou um conjunto de propostas para as Legislativas 2022 no sentido da “tomada de decisão e do desenho de políticas públicas que promovam a saúde psicológica, factores de competitividade e resiliência, o bem-estar, o desenvolvimento das pessoas e do país e a coesão social”. Propostas de contributo para soluções para os problemas das pessoas e da sociedade. De contributo para acções que correspondam aos anseios e às expectativas das cidadãs e dos cidadãos.

Nos programas e neste debate, três constantes: a saliência, a relevância e a importância da saúde mental, hoje consensual na sociedade portuguesa, do “Presidente da República ao cidadão mais comum”; a importância das psicólogas e dos psicólogos nela, conforme resulta claro do seu empenho, dedicação e “trabalho ao longo da pandemia”; e a necessidade imperiosa e urgente de melhorar o acesso das pessoas aos seus serviços, em diversos contextos, ao longo de todo o ciclo de vida, de forma simples, rápida e próxima e não apenas no sentido da remediação de problemas, mas, particularmente, “da prevenção e da promoção de saúde e bem-estar”. Três constantes a que se soma inquietação que abriu o debate: a necessidade de, ao fim da pandemia que todas e todos esperamos e momento pelo qual ansiamos, não corresponda o fim desta saliência e relevância da saúde mental, porque fundamental para as pessoas sempre, mas também porque os tempos da “saúde sanitária” (da pandemia), são distintos dos mais distendidos tempos da crise económica e, particularmente, social que a acompanha e lhe sucede e, mais ainda, do tempo dos problemas de saúde psicológica (por ela agravados) e das perturbações das pessoas dela decorrentes (as novas e as que se aprofundaram).

Do debate (também disponível no site da OPP) partilho uma frase de cada um/a das/os participantes, reflexo, creio, do que atrás escrevo:

– “Hoje vemos as questões da doença mental tratadas no café, na casa dos portugueses, nas empresas e percebemos a importância que as pessoas lhes estão a dar (…) há hoje um largo consenso na sociedade sobre a importância da saúde mental, do Presidente da República ao cidadão comum”;

– “O acesso [efectivo] à saúde mental não é garantido em Portugal e a realidade que temos agrava o fosso entre ricos e pobres”;

– “As [vulnerabilidades relativas à carência de recursos] na saúde mental não começaram com a pandemia, existindo em todas as áreas da sociedade, desde a educação, à saúde ou à justiça. Nenhum partido pode esquecer esta área”;

– “Com a pandemia generalizou-se a importância que a saúde mental tem e agora é papel de todos nós garantir que aceleramos todo o investimento que tem que ser feito na saúde mental não só na parte de tratamento, mas também na parte de prevenção”;

– “O concurso de 40 psicólogos [para os cuidados de saúde primários] que desde 2018 corre e ainda não foi concluído… a saúde mental das pessoas não pode esperar quatro anos para ter respostas (…) pelo que é fundamental integrar psicólogos em todos os cuidados de saúde primários e estabelecer circuitos de referenciação”;

– “Esta ideia de Escola no seu conjunto merece até dos psicólogos uma outra leitura que é a leitura dos factores de risco psicossociais (…) ora, também é um território que os psicólogos da nova vaga dominam: a ideia da psicologia ligada ao mundo do trabalho e das relações das organizações”;

– “Nós temos uma população em Portugal das mais envelhecidas do Mundo e a tendência é para que se torne ainda mais envelhecida com a baixa natalidade e, portanto, os nossos cuidados de saúde, o nosso sistema de saúde tem que ser reorganizado para prestar cuidados à população que nós temos e que vamos ter (…) a camada de idosos que cresce na nossa sociedade tem que ter respostas e tem que ter os cuidados adequados na saúde mental (…) tendo que ser reforçados os recursos que possam prestar estes cuidados a nível domiciliário, nas IPSS ou onde se encontrar a população idosa”;

– “Os psicólogos, obviamente, têm que estudar o que causa a doença mental, têm que apoiar as pessoas que caem em doença mental mas também devem ter um dever e uma obrigação de alterarem o Mundo para que a pessoa não esteja em doença mental.”

Outras frases, que além das convergências nas necessidades assinalaram divergências nas formas de as colmatar, deambularam em torno dos contributos da psicologia e da ciência e da prática psicológica nas áreas da saúde, da educação, incluindo o ensino superior, do envelhecimento, da justiça, do trabalho e dos riscos psicossociais, da pobreza, exclusão e da solidão/isolamento, da promoção da literacia e redução do estigma ou da utilização da sua evidência no desenho das políticas públicas e na comunicação com as populações. Do papel da psicologia nos objectivos do desenvolvimento sustentável e da saúde mental como factor fundamental de desenvolvimento humano.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, como se disse ao longo do debate, uma “cascata de problemas necessita uma cascata de soluções” e as “pretensões e propostas da Ordem dos Psicólogos Portugueses correspondem ao que as famílias querem e ao que a sociedade precisa”. Que o país e que quem se propõe governá-lo, saiba as/os 25 mil psicólogas/os preparadas/os, empenhadas/os e motivadas/os para contribuir para comunidades, cidades e um país com mais bem-estar, equidade e de maior coesão social. Que o país e que quem se propõe governá-lo, assegure que as propostas e as medidas que apresenta se baseiam em informação credível, em evidência científica e num profundo conhecimento da forma como as pessoas sentem, pensam e se comportam, das suas motivações e do que impacta a sua tomada de decisão e dos factores que influenciam a construção da sua identidade. Que o país e as eleitoras e eleitores, conforme a moderadora Maria Flor Pedroso encerrou o debate, se mobilizem para votar porque “é preciso que todos votem e participem para que tenhamos uma sociedade democrática mais participada”, algo a que apenas poderemos aspirar se, quem vota, se sentir auto-eficaz. Se, quem vota, se sentir representada/o, envolvida/o, sentir que o seu voto “conta” e que apoia e possibilita a construção de soluções partilhadas para os seus problemas e de oportunidades para cumprir as suas expectativas e desejos. Votemos, pelo presente e pelo futuro.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 28.01.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/legislativas-2022-a-psicologia-a-contribuir-para-solucoes-nos-programas-e-no-debate-politico